{"id":31867,"date":"2021-04-22T11:34:54","date_gmt":"2021-04-22T14:34:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31867"},"modified":"2021-04-22T11:34:56","modified_gmt":"2021-04-22T14:34:56","slug":"a-interprete-que-descobriu-na-aula-de-libras-que-pastor-abusava-de-adolescente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/04\/22\/a-interprete-que-descobriu-na-aula-de-libras-que-pastor-abusava-de-adolescente\/","title":{"rendered":"A int\u00e9rprete que descobriu na aula de Libras que pastor abusava de adolescente"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Em seu primeiro dia de aula, a menina de 13 anos chega acompanhada de um homem \u00e0 escola nova, em um bairro de S\u00e3o Paulo, em 2016. Ele se apresenta como respons\u00e1vel pela adolescente e faz uma s\u00e9rie de imposi\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O col\u00e9gio era regular e com alunos de inclus\u00e3o, entre eles os que aprendem a L\u00edngua Brasileira de Sinais.<\/p>\n\n\n\n<p>A int\u00e9rprete J\u00falia* conta que estranhou a abordagem. Segundo ela, ele disse: &#8220;Eu sou pastor e cuido dos interesses da fam\u00edlia dela. Estou conversando porque quero que voc\u00ea me conte caso algum garoto se aproximar dela. Quero saber se tem menino mandando carta, essas coisas. Como ela foi abusada em outra escola, eu tenho essa preocupa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00falia disse respondeu de forma protocolar. &#8220;Em primeiro lugar, sou int\u00e9rprete e n\u00e3o me reporto a voc\u00ea. Se voc\u00ea tiver alguma d\u00favida, pode procurar a dire\u00e7\u00e3o da escola&#8221;. O homem desconversou, mas tentou abord\u00e1-la sobre o assunto outras vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Um m\u00eas depois, ela descobriu durante uma aula de libras que o homem abusava, quase diariamente, da garota. Ele pagava uma mensalidade de R$ 1.500 aos pais da adolescente para que ela dormisse na casa dele alguns dias por semana. Tudo revelado pela menina, segundo J\u00falia, em poucas semanas de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Um levantamento organizado pelo Instituto Liberta aponta que o Brasil registra cerca de 500 mil casos de explora\u00e7\u00e3o sexual infantil por ano. Isso ocorre quando um adolescente de 14 a 18 anos faz sexo com um adulto em troca de algo. O pa\u00eds s\u00f3 tem menos casos que a Tail\u00e2ndia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Sinais\">Sinais<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ter certeza do que ocorria, a int\u00e9rprete ficou atenta a uma s\u00e9rie de sinais. Especialistas em educa\u00e7\u00e3o e psicologia infantil disseram \u00e0 reportagem que tal atitude \u00e9 essencial para descobrir abusos. J\u00falia relatou que logo percebeu que a adolescente apresentava uma profunda tristeza desde os primeiros dias de aula, chamando a aten\u00e7\u00e3o pela fala desconexa e uma aparente ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela era uma adolescente muito bonita. Chamava muito a aten\u00e7\u00e3o dos meninos, mas por ser muda e estar num ambiente de maioria ouvinte, ocorre uma abertura maior com o int\u00e9rprete, que precisa ter essa sensibilidade e construir um elo de confian\u00e7a com o aluno&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, a int\u00e9rprete se aproximou da menina e identificou alguns desvios de comportamento. Ela lembra ter notado que a garota mentia em algumas situa\u00e7\u00f5es, por exemplo ao justificar aus\u00eancias, e dava sinais de que queria contar algo. Durante um m\u00eas, a adolescente registrou mais faltas do que presen\u00e7as na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionada, ela justificou as aus\u00eancias dizendo que dormia muito tarde por conta de cerim\u00f4nias religiosas de que participava na igreja, na qual o homem que a levava para a escola era pastor.<\/p>\n\n\n\n<p>Com mais intimidade, a adolescente ent\u00e3o perguntou para a professora o que ela achava de um homem se relacionar com uma menor de idade. E logo revelou que costumava dormir na casa do pastor, lembra J\u00falia. Os dois sozinhos, j\u00e1 que a mulher do l\u00edder religioso dormia no quarto ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Aquilo mexeu muito comigo porque era a mesma religi\u00e3o que a minha. Comecei a entrar em parafuso. Eu desconfiava desde o come\u00e7o, mas gradativamente ela come\u00e7ou a me contar que ele a levava para passear, como um casal&#8221;, contou J\u00falia.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem, enquanto isso, continuava insistindo para que a professora fizesse relat\u00f3rios sobre o comportamento da estudante.