{"id":33025,"date":"2021-07-16T15:31:53","date_gmt":"2021-07-16T18:31:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=33025"},"modified":"2021-07-16T15:31:54","modified_gmt":"2021-07-16T18:31:54","slug":"tinha-patrao-hoje-tenho-cliente-as-diferencas-de-ser-domestica-no-brasil-e-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/07\/16\/tinha-patrao-hoje-tenho-cliente-as-diferencas-de-ser-domestica-no-brasil-e-nos-eua\/","title":{"rendered":"&#8216;Tinha patr\u00e3o, hoje tenho cliente&#8217;: as diferen\u00e7as de ser dom\u00e9stica no Brasil e nos EUA"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>&#8220;Patr\u00e3o vem como uma autoridade, como &#8216;voc\u00ea faz aquilo que eu estou falando&#8217;, n\u00e3o \u00e9 como uma igualdade. Eu senti isso na pele e minha m\u00e3e tamb\u00e9m sentiu isso muito forte. Cliente \u00e9 diferente. O cliente te respeita, te olha nos olhos, te valoriza, reconhece o seu esfor\u00e7o e o seu trabalho. E ele te paga por isso e paga bem.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para Paula Costa, de 53 anos e faxineira em Boston h\u00e1 mais de 20, a diferen\u00e7a entre ter &#8220;patr\u00f5es&#8221; e ter &#8220;clientes&#8221; \u00e9 um dos pontos fundamentais que distinguem a experi\u00eancia de ser uma trabalhadora dom\u00e9stica no Brasil e nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conhece essa diferen\u00e7a na pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Filha de dom\u00e9stica, come\u00e7ou na profiss\u00e3o aos 9 anos, sem receber nada por isso, como uma dessas meninas que s\u00e3o &#8220;pegas para criar&#8221; por fam\u00edlias mais ricas, ganhando moradia em troca de trabalho, que conciliava com a escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, come\u00e7ou como ajudante de faxineira e atualmente tem seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, sendo ela agora quem \u00e0s vezes contrata ajudantes para dar conta do servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"ExBBB-em-busca-de-dom\u00e9stica-nos-EUA-\">Ex-BBB em busca de dom\u00e9stica nos EUA<\/h2>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a na cultura do trabalho dom\u00e9stico no Brasil e nos Estados Unidos gerou pol\u00eamica nas redes sociais recentemente, ap\u00f3s a ex-BBB e influenciadora digital Adriana Sant&#8217;Anna reclamar no seu Instagram da dificuldade de encontrar uma empregada dom\u00e9stica em Orlando, na Fl\u00f3rida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Aqui ganha por hora de trabalho e eu quero algu\u00e9m para ficar aqui o tempo todo, fazendo tudo para mim e n\u00e3o acho&#8221;, disse Sant&#8217;Anna, em v\u00eddeo publicado na rede social. &#8220;Eu preciso trabalhar, essas coisas que tenho que ficar fazendo n\u00e3o d\u00e1, que \u00e9 lavar roupa, passar, arrumar, organizar, tirar bagun\u00e7a, pegar roupa suja de crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente no Brasil estava feita. Porque l\u00e1 [no Brasil] uma pessoa faz tudo. Aqui [nos Estados Unidos], para passar, 25 d\u00f3lares a hora a mais, para dobrar 25 d\u00f3lares. Ah, para poder esticar o bra\u00e7o, mais 10 d\u00f3lares. \u00c9 assim. Ent\u00e3o, voc\u00ea que tem algu\u00e9m no Brasil, ajoelha e agrade\u00e7a a Jesus&#8221;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de sofrer uma onda de cr\u00edticas, a ex-BBB voltou a postar, agora para se defender.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em momento algum pedi uma escrava, pelo contr\u00e1rio, eu solicitava um &#8216;anjo&#8217; para cuidar de tudo&#8221;, escreveu a influenciadora. &#8220;At\u00e9 porque o sal\u00e1rio que estou oferecendo \u00e9 de US$ 5 mil [cerca de R$ 25,9 mil] para trabalhar de segunda a sexta, das 8h \u00e0s 15h. Se inclusive calcular, ver\u00e1 que \u00e9 muito mais do que US$ 25 a hora.