{"id":33757,"date":"2021-08-18T09:58:00","date_gmt":"2021-08-18T12:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=33757"},"modified":"2021-08-18T09:58:02","modified_gmt":"2021-08-18T12:58:02","slug":"como-brasileiros-comem-tubarao-sem-saber-e-ameacam-preservacao-da-especie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/08\/18\/como-brasileiros-comem-tubarao-sem-saber-e-ameacam-preservacao-da-especie\/","title":{"rendered":"Como brasileiros comem tubar\u00e3o sem saber e amea\u00e7am preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 comeu tubar\u00e3o? Provavelmente, n\u00e3o. Mas, e ca\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se sim, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Segundo dados preliminares de uma sondagem encomendada por pesquisadores brasileiros aos quais a BBC News Brasil teve acesso, praticamente sete em cada 10 brasileiros (69%) &#8220;n\u00e3o sabem que carne de ca\u00e7\u00e3o \u00e9 de tubar\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o problema \u2014 sem saber, comemos tubar\u00e3o, um peixe com alto n\u00edvel de toxicidade e cuja popula\u00e7\u00e3o vem reduzindo em n\u00famero ao redor do mundo nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o comemos pouco \u2014 o Brasil \u00e9 o maior importador e consumidor de carne de tubar\u00e3o do mundo, apesar de a grande maioria dos brasileiros n\u00e3o ter ideia disso &#8220;por falta de rotulagem adequada&#8221;, alertam as pesquisadoras Bianca Rangel e Nathalie Gil em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa rotulagem incorreta, aliada aos pre\u00e7os atraentes e \u00e0 falta de uma pol\u00edtica p\u00fablica adequada, fazem do Brasil uma amea\u00e7a para a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie \u2014 uma pesquisa estimou que a popula\u00e7\u00e3o de tubar\u00f5es e arraias no mundo caiu 71% desde 1970, ao passo que a pesca predat\u00f3ria desses animais aumentou 18 vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, uma maior conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre o que vai parar em sua mesa &#8220;pode ajudar na preserva\u00e7\u00e3o dos tubar\u00f5es&#8221;, diz Rangel, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em vez de ser embalada com rotulagem adequada, a carne de tubar\u00e3o \u00e9 vendida no Brasil normalmente como ca\u00e7\u00e3o, um nome amb\u00edguo usado para v\u00e1rias esp\u00e9cies&#8221;, acrescenta Gil, da Sea Shepherd Brasil, ONG de conserva\u00e7\u00e3o da vida marinha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ou seja, os brasileiros n\u00e3o sabem que est\u00e3o comendo tubar\u00e3o&#8221;, ressaltam as pesquisadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Prova disso est\u00e1 nas conclus\u00f5es iniciais do levantamento que abre esta reportagem. A pesquisa foi realizada pela ag\u00eancia independente de pesquisa Blend e comissionada pela Sea Sheperd Brasil com 5 mil brasileiros em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, Rangel e Gil, em conjunto com tr\u00eas outros pesquisadores, escreveram um artigo,&nbsp;<a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/373\/6555\/633.1#aff-1\">publicado na prestigiada revista Science<\/a>, em que alertam sobre essa situa\u00e7\u00e3o e sugerem como o Brasil pode ajudar a proteger a popula\u00e7\u00e3o de tubar\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/11981\/production\/_119956027_gettyimages-91957372.jpg\" alt=\"Tubar\u00e3o\"\/><figcaption>Legenda da foto,Brasil \u00e9 maior importador e consumidor de carne de tubar\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Importa\u00e7\u00e3o-e-consumo\">Importa\u00e7\u00e3o e consumo<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo explicam as pesquisadoras, o Brasil se tornou o principal destino de carca\u00e7as de tubar\u00e3o sem barbatanas. Por ano, nosso consumo anual \u00e9 de cerca de 45 mil toneladas.<\/p>\n\n\n\n<p>As barbatanas s\u00e3o uma iguaria no mercado asi\u00e1tico e podem alcan\u00e7ar valores astron\u00f4micos \u2014 seu quilo pode ultrapassar US$ 1,5 mil (cerca de R$ 8 mil).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 pouca demanda pela carne de tubar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E, como a imensa maioria dos pa\u00edses pro\u00edbe a pesca do peixe apenas para o com\u00e9rcio exclusivo desse item \u2014 ou seja, retirando as nadadeiras e descartando a carca\u00e7a no mar (o chamado &#8220;finning&#8221;) \u2014 o que sobra do animal acaba tendo desembarque certo: o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, o Brasil foi o primeiro pa\u00eds a assinar tratado ratificando a proibi\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Brasil, maior importador mundial de carne de tubar\u00e3o, compra carca\u00e7as e bifes de tubar\u00e3o sem barbatanas de pa\u00edses que atuam no com\u00e9rcio de barbatanas, como China e Espanha, e do Uruguai, que exporta carne processada de tubar\u00e3o&#8221;, diz o artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No Brasil, embora tubar\u00f5es protegidos n\u00e3o possam ser legalmente comercializados por pescadores ou empres\u00e1rios locais, eles podem ser importados sem quaisquer restri\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, \u00e9 obrigat\u00f3rio fornecer