{"id":32628,"date":"2021-06-16T13:39:48","date_gmt":"2021-06-16T16:39:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=32628"},"modified":"2021-06-16T13:39:49","modified_gmt":"2021-06-16T16:39:49","slug":"depressao-a-queda-de-narciso-por-carlos-colect","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/06\/16\/depressao-a-queda-de-narciso-por-carlos-colect\/","title":{"rendered":"DEPRESS\u00c3O \u2013 A queda de Narciso por Carlos Colect"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depress\u00e3o \u00e9 uma palavra que, corriqueiramente, tem aparecido nos discursos da contemporaneidade, comparando-se com a \u201chisteria\u201d do s\u00e9culo XVIII\/XIX. Sem d\u00favida, o psiquismo humano, na era atual, tem sido acometido por in\u00fameras transforma\u00e7\u00f5es sociais, provocando, deste modo, desordens, transtornos diversos e dist\u00farbios de humor. N\u00e3o que \u2014 em outras Eras \u2014 a humanidade fosse plena, sem qualquer tipo de desordem ps\u00edquica. Certamente, os nossos antepassados tiveram as suas problem\u00e1ticas, de acordo com o que vivenciaram. <\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, enfrentamos uma transi\u00e7\u00e3o social, por isso, afloram-se os desconfortos psicol\u00f3gicos e emocionais. Prova disto \u00e9 que voc\u00ea, provavelmente, em alguma inst\u00e2ncia da sua vida tem contato com a depress\u00e3o, seja por estar depressivo, conhecer algu\u00e9m que est\u00e1 ou por conviver com quem j\u00e1 tenha passado por esse momento dificultoso de aus\u00eancia de pot\u00eancia, cujo sistema nervoso se percebe inoperante, sem est\u00edmulos, sem sentido (sentir), inativo e sem atitude diante das demandas da vida. <\/p>\n\n\n\n<p>Devido a presen\u00e7a desse estado emocional no nosso cotidiano, vale nos debru\u00e7armos sobre este tema t\u00e3o importante, de modo a compreendermos um pouco mais acerca da frequ\u00eancia dos epis\u00f3dios depressivos ou narrativas depressivas e sua ess\u00eancia narc\u00edsica, sendo esta a minha proposta para este ensaio. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Depress\u00e3o e a geografia: relativa e absoluta<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A princ\u00edpio, a depress\u00e3o, de acordo com os estudos psicanal\u00edticos, psicol\u00f3gicos e psiqui\u00e1tricos, tem v\u00e1rias vertentes, classifica\u00e7\u00f5es, n\u00edveis e profundidades, dentre elas est\u00e1 a depress\u00e3o experienciada na Bipolaridade (man\u00edaco-depressivo) e a Distimia, uma esp\u00e9cie de melancolia cr\u00f4nica causada por um processo de luto mal elaborado, a qual j\u00e1 abordei em outros textos e momentos. Aqui, entretanto, trago a depress\u00e3o como uma queda de Narciso, melhor, uma quebra da imagem narc\u00edsica. Neste \u00e2mbito de vis\u00e3o, precisamos, de antem\u00e3o, compreender a associa\u00e7\u00e3o entre depress\u00e3o, queda e o mito de Narciso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante, neste ponto, entendermos a origem da express\u00e3o \u201cdepress\u00e3o\u201d, a qual foi emprestada da geografia e corresponde a uma forma de relevo com irregularidades. \u00c9 uma inclina\u00e7\u00e3o do solo, entre plan\u00edcies, planaltos e montanhas, formada por desgastes ocasionados pela a\u00e7\u00e3o constante do vento e da \u00e1gua. Al\u00e9m disso, divide-se em dois tipos: absoluta e relativa. A forma absoluta \u00e9 a mais profunda, est\u00e1 sob o n\u00edvel do mar; a relativa, por sua vez, \u00e9 