{"id":31709,"date":"2021-04-12T16:40:28","date_gmt":"2021-04-12T19:40:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31709"},"modified":"2021-04-12T16:40:32","modified_gmt":"2021-04-12T19:40:32","slug":"introducao-a-angustia-e-ansiedade-o-meio-do-caminho-por-carlos-colect","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/04\/12\/introducao-a-angustia-e-ansiedade-o-meio-do-caminho-por-carlos-colect\/","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 ang\u00fastia e ansiedade: O meio do caminho por Carlos Colect"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 evidente que nos dias atuais\nexperienciamos muita ang\u00fastia e ansiedade, duas sensa\u00e7\u00f5es que se interligam e\nse retroalimentam; duas irm\u00e3s que se originam no mesmo ventre da mudan\u00e7a de\nestado e posi\u00e7\u00e3o. Atualmente, muitos motivos perturbam os nossos pensamentos. O\ntempo nos atropela, vai adiante de n\u00f3s e o perdemos de vista. Ficamos desnorteados,\nsentindo os desconfortos do abandono, tentando alcan\u00e7ar um tempo veloz e\napressado, sem miseric\u00f3rdia pelos que ficam no meio da estrada. Esta \u00e9 uma das\ncaracter\u00edsticas originais da ang\u00fastia e ansiedade: sensa\u00e7\u00e3o de abandono no meio\ndo caminho. A sociedade humana est\u00e1 em transi\u00e7\u00e3o e, talvez, voc\u00ea tamb\u00e9m se\nsinta assim, sentado no meio da estrada, olhando para a imensid\u00e3o atr\u00e1s e para\no inalcan\u00e7\u00e1vel \u00e0 frente. <\/p>\n\n\n\n<p>Para o psicanalista Lacan\n(1901 \u2013 1981), a ang\u00fastia surge no\nmomento em que o sujeito est\u00e1 suspenso entre um tempo em que ele n\u00e3o sabe mais\nonde est\u00e1, em dire\u00e7\u00e3o a um tempo onde ele ser\u00e1 alguma coisa na qual jamais se\npoder\u00e1 reencontrar; para o fil\u00f3sofo Karl Jaspes (1883 \u2013 1969), o sentimento frequente e torturante \u00e9 a\nang\u00fastia. O medo se refere a alguma coisa. A ang\u00fastia \u00e9 sem objeto; por sua\nvez, Freud, segundo Fonseca (2009), em <strong>Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\n(1976)<\/strong>, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o entre ang\u00fastia, o perigo e o desamparo\n(trauma); a ang\u00fastia surge como uma rea\u00e7\u00e3o a um estado de perigo que pode levar\n\u00e0 viv\u00eancia de desamparo. <\/p>\n\n\n\n<p>Compreendo que este\ndesamparo nos remete ao afastamento da sensa\u00e7\u00e3o de completude, onde h\u00e1 uma\nperda da vis\u00e3o sobre si e nos sentimos perdidos em n\u00f3s mesmos, vazios de n\u00f3s\nmesmos, sem nenhuma imagem coerente diante do espelho. Este fen\u00f4meno \u00e9\ninaugurado na nossa primeira viagem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz, quando nos percebemos com\numa vis\u00e3o turva, sem percep\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o de onde estamos e do que nos\ncerca. Este epis\u00f3dio natal \u00e9 o epis\u00f3dio inaugural que traz a ang\u00fastia para a\nconsci\u00eancia e realidade do ser humano. Essa inaugura\u00e7\u00e3o, em concord\u00e2ncia com\nFreud, citado por Fonseca (2009), \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica do parto, na qual,\nem minha perspectiva, o vazio passa a ser vis\u00edvel na forma de um <em>umbigo<\/em>.