{"id":32102,"date":"2021-05-06T09:32:13","date_gmt":"2021-05-06T12:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=32102"},"modified":"2021-05-06T09:32:14","modified_gmt":"2021-05-06T12:32:14","slug":"o-trabalho-como-instrumento-de-tortura-e-a-profissao-de-fe-por-carlos-colect","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/05\/06\/o-trabalho-como-instrumento-de-tortura-e-a-profissao-de-fe-por-carlos-colect\/","title":{"rendered":"O Trabalho como instrumento de tortura e a Profiss\u00e3o de f\u00e9 por Carlos Colect"},"content":{"rendered":"\n<p>O teu trabalho \u00e9 fonte de vida ou fonte de renda? Fonte de dor ou fonte de prazer? Estas s\u00e3o quest\u00f5es profundas que podem nos levar a um breve momento de crise, visto que o mundo capitalista em que vivemos n\u00e3o nos permite ou pouco nos liberta para adentrarmos os questionamentos das nossas a\u00e7\u00f5es. &nbsp;H\u00e1 quem tenha passado pela sua breve exist\u00eancia sem nunca ter pensado sobre a obra de suas m\u00e3os, apenas foi conduzido pela \u00e2nsia da necessidade ou pelo tabu dogm\u00e1tico \u201ctime is Money\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade atual n\u00e3o nos educa para a reflex\u00e3o, apenas para a a\u00e7\u00e3o, muitas vezes irracional, motivada pela emo\u00e7\u00e3o em colapso. Podemos afirmar que o conte\u00fado primordial do ensino atual \u00e9 extrovertido \u2014 voltado para a a\u00e7\u00e3o externa \u2014, e n\u00e3o para a introvers\u00e3o, isto \u00e9, para o mundo interno e inconsciente. Acerca disso, precisamos da educa\u00e7\u00e3o de educadores que vivem a voca\u00e7\u00e3o do &#8220;educare (lt.)&#8221; &#8211; &#8220;educa\u00e7\u00e3o &#8211; guiar para fora&#8221;. Seres que, como parteiros, conduzem o indiv\u00edduo no processo do vir \u00e0 LUZ; removem da escurid\u00e3o da ignor\u00e2ncia e inconsci\u00eancia, acendem a luz aos olhos da mente e alimentam o &#8220;alumnus (lt.)&#8221; &#8211; &#8220;aluno &#8211; crian\u00e7a de peito&#8221;, promovendo a maturidade no discernimento de si, do outro e do n\u00f3s. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tal papel e fun\u00e7\u00e3o come\u00e7am em casa e se estendem \u00e0 &#8220;<em>escole<\/em>&nbsp;(lt.)&#8221; &#8211; &#8220;escola&#8221; que, para os gregos cl\u00e1ssicos, \u00e9 um lugar de &#8220;<em>otium<\/em>&nbsp;(lt.)&#8221; &#8211; &#8220;\u00f3cio&#8221;, onde a crian\u00e7a \u00e9 colocada numa posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de busca pelos significados e valores da Vida, n\u00e3o somente de busca pelo &#8220;<em>negotium<\/em>&nbsp;(lt)&#8221;, ou seja, pelos neg\u00f3cios materiais. Como dito, o olhar das crian\u00e7as, atualmente, \u00e9 guiado para o &#8220;<em>negotium<\/em>&#8220;, n\u00e3o para o &#8220;<em>otium<\/em>&#8220;; \u00e9 direcionado a observar as quest\u00f5es de fora, n\u00e3o de dentro; \u00e9 induzido ao TER, n\u00e3o ao SER. Em outras palavras, n\u00e3o se prepara o Ser Humano para a Vida (<em>otium<\/em>), prepara-se para os neg\u00f3cios (<em>negotium<\/em>), de forma cega. Contudo, deixo claro que o &#8220;<em>otium<\/em>&#8221; e o &#8220;<em>negotium<\/em>&#8221; precisam estar unidos por valores. Um n\u00e3o pode anular o outro. Fora e dentro se complementam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sermos constru\u00eddos apenas para o <em>neg\u00f3cio (negotium),<\/em>&nbsp;acabamos negociando &nbsp;valores internos, vitais e eternos em troca do trivial, passageiro e ef\u00eamero. Entramos em situa\u00e7\u00f5es de frustra\u00e7\u00e3o, estresse, descontentamento e insatisfa\u00e7\u00e3o, realizando obras que