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Pagar melhores sal\u00e1rios \u00e9 a sugest\u00e3o do presidente americano Joe Biden para empregadores dos Estados Unidos que t\u00eam se queixado de dificuldade para contratar, em meio \u00e0 retomada da economia americana, com o avan\u00e7o da vacina\u00e7\u00e3o contra a covid-19.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Nos-EUA-trabalho-dom\u00e9stico-\u00e9-servi\u00e7o-caro-\">&#8216;Nos EUA, trabalho dom\u00e9stico \u00e9 servi\u00e7o caro&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>A doutora em Educa\u00e7\u00e3o e ex-faxineira Heloiza Barbosa lan\u00e7ou em mar\u00e7o de 2020 o\u00a0Faxina, um podcast que conta as hist\u00f3rias de faxineiros e faxineiras brasileiras que trabalham nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O trabalho dom\u00e9stico aqui tem categorias diferentes: tem aquele que lida com a limpeza de casa, o que lida com os cuidados das crian\u00e7as, o das cuidadoras de idosos, o de cozinha e o de manuten\u00e7\u00e3o da casa funcionando&#8221;, enumera Heloiza, que vive nos Estados Unidos desde 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;S\u00e3o servi\u00e7os contratados e s\u00e3o servi\u00e7os caros, se voc\u00ea est\u00e1 acostumado no Brasil a pagar muito pouco por isso&#8221;, explica a pedagoga. &#8220;A\u00ed j\u00e1 tem uma diferen\u00e7a: a ideia de servi\u00e7os prestados, ou seja, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 empregado de algu\u00e9m como o trabalhador dom\u00e9stico \u00e9 no Brasil, voc\u00ea \u00e9 dono da sua empresa e vende o servi\u00e7o para a pessoa que te contrata.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a parece bastante \u00f3bvia com rela\u00e7\u00e3o a uma trabalhadora dom\u00e9stica brasileira mensalista, que presta servi\u00e7os a uma pessoa ou fam\u00edlia de forma cont\u00ednua, mediante um sal\u00e1rio fixo. Mas Heloiza afirma que a din\u00e2mica tamb\u00e9m \u00e9 distinta do trabalho das diaristas, profissionais aut\u00f4nomas que atendem fam\u00edlias diversas, sem v\u00ednculo empregat\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No Brasil, voc\u00ea paga a di\u00e1ria da pessoa para ela fazer absolutamente tudo dentro de uma casa. Se voc\u00ea fosse transpor isso para os Estados Unidos, seria muito caro, porque s\u00e3o v\u00e1rias categorias de servi\u00e7os, ent\u00e3o \u00e9 uma coisa que muito poucas fam\u00edlias podem pagar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/F840\/production\/_119425536_2heloizaepaula.jpg\" alt=\"Heloiza Barbosa e Paula Costa usando fones de ouvido e microfones\"\/><figcaption>Legenda da foto,Heloiza Barbosa (\u00e0 direita) entrevista a dom\u00e9stica Paula Costa para o Faxina Podcast<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Sem-prote\u00e7\u00e3o-social-\">Sem prote\u00e7\u00e3o social<\/h2>\n\n\n\n<p>A apresentadora do Faxina Podcast destaca, por\u00e9m, que isso n\u00e3o significa que as dom\u00e9sticas que trabalham nos Estados Unidos contem com maior prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estamos falando de um sistema capitalista, onde o trabalhador s\u00f3 tem valor enquanto tem for\u00e7a de trabalho para vender&#8221;, afirma. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 benef\u00edcios sociais, f\u00e9rias remuneradas, aposentadoria, direito a dias de afastamento por doen\u00e7a. Simplesmente, se n\u00e3o trabalha, n\u00e3o ganha.