superficial. Atentando para esta base, entendemos o motivo pelo qual a palavra \u201cdepress\u00e3o\u201d \u00e9 usada para se referir \u00e0 psicopatologia, bem como para a queda econ\u00f4mica, como a crise da Grande <em>Depress\u00e3o<\/em>&nbsp;Mundial, iniciada em 1929, persistindo at\u00e9 a segunda guerra mundial. <\/p>\n\n\n\n<p>Adentrando este sentido geogr\u00e1fico e adequando a psique humana, depress\u00e3o \u00e9 uma inclina\u00e7\u00e3o, um \u201cburaco\u201d no solo que, analogamente, simboliza a mente que se inclina e \u201ccai no buraco\u201d existente em si mesma. \u201cBuraco\u201d que foi aprofundado, ao longo do tempo, por a\u00e7\u00f5es constantes. \u00c9 uma queda no vazio existencial que todos t\u00eam, por\u00e9m, durante os anos, pode ser amenizado ou aprofundado. <\/p>\n\n\n\n<p>Como visto, existe a depress\u00e3o superficial, onde o vazio \u00e9 sentido, por\u00e9m, ainda h\u00e1 contato com a superf\u00edcie, isto \u00e9, com o consciente e a realidade presente. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o de queda que nos remete aos momentos de transi\u00e7\u00e3o, assim como no per\u00edodo natal, quando sa\u00edmos do \u00fatero e ca\u00edmos na exist\u00eancia, inclinamo-nos diante das inc\u00f3gnitas e incertezas de quem somos e de onde estamos. Deparamo-nos com a exist\u00eancia que se fundamenta e se confirma na mente que, agora, precisa escolher e decidir. Poder que n\u00e3o nos fora conhecido na vida intrauterina. Desta forma, a consci\u00eancia da exist\u00eancia surge quando as possibilidades se apresentam e nos vemos respons\u00e1veis pelo nosso caminho. Esta \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o depressiva que pode se associar com a teoria das posi\u00e7\u00f5es de Melanie Klain (1882 \u2013 1960), psicanalista que estudou a vida infantil e percebeu a posi\u00e7\u00e3o depressiva do beb\u00ea quando h\u00e1 um afastamento do objeto de amor e completude (seio, colo da m\u00e3e,&#8230;); deduzimos que, nesse momento, ele revive o afastamento da placenta e se percebe indiv\u00edduo e \u201csozinho\u201d, respons\u00e1vel por suas a\u00e7\u00f5es; ali ele existe. <\/p>\n\n\n\n<p>A depress\u00e3o absoluta, tamb\u00e9m descrita pela geografia, \u00e9 uma inclina\u00e7\u00e3o mais profunda, quando o indiv\u00edduo \u201ccai em si\u201d e est\u00e1, metaforicamente, abaixo do n\u00edvel do mar, no campo inconsciente, com pouco contato com a superf\u00edcie e a realidade, vivenciando as fantasias infantis. \u00c9 um estado mais patol\u00f3gico e privativo, n\u00e3o apenas decorrente de um movimento transit\u00f3rio da vida, e sim de outros fatores que residem \u00e0s profundezas do inconsciente. \u00c9 como se o indiv\u00edduo estivesse no fundo de um po\u00e7o profundo e nada conseguisse ver, al\u00e9m de paredes estreitas e um pequeno ponto de luz acima. A vis\u00e3o sobre o mundo a sua volta se limita a sua condi\u00e7\u00e3o sofrida e angustiante. As paredes s\u00e3o lisas e escorregadias. Qualquer esfor\u00e7o ou tentativa para sair do \u201cburaco\u201d parece ser em v\u00e3o e in\u00fatil, \u00e9 preciso uma grande habilidade de escalada e uma ajuda externa, pois o contato com a superf\u00edcie (realidade) \u00e9 dificultoso. Mas, de qualquer maneira, \u00e9 necess\u00e1rio um esfor\u00e7o psicol\u00f3gico e f\u00edsico para se manter vivo. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Depress\u00e3o: a confian\u00e7a do passado e a esperan\u00e7a do futuro <\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Independente do aspecto individual, temos constatado o quanto n\u00f3s \u2014 seres humanos \u2014 estamos num estado social de desorienta\u00e7\u00e3o, mal estar, sofrimento ps\u00edquico e queda. Neste tempo de mudan\u00e7as velozes, op\u00e7\u00f5es infinitas e possibilidades infind\u00e1veis, a ang\u00fastia tem se aflorado na alma humana. A humanidade tem sofrido mudan\u00e7as consider\u00e1veis na sua Identidade \u2014 forma de ver e se mover no mundo. A depress\u00e3o e ansiedade, em seus aspectos extremos e polares, revelam o a dificuldade em se encontrar o meio termo, o equil\u00edbrio. Estamos enfrentando um tempo de transi\u00e7\u00e3o, uma adolesc\u00eancia que acontece de tempos em tempos na civiliza\u00e7\u00e3o humana. Estamos transitando de uma Era para outra. Precisamos transcender e ultrapassar ou, ainda, utilizarmo-nos da habilidade de assimila\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o para acomodar, adaptar e equilibrar, como diria Piaget (1896-1980). <\/p>\n\n\n\n<p>Somos uma gera\u00e7\u00e3o angustiada pela incerteza do futuro e pelo esquecimento do bom passado? &#8220;O agora ou o momento presente \u00e9 somente o que temos, o amanh\u00e3 n\u00e3o existe ou pertence a Deus, o futuro que nos espera \u00e9 mal, a humanidade est\u00e1 perdida&#8221; &#8211; fizeram-nos acreditar. Sim, s\u00e3o meias verdades. No entanto, isso produz uma crise de futuro e uma nega\u00e7\u00e3o do passado, o que gera angustia e destr\u00f3i a perspectiva de que algo ainda pode ser constru\u00eddo e realizado, h\u00e1 uma paralisa\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o do agora. N\u00e3o h\u00e1 como vivermos bem apenas no presente, pois nossa mente \u00e9 constitu\u00edda por lembran\u00e7as (passado) que trazem confian\u00e7a e imagina\u00e7\u00e3o (futuro) que nos d\u00e1 esperan\u00e7a; esse passado e futuro nos ajudam a estarmos bem no presente. A aus\u00eancia ou incerteza de um desses pilares desequilibra a mente humana. A depress\u00e3o, por exemplo, tem o foco no passado &#8220;mal&#8221; e ausenta a confian\u00e7a, prejudicando a cria\u00e7\u00e3o do futuro, enquanto a ansiedade foca num futuro incerto, inibe a esperan\u00e7a e diminui a confian\u00e7a. Um presente mais equilibrado precisa estar temperado com as imagens mentais saud\u00e1veis do passado e futuro. Diante dos desafios presentes, exemplificado na alegoria b\u00edblica de David contra o Golias, o passado e o futuro est\u00e3o juntos. David recordou as suas vit\u00f3rias sobre o urso e o le\u00e3o, isso lhe deu confian\u00e7a. De igual modo, ele visualizou o futuro e teve esperan\u00e7a: &#8220;<em>toda a terra saber\u00e1&#8230;&#8221;,<\/em>&nbsp;disse David. (1 Samuel 17:46)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A imagem narc\u00edsica: imagem que se move<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a observ\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o social, residimos numa sociedade constitu\u00edda por um ser humano em queda, que cai da sua altivez e vaidade, entrando num \u201cburaco\u201d \u2014 estado de vazio de sentido. Ele perde a refer\u00eancia de si mesmo, na sua pr\u00f3pria escurid\u00e3o. H\u00e1 uma quebra na imagem narc\u00edsica. Para tal esclarecimento, trago o mito de Narciso, o menino que nasce de um abuso. C\u00e9fiso violenta a ninfa Ler\u00edope e concebe Narciso, o qual ser\u00e1 condenado a se apaixonar por sua bela imagem, por\u00e9m, sem