{"id":31586,"date":"2021-03-24T13:01:35","date_gmt":"2021-03-24T16:01:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31586"},"modified":"2021-03-24T13:01:38","modified_gmt":"2021-03-24T16:01:38","slug":"depressao-pessoas-olham-a-propria-vida-como-se-fosse-uma-empresa-a-ser-medida-pelos-resultados-diz-psicanalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/24\/depressao-pessoas-olham-a-propria-vida-como-se-fosse-uma-empresa-a-ser-medida-pelos-resultados-diz-psicanalista\/","title":{"rendered":"Depress\u00e3o: &#8216;Pessoas olham a pr\u00f3pria vida como se fosse uma empresa a ser medida pelos resultados&#8217;, diz psicanalista"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Que nome tem o sofrimento de nossa \u00e9poca? Conversas do cotidiano, diagn\u00f3sticos e levantamentos mundiais afirmam que \u00e9 depress\u00e3o. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), mais de 300 milh\u00f5es de pessoas no mundo convivem com o transtorno mental, cuja incid\u00eancia aumentou mais de 18% entre 2005 e 2015.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A depress\u00e3o tem nomeado uma s\u00e9rie de formas, descri\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias distintas, mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que se sofria de outros nomes, mas a pr\u00f3pria recorr\u00eancia do diagn\u00f3stico da depress\u00e3o oferece pistas de como est\u00e1 nosso sistema de desejos e escolhas nos \u00faltimos 40 anos, explica o psicanalista Christian Dunker.<\/p>\n\n\n\n<p>Professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Dunker acaba de lan\u00e7ar o livro&nbsp;<em>Uma biografia da depress\u00e3o<\/em>&nbsp;(Paid\u00f3s). Depois de falar por milh\u00f5es, a depress\u00e3o ganha voz para documentar sua hist\u00f3ria e apresentar seus familiares, colocando em narrativa sua exist\u00eancia e suas rela\u00e7\u00f5es com trabalho, cultura e economia.<\/p>\n\n\n\n<p>O psicanalista, que \u00e9 coordenador do Laborat\u00f3rio de Teoria Social, Filosofia e Psican\u00e1lise da USP, onde pesquisa as formas de sofrimento no neoliberalismo, afirma que o foco em tarefas e resultados tem inibido as perguntas sobre o desejo de cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>As causas daquilo que faz sofrer deixaram de importar, e uma lista de sintomas passou a servir respostas onde deveria haver mais perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Depress\u00e3o e ansiedade acabam sendo duas formas de sofrer que v\u00e3o compactando a narrativa, a tal ponto que o sujeito acaba se resumindo a &#8216;eu sou um depressivo&#8217;. Faz parte da depress\u00e3o essa demiss\u00e3o de contar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e dividi-la com o outro&#8221;, afirma, em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso trouxe consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Durante 40 anos a gente olhou pra depress\u00e3o como meramente um efeito de d\u00e9ficit de neurotransmissores. Portanto, n\u00e3o fazia diferen\u00e7a como voc\u00ea fala da sua vida, pra quem, como voc\u00ea se entende. Agora estamos pagando a conta desses anos que, entre outras coisas, n\u00e3o investiram no que podemos chamar de inst\u00e2ncias protetivas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 uma profilaxia para a depress\u00e3o, ela precisa passar pelo cuidado consigo e com os pr\u00f3prios limites, explica o autor.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o precisamos de um batalh\u00e3o de psic\u00f3logos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento, de pr\u00e1ticas que transmitam para as pessoas que elas podem se cuidar e se prevenir, cada qual do seu jeito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira os principais trechos da entrevista:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Como a depress\u00e3o chegou ao posto de diagn\u00f3stico mais frequente para se descrever as formas de sofrimento mental em nossa \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Christian Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;Existem v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es para que a gente eleja uma determinada forma de sofrimento como aquela que melhor