\nO parto traz a ang\u00fastia \u00e0 consci\u00eancia sens\u00edvel, pois ela passa a ser sentida na\nrealidade da exist\u00eancia tang\u00edvel. <strong>O buraco umbilical <\/strong>se estabeleceno centro do\nnosso ser, como um campo energ\u00e9tico gravitacional, conduzindo-nos num ciclo\nvital de preenchimento. Tudo em nossa vida ser\u00e1 atra\u00eddo em dire\u00e7\u00e3o a esse\nmagnetismo central. Poder\u00edamos exemplific\u00e1-lo na imagem de um <em>buraco negro<\/em>\nque atrai tudo ao seu redor. <\/p>\n\n\n\n<p>A nossa trajet\u00f3ria pelo\ncanal vaginal, portanto, origina o \u201c<strong>angustus (ang\u00fastia)\u201d (latim), <\/strong>cujo significado \u00e9estreito,\napertado. A sua correspondente hebraica,<strong>\u05e6\u05e8\u05d4<\/strong> &nbsp;<strong><em>tsarah (hebraico)<\/em><\/strong>, carrega a ideia de <em>importunador<\/em>,\nproveniente da raiz <strong>\u05e6\u05e8\u05e8<\/strong>&nbsp; <strong><em>tsarar<\/em><\/strong><strong> <\/strong>\u2014 <em>&nbsp;atar, ser estreito, estar em aperto<\/em>, &#8230; .\nNa mesma ess\u00eancia, ang\u00fastia, no grego, \u00e9 <strong>\u03c3\u03c5\u03bd\u03bf\u03c7\u03b7\n<\/strong><strong><em>sunoche<\/em><\/strong><strong>, <\/strong>com o sentido de \u201ca parte\nestreita de um caminho\u201d. H\u00e1, aqui, a confirma\u00e7\u00e3o de algo que importuna\ninternamente e produz a sensa\u00e7\u00e3o de estreitamento, ou o de estar im\u00f3vel no meio\ndo caminho desconhecido, sem poder de a\u00e7\u00e3o e sujeito a for\u00e7as desconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio do caminho, a ang\u00fastia \u00e9 produzida na d\u00favida, no <strong><em>dubius (latim),<\/em><\/strong> palavra\nque prov\u00e9m do grego <strong><em>di<\/em><\/strong> e do latim <strong><em>bi<\/em><\/strong> (dois, duas vezes). Na hesita\u00e7\u00e3o\nentre duas possibilidades, foge a sensa\u00e7\u00e3o de controle e surge o desejo por\nt\u00ea-lo. Neste sentido, o forte desejo pelo controle que n\u00e3o se tem faz aumentar\na sensa\u00e7\u00e3o de aperto (ang\u00fastia). \u00c9 como estar num caminho estreito e se debater\nem busca de uma sa\u00edda, a fobia aumenta, ou seja, o estado do medo irracional \u00e9\nelevado, sendo esse o maior n\u00edvel da ansiedade. A for\u00e7a aplicada contra as\nparedes se volta para si mesmo, aumentando a press\u00e3o. Emocionalmente, isto\nsignifica uma autocobran\u00e7a em possuir o controle. Nisto, a ansiedade \u00e9 elevada\nnos pensamentos divididos, visto que em grego, ansiedade \u00e9 <strong><em>merizo<\/em><\/strong> \u2014 mente dividida,\nem partes. <\/p>\n\n\n\n<p>Hoje,\nnos m\u00faltiplos pap\u00e9is em que o ser humano precisa desempenhar e nas v\u00e1rias\npossibilidades de caminhos, sente-se a ang\u00fastia e a ansiedade. Estamos na era em\nque a mente precisa aprender a ser multifuncional, diferente das eras passadas,\nlugar de poucas op\u00e7\u00f5es de escolhas e fun\u00e7\u00f5es. Embora, estejamos na era\nmultifuncional, a mente ainda busca apenas uma fun\u00e7\u00e3o, um certo, um caminho,\numa vontade divina&#8230; produzindo um ser mais angustiado e ansioso. Talvez, esse\nseja