nunca ter a si mesmo. Ele definha-se diante do seu reflexo num lago, sem poder pegar a sua imagem. Vemos, aqui, o filho nascido do n\u00e3o desejo e criado por uma s\u00f3 parte (pai ou m\u00e3e &#8211; av\u00f4 ou av\u00f3), cujo ego (identidade social) se esconde e d\u00e1 lugar a uma personalidade individualista e infantil, embasada sobre uma educa\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria, sem o devido estabelecimento de limites. Esse filho n\u00e3o possui sua identidade, e sim uma imagem ilus\u00f3ria e elevada de si mesmo. Desta maneira, a imagem idealizada e elevada do sujeito acerca de si pr\u00f3prio \u00e9 uma imagem m\u00f3vel, que n\u00e3o se pode segurar. Toda vez que, a exemplo do mito, busca-se pegar a imagem refletida nas \u00e1guas, a imagem se distorce, foge, quebra-se, e, na tentativa frustrada de ter esta imagem fixada, o indiv\u00edduo se deprimi na incompreens\u00e3o da mobilidade da sua imagem, na decep\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se possuir. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Vaidade de Narciso: o outro lado do vazio<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao pensarmos em Narciso, automaticamente, pensamos em vaidade ou soberba. Conjecturando essa possibilidade, \u00e9 cab\u00edvel pensar que a vaidade se associa com uma posi\u00e7\u00e3o deprimida e se oculta por detr\u00e1s da depress\u00e3o e do vazio de sentido. No texto b\u00edblico de Eclesiastes, o s\u00e1bio, refletindo sobre os caminhos da vida, declara: <em>&#8220;<\/em><em>Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo \u00e9 vaidade.<\/em><em>&#8221; <\/em>(Eclesiastes 1.2; 12.8). Tal afirma\u00e7\u00e3o se revela muito forte e provocativa. Convida-nos a refletir acerca da m\u00e3e dos pecados, de acordo com S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino. <\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente, a ideia mais comum&nbsp;introduzida na \u201cvaidade\u201d est\u00e1 interligada com o querer se vestir bem, ir a um bom restaurante, ter uma bela casa ou um bom carro, enfim, mistura-se com tudo o que se relaciona com o desejo est\u00e9tico, f\u00edsico ou material. Por\u00e9m, a palavra <em>vaidade<\/em>&nbsp;tem sua origem do latim <em>vanitas, vanitatis<\/em>, cujo significado \u00e9 \u201cvacuidade; inutilidade; inconst\u00e2ncia; futilidade; orgulho v\u00e3o, o que \u00e9 pr\u00f3prio do v\u00e1cuo\u201d, ou seja: vazio. De igual modo, a correspondente hebraica \u00e9 <em>hevel<\/em>: &#8220;vazio&#8221;, &#8220;v\u00e3o&#8221;. Sendo assim, vaidade carrega, em sua etimologia, a ideia de v\u00e3o, vazio, desnecess\u00e1rio, destitu\u00eddo de vida e prop\u00f3sito, ou seja, \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-ser e vazio, a qual projeta desejos desnecess\u00e1rios \u2014 desejo de ser ou ter \u2014 na mente do indiv\u00edduo; h\u00e1 uma proje\u00e7\u00e3o de imagem elevada e compensat\u00f3ria de si, assim como a imagem m\u00edtica de Narciso refletida no lago. Sendo assim, a vaidade est\u00e1 para al\u00e9m do simples desejo externo e est\u00e9tico, \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o interna que pode estar tanto na casa do rico como na casa do pobre, tanto na mans\u00e3o como na favela, tanto no mais favorecido socialmente como no menos favorecido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Prossigamos um pouco mais, se na inf\u00e2ncia houve uma forte experi\u00eancia de rejei\u00e7\u00e3o, assimilada pela mente da crian\u00e7a sem a acomoda\u00e7\u00e3o e equilibra\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento da pr\u00f3pria identidade sofre uma interrup\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a imagem de si mesma n\u00e3o se desenvolve. Fica uma lacuna que aumenta a ang\u00fastia na inc\u00f3gnita humana: &#8220;quem eu sou?