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O valor pago por uma faxina varia de acordo com o tamanho do im\u00f3vel e a frequ\u00eancia com que ele \u00e9 limpo. Em Boston, por exemplo, para uma casa t\u00edpica de classe m\u00e9dia, com tr\u00eas quartos e dois banheiros, a limpeza fica em torno de US$ 120 a US$ 140 (de R$ 610 a R$ 710).<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade, cujo mercado de faxina dom\u00e9stica \u00e9 dominado pelas imigrantes brasileiras (muitas delas sem documenta\u00e7\u00e3o para trabalhar), a limpeza, em geral, \u00e9 feita por um grupo de duas ou tr\u00eas faxineiras, que concluem o servi\u00e7o em poucas horas e seguem para outra resid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No geral, esse grupo \u00e9 formado por uma faxineira mais experiente, que tem uma lista de clientes e \u00e9 conhecida como &#8220;dona do<em>&nbsp;schedule<\/em>&#8221; (algo como a &#8220;dona da agenda&#8221;, em portugu\u00eas). Essa faxineira contrata ajudantes, que em geral s\u00e3o as imigrantes rec\u00e9m-chegadas que est\u00e3o em busca de emprego e, muitas vezes, n\u00e3o falam ingl\u00eas. S\u00e3o as chamadas&nbsp;<em>helpers<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu comecei dando um &#8216;<em>help<\/em>&#8216;&#8221;, conta Paula Costa, sobre como entrou no mercado americano de faxina dom\u00e9stica. &#8220;Levantava bem cedo, o carro vinha buscar, quando dava 7h est\u00e1vamos entrando na primeira casa. Faz\u00edamos nove casas no dia e eu ganhava US$ 60 (R$ 305 a valores atuais) por dia, isso h\u00e1 22 anos atr\u00e1s.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As donas de&nbsp;<em>schedule<\/em>&nbsp;faziam muito dinheiro, mas elas pagavam mal as &#8216;<em>helps<\/em>&#8216;. Nove casas num dia, pagando US$ 60 para cada uma das tr\u00eas ou quatro funcion\u00e1rias que elas levavam. Ganhando cerca de US$ 100 por casa (R$ 510), para ficar uma hora, ou uma hora e meia. Elas faziam &#8211; e fazem &#8211; muito dinheiro.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Brasil-maior-empregador-dom\u00e9stico-das-Am\u00e9ricas-\">Brasil, maior empregador dom\u00e9stico das Am\u00e9ricas<\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da forma de trabalhar, h\u00e1 outra diferen\u00e7a grande no mercado de trabalho dom\u00e9stico dos dois pa\u00edses: o n\u00famero de pessoas ocupadas nesse tipo de fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas dedicada ao tema, o Brasil \u00e9 o segundo maior empregador dom\u00e9stico do mundo, atr\u00e1s apenas da China, que ocupa o topo da lista, com 22 milh\u00f5es de trabalhadores dom\u00e9sticos, representando 2,9% de sua for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Por aqui, em 2019 \u2014 antes, portanto, da pandemia do coronav\u00edrus \u2014, os trabalhadores dom\u00e9sticos eram 6,3 milh\u00f5es (ou 6,8% da for\u00e7a de trabalho). Assim, o pa\u00eds superava em n\u00famero de profissionais o M\u00e9xico (2,4 milh\u00f5es e 4,3% da for\u00e7a de trabalho) e os Estados Unidos (1,9 milh\u00e3o e 1,2%), sendo o maior empregador dom\u00e9stico das Am\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/B6DD\/production\/_119431864_803fa414-2320-42c9-bdcc-0f758e911cc3.png\" alt=\"Gr\u00e1fico de barras mostra n\u00famero de trabalhadores dom\u00e9sticos em pa\u00edses das Am\u00e9ricas\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Para o soci\u00f3logo Tulio Cust\u00f3dio, que estuda o processo de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho em seu doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o elevado n\u00famero