{"id":32035,"date":"2021-04-29T08:59:08","date_gmt":"2021-04-29T11:59:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=32035"},"modified":"2021-04-29T08:59:11","modified_gmt":"2021-04-29T11:59:11","slug":"a-verdadeira-razao-pela-qual-as-estatuas-do-egito-tem-os-narizes-quebrados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/04\/29\/a-verdadeira-razao-pela-qual-as-estatuas-do-egito-tem-os-narizes-quebrados\/","title":{"rendered":"A verdadeira raz\u00e3o pela qual as est\u00e1tuas do Egito t\u00eam os narizes quebrados"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por v\u00e1rias d\u00e9cadas, este foi um mist\u00e9rio n\u00e3o solucionado entre especialistas e entusiastas do Antigo Egito, uma das civiliza\u00e7\u00f5es mais antigas e duradouras do mundo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, parece algo esperado: a passagem de milhares de anos torna inevit\u00e1vel o desgaste de qualquer obra. Mas por que havia tantas est\u00e1tuas imaculadas em que a \u00fanica parte que faltava era o nariz?<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez porque, afinal, se algo corre o risco de quebrar, \u00e9 aquela parte proeminente, a mais exposta.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, se for assim, como explicar que obras de representa\u00e7\u00e3o bidimensional geralmente apresentem os mesmos danos?<\/p>\n\n\n\n<p>O assunto deu origem a suposi\u00e7\u00f5es, incluindo uma hip\u00f3tese amarga que continua recorrente, embora tenha sido refutada: a de que teria sido uma tentativa dos colonialistas europeus de apagar as ra\u00edzes africanas dos antigos eg\u00edpcios.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, especialistas afirmam que essa teoria \u00e9 infundada, entre outras raz\u00f5es porque os narizes n\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica evid\u00eancia f\u00edsica dessas origens. E eles concordam que, apesar dos muitos horrores do imperialismo, este n\u00e3o seria um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, o que poderia ter acontecido?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Poderes-divinos\">Poderes divinos<\/h2>\n\n\n\n<p>A resposta mais confi\u00e1vel neste ponto se resume em uma palavra: iconoclastia (do grego Eikonoklasmos, que significa &#8220;quebra de imagens&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estamos falando dos seguidores da corrente do s\u00e9culo 8 que rejeitaram o culto \u00e0s imagens sagradas, destru\u00edram-nas e perseguiram aqueles que as veneravam. Nesse caso, o termo \u00e9 usado de forma mais ampla para se referir \u00e0 cren\u00e7a social na import\u00e2ncia da destrui\u00e7\u00e3o de \u00edcones e outras imagens ou monumentos, muitas vezes por motivos religiosos ou pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>E faz muito sentido quando voc\u00ea considera que, para os antigos eg\u00edpcios, as est\u00e1tuas eram o ponto de contato entre os seres divinos e os terrenos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/EE35\/production\/_118018906_gettyimages-513669549.jpg\" alt=\"Obra em homenagem ao deus Ptah, que \u00e9 mostrado no canto superior esquerdo, sentado em um santu\u00e1rio diante de uma mesa repleta de ofertas de comida. 19\u00aa Dinastia, por volta de 1200 AC\"\/><figcaption>Legenda da foto,Representa\u00e7\u00f5es bidimensionais tamb\u00e9m apresentam o mesmo tipo de danos, como nesta, da 19\u00aa Dinastia, por volta de 1200 a.C., em homenagem ao deus Ptah<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os antigos eg\u00edpcios acreditavam que as imagens poderiam abrigar poder sobrenatural, como explica Edward Bleiberg, o curador s\u00eanior de arte eg\u00edpcia, cl\u00e1ssica e do antigo Oriente M\u00e9dio do Museu do Brooklyn nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Bleiberg explorou a quest\u00e3o motivado pelo fato de que a indaga\u00e7\u00e3o mais comum dos visitantes do museu era &#8220;por que seus narizes est\u00e3o quebrados?&#8221;. Ele explica que as palavras &#8220;escultura&#8221; e &#8220;escultor&#8221; enfatizam que as imagens est\u00e3o vivas.