&#8221;. O sentimento de vazio, natural da humanidade, toma propor\u00e7\u00f5es maiores. Isso provoca a necessidade de preenchimento da sua pr\u00f3pria imagem (identidade). Produz-se, desta forma, um EU narc\u00edsico, um EU INFLADO. Um endeusamento, contendo a ideia infantil: &#8220;tudo gira em torno de mim&#8221;, &#8220;todos devem me servir&#8221;&#8230; Haver\u00e1 uma busca inconsciente pela imagem que n\u00e3o se tem de si. Essa busca se dar\u00e1 no olhar do outro, na fala do outro. Isto \u00e9, o outro diz quem eu sou. Eu existo no olhar do outro. E h\u00e1, ainda, nesse EU narc\u00edsico, uma dicotomia: eu sou grande, bonito, \u201cDeus\u201d, no entanto, n\u00e3o tenho e n\u00e3o seguro (inseguran\u00e7a) minha imagem. A imagem exposta socialmente n\u00e3o corresponde a imagem interna. No \u00edntimo h\u00e1 um sofrimento gerado pela inseguran\u00e7a. Recordemos a puni\u00e7\u00e3o de Narciso que, ao olhar seu belo reflexo na \u00e1gua, tentava peg\u00e1-lo, mas, ao fazer isso, a \u00e1gua se movia e a imagem se distorcia. H\u00e1 uma interfer\u00eancia que dificulta o reconhecimento. O indiv\u00edduo passa a n\u00e3o se reconhecer na imagem refletida. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a identidade vai se reconstruindo por meio de experi\u00eancias de aceita\u00e7\u00f5es, a crian\u00e7a interior &#8220;cresce&#8221; e diminui a sensa\u00e7\u00e3o de vazio. Automaticamente, a necessidade da aprova\u00e7\u00e3o do olhar alheio, diminui, visto que agora h\u00e1 posse da pr\u00f3pria imagem. N\u00e3o h\u00e1 mais necessidade do olhar do outro para a afirma\u00e7\u00e3o, como assim faz a crian\u00e7a quando, realizando alguma atividade, direciona os olhos aos pais, para ter a certeza de que est\u00e3o olhando e aprovando. Imagine que quem precisa do olhar do outro \u00e9 a crian\u00e7a. Ela anseia pelo olhar dos pais para se sentir algu\u00e9m, bonita, aceita, aprovada. &#8230; a crian\u00e7a est\u00e1 sempre em busca do olhar dos pais. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>A autoestima: autoavalia\u00e7\u00e3o<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1, neste ponto, como n\u00e3o falarmos da autoestima, pois a posi\u00e7\u00e3o narc\u00edsica est\u00e1 sempre se autoavaliando e cobrando a perman\u00eancia nessa posi\u00e7\u00e3o elevada. Conv\u00e9m-nos pensar que a palavra <em>estima<\/em>&nbsp;prov\u00e9m do latim &#8220;<em>aestimare<\/em>&#8221; significa &#8220;avaliar ou calcular&#8221;. Autoestima, portanto, \u00e9 o ato de se autoavaliar, que, obviamente, ocorre por meio de um processo de avalia\u00e7\u00e3o. \u00c9 um olhar cr\u00edtico sobre si mesmo. <\/p>\n\n\n\n<p>A alta autoestima \u00e9 quando me julgo ter um alto valor, segundo o meu olhar diante do &#8220;espelho&#8221;, no \u00e2mbito mental. Em oposi\u00e7\u00e3o, a baixa autoestima diz respeito a uma desvaloriza\u00e7\u00e3o gerada do olhar sobre si, quando me julgo ter pouco valor. Cabe, no processo de avalia\u00e7\u00e3o, a exist\u00eancia de crit\u00e9rios e um c\u00f3digo de leis, dentro das quais ocorre uma compara\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, ao