{"id":31880,"date":"2021-04-23T15:34:45","date_gmt":"2021-04-23T18:34:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31880"},"modified":"2021-04-23T15:34:48","modified_gmt":"2021-04-23T18:34:48","slug":"marinheiro-em-navio-abandonado-e-autorizado-a-deixar-embarcacao-apos-4-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/04\/23\/marinheiro-em-navio-abandonado-e-autorizado-a-deixar-embarcacao-apos-4-anos\/","title":{"rendered":"Marinheiro em navio abandonado \u00e9 autorizado a deixar embarca\u00e7\u00e3o ap\u00f3s 4 anos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>&#8220;Al\u00edvio. Alegria. Como me sinto? Como se finalmente tivesse sa\u00eddo da pris\u00e3o. Finalmente vou me reencontrar com minha fam\u00edlia. Vou v\u00ea-los novamente&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi essa a mensagem que Mohammed Aisha enviou \u00e0 BBC do avi\u00e3o na pista do aeroporto do Cairo, no Egito, antes de decolar de volta ao seu pa\u00eds-natal, a S\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>Terminava ali uma prova\u00e7\u00e3o de quase quatro anos, iniciada em 5 de maio de 2017, que afetou seriamente sua sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Aisha viveu durante esse tempo praticamente sozinho a bordo do cargueiro MV Aman, preso no Egito. Ele n\u00e3o podia deixar a embarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"In\u00edcio\">In\u00edcio<\/h2>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7ou em julho de 2017, quando o MV Aman foi retido no porto eg\u00edpcio de Adabiya. O motivo? Os documentos de seu equipamento de seguran\u00e7a e seus certificados de classifica\u00e7\u00e3o haviam expirado.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, n\u00e3o seria algo dif\u00edcil de resolver, mas os operadores libaneses do navio n\u00e3o pagaram pelo combust\u00edvel e seus propriet\u00e1rios, do Bahrein, estavam passando por dificuldades financeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o capit\u00e3o eg\u00edpcio do navio em terra, um tribunal local declarou Aisha, o oficial chefe do navio, o guardi\u00e3o legal do MV Aman.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/C57B\/production\/_118155505_mediaitem118155504.jpg\" alt=\"View of the bridge of the abandoned cargo ship MV Aman off Egypt's Red Sea coast\"\/><figcaption>Legenda da foto,MV Aman \u00e9 um navio cargueiro de 4 mil toneladas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Aisha, que nasceu no porto s\u00edrio mediterr\u00e2neo de Tartus, diz que n\u00e3o foi informado do significado do pedido e s\u00f3 descobriu meses depois, quando os outros tripulantes do navio come\u00e7aram a partir.<\/p>\n\n\n\n<p>Por quatro anos, Aisha se deparou com a vida &#8211; e a morte. Ele observou os navios passarem, entrando e saindo do vizinho Canal de Suez.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o recente bloqueio causado pelo gigante navio porta-cont\u00eaineres Ever Given, ele contou dezenas de navios esperando o engarrafamento diminuir.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele at\u00e9 viu seu irm\u00e3o, tamb\u00e9m marinheiro, passar mais de uma vez. Os irm\u00e3os falavam ao telefone, mas estavam muito distantes at\u00e9 para acenar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 2018, Aisha foi informado que sua m\u00e3e, uma professora respons\u00e1vel por seu excelente ingl\u00eas, havia morrido. Foi o pior momento para ele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Considerei seriamente acabar com minha vida&#8221;, disse \u00e0 BBC.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/161BB\/production\/_118155509_mediaitem118155508.jpg\" alt=\"Vista da costa do Mar Vermelho do Egito a partir do navio cargueiro MV Aman abandonado\"\/><figcaption>Legenda da foto,Aisha tinha que nadar at\u00e9 a praia se precisasse conseguir \u00e1gua pot\u00e1vel ou comprar comida<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em agosto de 2019, Aisha estava sozinho, exceto por um guarda ocasional, preso em um navio sem combust\u00edvel e, consequentemente, sem energia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele era legalmente obrigado a permanecer a bordo e n\u00e3o tinha qualquer remunera\u00e7\u00e3o, estava desmoralizado e se sentindo cada vez pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, o navio parecia um t\u00famulo \u00e0 noite.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o pode ver nada. Voc\u00ea n\u00e3o pode ouvir nada&#8221;, disse ele. &#8220;\u00c9 como se voc\u00ea estivesse em um caix\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 2020, uma tempestade tirou o Aman de seu ancoradouro. O navio flutuou cinco milhas (8 km), eventualmente encalhando a algumas centenas de metros da costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assustador na \u00e9poca, mas Aisha pensou que era um ato de Deus. Agora ele podia nadar at\u00e9 a praia a cada poucos dias, comprar comida e recarregar seu telefone.