nos representa. Isso aconteceu ao longo da Hist\u00f3ria com a histeria, a hipocondria e a melancolia. D\u00e1 a impress\u00e3o de que essa palavra vai representando cada vez mais gente at\u00e9 que se esgota e precisa ser substitu\u00edda por outra, pois passa a representar tantas variantes de sofrimento que perde sua efic\u00e1cia em termos das gram\u00e1ticas de reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Depress\u00e3o&#8221; foi eleita, e n\u00e3o outra, principalmente porque desde os anos 70 ela \u00e9 uma forma de sofrimento onde o conflito n\u00e3o aparece como muito fundamental, mas, sim o jogo de intensidades: nossos afetos, \u00e2nimos, nossa motiva\u00e7\u00e3o. Isso passa a ser muito valorizado justamente nesse momento hist\u00f3rico em que as pessoas come\u00e7am a olhar para sua pr\u00f3pria vida como se ela fosse uma empresa, como se ela pudesse ser medida pelos resultados; a gente entra numa cultura de avaliacionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 70 inventam a ideia do&nbsp;<em>no limits&nbsp;<\/em>[n\u00e3o h\u00e1 limites], de que a gente pode e deve ser feliz, como diz a defini\u00e7\u00e3o de &#8220;sa\u00fade&#8221; pela OMS: o mais completo estado de bem-estar bio, ps\u00edquico e social. Se isso n\u00e3o \u00e9 uma idealiza\u00e7\u00e3o do que algu\u00e9m pode esperar da vida, ent\u00e3o n\u00e3o sei o que \u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com isso, aqueles que t\u00eam outro modo de funcionamento, que est\u00e3o em outro tempo, que n\u00e3o conseguem fazer frente \u00e0 l\u00f3gica do produzir e consumir, ganham visibilidade, porque \u00e9 como se estivessem ofendendo n\u00e3o s\u00f3 a si mesmos e aos familiares, mas a todos n\u00f3s e ao sistema. Algu\u00e9m que se recusa a sair da cama, algu\u00e9m que perdeu a vontade \u00e9 algu\u00e9m que perdeu o desejo numa cultura em que o desejo \u00e9 farto, livre e identificado com o consumo; da\u00ed a visibilidade dessa forma de sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/5D62\/production\/_117560932_gettyimages-961879814.jpg\" alt=\"Pessoa de cabelo preto e curto, sem rosto aparecendo, deitada em cama\"\/><figcaption>Legenda da foto,&#8217;Algu\u00e9m que se recusa a sair da cama, algu\u00e9m que perdeu a vontade \u00e9 algu\u00e9m que perdeu o desejo numa cultura em que o desejo \u00e9 farto&#8217;, aponta o psicanalista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Quais as consequ\u00eancias desse apagamento do conflito?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;Tem teorias que valorizam o conflito, mas h\u00e1 tamb\u00e9m aquelas que v\u00e3o dizer &#8220;olha, o conflito n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante&#8221;. Acho que essas outras maneiras de pensar s\u00e3o adequadas ao momento atual. Vamos lembrar de 1989, ano em que o muro de Berlim cai. \u00c9 o fim das utopias, da Guerra Fria, de um mundo em que a gente tinha uma geografia muito clara de direita e esquerda, Ocidente e oriente. Esse \u00e9 o mundo do conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa premissa vai sendo reduzida e aparece uma nova forma, que diz assim: no fundo, o conflito s\u00f3 existe pra quem n\u00e3o sabe gerenciar as coisas e n\u00e3o sabe se organizar. Porque em uma vida em estrutura de listas, em que o objetivo \u00e9 relativamente simples, o conflito que voc\u00ea tem \u00e9 local, como realizar tarefas e entregar resultados. Se a gente se orienta pra isso, n\u00e3o tem motivo pra se perguntar o porqu\u00ea dessa tarefa ou daquela outra; o foco \u00e9 no resultado, no fim. Com isso, a gente perde o foco no processo. Se voc\u00ea entregar o resultado, est\u00e1 bom.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Como isso aparece no dia a dia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;Se for pra virar a noite pra entregar a pauta, voc\u00ea vira a noite; se for pra trabalhar no fim de semana, voc\u00ea trabalha; se for pra prejudicar algu\u00e9m, voc\u00ea faz isso tamb\u00e9m. Ou seja, a gente foi criando um esquema de rela\u00e7\u00f5es profundamente ofensivo pra nosso cuidado de si e para nossa subjetividade. A desativa\u00e7\u00e3o do conflito deu muito resultado porque fez as empresas descobrirem que ao aumentar o sofrimento das pessoas, voc\u00ea aumenta o resultado e a performance.