me ver dentro dos crit\u00e9rios e leis, avalio-me com valor. Se estiver fora dos crit\u00e9rios e leis, logo o valor se perde. A cataloga\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios e leis acontece internamente, construindo uma imagem de valor ou sem valor, a qual \u00e9 estabelecida pelo contexto externo (sociedade e rela\u00e7\u00f5es afetivas) e pelo \u00e2mbito interno (absor\u00e7\u00e3o de viv\u00eancias e palavras dos pais que se firmam numa imagem inconsciente). Em outras palavras, a mente, ao se observar no espelho externo ou interno, age por compara\u00e7\u00e3o. Ela atua numa discrimina\u00e7\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o, comparando-se a imagem interna inconsciente e a imagem criada pelo olhar externo do outro. Como o outro me v\u00ea? Como devo ser diante do outro? Estou de acordo com a imagem interna e inconsciente? Estou em conformidade com os crit\u00e9rios e leis internas e externas? Tais questionamentos s\u00e3o feitos constantemente dentro de cada ser humano. A consci\u00eancia e percep\u00e7\u00e3o dessa compara\u00e7\u00e3o nos ajuda a manter uma boa autoestima; uma boa valoriza\u00e7\u00e3o de si mesmo e n\u00e3o se afetar tanto nesse processo natural de autoavalia\u00e7\u00e3o. \u00c9 um processo natural porque a mente precisa se comparar para compreender quem \u00e9 e quem o outro \u00e9 e, assim, perceber-se como indiv\u00edduo. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O excesso de desejo n\u00e3o consumido<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto a ser percebido na tem\u00e1tica da depress\u00e3o \u00e9 que, geralmente, tem-se o estado depressivo como falta de desejo, por\u00e9m, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel encontrar o excesso de desejo, cuja base \u00e9 um vazio existencial natural que todos carregam ao nascer. A sensa\u00e7\u00e3o do vazio pode aumentar no extremo da falta de desejo e no extremo do excesso de desejo.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, vivemos dias de muitos desejos no ser e ter, articulados pela m\u00eddia e mundo capitalista, fazendo com que a grande maioria sofra de desejo n\u00e3o consumido. Deseja-se ser, mas n\u00e3o \u00e9. Deseja-se ter, mas n\u00e3o tem. Cabe, aqui, a observa\u00e7\u00e3o de que esses desejos para o depressivo n\u00e3o s\u00e3o exatamente seus, e sim uma DEMANDA que vem do outro, seja externo ou interno. Em outras palavras, o desejo de ser e ter \u00e9 do outro, o qual se mistura com o si pr\u00f3prio. H\u00e1, desta forma, um constante descontentamento e aumento do sentimento de vazio e perda do que n\u00e3o se tem. Como vimos, este fato \u00e9 aflorado pela identidade mal elaborada na inf\u00e2ncia, na experi\u00eancia de rejei\u00e7\u00e3o, cujo psiquismo se constitui em <em>self<\/em>&nbsp;inflado (infantil \u2013 endeusado) e falso ego (apropria\u00e7\u00e3o da identidade do outro). <\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do mais, isto nos remete, mais uma vez, ao complexo narc\u00edsico, cujo desejo n\u00e3o \u00e9 consumido. Narciso definha-se na beira do lago, sobre o seu objeto de desejo \u2014 si mesmo. Atualmente, muitos se definham na beira da vitrine da loja ou da vitrine da alma, onde se exp\u00f5e a bela imagem do ser e ter ideal a ser consumida. Por outro lado, para combater o excesso de desejo n\u00e3o consumido, nascem \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es positivistas, como \u201ceu