<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra &#8220;escultura&#8221; significa literalmente &#8220;algo criado para viver&#8221;, enquanto um escultor \u00e9 &#8220;algu\u00e9m que lhe d\u00e1 vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Objetos que representavam a forma humana, em pedra, metal, madeira, argila ou mesmo cera, podiam ser ocupados por um deus ou um humano que faleceu e se tornou um ser divino, podendo assim atuar no mundo material.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto se conta sobre Hathor, a deusa do amor e da fertilidade, em uma inscri\u00e7\u00e3o nas paredes do templo de Dendera, provavelmente constru\u00eddo pelo Fara\u00f3 Pepy I (2310-2260 a.C):<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;(\u2026) Voa do c\u00e9u para entrar no Horizonte de sua Alma [isto \u00e9, seu templo] na Terra, voa em dire\u00e7\u00e3o ao seu corpo, se une \u00e0 sua forma.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso, a deusa imbui uma figura tridimensional, mas no mesmo templo fala-se sobre como Os\u00edris (um dos deuses mais importantes do Egito Antigo) se funde com uma representa\u00e7\u00e3o em relevo de si mesmo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Osiris&#8230; vem como um esp\u00edrito &#8230; Ele v\u00ea sua forma misteriosa representada em seu lugar, sua figura gravada na parede; entra em sua forma misteriosa, apoia-se em sua imagem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez ocupadas, as imagens tinham poderes que podiam ser ativados por meio de rituais. E tamb\u00e9m podiam ser desativados por danos deliberados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Mas-por-que-fazer-isso\">Mas por que fazer isso?<\/h2>\n\n\n\n<p>Os motivos eram muitos, desde raiva e ressentimento contra os inimigos que queriam ferir neste mundo e no pr\u00f3ximo, ao terror da vingan\u00e7a do defunto sentido pelos ladr\u00f5es de t\u00famulos, bem como o desejo de reescrever a hist\u00f3ria ou sonhos de mudar toda a cultura.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/11545\/production\/_118018907_gettyimages-463915843.jpg\" alt=\"Tutanc\u00e2mon com a coroa azul (sem nariz)\"\/><figcaption>Legenda da foto,Tutanc\u00e2mon com a coroa azul (sem nariz), s\u00e9culo 14 aC. Tutanc\u00e2mon reinou entre 1333 e 1323 a.C. e ele era um fara\u00f3 da 18\u00aa Dinastia do Antigo Egito<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando o pai de Tutanc\u00e2mon, Akhenaton, que governou entre 1353-1336 a.C, quis que a religi\u00e3o eg\u00edpcia girasse em torno de um deus, Aton, uma divindade solar, ele enfrentou um ser poderoso: o deus Amon.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua arma foi a destrui\u00e7\u00e3o de imagens.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o foi revertida quando Akhenaton morreu e o povo eg\u00edpcio retomou o culto tradicional: templos e monumentos em homenagem a Aton e o falecido Fara\u00f3 foram, desta vez, os que enfrentaram a destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas devemos lembrar que n\u00e3o eram apenas os deuses que podiam habitar as imagens, mas tamb\u00e9m os humanos que tinham morrido e, ap\u00f3s a longa e tortuosa jornada at\u00e9 o Sal\u00e3o da Dupla Verdade, demonstrado sua dec\u00eancia no Julgamento da alma, convertendo-se em seres divinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Saber que seus ancestrais continuam a acompanh\u00e1-lo apesar da morte pode ser reconfortante&#8230; mas tamb\u00e9m preocupante, principalmente se voc\u00ea for algu\u00e9m poderoso e n\u00e3o quiser que o passado o ofusque.<\/p>\n\n\n\n<p>E as lutas pelo poder costumam deixar cicatrizes.