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/B67C\/production\/_116161764_gettyimages-1136980424.jpg\" alt=\"Garota sentada ao lado de parede\"\/><figcaption>Legenda da foto,Abuso infantil atinge milhares de crian\u00e7as por ano no Brasil<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Ele queria saber cada passo dela, como um gavi\u00e3o. \u00c9 diferente de um pai ou respons\u00e1vel preocupado. Por que uma menina que tem pai e m\u00e3e precisa de um homem para lev\u00e1-la para cortar o cabelo, levar para viajar?&#8221;, questiona.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00falia disse \u00e0 BBC que ent\u00e3o avisou o diretor da escola e eles descobriram que o documento de tutela que o pastor tinha entregado na escola era falso.<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia, conta a int\u00e9rprete, o pastor levou a mulher dele \u00e0 escola. A esposa parecia uma pessoa abatida, que olhava sempre para o ch\u00e3o, era inexpressiva e tinha uma postura corporal submissa ao marido.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina come\u00e7ou a confiar cada vez mais na int\u00e9rprete e a lhe contar detalhes da rotina com o pastor.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela queria me dizer algo de forma indireta, mas sem dizer claramente: &#8216;Eu transo com ele&#8217;. A inten\u00e7\u00e3o era pedir socorro, mas por outro lado deixava claro que gostava do conforto proporcionado por aquela situa\u00e7\u00e3o. Ela ganhava roupas e dinheiro, e isso fazia diferen\u00e7a na vida dela porque tinha irm\u00e3os e era pobre. Isso criava um conflito na mente dela&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>A int\u00e9rprete disse que a garota era levada de carro todos os dias pelo pastor. Ao ser questionada sobre a mulher dele, a garota respondia que ela praticamente n\u00e3o existia para o marido e que a via chorar frequentemente.<\/p>\n\n\n\n<p>A gota d&#8217;\u00e1gua para J\u00falia foi quando a aluna revelou que, al\u00e9m de acompanhar a garota \u00e0 consulta m\u00e9dica como se eles formassem um casal, o homem ainda orientava a adolescente sobre como ela poderia se prevenir de uma gravidez indesejada e manter cuidados \u00edntimos. No mesmo dia, J\u00falia acionou o Conselho Tutelar.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e da garota foi chamada e, segundo a int\u00e9rprete, ficou indignada com a den\u00fancia e tentou agredi-la. &#8220;Disse que eu estava inventando. A menina tamb\u00e9m negou tudo para a delegada, que percebeu e pediu exames de corpo de delito que comprovaram o abuso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Xingada-e-culpada\">Xingada e culpada<\/h2>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela (a m\u00e3e) me xingou, gritou e disse para n\u00e3o acreditarem em mim porque o pastor s\u00f3 queria ajudar a fam\u00edlia. Fomos para a delegacia fazer o exame de corpo de delito no mesmo dia e foi constatado que a menina tinha sido estuprada&#8221;, afirmou a professora.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/6C44\/production\/_116161772_gettyimages-637747858.jpg\" alt=\"Foto de garota em segundo plano\"\/><figcaption>Legenda da foto,Em depoimento a uma delegada, a garota negou tudo o que tinha contado \u00e0 professora, inclusive que o homem a tinha levado ao m\u00e9dico<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em depoimento a uma delegada, a garota negou tudo o que tinha contado \u00e0 professora.<\/p>\n\n\n\n<p>A int\u00e9rprete se afastou da escola por alguns dias. Quando voltou, soube que o caso estava sendo investigado e que a fam\u00edlia se mudaria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Um-problema-frequente\">Um problema frequente<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, J\u00falia diz que n\u00e3o tem not\u00edcias do caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurada pela BBC News Brasil, a Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo informou em nota que o caso foi investigado por uma delegacia da mulher e depois foi encaminhado \u00e0 Vara da Inf\u00e2ncia junto com os laudos periciais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Posteriormente, o processo administrativo e a A\u00e7\u00e3o Judicial Civil foram arquivados pelo Judici\u00e1rio&#8221;, encerra a nota enviada pela assessoria de imprensa do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A int\u00e9rprete, por\u00e9m, disse que esse n\u00e3o foi o primeiro caso de abuso que ela descobriu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em 2002, uma menina me contou que dormia com papai e a mam\u00e3e dela e que ele fazia &#8216;carinho&#8217; nela. Depois, ela me perguntou se \u00e9 normal sentir dor quando faz xixi. Eu disse que n\u00e3o. Ela foi levada para o Conselho Tutelar e exames apontaram que ela estava com HPV, contra\u00eddo do pr\u00f3prio pai&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>A presidente do Instituto Liberta, Luciana Temer, diz que o papel da escola \u00e9 muito importante para identificar casos de abuso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando voc\u00ea tem a informa\u00e7\u00e3o de que mais de 70% dos casos acontecem dentro da pr\u00f3pria resid\u00eancia, o papel da escola \u00e9 muito importante. Se voc\u00ea est\u00e1 nesse ambiente de seguran\u00e7a comprometido, qual outro lugar a crian\u00e7a pode buscar ajuda?