tenho tudo, nada me falta, sou grato por tudo&#8230;\u201d. Sobre isto, questiono: estar\u00edamos caminhando para o outro extremo, no qual a falta \u2014 combust\u00edvel da vida e movimento \u2014 \u00e9 removida, produzindo tamb\u00e9m um definhar e atrofia? A falta precisa existir para haver o desejo, e nem todo desejo precisa ser saciado. O caminho do meio \u00e9 o melhor caminho, diria Buda, e a compreens\u00e3o de que o objeto de desejo (ser \u2013 ter) pode transitar ou at\u00e9 mesmo n\u00e3o ser o meu desejo, mas uma demanda do outro, \u00e9 essencial, ainda que esse outro seja um outro \u201ceu\u201d que me habita. Pois sim, somos m\u00faltiplos; muitos \u201ceu\u2019s\u201d nos habitam. Por isso, \u00e9 importante provocarmos uma reflex\u00e3o ao sermos acometidos por fortes emo\u00e7\u00f5es: \u201cquem \u00e9 este que est\u00e1 triste\u201d?, \u201cQuem \u00e9 este que est\u00e1 alegre?\u201d, \u201cQuem \u00e9 este que est\u00e1 sentindo o vazio?\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O reconhecimento<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Frente ao n\u00e3o reconhecimento de Narciso de sua pr\u00f3pria imagem distorcida, Penso que precisamos nos reconhecer, n\u00e3o apenas conhecer. De forma po\u00e9tica, explano. Certo dia, aproximei-me. De frente ao espelho me vi. Sorri. Afastei-me. Aquele, sumiu. Sumi. Foi em algum lugar para al\u00e9m dos meus olhos. Existo somente quando me vejo? Pensei. Quando n\u00e3o me vejo, sou ref\u00e9m do desejo no olhar do outro; sou ref\u00e9m do desejo de ter o outro, a vida que n\u00e3o vejo? Poss\u00edvel. Se vivo na capacidade de refletir e ver a si mesmo, logo, do contr\u00e1rio, sou como um vampiro em busca de uma vida para sugar e se apropriar. Por outro lado, se fixo o meu olhar na imagem refletida de mim mesmo, torno-me um Narciso descontente com a imagem que se movimenta nas \u00e1guas da exist\u00eancia humana. Narciso, debru\u00e7ado sobre a sua imagem, desejando possu\u00ed-la, fere a si mesmo. O Vampiro, desprovido da sua pr\u00f3pria imagem, fere o outro na busca por si. De Narciso (o psic\u00f3tico) ao Vampiro (o perverso), do olhar fixo ao n\u00e3o olhar, o melhor \u00e9 a compreens\u00e3o de que sou apenas uma imagem invertida refletida, num movimento necess\u00e1rio do olhar, das imagens e dos espelhos, n\u00e3o num processo de autoconhecimento, e sim de reconhecimento. Preciso me reconhecer, n\u00e3o apenas conhecer, visto que o ato de conhecer precede o entendimento de algo que me \u00e9 estranho e alheio, e reconhecer consiste em me identificar com a imagem que se v\u00ea, como sendo Eu. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aquele que pensa estar de p\u00e9, cuide para que n\u00e3o caia<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\tDe tudo o que foi dito, considerando a depress\u00e3o como a queda de Narciso, a quebra da imagem que foi sendo solidificada na mente do sujeito, fa\u00e7o uma considera\u00e7\u00e3o utilizando um epis\u00f3dio b\u00edblico, o qual relata a queda de um homem, a saber Shaul, mais conhecido como ap\u00f3stolo Paulo. \tA sua hist\u00f3ria come\u00e7a como algu\u00e9m que, na sua soberba e vaidade, persegue e mata a comunidade dos Nazarenos, todavia, em certo momento, indo pelo caminho para cumprir mais uma miss\u00e3o, depara-se com uma forte luz que o confronta. A luz da verdade que lhe habitava o fez cair (em si). Ele foi tomado por uma consci\u00eancia e lucidez. Ele cai no ch\u00e3o e