{"id":31799,"date":"2021-04-19T09:40:27","date_gmt":"2021-04-19T12:40:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31799"},"modified":"2021-04-19T09:40:33","modified_gmt":"2021-04-19T12:40:33","slug":"o-fenomeno-comovente-descoberto-por-medico-que-acompanha-pessoas-proximas-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/04\/19\/o-fenomeno-comovente-descoberto-por-medico-que-acompanha-pessoas-proximas-a-morte\/","title":{"rendered":"O fen\u00f4meno comovente descoberto por m\u00e9dico que acompanha pessoas pr\u00f3ximas \u00e0 morte"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Um dos elementos mais devastadores da pandemia do covid-19 tem sido a incapacidade de cuidar pessoalmente de entes queridos que ficam doentes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Repetidas vezes, familiares relataram como a morte de pessoas pr\u00f3ximas foi mais devastadora porque foram incapazes de segurar sua m\u00e3o para oferecer uma presen\u00e7a familiar e reconfortante em seus \u00faltimos dias e horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns tiveram que se despedir pela tela de um smartphone segurado por um profissional de sa\u00fade. Outros recorreram ao uso de walkie-talkies ou a acenos pela janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Como voc\u00ea pode superar a dor e a culpa avassaladoras que surgem quando voc\u00ea pensa em um ente querido morrendo sozinho?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho uma resposta para essa pergunta. Mas o trabalho de um m\u00e9dico de cuidados paliativos chamado Christopher Kerr, com quem escrevi o livro&nbsp;<em>Death Is But a Dream: Finding Hope and Meaning at Life&#8217;s End<\/em>&nbsp;(&#8220;A morte \u00e9 apenas um sonho: encontrando esperan\u00e7a e sentido no fim da vida&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), pode oferecer algum conforto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Visitantes-inesperados\">Visitantes inesperados<\/h2>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de sua carreira, Kerr foi incumbido, como todos os m\u00e9dicos, de se ater aos cuidados f\u00edsicos de seus pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele logo percebeu um fen\u00f4meno com o qual enfermeiras experientes j\u00e1 estavam acostumadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que os pacientes se aproximavam da morte, muitos tinham sonhos e vis\u00f5es de entes queridos falecidos que voltavam para confort\u00e1-los em seus \u00faltimos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Os m\u00e9dicos s\u00e3o treinados para interpretar esses eventos como alucina\u00e7\u00f5es delirantes ou induzidas por drogas que podem justificar mais medica\u00e7\u00e3o ou seda\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ao ver a paz e o conforto que essas experi\u00eancias de fim de vida pareciam proporcionar a seus pacientes, Kerr decidiu parar e escutar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/13B1D\/production\/_117496608_mediaitem117496602.jpg\" alt=\"Idosos na janela\"\/><figcaption>Legenda da foto,Muitos lares de idosos fecharam as portas para visitantes durante a pandemia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um dia, em 2005, uma paciente terminal chamada Mary teve uma dessas vis\u00f5es: ela come\u00e7ou a mover os bra\u00e7os como se estivesse embalando um beb\u00ea, ninando seu filho que havia morrido ainda crian\u00e7a d\u00e9cadas antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Kerr, isso n\u00e3o parecia decl\u00ednio cognitivo. E se, ele se perguntou, as percep\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios pacientes no fim da vida fossem importantes para o seu bem-estar de forma que n\u00e3o devessem interessar apenas a enfermeiros, capel\u00e3es e assistentes sociais?<\/p>\n\n\n\n<p>Como seria o atendimento m\u00e9dico se todos os m\u00e9dicos tamb\u00e9m parassem e escutassem?