{"id":33217,"date":"2021-07-28T15:20:46","date_gmt":"2021-07-28T18:20:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=33217"},"modified":"2021-07-28T15:28:14","modified_gmt":"2021-07-28T18:28:14","slug":"pais-suportem-vossos-filhos-por-carlos-colect","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/07\/28\/pais-suportem-vossos-filhos-por-carlos-colect\/","title":{"rendered":"Pais, suportem vossos filhos, por Carlos Colect"},"content":{"rendered":"\n<p>A humanidade, h\u00e1 muito tempo, tem pensado sobre si mesma, sobre o seus comportamentos e rela\u00e7\u00f5es. Hoje, compreende-se que o Ser humano s\u00f3 tem consci\u00eancia da sua exist\u00eancia no encontro com o outro, o qual lhe \u00e9 um espelho, um semelhante. Em outras palavras, eu s\u00f3 existo porque existe um outro que me diz que existo, sobre o qual reflito. Talvez, haja um estranhamento com este pensamento, por\u00e9m, imagine-se um beb\u00ea, sem fala ou linguagem, num mundo onde n\u00e3o haja mais ningu\u00e9m al\u00e9m de voc\u00ea e que voc\u00ea nunca tenha tido contato com outro igual a voc\u00ea. Tente imaginar como voc\u00ea saberia que voc\u00ea \u00e9 o que \u00e9, e n\u00e3o outro? Sobre quais par\u00e2metros comparativos teria tal discernimento e compreens\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><br>H\u00e1 relatos de uma crian\u00e7a africana (JOHN SSEBUNYA, UGANDA) que, com aproximadamente dois anos de idade, ap\u00f3s ver o pai matar a m\u00e3e, fugiu de casa para a selva e foi criado por macacos. Quando tinha seis anos, segundo a fala da comunidade, ele foi encontrado em uma \u00e1rvore com os macacos. Segundo o relato de Paul \u2014 dono do orfanato em que foi recebido \u2014, ao jornal The Guardian, &#8220;Ele era selvagem, ele tinha muitos cabelos, o que \u00e9 aparentemente comum em crian\u00e7as selvagens. Seus joelhos haviam ficado quase brancos, ao pisar neles. Suas unhas cresceram imensamente e se enrolaram&#8221;. No isolamento em que se encontrara, o menino teve dificuldade para andar, n\u00e3o aprendeu a falar e adquiriu comportamento agressivo.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, na selva, os semelhantes dele foram os macacos, com o quais se identificou e imitou. Ao ser retirado daquele ambiente, foi para o conv\u00edvio com outras crian\u00e7as. Espelhou-se na sua esp\u00e9cie e passou a adquirir comportamentos semelhantes. Contudo, o menino, atualmente, encontra-se com algumas dificuldades cognitivas, devido ao n\u00e3o desenvolvimento na fase em que foi cuidado pelos primatas. Entre os tr\u00eas e os seis anos, houve um d\u00e9ficit na fase anal e entrada na fase f\u00e1lica, conforme os estudos de Freud acerca das fases do desenvolvimento humano. Os cuidadores n\u00e3o foram suficientes para lhe dar o suporte necess\u00e1rio para o desenvolvimento do seu Sistema L\u00edmbico (regi\u00e3o cerebral emocional e afetivo) e Neoc\u00f3rtex (regi\u00e3o cognitiva), o qual possibilita uma boa intera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Neste exemplo, mundialmente conhecido, observamos a import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es na primeira inf\u00e2ncia para a perman\u00eancia da integridade do Ser, sobretudo, uma rela\u00e7\u00e3o com qualidade entre pais e filhos. Tal import\u00e2ncia se d\u00e1 desde a vida intrauterina, onde nos moldamos e dependemos do organismo materno. Para al\u00e9m, ao adentrarmos a vida extrauterina, o outro \u00e9 essencial para a constitui\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Conforme o fil\u00f3sofo Arist\u00f3teles (384-322 a.C.), o sujeito s\u00f3 se realiza na polis, isto \u00e9, na comunidade em que est\u00e1 inserido. S\u00f3 nos tornamos reais (realizar) na presen\u00e7a de outro. De igual modo, o prov\u00e9rbio hebreu, declara: \u201cAssim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro.\u201d (Prov\u00e9rbios 27:17). O verbo \u201cafiar\u201d indica \u201cmoldar, lapidar, preparar\u201d. Seguindo este pensamento, no encontro com o outro, tomamos forma. Afinal, que forma? A din\u00e2mica na rela\u00e7\u00e3o determinar\u00e1 a forma que o indiv\u00edduo atingir\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Sem d\u00favida, a primeira inf\u00e2ncia \u00e9 fundamental na forma\u00e7\u00e3o do Ser humano, enquanto sujeito no mundo. Muitos cientistas e pesquisadores elaboraram suas teorias em torno desta premissa. Um destes foi Freud que, no campo da Psican\u00e1lise, cunhou as fases psicossexuais da crian\u00e7a: Fase oral (0-18 meses), fase anal (18 meses-3 anos), fase f\u00e1lica (3 anos-6 anos), fase da lat\u00eancia (6 anos-11 anos) e fase genital (ap\u00f3s puberdade). Cada fase tem a sua import\u00e2ncia na constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, emocional e f\u00edsica da crian\u00e7a, cuja repercuss\u00e3o se dar\u00e1 na fase adulta.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Com base nestes estudos, atenho-me a segunda fase psicossocial ou psicossexual da crian\u00e7a (anal: 18 meses &#8211; 3\/4 anos), em cujo per\u00edodo ela passa a exercitar o controle dos esf\u00edncteres. Nesta fase, o c\u00e9rebro desloca o prazer para a regi\u00e3o anal e se constitui num momento muito importante na constru\u00e7\u00e3o da identidade do ser humano, principalmente no que diz respeito a autoconfian\u00e7a, autonomia, autoestima ou, quando mal elaborada, vergonha e perda de pot\u00eancia de a\u00e7\u00e3o. De acordo com o psicanalista Winnicott (1896-1971), grande nome da psican\u00e1lise infantil, os pais precisam ser suficientemente bons, eles precisam suportar os filhos. Quando isso n\u00e3o ocorre, gera-se um desenvolvimento deficiente e emocionalmente fr\u00e1gil.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Na fase anal, as crian\u00e7as manifestam um ego\u00edsmo e egocentrismo, elas dizem &#8220;este brinquedo \u00e9 meu!&#8221;, &#8220;a m\u00e3e \u00e9 minha!&#8221;, &#8220;isto \u00e9 meu!&#8221;. Al\u00e9m disso, elas arrancam a cabe\u00e7a da boneca, as rodas do carrinho, rasgam pap\u00e9is e destroem os brinquedos como forma primitiva de marcar territ\u00f3rio e de obter a sensa\u00e7\u00e3o de posse. Isto faz parte do processo saud\u00e1vel. Cabe aos pais suportarem e estabelecerem um limite na casa onde isso possa ocorrer, sem removerem os comportamentos, pois estas atitudes consistem num comportamento ps\u00edquico de constru\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia e entendimento do seu pr\u00f3prio espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Para Winnicott, h\u00e1 tr\u00eas etapas no desenvolvimento do ser humano: a depend\u00eancia absoluta, quando a crian\u00e7a n\u00e3o tem poder sobre si mesmo e \u00e9 conduzida pelos pais e n\u00e3o h\u00e1 diferencia\u00e7\u00e3o entre Eu e o Outro; a depend\u00eancia relativa, quando come\u00e7a a perceber-se como indiv\u00edduo no mundo; e rumo a independ\u00eancia, quando se relaciona com o mundo externo atrav\u00e9s do princ\u00edpio da realidade, n\u00e3o mais da fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Quando a crian\u00e7a se encontra na depend\u00eancia relativa, durante a fase anal, ela inicia um caminho de busca pela independ\u00eancia. Naturalmente as perguntas surgem, a agressividade aparece, o Sistema l\u00edmbico come\u00e7a a dar os sinais da raiva. A crian\u00e7a contraria as ordens. \u00c9 um momento dif\u00edcil para os pais, por\u00e9m, quando o seu filho de 4 anos n\u00e3o quiser te obedecer, n\u00e3o quiser tomar banho, \u2026 e te perguntar porqu\u00ea deve ou n\u00e3o deve fazer algo, simplesmente diga &#8220;porque eu quero&#8221; (sem agressividade, mas com acolhimento). Remova a frase &#8220;porque n\u00e3o pode&#8221;. Ele pode, no entanto, n\u00e3o deve fazer porque voc\u00ea n\u00e3o quer. N\u00e3o h\u00e1 a essencialidade de argumentar ou explicar, isso lhe dar\u00e1 margem para questionar ou quebrar a regra. Entretanto, deve-se ficar claro que isto n\u00e3o anula a necessidade de di\u00e1logos em outros momentos, onde a crian\u00e7a ser\u00e1 instru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Vale, neste ponto, ainda, esclarecer que &#8220;n\u00e3o fa\u00e7a, porque EU N\u00c3O QUERO&#8221; pode soar autorit\u00e1rio, mas n\u00e3o \u00e9, necessariamente. O que a torna uma posi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria ou impositiva \u00e9 a forma com que \u00e9 transmitida. Se ela carregar uma inten\u00e7\u00e3o agressiva e o acr\u00e9scimo de &#8220;sen\u00e3o voc\u00ea vai apanhar!&#8221;. Sim, torna-se negativa, sendo que o comportamento se d\u00e1 apenas pelo medo do castigo. Contudo, o &#8220;n\u00e3o fa\u00e7a isso, porque eu n\u00e3o quero&#8221;, associado ao acolhimento, \u00e9 limite saud\u00e1vel. Este limite pode favorecer a crian\u00e7a, na fase adulta, quando algu\u00e9m quiser for\u00e7a-la a algo. Em tal situa\u00e7\u00e3o, ela poder\u00e1 dizer &#8220;n\u00e3o fa\u00e7a isso, porque eu n\u00e3o quero&#8221;. Ela se percebe com pot\u00eancia de a\u00e7\u00e3o e um ser de desejo inviol\u00e1vel. Aqui, o Ser de desejo \u00e9 diferente do ser deslimitado, arrogante e infantilizado que imp\u00f5e os seus desejos ao outro.<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que, nesse per\u00edodo, os pais fiquem perturbados com os filhos e se sintam tentados a ceder a todos os seus desejos, bem como evitar a perturba\u00e7\u00e3o gerada pelo choro da crian\u00e7a frustrada, oferecendo algum tipo de entretenimento ou satisfa\u00e7\u00e3o imediata a ela. Todavia, os cuidadores precisam suportar a raiva do filho (a), de modo que os filhos consigam lidar com o desejo n\u00e3o realizado. Como visto, este \u00e9 um processo de constru\u00e7\u00e3o de limite. O sistema ps\u00edquico da crian\u00e7a se sentir\u00e1 frustrado e sofrer\u00e1, mas isso \u00e9 importante para ela. Este processo a ajudar\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o da autoestima e a entender que existe outro desejo al\u00e9m do dela. Isso a ajudar\u00e1 a conviver em sociedade e a n\u00e3o matar ou n\u00e3o roubar, n\u00e3o porque a lei diz que &#8220;n\u00e3o pode&#8221;, e sim porque compreende que o seu limite come\u00e7a na exist\u00eancia do desejo do outro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-rounded\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1016\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-1016x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-33218\" srcset=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-1016x1024.jpg 1016w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-298x300.jpg 298w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-768x774.jpg 768w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-1524x1536.jpg 1524w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-696x702.jpg 696w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-1068x1077.jpg 1068w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT-417x420.jpg 417w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/COLECT.jpg 1999w\" sizes=\"(max-width: 1016px) 100vw, 1016px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>*Por Carlos Colect \u2013 psicanalista\/fil\u00f3sofo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A humanidade, h\u00e1 muito tempo, tem pensado sobre si mesma, sobre o seus comportamentos e rela\u00e7\u00f5es. 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