perde a vis\u00e3o sobre si mesmo e sobre caminho em que estava. Ele entra na sua escurid\u00e3o e vazio. Este \u00e9 o momento depressivo de Paulo, em que foi for\u00e7ado a mudar a rota da sua vida. Houve a quebra da sua imagem narc\u00edsica. Segue o testemunho m\u00edtico: <\/p>\n\n\n\n<p><em>Ora, aconteceu que, indo eu j\u00e1 de caminho, e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do c\u00e9u. E ca\u00ed por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E eu respondi: Quem \u00e9s, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus Nazareno, a quem tu persegues. E os que estavam comigo viram, em verdade, a luz, e se atemorizaram muito, mas n\u00e3o ouviram a voz daquele que falava comigo. Ent\u00e3o disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor disse-me: Levanta-te, e vai a Damasco, e ali se te dir\u00e1 tudo o que te \u00e9 ordenado fazer. E, como eu n\u00e3o via, por causa do esplendor daquela luz, fui levado pela m\u00e3o dos que estavam comigo, e cheguei a Damasco.<\/em><em>&nbsp;<\/em><em>E um certo Ananias, homem piedoso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeus que ali moravam, Vindo ter comigo, e apresentando-se, disse-me: Saulo, irm\u00e3o, recobra a vista. E naquela mesma hora o vi.<\/em>&nbsp;(<a href=\"https:\/\/www.bibliaonline.com.br\/acf\/atos\/22\/6-13+\">Atos 22:6-13<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse texto, findo, dizendo: depress\u00e3o, enquanto psicopatologia social, \u00e9 algo s\u00e9rio, sabemos. No entanto, tornou-se o combust\u00edvel que alimenta uma sociedade do ativismo, visto que, pelo medo da depress\u00e3o, a maioria de n\u00f3s n\u00e3o consegue parar e cada vez mais acarreta tarefas intermin\u00e1veis, sem tempo para pensar sobre si mesmo, sobre suas verdades, suas mentiras e o seu mundo. Por conta desse comportamento, convido a uma pausa, a um per\u00edodo de solid\u00e3o volunt\u00e1ria, caso contr\u00e1rio, a vida te for\u00e7ar\u00e1 a parar e a cair em si. Ali\u00e1s, atualmente, tratamos a solid\u00e3o como algo indesej\u00e1vel e mal. Contudo, a solid\u00e3o \u00e9 aquele momento em que voc\u00ea se percebe voc\u00ea. \u00c9 o momento em que voc\u00ea se separa do olhar do outro, em que voc\u00ea se desliga da obriga\u00e7\u00e3o de cumprir o desejo do outro e precisa se encontrar para al\u00e9m do olhar e desejo do outro. Isto \u00e9 essencial em determinados per\u00edodos da vida. Portanto, sem medo, sem puni\u00e7\u00e3o, apenas respira\u00e7\u00e3o, entre em sua escurid\u00e3o e abismo, como o ap\u00f3stolo Paulo (Shaul), perceba-se um ser-vivo, um ser-que-vive, um ser-que-\u00e9, e alcance o entendimento de que a depress\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de si-mesmo, \u00e9 a quebra e a consci\u00eancia da imagem que n\u00e3o se tem. Por fim, fica o alerta paulino: \u201c<em>aquele que pensa que est\u00e1 de p\u00e9 \u00e9 melhor ter cuidado para n\u00e3o cair<\/em>\u201d (1 Corintios 10.12)<\/p>\n\n\n\n<p>Por Carlos Colect<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Depress\u00e3o \u00e9 uma palavra que, corriqueiramente, tem aparecido nos discursos da contemporaneidade, comparando-se com a \u201chisteria\u201d do s\u00e9culo XVIII\/XIX. Sem d\u00favida, o psiquismo humano, na era atual, tem sido acometido por in\u00fameras transforma\u00e7\u00f5es sociais, provocando, deste modo, desordens, transtornos diversos e dist\u00farbios de humor. 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