de trabalhadores dom\u00e9sticos no Brasil \u00e9 uma heran\u00e7a do nosso passado colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A coloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 fortemente marcada pelo padr\u00e3o patriarcal, que coloca a mulher como a respons\u00e1vel pelo trabalho dom\u00e9stico e de cuidado&#8221;, diz Cust\u00f3dio. &#8220;Al\u00e9m disso, esse \u00e9 um trabalho que \u00e9 realizado especialmente pelas popula\u00e7\u00f5es situadas na marginalidade social, isto \u00e9, pela popula\u00e7\u00e3o negra, o que tem origem na escravid\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos Estados Unidos tamb\u00e9m terem um passado colonial e escravista, Cust\u00f3dio observa que o n\u00famero de africanos escravizados trazidos ao Brasil foi muito maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Estima-se que, entre os s\u00e9culos 16 e 19, cerca de 4,9 milh\u00f5es de africanos desembarcaram na costa brasileira, o que representa 46% de todos os escravizados trazidos ao continente americano. Em compara\u00e7\u00e3o, pouco mais de 388 mil escravizados foram levados para os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso se reflete na composi\u00e7\u00e3o racial dos dois pa\u00edses: enquanto nos Estados Unidos os negros s\u00e3o 13% da popula\u00e7\u00e3o, no Brasil, segundo classifica\u00e7\u00e3o do IBGE para pretos e pardos, somos 56%.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/DDED\/production\/_119431865_4ae3d8f1-ba59-4f75-ad4b-e6337218fbe6.jpg\" alt=\"Mulher segura carta escrito 'Somos negros livres' durante protesto\"\/><figcaption>Legenda da foto,Nos Estados Unidos os negros s\u00e3o 13% da popula\u00e7\u00e3o, enquanto no Brasil, somos 56%<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Formas-distintas-de-lidar-com-o-passado-escravista-\">Formas distintas de lidar com o passado escravista<\/h2>\n\n\n\n<p>&#8220;Foram dois pa\u00edses que tiveram a experi\u00eancia da escravid\u00e3o, mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a bem grande na forma como trataram essa quest\u00e3o&#8221;, observa Cristina Vieceli, economista do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Aqui houve um processo de ocultamento [do racismo] e opress\u00e3o muito forte. O mito da &#8216;democracia racial&#8217; perdurou ao longo da nossa hist\u00f3ria e fez com que a gente n\u00e3o realizasse pol\u00edticas afirmativas [pol\u00edticas feitas por governos ou pela iniciativa privada com o objetivo de corrigir desigualdades raciais presentes na sociedade], s\u00f3 come\u00e7amos a fazer esse tipo de pol\u00edtica nos anos 2000, com as cotas em concursos e nas universidades p\u00fablicas&#8221;, observa Vieceli.<\/p>\n\n\n\n<p>A economista do Dieese destaca ainda que o pa\u00eds tem tamb\u00e9m uma parcela muito grande da popula\u00e7\u00e3o pobre e \u00e9 extremamente desigual \u2014 mais do que os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A classe m\u00e9dia no Brasil \u00e9 muito pequena perto da classe mais pobre. H\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o de renda muito grande no pa\u00eds e isso faz com que a mobilidade social seja muito menor aqui&#8221;, diz a economista. &#8220;Ent\u00e3o essa classe m\u00e9dia conta com um &#8216;ex\u00e9rcito de reserva&#8217; enorme, para usufruir de uma for\u00e7a de trabalho que continua com caracter\u00edsticas servis.