o modelo registrado em nossa concep\u00e7\u00e3o de Ser, onde s\u00f3 h\u00e1 UM \u00f3vulo a ser\npenetrado por UM espermatozoide, ou por dois ou tr\u00eas em algumas exce\u00e7\u00f5es. A\nmente de antes n\u00e3o cabe no mundo de hoje, \u00e9 preciso se reinventar e isso leva\ntempo numa sociedade. Enquanto indiv\u00edduos, podemos tentar aliviar a press\u00e3o\ninterna da autocobran\u00e7a em ter o controle excessivo e perfeccionista. \u00c9 preciso\nquebrar as paredes que pressionam, \u00e9 preciso soltar as m\u00e3os sobre o pr\u00f3prio\npesco\u00e7o para aliviar o sufocamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Num\ns\u00e9culo de mudan\u00e7as e multifuncionalidades, a ansiedade \u00e9 considerada o seu mal.\nA mente n\u00e3o est\u00e1 mais fixa e est\u00e1vel &#8211; inteira num \u00fanico prop\u00f3sito, est\u00e1 se\ndividindo o tempo todo, em v\u00e1rios prop\u00f3sitos, possibilidades e momentos de\ndecis\u00f5es.\nTudo \u00e9 feito em partes neste modelo social, numa linha de produ\u00e7\u00e3o. Por\nexemplo, a mesa que antes era produzida apenas com um peda\u00e7o de madeira, hoje \u00e9\nfeita por partes &#8211; as pernas, o tampo, o assento&#8230; Da mesma forma, a mentalidade\nhumana est\u00e1 em partes, partida, dividida em v\u00e1rias tarefas, fun\u00e7\u00f5es e desejos.\nA \u00e2nsia da ansiedade aparece, provocada pela d\u00favida em cumprir este ou aquele desejo.\nEntre o desejo do dever do Id (princ\u00edpio imediato do prazer) e o desejo do dever\ndo Superego (princ\u00edpio da consci\u00eancia moral \u2013 leis internas). Desejos que a\nnossa alma inventa ou aceita das imposi\u00e7\u00f5es externas sociais. Enquanto a\nsenten\u00e7a n\u00e3o se cumpre e o desejo n\u00e3o \u00e9 saciado, o tempo vai \u201cpassando por\ncima\u201d e a alma continua sofrendo com o enjoo e, o corpo, com o desconforto. O\ndesejo \u00e9 como um filho semeado em nosso ventre, tem o tempo em que provoca\nenjoos. A ansiedade \u00e9 proporcional ao tamanho e a quantidade de desejos existentes\nem nossa alma. Quem muito deseja e quem muitos desejos tem, muito sofre com a\n\u00e2nsia. Quem muito quer fazer nascer o desejo, muito se angustia pelo n\u00e3o poder\nfaz\u00ea-lo. Muitos desejos dividem a nossa mente, tornam a nossa alma em partes. Quem\nsabe, por isso, a ansiedade agravada \u00e9 um grande mal na sociedade atual, pois <strong>ela\nimplanta na alma dos indiv\u00edduos muitos desejos que fazem brotar a d\u00favida\nconstante e cr\u00f4nica diante das muitas possibilidades que fazem adoecer de \u00e2nsia<\/strong>.\nEm rela\u00e7\u00e3o a alguns desejos, socialmente inventados ou implantados em n\u00f3s,\ncausadores de ansiedade, o melhor \u00e9 colocar o dedo na garganta e abort\u00e1-los.