informa\u00e7\u00f5es para uma rotulagem adequada apenas se o peixe congelado importado pertencer \u00e0 fam\u00edlia&nbsp;<em>Salmonidae&nbsp;<\/em>(que inclui o salm\u00e3o e a truta) ou \u00e0 fam\u00edlia&nbsp;<em>Gadidae&nbsp;<\/em>(que inclui o bacalhau e a arinca)&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os pesquisadores, &#8220;apesar do crescente debate sobre a rotulagem incorreta de tubar\u00f5es entre organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais e comunidades acad\u00eamicas, nenhuma medida governamental foi implementada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como resultado, os consumidores no Brasil continuam sem saber que est\u00e3o comprando carne de tubar\u00e3o e contribuindo para o decl\u00ednio de esp\u00e9cies vulner\u00e1veis de tubar\u00e3o&#8221;, afirmam.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/3309\/production\/_119956031_gettyimages-124770742.jpg\" alt=\"Tubar\u00e3o\"\/><figcaption>Legenda da foto,Grande predador, tubar\u00e3o est\u00e1 no topo de cadeia alimentar e, por isso, n\u00edvel de toxicidade de sua carne \u00e9 maior<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Riscos-para-sa\u00fade\">Riscos para sa\u00fade<\/h2>\n\n\n\n<p>Rangel e Gil alertam ainda para o risco \u00e0 sa\u00fade relacionado ao consumo da carne de tubar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como se trata de um grande predador, um animal topo de cadeia alimentar, o n\u00edvel de toxicidade de sua carne \u00e9 maior. Ou seja, existe um risco \u00e0 sa\u00fade para quem come tubar\u00e3o. E o pior: sem saber disso&#8221;, diz Gil.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um processo de bioacumula\u00e7\u00e3o, o tubar\u00e3o agrega metais pesados, como merc\u00fario e ars\u00eanio, presentes nos organismos que lhe serviram de alimento. Ingeridas al\u00e9m da conta, essas subst\u00e2ncias podem causar danos cerebrais.<\/p>\n\n\n\n<p>Um par\u00e2metro de consumo de merc\u00fario vem da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS). Ela preconiza o limite di\u00e1rio de 0,5 miligrama desse metal por quilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudo publicado em 2008, por\u00e9m, revela que, em amostras de&nbsp;<em>Prionace glauca<\/em>, ou tubar\u00e3o-azul, a esp\u00e9cie de tubar\u00e3o mais pescada no mundo, o \u00edndice presente excedeu em mais de duas vezes o limite di\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por menos, a Food and Drug Administration (FDA), ag\u00eancia federal americana que regula alimentos e medicamentos, n\u00e3o recomenda a inclus\u00e3o de tubar\u00e3o no card\u00e1pio de gr\u00e1vidas, de mulheres que estejam amamentando e de crian\u00e7as, seja em que quantidade for.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"A\u00e7\u00e3o-urgente\">A\u00e7\u00e3o urgente<\/h2>\n\n\n\n<p>No artigo, os pesquisadores defendem uma &#8220;a\u00e7\u00e3o urgente em todo o mundo, especialmente no Brasil&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como primeiro passo, o governo brasileiro deve divulgar amplamente o fato de que o ca\u00e7\u00e3o pode se referir \u00e0 carne de tubar\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O pa\u00eds deve exigir que todos os produtos nacionais e importados sejam rotulados com seus nomes cient\u00edficos em toda a cadeia de abastecimento, garantindo o monitoramento preciso das esp\u00e9cies no sistema e permitindo que os consumidores decidam se comem uma esp\u00e9cie em risco de extin\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como resultado de tais mudan\u00e7as, a demanda provavelmente diminuiria, limitando o mercado de tubar\u00f5es com barbatanas removidas ilegalmente. O Brasil tamb\u00e9m poderia proteger tubar\u00f5es em todo o mundo proibindo a importa\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Por causa do papel descomunal do Brasil no com\u00e9rcio global de tubar\u00f5es, essas mudan\u00e7as podem melhorar muito os esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o&#8221;, concluem.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 comeu tubar\u00e3o? Provavelmente, n\u00e3o. Mas, e ca\u00e7\u00e3o? Se sim, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Segundo dados preliminares de uma sondagem encomendada por pesquisadores brasileiros aos quais a BBC News Brasil teve acesso, praticamente sete em cada 10 brasileiros (69%) &#8220;n\u00e3o sabem que carne de ca\u00e7\u00e3o \u00e9 de tubar\u00e3o&#8221;. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o problema [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":33758,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":{"0":"post-33757","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/119956023_gettyimages-sb10064075am-001.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33757"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33757"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33757\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33759,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33757\/revisions\/33759"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33757"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33757"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33757"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}