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ex\u00e9rcito de reserva&#8221; \u00e9 um termo usado pelo fil\u00f3sofo Karl Marx, que se refere ao desemprego &#8220;permanente&#8221; das economias capitalistas. No Brasil, por exemplo, a taxa de desemprego atualmente est\u00e1 em 14,7% e quando ela chegou ao ponto mais baixo na hist\u00f3ria recente, caiu a 6,2% (em dezembro de 2013). J\u00e1 nos Estados Unidos, a taxa est\u00e1 em 5,9% e chegou aos 3,5% em meados de 2019. Assim, o desemprego estrutural dos dois pa\u00edses \u00e9 bem diferente e isso tem efeito, por exemplo, sobre os sal\u00e1rios pagos aos trabalhadores menos qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Tulio Cust\u00f3dio destaca ainda os diferentes est\u00e1gios do desenvolvimento econ\u00f4mico nos dois pa\u00edses como um fator que tamb\u00e9m afeta a disponibilidade de m\u00e3o de obra dom\u00e9stica e a capacidade de absor\u00e7\u00e3o das mulheres em outras formas de ocupa\u00e7\u00e3o mais qualificadas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No caso do Brasil, um pa\u00eds perif\u00e9rico, que n\u00e3o desenvolve tecnologia e tem um lugar muito espec\u00edfico no contexto do capitalismo global, boa parte da m\u00e3o de obra continua alocada em trabalhos de baixa remunera\u00e7\u00e3o e baixa produtividade&#8221;, observa o soci\u00f3logo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Trabalho-dom\u00e9stico-na-pandemia-\">Trabalho dom\u00e9stico na pandemia<\/h2>\n\n\n\n<p>No Brasil, a pandemia do coronav\u00edrus afetou o trabalho dom\u00e9stico de duas formas marcantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira delas foi a dispensa de milhares de trabalhadoras dom\u00e9sticas por empregadores que perderam renda ou que ficaram com medo de se contaminar ao contato com essas trabalhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica), o n\u00famero de pessoas ocupadas com trabalho dom\u00e9stico no pa\u00eds diminuiu de 6,1 milh\u00f5es no primeiro trimestre de 2019, para 4,9 milh\u00f5es em igual per\u00edodo de 2021, com quase 1,2 milh\u00e3o de dom\u00e9sticos a menos no mercado de trabalho em apenas dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando que 97% da categoria \u00e9 formada por mulheres, isso significa que mais de 30% das 3,1 milh\u00f5es de mulheres que deixaram o mercado de trabalho no per\u00edodo eram dom\u00e9sticas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso \u00e9 bastante grave, considerando que boa parte dessas mulheres t\u00eam filhos e s\u00e3o chefes de fam\u00edlia&#8221;, observa Vieceli, do Dieese.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/D3E4\/production\/_119444245_e1f0ebcd-7235-4732-820f-52ea1bf89f78.jpg\" alt=\"Dom\u00e9stica com m\u00e1scara de prote\u00e7\u00e3o contra o coronav\u00edrus\"\/><figcaption>Legenda da foto,No Brasil, dom\u00e9sticas foram dispensadas em massa em meio \u00e0 pandemia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um segundo fato marcante foi a priva\u00e7\u00e3o de liberdade de diversas trabalhadoras dom\u00e9sticas que foram obrigadas por seus patr\u00f5es a permanecer no trabalho sem poder voltar para suas fam\u00edlias, devido ao medo dos empregadores de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Sindicato dos Trabalhadores Dom\u00e9sticos da Bahia (Sindom\u00e9stico), por exemplo, recebeu 28 den\u00fancias de casos do tipo no Estado, ao longo da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A maioria s\u00e3o mulheres negras, que tiveram que deixar seus filhos com algum parente e foram obrigadas pelos empregadores a aceitar as condi\u00e7\u00f5es que eles estavam oferecendo&#8221;, diz Valdirene Boaventura, secret\u00e1ria-geral do Sindom\u00e9stico Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Elas foram obrigadas a permanecer no local de trabalho, algumas delas por meses.