\nEntretanto, a respeito de outros desejos, vale esperar o seu tempo de\nconcep\u00e7\u00e3o. Em particular, cada indiv\u00edduo deve compreender a gesta\u00e7\u00e3o de seus\ndesejos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um de seus aspectos, a\nansiedade pode culminar numa crise de\nansiedade, tamb\u00e9m conhecida como s\u00edndrome do p\u00e2nico ou ansiedade generalizada,\ncujo organismo entra em um colapso provocado por uma grande descarga de\ncortisol e outras bioqu\u00edmicas, tendo como combust\u00edvel alguma lei interna n\u00e3o\ncumprida ou desejo reprimido e inaceit\u00e1vel precursora de uma cobran\u00e7a e culpa\nmental por senti-lo. H\u00e1, assim, dois desejos: um desejo inaceit\u00e1vel e outro desejo de n\u00e3o sentir o desejo inaceit\u00e1vel. Esse\nconflito pode ocorrer no campo inconsciente. Algu\u00e9m, por exemplo, pode ter um\ndesejo de matar a m\u00e3e (ou algu\u00e9m); outro pode ter um desejo sexual considerado\nimoral&#8230;. Embora pare\u00e7am desejos horr\u00edveis, podem ser bem comuns dentro de\nn\u00f3s. Esses desejos, ao serem reprimidos e negados, viram uma SOMBRA irracional\n\u2014 um monstro sem forma \u2014, que provoca um conflito interno (inconsciente)\ngerador de tens\u00e3o, cobran\u00e7a e culpa. Se\nhouver uma cren\u00e7a fortemente moral, a mente duelar\u00e1, disparar\u00e1 uma carga e apertar\u00e1\no bot\u00e3o do p\u00e2nico. \u00c9 preciso afrouxar as cordas do superego (consci\u00eancia moral\n&#8211; CREN\u00c7A moral) e resignificar os desejos. Os desejos em si n\u00e3o s\u00e3o bons ou\nruins; eles n\u00e3o t\u00eam idade, g\u00eanero ou sexo. A consci\u00eancia moral, estruturada\nsocialmente, \u00e9 que determina o que \u00e9 inaceit\u00e1vel ou aceit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos\nas estruturas do P\u00c2NICO, oriundas do deus P\u00c3 da mitologia grega. Significa\n&#8220;medo de P\u00e3&#8221;. Essa figura mitol\u00f3gica \u00e9 tamb\u00e9m conhecida como Fauno,\num ser com chifres e p\u00e9s de bode. \u00c9 considerado o deus dos bosques e da\nnatureza. T\u00e3o horr\u00edvel \u00e9 a sua apar\u00eancia que sua m\u00e3e o abandonou ao dar a luz.\nEm certo momento da hist\u00f3ria, a Igreja o colocou como personifica\u00e7\u00e3o do Diabo.\nNo campo psicol\u00f3gico da crise de ansiedade ou s\u00edndrome do P\u00c2NICO, pode-se\nassociar ao contexto mitol\u00f3gico de P\u00c3, visto que o mesmo est\u00e1 relacionado as\nfor\u00e7as da natureza, isto \u00e9, as for\u00e7as do instinto ou paix\u00f5es primitivas (raiva,\n\u00f3dio, desejo sexual. &#8230;). Desta forma, um dos fatores que alimenta o momento\ndo p\u00e2nico \u00e9 o medo de P\u00c3, ou o medo das paix\u00f5es primitivas, as quais s\u00e3o partes\nconstituintes da humanidade. Trata-se, portanto, de um afastamento da pr\u00f3pria\nhumanidade, devido \u00e0s cren\u00e7as r\u00edgidas e perfeccionistas estabelecidas,\nsobretudo, por arqu\u00e9tipos como o HER\u00d3I e o SALVADOR. As pessoas possu\u00eddas por\nesses arqu\u00e9tipos (ou personalidades) e por uma estrutura ps\u00edquica da Neurose\n(superego ou consci\u00eancia moral castradora) tendem a ter um desejo dual sobre\nsuas paix\u00f5es, tal como \u00e9 no mito de P\u00c3. A imagem do deus causa <em>espanto e atra\u00e7\u00e3o<\/em>. H\u00e1 uma cobran\u00e7a e um\nconflito interno de atra\u00e7\u00e3o e fuga, por isso a palavra FOBIA (PHOBOS &#8211; FUGA).