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso tamb\u00e9m foi acelerado pela linguagem digital e a forma\u00e7\u00e3o das comunidades virtuais. Se estou tendo um conflito com voc\u00ea, eu dou um delete, um&nbsp;<em>unfollow<\/em>, cancelo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o dois procedimentos b\u00e1sicos que t\u00eam muito a ver com a emerg\u00eancia da depress\u00e3o: diante da contrariedade, module a realidade: ent\u00e3o, mude de pa\u00eds, de casa, de relacionamento e de ambiente. O segundo \u00e9 altere a paisagem mental: tome uma coisa, cheire outra, tome outra pra dormir, acordar, transar&#8230; Se voc\u00ea tiver uma boa realidade constru\u00edda, tudo vai ficar bem. N\u00e3o, tudo vai ficar deprimido!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Por que a narrativa contempor\u00e2nea da depress\u00e3o \u00e9 marcada pela individualiza\u00e7\u00e3o do sofrimento, como &#8220;aquele que fracassa sozinho&#8221;, &#8220;fica \u00e0 margem&#8221; e &#8220;n\u00e3o performa suficientemente&#8221;?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;A depress\u00e3o tem um mecanismo importante que \u00e9 a autoavalia\u00e7\u00e3o. Freud falava que o supereu observa, julga e pune. O supereu \u00e9 uma interioriza\u00e7\u00e3o de uma certa vers\u00e3o da lei, frequentemente patol\u00f3gica e obscena. \u00c9 uma vers\u00e3o da lei que \u00e9 a sua lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Deleuze, Foucault e v\u00e1rios cr\u00edticos apontaram o momento em que voc\u00ea n\u00e3o precisa mais de um feitor te amea\u00e7ando e falando alto com voc\u00ea. Pelo contr\u00e1rio, o gestor \u00e9&nbsp;<em>soft<\/em>, ameno, tem valores human\u00edsticos. Mas ele sabe ativar em voc\u00ea essa autoavalia\u00e7\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 em todos n\u00f3s, mas vamos dizer, tem a prefer\u00eancia do deprimido.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estou falando com ela agora, ser\u00e1 que est\u00e1 sendo interessante?&#8221;. Quando me autoavalio, n\u00e3o estou mais com voc\u00ea, estou nesse circuito superegoico. Isso produz cansa\u00e7o porque \u00e9 como voc\u00ea levar uma vida dupla: estou com as pessoas e estou na paralela com essa contabilidade \u00edntima. A gente sabe que o cansa\u00e7o abre-se para uma correla\u00e7\u00e3o com a depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a ansiedade \u00e9 como fazer valer essa lei de que &#8220;eu controlo&#8221;. Eu controlo fora. Se n\u00e3o controlo, \u00e9 porque n\u00e3o tenho os meios, o dinheiro, o poder nem a fama pra fazer isso. E eu controlo dentro, tomando uma p\u00edlula, meditando.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ideia da controlabilidade vai transformar minha rela\u00e7\u00e3o com o desejo, ainda a ser nomeado, numa rela\u00e7\u00e3o com metas e coisas que posso contabilizar. Isso \u00e9 terr\u00edvel porque voltando ao processo depressivo, vou come\u00e7ar a me relacionar com meu desejo transformando-o em demandas, tarefas. Voc\u00ea come\u00e7a a se perguntar cronicamente &#8220;mas o que ser\u00e1 que eu quero?&#8221; e come\u00e7a a se responder numa via tipicamente depressiva que \u00e9 &#8220;eu n\u00e3o quero isso, eu n\u00e3o quero aquilo l\u00e1 tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso funciona como uma inibi\u00e7\u00e3o do desejo e j\u00e1 n\u00e3o consigo sair da cama. Estou me produzindo uma inibi\u00e7\u00e3o no desejo porque o desejo me provoca ansiedade, j\u00e1 que ela est\u00e1 ligada a m\u00e9tricas que n\u00e3o alcan\u00e7o. Disso decorre um rebaixamento do eu, um sentimento de inferioridade e a progress\u00e3o dessa culpabiliza\u00e7\u00e3o que t\u00e3o frequentemente caracteriza o depressivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem ainda a experi\u00eancia com o prazer. Um depressivo cruza uma certa fronteira quando come\u00e7a a perceber que tem um problema na capacidade de sentir prazer. Ele toma mesmo vinho, dan\u00e7a com mesma mulher, vai ao mesmo jogo, l\u00ea o mesmo livro e n\u00e3o tem aquela satisfa\u00e7\u00e3o que teve algum dia. Muitas vezes isso \u00e9 dado pela dificuldade do depressivo de sustentar cadeias mais extensas de satisfa\u00e7\u00e3o, que envolvem voc\u00ea ir encontrando satisfa\u00e7\u00e3o durante o processo e n\u00e3o s\u00f3 no fim. Uma coisa caracter\u00edstica s\u00e3o os prazeres r\u00e1pidos, curtos e que est\u00e3o \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed voc\u00ea vai ter a coliga\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida e t\u00e3o frequente do depressivo com o \u00e1lcool e com certas depend\u00eancias, como a de pornografia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/AB82\/production\/_117560934_gettyimages-149150133.jpg\" alt=\"Imagem com tra\u00e7os abstratos mostra duas cabe\u00e7as com engrenagens, fios e tomadas em volta. sugerindo a mente como uma maquinaria\"\/><figcaption>Legenda da foto,Como uma empresa, estamos gerindo nossos desejos e emo\u00e7\u00f5es como uma lista de tarefas, explica Dunker<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; No livro voc\u00ea aborda o quanto o conceito do que chamamos de ansiedade tamb\u00e9m foi passando por uma perda da historicidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;Sim, e provavelmente a depress\u00e3o e a ansiedade s\u00e3o uma coisa s\u00f3. S\u00e3o partes de um mesmo processo em que voc\u00ea tem sujeitos que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos de um polo ou de outro, mas a grande maioria trafega entre &#8220;eu me aproximo do desejo, isso me d\u00e1 uma crise de ansiedade&#8221; e &#8220;eu recuo do desejo e da\u00ed fa\u00e7o uma crise depressiva&#8221;. Pra sair da depress\u00e3o, eu volto para a ansiedade. S\u00e3o muitas as f\u00f3rmulas que combinam essas duas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a psican\u00e1lise, a ansiedade \u00e9 uma forma espec\u00edfica da ang\u00fastia, e ang\u00fastia tem uma dupla fun\u00e7\u00e3o: ela pode ser o in\u00edcio de um desejo, ou o ponto de recuo. Encontrei a ang\u00fastia: eu vou pra frente e me arrisco, ou eu volto e pelo menos protejo meu eu de sofrer. Esse circuito fica mais compreens\u00edvel se a gente juntar as coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o DSM [Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais, sistema de classifica\u00e7\u00e3o utilizado pela psiquiatria] separou e isso faz parte do universo que criou a depress\u00e3o, ou seja, a ideia de que os nossos transtornos mentais j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais estrutura narrativa, t\u00eam estrutura de lista. Tal e tal sintoma, ent\u00e3o \u00e9 depress\u00e3o. Tal e tal sintoma, ent\u00e3o \u00e9 ansiedade. Qual \u00e9 a causa? N\u00e3o importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Depress\u00e3o e ansiedade acabam sendo duas formas de sofrer que v\u00e3o compactando a narrativa, a tal ponto que o sujeito acaba se resumindo a &#8220;eu sou um depressivo&#8221;. Faz parte da depress\u00e3o esse d\u00e9ficit narrativo, essa demiss\u00e3o de contar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, sua vida, e dividi-la com o outro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; H\u00e1 alertas sobre a incid\u00eancia de depress\u00e3o durante e no p\u00f3s-pandemia. Voc\u00ea acha que estamos discutindo as perdas o Brasil est\u00e1 vivendo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;Se por um lado o descaso na condu\u00e7\u00e3o da crise sanit\u00e1ria pelo governo, o desd\u00e9m pelo luto e a aus\u00eancia de rever\u00eancia com pessoas que pertenciam \u00e0 cultura constituem uma trag\u00e9dia particular brasileira, por outro marcam a nega\u00e7\u00e3o do luto, que \u00e9 uma das vias pelas quais a depress\u00e3o tamb\u00e9m se instala.