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para o soci\u00f3logo Tulio Cust\u00f3dio, esse fen\u00f4meno tamb\u00e9m est\u00e1 ligado ao passado colonialista brasileiro. &#8220;H\u00e1 uma ideia de que o empregado n\u00e3o \u00e9 um profissional, mas uma posse, o que tem origem na rela\u00e7\u00e3o escravocrata, onde o escravo era visto como um objeto&#8221;, observa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Foi muito simb\u00f3lico o fato de a primeira pessoa a morrer de covid [no Rio de Janeiro] ser uma mulher negra, idosa e empregada dom\u00e9stica&#8221;, lembra Cust\u00f3dio, referindo-se \u00e0 mulher de 63 anos, cujo nome n\u00e3o foi divulgado a pedido da fam\u00edlia, que morreu em 17 de mar\u00e7o de 2020, ap\u00f3s ser contaminada pela patroa que voltou de viagem da It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 uma ideia de que existem pessoas que valem menos do que as outras, existem vidas que podem ser sacrificadas, porque elas est\u00e3o ali para servir. Esse esvaziamento do sentido de respeito ao outro est\u00e1 no horizonte colonial e isso ainda \u00e9 muito forte na nossa sociedade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/17A2D\/production\/_119431869_5jssicaepaula.jpg\" alt=\"J\u00e9ssica Oliveira e Paula Costa\"\/><figcaption>Legenda da foto,J\u00e9ssica Oliveira (de branco) e sua m\u00e3e Paula Costa: com av\u00f3 e m\u00e3e dom\u00e9sticas, a jovem conseguiu ter outro destino<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Uma-linhagem-de-dom\u00e9sticas-chega-ao-fim\">Uma linhagem de dom\u00e9sticas chega ao fim<\/h2>\n\n\n\n<p>Trabalhando como dom\u00e9stica nos Estados Unidos, Paula Costa viu sua filha mais velha, J\u00e9ssica Oliveira, de 30 anos, se formar em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, J\u00e9ssica trabalha no Matahari Women Workers&#8217; Center, uma organiza\u00e7\u00e3o que luta pelos direitos de faxineiras,&nbsp;<em>au pairs<\/em>&nbsp;(um trabalho de cuidado de crian\u00e7as feito por mulheres imigrantes com idades entre 18 e 26 anos, em troca de moradia, alimenta\u00e7\u00e3o e uma pequena remunera\u00e7\u00e3o) e trabalhadoras que dependem de gorjetas, como as gar\u00e7onetes.<\/p>\n\n\n\n<p>Paula se orgulha de J\u00e9ssica ter rompido o ciclo da fam\u00edlia. Com av\u00f3 e m\u00e3e dom\u00e9sticas, a jovem conseguiu ter outro destino.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para mim, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de miss\u00e3o cumprida, de vit\u00f3ria. J\u00e9ssica fez entrevistas em grandes universidades, uma delas Ivy League [grupo de oito universidades de elite dos EUA formado por Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Universidade da Pensilv\u00e2nia e Yale]. No Brasil, eu jamais teria conseguido dar isso para minha filha sendo uma dom\u00e9stica.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Aqui d\u00e1 para uma trabalhadora dom\u00e9stica ter um pouco mais de dignidade e ser reconhecida pelo servi\u00e7o que presta \u00e0 sociedade, acho que essa \u00e9 a maior diferen\u00e7a [entre Estados Unidos e Brasil]&#8221;, acredita J\u00e9ssica. &#8220;Eu pude fazer faculdade, receber uma bolsa e ter mais escolhas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Patr\u00e3o vem como uma autoridade, como &#8216;voc\u00ea faz aquilo que eu estou falando&#8217;, n\u00e3o \u00e9 como uma igualdade. Eu senti isso na pele e minha m\u00e3e tamb\u00e9m sentiu isso muito forte. Cliente \u00e9 diferente. O cliente te respeita, te olha nos olhos, te valoriza, reconhece o seu esfor\u00e7o e o seu trabalho. 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