\nNa mente, existe, consciente ou inconsciente, um desejo ou emo\u00e7\u00e3o que se quer,\nmas que, ao mesmo tempo, torna-se inaceit\u00e1vel. Ex: quero matar meu pai, mas n\u00e3o\ndevo; quero fazer sexo, mas n\u00e3o devo; odeio meu filho, mas n\u00e3o devo&#8230;. Neste\ncaso, \u00e9 preciso despossuir-se dos arqu\u00e9tipos heroicos, tendo consci\u00eancia da exist\u00eancia\ndessas for\u00e7as e aceitando as paix\u00f5es primitivas como parte da humanidade sem, entretanto,\nviver apenas as paix\u00f5es, e sim subjuga-las a compreens\u00e3o da racionaliza\u00e7\u00e3o,\npara gerar um estado de <em>Eudaimonia<\/em> \u2014\n&#8220;o estado de ser habitado por um bom <em>daemon<\/em>,\num bom g\u00eanio&#8221; \u2014, segundo o bem estar compreendido pelos fil\u00f3sofos\nestoicos. <\/p>\n\n\n\n<p>A fuga,\nreferida acima, gera uma crise identit\u00e1ria, uma das bases da crise de\nansiedade, isto \u00e9, identidades ou personalidades se conflitam entre si. \u00c9 o\nmomento em que a m\u00e1scara (persona ou personalidade arquet\u00edpica social \u2013 her\u00f3i,\nsalvador, vingador, mestre,&#8230;), colocada pelo indiv\u00edduo para ocultar uma\nidentidade indesejada, come\u00e7a a ser confrontada. A identidade indesejada, reprimida\nna inf\u00e2ncia e soterrada, quer se manifestar, mas a identidade da m\u00e1scara social\n(falso self ou falso ego) n\u00e3o permite, produzindo um colapso. A mente se divide\n( = <em>merizo<\/em> gr. = ansiedade) no\nconflito entre os desejos aparentemente opostos, como j\u00e1 visto. \u00c9 como se a\nmente dissesse &#8220;Eu tenho uma m\u00e1scara, quero tirar, mas n\u00e3o consigo&#8230;\nquero poder ser diferente, mas n\u00e3o consigo&#8230;&#8221;. Em outra perspectiva, a\nm\u00e1scara arquet\u00edpica tem autonomia e vida pr\u00f3pria, e &nbsp;carrega o peso de uma <em>kenodoxia<\/em>, isto \u00e9, um tipo de ostenta\u00e7\u00e3o e endeusamento que cobra\nobedi\u00eancia e fidelidade do indiv\u00edduo. A pessoa se sente presa no dever de ser\nde uma certa forma, querendo, ao mesmo tempo, ser de outra. \u00c9 preciso,\nportanto, compreender e aceitar as duas facetas ou personalidades. Entendendo\nque ambas coexistem e podem se manifestar. O lado &#8220;bom&#8221; e o lado\n&#8220;mau&#8221; podem conviver sem a culpa exacerbada. Para tal, \u00e9 necess\u00e1rio\num processo profundo de autoreconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de\ncontinuarmos no tema da crise f\u00f3bica da ansiedade, creio ser interessante\nadentrarmos alguns conceitos acerca do medo, visto que a ansiedade funciona\ndentro do mecanismo cerebral do medo. O psic\u00f3logo C\u00e9sar Coneglian, em uma de\nsuas explana\u00e7\u00f5es, comenta sobre tr\u00eas palavras no Novo Testamento que fazem\nrefer\u00eancia ao Medo. S\u00e3o elas: <strong><em>Deilia,\nEulabeia e Phobos<\/em><\/strong>. Seguindo o pensamento do colega, <em>Deilia<\/em> diz respeito a covardia\ne timidez; <em>Eulabeia<\/em> compreende a\nprud\u00eancia e <em>Phobos<\/em> \u00e9 entendido como a\nfobia e paralisia, a qual tamb\u00e9m envolve a timidez de <em>Deilia<\/em>. Portanto, <em>Eulabeia<\/em>\ncorresponde ao medo natural da sobreviv\u00eancia, aquele que nos faz refletir sobre\nse podemos avan\u00e7ar ou n\u00e3o diante de uma situa\u00e7\u00e3o. <em>Deilia<\/em>, por sua vez, \u00e9 quando nos tornamos t\u00edmidos diante dessa\nsitua\u00e7\u00e3o e n\u00e3o