&#8221;, questiona.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem esse contato com a escola, durante a pandemia, Luciana Temer acredita que a situa\u00e7\u00e3o tenha piorado.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a carga emocional absorvida pela int\u00e9rprete tamb\u00e9m teve um pre\u00e7o. Durante esses anos ap\u00f3s o abuso da aluna, a professora fez tratamento psicol\u00f3gico e recebeu apoio dos amigos. E, ao se lembrar do caso do pastor abusador, disse ter a sensa\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o cumprida. &#8220;Penso que ele n\u00e3o vai fazer mal pelo menos para essa fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta, por\u00e9m, ter se afastado do caso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Com a terapia, eu entendi que estou nesse ambiente, mas n\u00e3o sou dele. Eu s\u00f3 sou um canal e entendo minha fun\u00e7\u00e3o de fazer parte dessa intermedia\u00e7\u00e3o entre o aluno e os \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis. N\u00e3o me aproprio mais daquilo. Quando fiz isso, eu adquiri uma \u00falcera e pensei que fosse morrer. N\u00e3o que isso n\u00e3o me machuque ou afete, mas eu tento passar uma r\u00e9gua&#8221;, conta a int\u00e9rprete.<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil entrou em contato com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos, respons\u00e1vel pelos conselhos tutelares, mas a pasta disse que cada conselho \u00e9 independente e que n\u00e3o obteve mais detalhes sobre o caso.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Melhor-amigo\">Melhor amigo<\/h2>\n\n\n\n<p>Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, entre professores, acad\u00eamicos e conselheiros tutelares disseram que o professor \u00e9 a pessoa de maior confian\u00e7a da crian\u00e7a e do adolescente para denunciar casos de abuso e explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Instituto Liberta lan\u00e7ou h\u00e1 tr\u00eas anos um desafio para que os profissionais da educa\u00e7\u00e3o estadual de S\u00e3o Paulo fizessem projetos que denunciassem a viol\u00eancia sexual. Os vencedores tiveram a oportunidade de apresent\u00e1-lo na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, parceira do Instituto, e conhecer experi\u00eancias de outras escolas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/BCC6\/production\/_116162384__112375575_whatsubject-1.jpg\" alt=\"Menina sentada no canto de sala com urso nos bracos\"\/><figcaption>Legenda da foto,Na plataforma desenvolvida pelas professoras, o estudante escolhe um docente em quem ele confia e se identifica para conversar reservadamente duas vezes por semana<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um dos projetos vencedores do concurso Instituto Liberta foi uma plataforma de bate-papo desenvolvida pelas professoras Bruna Danielle Guimar\u00e3es Zafani e L\u00edvia Aparecida Alves, ambas de 32 anos. Elas d\u00e3o aulas para alunos do ensino m\u00e9dio em Ribeir\u00e3o Preto, no interior paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>Na plataforma, o estudante escolhe um docente em quem ele confia para conversar reservadamente duas vezes por semana. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 falar n\u00e3o apenas da vida acad\u00eamica, do ambiente escolar, mas tamb\u00e9m revelar situa\u00e7\u00f5es que os incomodam fora da escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis meses ap\u00f3s as rodas de conversa promovidas pelo grupo do Estado de S\u00e3o Paulo, houve um aumento de 300% no registro pelo sistema de ensino de ocorr\u00eancias de viol\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles fazem relatos pessoais. Falam sobre o relacionamento com os pais e at\u00e9 viola\u00e7\u00e3o sexual. Em um ano, recebemos relatos de abusos cometidos por padrasto, amigo do pai, tio e cunhado&#8221;, conta Bruna.