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Aisha-n\u00e3o-\u00e9-o-\u00fanico\">Aisha n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico<\/h2>\n\n\n\n<p>Por mais surpreendente que seja a hist\u00f3ria, sua experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 \u00fanica. Na verdade, o abandono de navios est\u00e1 aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, h\u00e1 mais de 250 casos ativos em todo o mundo em que as tripula\u00e7\u00f5es s\u00e3o simplesmente deixadas por conta pr\u00f3pria. A entidade afirma que 85 novos casos foram registrados em 2020, o dobro do ano anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, no porto iraniano de Assaluyeh, 19 membros da tripula\u00e7\u00e3o, em sua maioria indianos, do graneleiro Ula est\u00e3o em greve de fome depois que seu navio foi abandonado por seus propriet\u00e1rios em julho de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Um membro da tripula\u00e7\u00e3o disse recentemente ao jornal Lloyd&#8217;s List, especializado em not\u00edcias mar\u00edtimas, que a situa\u00e7\u00e3o a bordo era &#8220;muito cr\u00edtica&#8221;, com depress\u00e3o generalizada e as fam\u00edlias dos mar\u00edtimos ficando sem dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A primeira vez que me deparei com um desses casos, fiquei em choque total&#8221;, diz Andy Bowerman, diretor da Mission to Seafarers para o Oriente M\u00e9dio e Sul da \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/1139B\/production\/_118155507_mediaitem118155506.jpg\" alt=\"Mohammed Aisha a bordo do navio cargueiro abandonado MV Aman, na costa do Mar Vermelho do Egito\"\/><figcaption>Legenda da foto,Preso dentro do navio, Aisha foi informado da morte de sua m\u00e3e<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Falando de Dubai, ele viu isso acontecer v\u00e1rias vezes, geralmente pela mesma combina\u00e7\u00e3o de motivos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No momento, estamos trabalhando com um caso aqui, em que a empresa tem uma enorme hipoteca sobre o navio, mas suas d\u00edvidas v\u00e3o muito al\u00e9m disso. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes \u00e9 mais f\u00e1cil dizer \u00e0 tripula\u00e7\u00e3o para lan\u00e7ar \u00e2ncora e quase literalmente ir embora.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os propriet\u00e1rios do Aman, Tylos Shipping and Marine Services, dizem \u00e0 BBC que tentaram ajudar Aisha, mas que estavam de m\u00e3os atadas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o posso for\u00e7ar um juiz a remover a tutela legal&#8221;, diz um representante. &#8220;E n\u00e3o consigo encontrar uma \u00fanica pessoa neste planeta &#8211; e tentei &#8211; para substitu\u00ed-lo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Aisha, disseram eles, nunca deveria ter assinado o pedido em primeiro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mohamed Arrachedi, da Federa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores em Transporte (ITF, na sigla em ingl\u00eas), que assumiu o caso de Aisha em dezembro, argumenta que este deve ser um momento para todos na ind\u00fastria naval refletirem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/2D23\/production\/_118155511_mediaitem118155510.jpg\" alt=\"Navio de carga abandonado MV Aman na costa do Mar Vermelho do Egito\"\/><figcaption>Legenda da foto,Um tribunal eg\u00edpcio tornou Mohammed o guardi\u00e3o legal do Aman<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;O caso de Aisha tem que servir para abrir um debate s\u00e9rio para prevenir esses abusos aos mar\u00edtimos em navios&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate, acrescenta, deve envolver armadores, autoridades portu\u00e1rias e mar\u00edtimas e Estados de bandeira.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O drama e sofrimento de Mohammed Aisha poderiam ter sido evitados se os propriet\u00e1rios e as partes com responsabilidades e obriga\u00e7\u00f5es para com o navio tivessem assumido suas responsabilidades e providenciado sua repatria\u00e7\u00e3o mais cedo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, Aisha disse que se sentiu preso em uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era sua, encurralado pela lei eg\u00edpcia e ignorado pelos armadores. Ele disse que meses se passariam sem comunica\u00e7\u00e3o &#8211; fazendo-o se sentir decepcionado e isolado.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso seria o suficiente para que ele nunca voltasse ao mar, certo?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele est\u00e1 determinado. Aisha diz que \u00e9 bom em seu trabalho e n\u00e3o v\u00ea a hora de voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de encontrar sua fam\u00edlia, claro.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Al\u00edvio. Alegria. Como me sinto? Como se finalmente tivesse sa\u00eddo da pris\u00e3o. Finalmente vou me reencontrar com minha fam\u00edlia. Vou v\u00ea-los novamente&#8221;. Foi essa a mensagem que Mohammed Aisha enviou \u00e0 BBC do avi\u00e3o na pista do aeroporto do Cairo, no Egito, antes de decolar de volta ao seu pa\u00eds-natal, a S\u00edria. 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