avan\u00e7amos. <em>Phobos<\/em> \u00e9 a\ntimidez que tamb\u00e9m paralisa, no entanto, a diferen\u00e7a entre <em>Phobos<\/em> e <em>Deilia<\/em> \u00e9 a\nagressividade, visto que <em>Phobos<\/em>\nsignifica &#8220;fazer fugir&#8221;. Sendo assim, a fobia \u00e9 quando, al\u00e9m de paralisar\ndiante da situa\u00e7\u00e3o, eu tenho um desejo profundo de que aquilo fuja da minha\npresen\u00e7a, isto \u00e9, n\u00e3o quero falar sobre o assunto, n\u00e3o quero ver tal pessoa,\nn\u00e3o quero passar por aquela rua e, coloco-me numa posi\u00e7\u00e3o de agressividade e\nresist\u00eancia. <em>Deilia<\/em>, em contra\npartida, n\u00e3o \u00e9 um medo agressivo. Dentro deste contexto, <em>Eulabeia<\/em> \u00e9 o medo prim\u00e1rio e natural; \u00e9 o alerta prim\u00e1rio, o qual \u00e9\ndisparado no est\u00edmulo do t\u00e1lamo (centro sensorial) e na ativa\u00e7\u00e3o da am\u00edgdala\ncerebral e, a partir desse momento e segundo os conte\u00fados ps\u00edquicos\ninconscientes de cada indiv\u00edduo, haver\u00e1 a <em>Deilia<\/em>\nou o <em>Phobos<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s observarmos um pouco sobre as\nfacetas do medo, retornamos ao tema da crise f\u00f3bica e o uso de medicamentos. De\nacordo com a <strong>Revista Pesquisa Fapesp<\/strong>\n(Edi\u00e7\u00e3o 84, Fev, 2003), ao pesquisar sobre os estados mais severos da ansiedade\n\u2014 crises de p\u00e2nico \u2014, Giovannetti, da SBPSP (Sociedade Brasileira de\nPsican\u00e1lise de S\u00e3o Paulo), observa que mesmo com uma droga ideal, que atue\nsobre o glutamato ou o \u00f3xido n\u00edtrico (mensageiros qu\u00edmicos), \u201cde forma isolada,\nnenhum medicamento resolve o p\u00e2nico, a ansiedade e as fobias\u201d. \u201cOs rem\u00e9dios\najudam, mas n\u00e3o modificam a ess\u00eancia que gera o problema, porque o homem \u00e9 um\nser biol\u00f3gico, ps\u00edquico e social. A exist\u00eancia de cada um de n\u00f3s n\u00e3o reage\napenas a fatores org\u00e2nicos\u201d, comenta o psicanalista. A mat\u00e9ria da Fapesp afirma\nque a conclus\u00e3o do psiquiatra M\u00e1rio Eduardo Pereira foi semelhante durante o\ntratamento de portadores de transtorno de p\u00e2nico na Unicamp. \u201cEm geral, os medicamentos\neram \u00fateis para controlar as crises, mas isso era insuficiente para o\ntratamento cl\u00ednico desses indiv\u00edduos\u201d, declara. \u201cMuitos pacientes tinham medo\nde come\u00e7ar a usar a droga; outros, quando paravam o tratamento, apresentavam\nnovas crises, que gerava a necessidade do uso continuado do medicamento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A revista continua: <\/p>\n\n\n\n<p>Disposto a entender melhor o problema, Pereira\nembarcou em 1995 para um doutorado em psican\u00e1lise na Universidade Paris VII, na\nFran\u00e7a. Ao avaliar, agora sob o ponto de vista da psican\u00e1lise, portadores de\ntranstorno de p\u00e2nico atendidos da universidade entre 1984 e 1995, constatou a\npredomin\u00e2ncia de dois grupos distintos: o daqueles provenientes de fam\u00edlias\nsuperprotetoras, que viveram sempre num ambiente seguro, sem nunca ter de fato enfrentado\npor si mesmos a realidade da falta de garantias da exist\u00eancia; e