n\u00e3o nos fazem sentido ou n\u00e3o nos gera vida. Assinamos contratos, damos o nosso tempo, oferecemos o nosso suor aos deuses do Olimpo, somente pelo status, por n\u00e3o ter uma vis\u00e3o ampliada capaz de observar outras oportunidades ou, ainda, por ter uma mente que se sente culpada por vivencias passadas e precisa aliviar o peso da consci\u00eancia se punindo com um trabalho insuport\u00e1vel e repetitivo, numa s\u00edndrome de &nbsp;S\u00edsifo que, no mito grego, \u00e9 condenado a rolar uma grande pedra at\u00e9 o topo da montanha e no final do dia ela rola para baixo novamente, dia ap\u00f3s dia, o trabalho \u00e9 retomado como uma puni\u00e7\u00e3o. No inconsciente coletivo, \u201ctrabalho\u201d carrega a imagem de tortura ou consequ\u00eancia penosa de uma transgress\u00e3o. Assim tamb\u00e9m \u00e9 expresso no G\u00eanesis b\u00edblico, onde no Jardim de Deus, Ad\u00e3o e Eva transgridem a lei divina e s\u00e3o punidos com o \u201csuor do rosto\u201d. Foi-lhes sentenciado: <em>\u201cdo suor do teu rosto, comer\u00e1s o teu p\u00e3o\u201d <\/em>(Gn 3.19). Sobre esta senten\u00e7a que habita a mente coletiva da humanidade, muitas vezes, a alma que se sente transgressora de uma ordem divina ir\u00e1 se prender num trabalho que lhe proporcione um estado de sofrimento e tortura emocional e ps\u00edquica. \u00c9 importante fazer um autoexame para perceber se n\u00e3o se est\u00e1 nessa condi\u00e7\u00e3o punitiva de castigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem, recordemos que a origem da palavra &#8220;trabalho&#8221; vem do latim &#8220;<em>tripalium<\/em>&#8220;, que era um instrumento romano de tortura. Assim, o &#8220;trabalho&#8221;, etimologicamente, est\u00e1 associado a algo penoso, ao cumprimento de uma pena, uma puni\u00e7\u00e3o ou condena\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a ideia que veio com os romanos no s\u00e9c. VI. Em tempos b\u00edblicos, mais antigos, o trabalho est\u00e1 ligado \u00e0s palavras &#8220;<em>avodah<\/em>&#8221; (hebraico) e &#8220;<em>latreia<\/em>&#8221; (grego), ambas com um sentido de servi\u00e7o sagrado, podendo ser traduzido por &#8220;adora\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;prestar culto&#8221; ou &#8220;fazer um sacrif\u00edcio aos deuses&#8221;. Esta a\u00e7\u00e3o estabelecia um culto, raiz da palavra CULTURA. Desta forma, refletimos: o que cultua o seu trabalho e que cultura estabelece? A quem tem sacrificado? <\/p>\n\n\n\n<p>Juntamente com a ideia sacrificial do trabalho, nasce a ideia de profiss\u00e3o. Todo Homem, em qualquer lugar do mundo, \u00e9 conduzido a escolher uma profiss\u00e3o que forne\u00e7a sustento para a sua vida. O que poucos observam, no entanto, \u00e9 que \u201cprofiss\u00e3o\u201d \u00e9 \u201cprofessar\u201d, intimamente relacionado \u00e0 f\u00e9. Um trabalho que produz sustento \u00e9 uma profiss\u00e3o de f\u00e9; \u00e9 a confiss\u00e3o de uma cren\u00e7a. A profiss\u00e3o de f\u00e9 est\u00e1 intr\u00ednseca no ritual do trabalho. Imaginemos um sacerdote realizando o trabalho num templo da antiguidade, no qual declarava, ao mesmo tempo, as suas cren\u00e7as. Deste modo, o trabalho confirma a profiss\u00e3o. O trabalho \u00e9 o ato observ\u00e1vel no mundo concreto, enquanto a profiss\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 ou cren\u00e7a que reside no mundo subjetivo. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, em sua maioria (e nada h\u00e1 de mal nisso), o trabalho \u00e9 visado pelo sal\u00e1rio que oferece, pela viabilidade no Mercado e pela cren\u00e7a individual que permeia uma f\u00e9 que envolve desejos que abrangem apenas o indiv\u00edduo (casa pr\u00f3pria, carro, bens de consumo, status financeiro, lucro pessoal&#8230;), em conformidade com a doutrina capitalista. A f\u00e9 coletiva que visa o outro, por sua vez, \u00e9 um quesito pouco analisado na escolha de uma profiss\u00e3o e, a meu ver, \u00e9 esta f\u00e9 que faz um trabalho produzir justi\u00e7a e vida, pois n\u00e3o visa somente um lado (eu), mas tamb\u00e9m o outro lado (o outro). Talvez, isto fa\u00e7a sentido com o que o verso b\u00edblico diz: \u201c<em>o justo viver\u00e1 pela sua f\u00e9<\/em>!\u201d, de outro modo, h\u00e1 justi\u00e7a e vida quando um trabalho \u00e9 realizado em conjunto com uma profiss\u00e3o de f\u00e9 saud\u00e1vel; quando o trabalho (coletivo &#8211; outro) e profiss\u00e3o (indiv\u00edduo \u2013 eu) caminham juntos, como um exerc\u00edcio fiel a uma boa cren\u00e7a que n\u00e3o se atem somente a si mesmo. Este \u00e9 o bom trabalho: a realiza\u00e7\u00e3o de uma voca\u00e7\u00e3o sagrada. Ser m\u00e9dico deve ser uma \u201cprofiss\u00e3o de boa f\u00e9\u201d, e n\u00e3o um emprego por status; da mesma forma um escritor, um jornalista, um professor ou qualquer outro of\u00edcio. Assim, antes de visar o trabalho \u00e9 preciso reconhecer a cren\u00e7a que se tem em si, ou melhor, reconhecendo a sua cren\u00e7a, reconhece-se o seu trabalho, de modo que n\u00e3o se torne um instrumento de tortura ou apenas fonte de renda e dor insuport\u00e1vel. O sacrif\u00edcio do trabalho vale a pena quando unido \u00e0 profiss\u00e3o de f\u00e9. <\/p>\n\n\n\n<p>Todos t\u00eam alguma cren\u00e7a, basta descobrir se ela se volta para a humanidade, pois o trabalho \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Se somente houver cren\u00e7a pessoal, n\u00e3o haver\u00e1 voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 trabalho que sustenta a alma; haver\u00e1 somente um emprego, uma fonte de renda, e n\u00e3o de vida. Isto n\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o de si mesmo, \u00e9 apenas uma vis\u00e3o do outro como uma extens\u00e3o de si pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>Para auxiliar nesta reflex\u00e3o, cito o verso b\u00edblico \u2014 <em>\u201cMas algu\u00e9m dir\u00e1: Tu tens f\u00e9, e eu tenho obras; mostra-me essa tua f\u00e9 sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha f\u00e9.\u201d<\/em>\u00a0(Tiago 2.18) \u2014 e proponho a seguinte quest\u00e3o para que seja respondida no interior de cada um: \u201c<em>Qual f\u00e9 (cren\u00e7a) a tua obra tem revelado?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-circle-mask\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-1016x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31945\" width=\"125\" height=\"125\" srcset=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-1016x1024.jpg 1016w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-298x300.jpg 298w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-768x774.jpg 768w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-1524x1536.jpg 1524w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-696x702.jpg 696w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-1068x1077.jpg 1068w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n-417x420.jpg 417w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/169378234_10216591315970202_5445465300462970994_n.jpg 1999w\" sizes=\"(max-width: 125px) 100vw, 125px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Por Carlos Colect<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O teu trabalho \u00e9 fonte de vida ou fonte de renda? 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