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"O-in\u00edcio-do-projeto\">O in\u00edcio do projeto<\/h2>\n\n\n\n<p>Assim, ao ver pacientes terminais chamarem seus entes queridos, muitos dos quais n\u00e3o viam, tocavam ou ouviam havia d\u00e9cadas, ele come\u00e7ou a coletar e registrar testemunhos daqueles que estavam morrendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de 10 anos, Kerr e sua equipe de pesquisa registraram as experi\u00eancias de fim de vida de 1,4 mil pacientes e fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele descobriu o espantou. Mais de 80% de seus pacientes, independentemente da classe social, origem ou faixa et\u00e1ria, tiveram experi\u00eancias no fim da vida que pareciam envolver mais do que sonhos estranhos. Eram v\u00edvidos, significativos e transformadores. E sempre aumentavam em frequ\u00eancia perto da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles inclu\u00edam vis\u00f5es de m\u00e3es, pais e parentes h\u00e1 muito tempo perdidos, assim como animais de estima\u00e7\u00e3o mortos voltando para confortar seus antigos donos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tratava-se de ressuscitar relacionamentos, reviver amores passados \u200b\u200be obter perd\u00e3o. Muitas vezes traziam tranquilidade e apoio, paz e aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Tecel\u00e3o-de-sonhos\">Tecel\u00e3o de sonhos<\/h2>\n\n\n\n<p>A primeira vez que ouvi falar sobre a pesquisa de Kerr foi em um est\u00e1bulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava ocupada limpando a baia do meu cavalo. Os est\u00e1bulos ficavam na propriedade de Kerr, por isso frequentemente convers\u00e1vamos sobre seu trabalho com os sonhos e vis\u00f5es de seus pacientes terminais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele me contou sobre sua palestra no TEDx sobre o assunto, assim como sobre o projeto do livro em que estava escrevendo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pude deixar de me emocionar com o trabalho desse m\u00e9dico e cientista.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ele revelou que n\u00e3o estava avan\u00e7ando muito na escrita, me ofereci para ajudar. Ele hesitou a princ\u00edpio. Eu era uma professora de ingl\u00eas especialista em desconstruir as hist\u00f3rias que outros escreveram, n\u00e3o em escrev\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<p>O agente dele estava preocupado com a possibilidade de eu n\u00e3o ser capaz de escrever de forma acess\u00edvel ao p\u00fablico, algo pelo qual os acad\u00eamicos n\u00e3o s\u00e3o exatamente conhecidos. Insisti, e o resto \u00e9 hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi essa colabora\u00e7\u00e3o que me tornou uma escritora.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/0685\/production\/_117496610_55e3f473-becd-4746-a1e9-d40a928bc1b8.jpg\" alt=\"M\u00e3o segurando cachorro\"\/><figcaption>Legenda da foto,Para muitas crian\u00e7as com doen\u00e7as terminais, pensar em seus animais de estima\u00e7\u00e3o proporciona conforto e al\u00edvio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Fui encarregada de incutir mais humanidade na not\u00e1vel interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que esta pesquisa cient\u00edfica representava, para dar um rosto humano aos dados estat\u00edsticos que j\u00e1 haviam sido publicados em revistas m\u00e9dicas.<\/p>\n\n\n\n<p>As comoventes hist\u00f3rias dos encontros de Kerr com seus pacientes e fam\u00edlias confirmaram como, nas palavras do escritor renascentista franc\u00eas Michel de Montaigne, &#8220;aquele que ensina os homens a morrer, ao mesmo tempo os ensina a viver&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei sabendo sobre Robert, que se via diante da perda de Barbara, sua esposa de 60 anos, e estava tomado por sentimentos conflitantes de culpa, desespero e f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, ele inexplicavelmente a viu pegando o beb\u00ea que haviam perdido d\u00e9cadas atr\u00e1s, em um breve per\u00edodo de sonhos l\u00facidos que lembravam a experi\u00eancia de Mary anos antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Robert ficou impressionado com a atitude calma e o sorriso de felicidade da esposa.