outro, com\ncaracter\u00edsticas opostas, de membros de fam\u00edlias que encaravam os fatos do\ncotidiano como aterradores. \u201cCome\u00e7amos ent\u00e3o a compreender que, do ponto de\nvista cl\u00ednico, o tratamento medicamentoso s\u00f3 faz sentido caso se tenha uma\nvis\u00e3o mais ampla do indiv\u00edduo\u201d, comenta Pereira. \u201c\u00c9 preciso saber como surgem\nas crises e quais as dimens\u00f5es simb\u00f3licas e pessoais envolvidas em sua vida em\nconex\u00e3o com os ataques.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Certamente, muito h\u00e1 para ser falado acerca dos mecanismos da ansiedade e ang\u00fastia. Deixo, por\u00e9m, apenas uma introdu\u00e7\u00e3o, afirmando que n\u00e3o podemos desumanizar o estado ansioso e angustiado. Estas sensa\u00e7\u00f5es corporais, motivadas por fatores emocionais e neuros transmissores s\u00e3o defesas do nosso organismo, existem para a nossa sobreviv\u00eancia e crescimento. Segundo Freud (1923), \u201cSensa\u00e7\u00f5es de natureza agrad\u00e1vel n\u00e3o cont\u00eam nada que seja impulsionador, ao passo que as de desprazer t\u00eam esse fator no mais alto grau, as de desprazer impelem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a&#8230;\u201d. O medo, a ang\u00fastia, o vazio, a tristeza, a dor, o prazer e o sofrimento s\u00e3o sintomas da humanidade. N\u00e3o queira elimin\u00e1-los por completo. Eles nos lembram de que somos humanos e estamos vivos. Aprendamos a conviver com os sintomas. Assim, n\u00e3o podemos, jamais, viver sem estas sensa\u00e7\u00f5es. Todavia, precisamos nos atentar para o excesso dessa defesa natural e nos utilizarmos do nosso maior rem\u00e9dio \u2014 a respira\u00e7\u00e3o consciente e profunda \u2014, trazendo a mente para o agora, removendo-a do perigo, da amea\u00e7a inconsciente e da <em>preocupa\u00e7\u00e3o<\/em>, em outras palavras, da ocupa\u00e7\u00e3o do amanh\u00e3 e frustra\u00e7\u00e3o do agora, entendendo que a ansiedade n\u00e3o \u00e9 a incapacidade de estar no presente, e sim a incapacidade de contemplar-se e perceber-se no presente. A mente fica dividida entre uma vis\u00e3o do passado e o futuro, entre o olhar de uma crian\u00e7a interna ferida e um modelo futuro ideal. Nisto, o Eu, no presente, fica ocultado no sentimento de desamparo e perigo, fica est\u00e1tico no meio do caminho. Diante desse quadro, o melhor a se fazer, ainda que com dificuldade, \u00e9 racionalizar para inibir os estados infantis irracionais do sistema de sobreviv\u00eancia do medo, produzir um movimento, respirar e caminhar devagar, porque a vida \u00e9 caminho, \u00e0s vezes, pausa, nunca est\u00e1tica. <\/p>\n\n\n\n<p> <em>Por Carlos Colect \u2013 psicanalista\/fil\u00f3sofo<\/em><br> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 evidente que nos dias atuais experienciamos muita ang\u00fastia e ansiedade, duas sensa\u00e7\u00f5es que se interligam e se retroalimentam; duas irm\u00e3s que se originam no mesmo ventre da mudan\u00e7a de estado e posi\u00e7\u00e3o. Atualmente, muitos motivos perturbam os nossos pensamentos. O tempo nos atropela, vai adiante de n\u00f3s e o perdemos de vista. 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