<\/p>\n\n\n\n<p>Tipicamente o sujeito diz &#8220;ah, n\u00e3o perdi nada, eu s\u00f3 ganhei. Isso s\u00e3o n\u00fameros, s\u00e3o curvas, isso a\u00ed n\u00e3o me afeta&#8221;. Mas afeta de um outro jeito, isso volta como uma depress\u00e3o inexplic\u00e1vel. Vamos ver os lutos que voc\u00ea deixou pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o da pandemia no Brasil, os primeiros dados de pesquisa foram de aumento massivo de depress\u00e3o, mas, na cl\u00ednica, curiosamente isso n\u00e3o se confirmou tanto assim. H\u00e1 casos de exce\u00e7\u00e3o, como quem est\u00e1 na frente de batalha ou os jornalistas; a\u00ed eu vejo realmente um aumento substancial de depress\u00e3o e ansiedade porque ligados ao contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro grupo muito extenso, a gente tem vidas que diminu\u00edram a sua acelera\u00e7\u00e3o e isso sempre tem um valor terap\u00eautico para o depressivo, porque ele est\u00e1 lutando contra a autoavalia\u00e7\u00e3o e um atraso cr\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o ao tempo do mundo. Estou sugerindo que muitos depressivos foram protegidos da sua depress\u00e3o pela quarentena, pelo &#8220;fica em casa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Da mesma forma, muito tem se falado sobre depress\u00e3o entre crian\u00e7as e adolescentes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;&nbsp;<\/strong>Uma crian\u00e7a de 4, 5 anos que n\u00e3o se d\u00e1 bem com a tela e que estava nesse momento de descoberta real do outro tridimensional. Ela teve acesso a um novo brinquedo e perdeu. Quando volta?<\/p>\n\n\n\n<p>E voc\u00ea vai ter no outro lado jovens que est\u00e3o no momento de &#8220;vou sair de casa, estou come\u00e7ando um novo momento de vida, me formando, entrando na faculdade&#8221;. Voc\u00ea tinha uma grande idealiza\u00e7\u00e3o numa cultura j\u00e1 marcada por um forte sentimento de desempenho e felicidade obrigat\u00f3ria. &#8220;Uhu, entrei na faculdade! Mas isso n\u00e3o \u00e9 uma faculdade. \u00c9 uma telinha, em que o cara aparece de vez em quando, nem olha na minha cara. N\u00e3o \u00e9 o que foi prometido&#8221;. Voc\u00ea vai encontrar a\u00ed alguns elementos prop\u00edcios para quadros ansiosos e depressivos porque n\u00e3o h\u00e1 partilha com o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou acrescentar um grupo a estes que voc\u00ea falou: o dos idosos, em que voc\u00ea tem, de fato, perdas que incitam a processos depressivos. Perdas reais, sem condi\u00e7\u00e3o de elabora\u00e7\u00e3o do luto. Dependendo, claro, da condi\u00e7\u00e3o de cada um, os idosos enfrentam situa\u00e7\u00f5es em que um ano a menos n\u00e3o tem reposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/0052\/production\/_111728000_tv060826234.jpg\" alt=\"Em foto tirada de cima, duas crian\u00e7as com seus livros did\u00e1ticos e um adulto mostrando algo no celular\"\/><figcaption>Legenda da foto,Christian Dunker aponta para a situa\u00e7\u00e3o desafiadora de crian\u00e7as pequenas que estavam descobrindo o &#8216;outro tridimensional&#8217; e, com a pandemia, perderam este &#8216;novo brinquedo&#8217;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Pensando nessa incid\u00eancia t\u00e3o massiva da depress\u00e3o, qual a import\u00e2ncia das pol\u00edticas p\u00fablicas de preven\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;Durante 40 anos a gente olhou pra depress\u00e3o como meramente um efeito de d\u00e9ficit de neurotransmissores. Portanto, n\u00e3o fazia diferen\u00e7a como voc\u00ea fala da sua vida, pra quem, como voc\u00ea se entende. Agora estamos pagando a conta de 40 anos que, entre outras coisas, n\u00e3o investiram no que podemos chamar de inst\u00e2ncias protetivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem que olhar para as situa\u00e7\u00f5es de sofrimento das pessoas. O sofrimento mal tratado vira sintoma. N\u00e3o precisamos de um batalh\u00e3o de psic\u00f3logos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento, de pr\u00e1ticas que transmitam para as pessoas que elas podem se cuidar e se prevenir da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, cada qual do seu jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja como \u00e9 dif\u00edcil inocular uma sa\u00fade p\u00fablica que n\u00e3o seja regra geral. Esse processo de encontrar os pr\u00f3prios mecanismos de prote\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o entrou na nossa cultura. A gente tem uma cultura de &#8220;v\u00e1 \u00e0 academia&#8221;, &#8220;coma verde&#8221;, mas quanto a cuidar de si, as pessoas n\u00e3o sabem por onde come\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Comece pela aten\u00e7\u00e3o ao sofrimento. N\u00e3o \u00e9 normal todo o