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um momento de pura plenitude, transformando sua experi\u00eancia no processo da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Barbara estava vivendo sua partida como uma \u00e9poca de amor reconquistado, e v\u00ea-la reconfortada deu a Robert um pouco de paz em meio \u00e0 perda irremedi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/5750\/production\/_111225322_gettyimages-1203059636.jpg\" alt=\"Ala de covid-19 em hospital\"\/><figcaption>Legenda da foto,Muitos pacientes com covid-19 morreram sem poder receber a visita de familiares em hospitais durante a pandemia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para os casais mais velhos de que Kerr cuidava, ser separado pela morte ap\u00f3s d\u00e9cadas de uni\u00e3o era simplesmente imensur\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sonhos e vis\u00f5es recorrentes de Joan ajudaram a curar a ferida profunda deixada pela morte de seu marido meses antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela o chamava durante a noite e sinalizava sua presen\u00e7a durante o dia, inclusive em momentos de lucidez plena e articulada.<\/p>\n\n\n\n<p>Para sua filha Lisa, esses eventos significavam que o v\u00ednculo de seus pais era indestrut\u00edvel. Os sonhos e vis\u00f5es de sua m\u00e3e antes de morrer ajudaram Lisa em sua jornada rumo \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o, um elemento-chave no processamento da perda.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as crian\u00e7as est\u00e3o morrendo, geralmente s\u00e3o seus amados animais de estima\u00e7\u00e3o falecidos que aparecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jessica, de 13 anos, que estava morrendo de c\u00e2ncer nos ossos, come\u00e7ou a ter vis\u00f5es de seu antigo cachorro, Shadow. Sua presen\u00e7a a tranquilizou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vou ficar bem&#8221;, disse ela a Kerr em uma de suas \u00faltimas visitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a m\u00e3e de Jessica, Kristen, essas vis\u00f5es \u2014 e a tranquilidade resultante de Jessica \u2014 ajudaram a iniciar o processo ao qual ela vinha resistindo: deix\u00e1-la partir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Isolados-mas-n\u00e3o-sozinhos\">Isolados mas n\u00e3o sozinhos<\/h2>\n\n\n\n<p>O sistema de sa\u00fade \u00e9 dif\u00edcil de mudar. No entanto, Kerr espera ajudar os pacientes e seus entes queridos a resgatar o processo da morte \u2014 de uma abordagem cl\u00ednica para uma que seja apreciada como uma experi\u00eancia humana \u00fanica e rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sonhos e vis\u00f5es anteriores \u00e0 morte ajudam a preencher o vazio que, de outra forma, poderia ser criado pela d\u00favida e pelo medo que a morte evoca.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles ajudam os pacientes terminais a se reunirem com aqueles que amaram e perderam, aqueles que os protegeram, os apoiaram e trouxeram paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles curam velhas feridas, restauram a dignidade e recuperam o amor. Conhecer essa realidade paradoxal tamb\u00e9m ajuda os familiares a lidar com o luto.<\/p>\n\n\n\n<p>Com hospitais e asilos ainda fechados para visitantes devido \u00e0 pandemia de covid-19, pode ser \u00fatil saber que os pacientes terminais raramente falam sobre estar sozinhos. Eles falam sobre ser amados e voltar a ficar juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada substitui poder abra\u00e7ar nossos entes queridos em seus \u00faltimos momentos, mas pode ser um consolo saber que eles se sentem confortados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>* Carine Mardorossian \u00e9 professora de ingl\u00eas na Universidade de Buffalo, nos EUA.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Este artigo foi publicado originalmente no site de not\u00edcias acad\u00eamicas The Conversation e republicado aqui sob uma licen\u00e7a Creative Commons.\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/theconversation.com\/as-death-approaches-our-dreams-offer-comfort-reconciliation-154133\">Leia aqui a vers\u00e3o original (em ingl\u00eas)<\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos elementos mais devastadores da pandemia do covid-19 tem sido a incapacidade de cuidar pessoalmente de entes queridos que ficam doentes. 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