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Tutem\u00e9s III, que governou de 1479 a 1425 a.C, quis ter certeza de que seu filho o sucederia, ele tentou apagar sua antecessora e madrasta Hatshepsut da hist\u00f3ria, destruindo a evid\u00eancia f\u00edsica de sua exist\u00eancia. E ele quase conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Preocupa\u00e7\u00e3o-constante\">Preocupa\u00e7\u00e3o constante<\/h2>\n\n\n\n<p>Esses exemplos podem dar a impress\u00e3o de que isso s\u00f3 aconteceu em casos extremos, mas a destrui\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es de divindades ou humanos era t\u00e3o comum que, como documentou o egipt\u00f3logo Robert K. Ritner, era uma preocupa\u00e7\u00e3o constante no Egito Antigo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/16365\/production\/_118018909_gettyimages-182135282.jpg\" alt=\"Vizir Iimeru, est\u00e1tua de quartzito, vista frontal, altura 148 cm, Karnak. Civiliza\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia, Reino do Meio. Paris, Museu do Louvre\"\/><figcaption>Legenda da foto,Est\u00e1tua eg\u00edpcia: imagem mostra que falta o nariz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Entre os v\u00e1rios textos que expressam essa preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 um decreto real do Primeiro Per\u00edodo Intermedi\u00e1rio (cerca de 2130-1980 a.C):<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quem em toda esta terra fizer algo nocivo ou perverso \u00e0s suas est\u00e1tuas, lajes, capelas, carpintarias ou monumentos que se encontrem no recinto de algum templo, Minha Majestade n\u00e3o permitir\u00e1 que sua propriedade ou a de seus pais permane\u00e7am com eles, ou se junte aos esp\u00edritos da necr\u00f3pole, ou permane\u00e7a entre os vivos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os ataques contra os t\u00famulos eram igualmente graves e temidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem chamado Wersu de Coptos, que viveu durante a 18\u00aa Dinastia (por volta de 1539-1295 a.C), registrou uma amea\u00e7a que dizia:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quanto a qualquer um que ataque meu cad\u00e1ver na necr\u00f3pole, e que tire minha est\u00e1tua de meu t\u00famulo, [o deus do sol] R\u00e1 o odiar\u00e1. Ele n\u00e3o ter\u00e1 \u00e1gua do altar de [deus] Os\u00edris, ele nunca passar\u00e1 sua propriedade para seus filhos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"E-o-nariz\">E o nariz?<\/h2>\n\n\n\n<p>As mutila\u00e7\u00f5es tinham ent\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o de restringir o poder e isso poderia ser feito de diferentes maneiras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/2ECD\/production\/_118018911_gettyimages-483824865.jpg\" alt=\"A cabe\u00e7a de uma est\u00e1tua representando Cle\u00f3patra (69 a.C-30 a.C)\"\/><figcaption>Legenda da foto,Nem mesmo a bela Cle\u00f3patra (69 a.C-30 a.C) foi poupada<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea quisesse evitar que os humanos representados fizessem oferendas aos deuses, voc\u00ea poderia remover o bra\u00e7o que era comumente usado para tal tarefa: o esquerdo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea quisesse que o deus n\u00e3o os ouvisse, voc\u00ea removia as orelhas da divindade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se sua inten\u00e7\u00e3o era acabar com todas as possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o, separar a cabe\u00e7a do corpo era uma boa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez o m\u00e9todo mais eficaz e r\u00e1pido de realizar seus desejos fosse remover o nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O nariz era a fonte do f\u00f4lego, o f\u00f4lego da vida; a maneira mais f\u00e1cil de matar o esp\u00edrito interior era sufoc\u00e1-lo removendo o nariz&#8221;, explica Bleiberg.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns golpes de martelo e cinzel e o problema estava resolvido.<\/p>\n\n\n\n<p>O paradoxo, afinal, \u00e9 que essa compuls\u00e3o de destruir as imagens \u00e9 a prova de como elas foram importantes para aquela grande civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por v\u00e1rias d\u00e9cadas, este foi um mist\u00e9rio n\u00e3o solucionado entre especialistas e entusiastas do Antigo Egito, uma das civiliza\u00e7\u00f5es mais antigas e duradouras do mundo. \u00c0 primeira vista, parece algo esperado: a passagem de milhares de anos torna inevit\u00e1vel o desgaste de qualquer obra. 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