sofrimento. Esse \u00e9 suport\u00e1vel? De onde ele vem? Professores, pais, todo mundo tem implica\u00e7\u00e3o nisso. Esse processo de aten\u00e7\u00e3o ao sofrimento envolve, por exemplo, aten\u00e7\u00e3o a processos de isolamento. Nem sempre algu\u00e9m que est\u00e1 num quarto jogando videogame est\u00e1 em isolamento, mas, \u00e0s vezes est\u00e1. \u00c0s vezes est\u00e1 fazendo isso para n\u00e3o ver os outros, e n\u00e3o como uma media\u00e7\u00e3o para estar com os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tem que ir l\u00e1 ver, conversar, investigar, porque voc\u00ea n\u00e3o vai bater o olho e ver que tem um problema. Isso tem a ver com como as pessoas narram, nomeiam. E evitar nomea\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis como &#8220;isso \u00e9 uma depress\u00e3o&#8221;: vai tomar antidepressivo. Rem\u00e9dio sem palavra n\u00e3o \u00e9 bom. Palavra, em rela\u00e7\u00e3o, protege. Principalmente quando a rela\u00e7\u00e3o consegue produzir certos efeitos protetivos, como intimidade (confian\u00e7a, porto seguro) e comunalidade (perten\u00e7o a um coletivo, um grupo, uma fam\u00edlia).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/F9A2\/production\/_117560936_livro.png\" alt=\"Capa de livro, com rosto triste desenhado\"\/><figcaption>Legenda da foto,Psicanalista e professor da USP acaba de lan\u00e7ar o livro &#8216;Uma biografia da depress\u00e3o&#8217; (Paid\u00f3s)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; No livro voc\u00ea destaca a import\u00e2ncia que o significante depress\u00e3o adquiriu a partir da Crise de 1929. Qual a rela\u00e7\u00e3o entre grandes crises econ\u00f4micas e a depress\u00e3o na sa\u00fade mental?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dunker &#8211;<\/strong>&nbsp;Aparentemente o significante depress\u00e3o foi antes usado na economia e depois na psicologia. Ele existia, mas adquiriu grande popularidade depois que as pessoas interpretaram um estado de mundo &#8211; falta de emprego, infla\u00e7\u00e3o, perda de valor, decaimento &#8211; como isso \u00e9 depress\u00e3o. N\u00e3o vamos ignorar as condi\u00e7\u00f5es que temos de linguagem, trabalho e desejo. O ano de 1973 \u00e9 quando pela primeira vez se aplica em um pa\u00eds &#8211; no Chile de Pinochet &#8211; as ideias do neoliberalismo da escola austr\u00edaca. Depois vieram Margaret Thatcher e Ronald Reagan e isso se tornou indiscut\u00edvel &#8211; &#8220;a economia \u00e9 isso, essa \u00e9 a lei geral, voc\u00ea tem que aceitar&#8221;. Isso foi at\u00e9 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que podemos datar o reinado da depress\u00e3o de 1973 a 2008. N\u00e3o que o neoliberalismo tenha passado &#8211; pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 mais vivo e exigindo mais de cada um de n\u00f3s -, mas, porque, em 2008, parece que come\u00e7amos a nos dar conta de que n\u00e3o est\u00e1 certo voc\u00ea impingir sofrimento ao outro para produzir mais e indefinidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que nome tem o sofrimento de nossa \u00e9poca? Conversas do cotidiano, diagn\u00f3sticos e levantamentos mundiais afirmam que \u00e9 depress\u00e3o. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), mais de 300 milh\u00f5es de pessoas no mundo convivem com o transtorno mental, cuja incid\u00eancia aumentou mais de 18% entre 2005 e 2015. A depress\u00e3o tem nomeado uma s\u00e9rie [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":31587,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":{"0":"post-31586","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/117560928_christiandunker.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31586"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31586"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31586\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31588,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31586\/revisions\/31588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31587"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31586"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31586"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31586"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}