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas dizem que a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 dar o exemplo para que outras escolas criem canais de comunica\u00e7\u00e3o entre professores e alunos. Para isso, Bruna e L\u00edvia criaram o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/anjosdosol\">canal &#8220;Anjos do Sol&#8221; no YouTube<\/a>&nbsp;para orientar outros professores.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3ximo passo \u00e9 criar um aplicativo para den\u00fancia r\u00e1pida e sigilosa. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer uma interface amig\u00e1vel, com desenhos e informa\u00e7\u00f5es para a v\u00edtima. Haver\u00e1 a op\u00e7\u00e3o para o aluno mandar uma mensagem pelo WhatsApp e at\u00e9 Instagram.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Durante a visita aos EUA, encontramos v\u00e1rias ONGs que combatem o abuso e viol\u00eancia infantil. O principal ponto \u00e9 seguir a Lei da Escuta Ativa, que \u00e9 fazer a crian\u00e7a ou adolescente relatar apenas uma vez o que ocorreu para evitar revitimiza\u00e7\u00e3o&#8221;, afirmou L\u00edvia Alves.<\/p>\n\n\n\n<p>A diretora do Instituto Liberta, Cristina Cordeiro, disse que contar diversas vezes um caso de abuso pode causar traumas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 casos em que as crian\u00e7as contam a situa\u00e7\u00e3o diversas vezes: para a professora, depois a um m\u00e9dico, delegada, e isso gera um grande desgaste emocional, que pode se tornar permanente. Para piorar, muitas vezes a fam\u00edlia n\u00e3o enxerga o abuso e imagina que \u00e9 algo bom para a filha de 13 anos ter um relacionamento com um fazendeiro rico&#8221;, afirma Cordeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O instituto criou uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/liberta.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Cartilha-Ta-na-Hora-Liberta.pdf\">cartilha<\/a>&nbsp;para orientar os profissionais de educa\u00e7\u00e3o sobre como tratar sobre o tema da explora\u00e7\u00e3o sexual na escola. O documento ensina como conversar com as v\u00edtimas e ainda quais condutas tomar a partir do momento em que recebem a den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Bruna Zafani diz que elas atenderam casos em que n\u00e3o apenas a fam\u00edlia apoiava, mas em que a v\u00edtima tamb\u00e9m se apaixonou pelo abusador.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela n\u00e3o entendia que era um abuso. Aprendeu que aquilo era uma rela\u00e7\u00e3o de carinho normal e inclusive ganhava presentes. Informar \u00e9 o primeiro passo. As v\u00edtimas muitas vezes n\u00e3o sabem o que \u00e9 um abuso, que est\u00e3o sendo sexualmente exploradas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Ambiente-seguro\">Ambiente seguro<\/h2>\n\n\n\n<p>Luciana Temer conta que, em uma parceria com a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, o Instituto Liberta criou nos \u00faltimos meses um site interativo com uma intelig\u00eancia artificial para identificar quando o aluno da rede p\u00fablica est\u00e1 deprimido. Ao chegar num n\u00edvel de tristeza estabelecido, ele pergunta se o adolescente gostaria de conversar com um professor e aciona um plantonista.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Identificamos 51 casos de viol\u00eancia sexual e 200 casos de outros tipos de viol\u00eancia nesse per\u00edodo. Isso demonstra a import\u00e2ncia \u00f3bvia de a escola ser um espa\u00e7o onde a crian\u00e7a possa pedir socorro. Sem escola, criamos uma solu\u00e7\u00e3o virtual e a gente gostaria que isso pudesse ser expandido&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Luciana Temer afirma que, em vez de contar aos plantonistas, muitos alunos preferiam falar com seu pr\u00f3prio professor quando havia uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A escola precisa estar aberta para ouvir esses alunos. O mais importante \u00e9 que a escola fale sobre viol\u00eancia sexual e sexualidade com crian\u00e7as e adolescentes. No Reino Unido, isso \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica e evita casos. Quando fala sobre o corpo do aluno e ele percebe alguma viola\u00e7\u00e3o nesse sentido, ele fala &#8216;n\u00e3o&#8217;. E nesse o adulto recua. Porque muitas vezes o adulto se usa da ignor\u00e2ncia da crian\u00e7a para atac\u00e1-la. Quando ela sabe que aquilo n\u00e3o \u00e9 um carinho e incomoda, ela resiste&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*O nome da int\u00e9rprete foi alterado para preservar sua identidade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu primeiro dia de aula, a menina de 13 anos chega acompanhada de um homem \u00e0 escola nova, em um bairro de S\u00e3o Paulo, em 2016. Ele se apresenta como respons\u00e1vel pela adolescente e faz uma s\u00e9rie de imposi\u00e7\u00f5es. 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