{"id":31503,"date":"2021-03-22T09:26:04","date_gmt":"2021-03-22T12:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31503"},"modified":"2021-03-22T09:26:06","modified_gmt":"2021-03-22T12:26:06","slug":"covid-19-acentua-crise-do-setor-de-hemodialise-e-140-mil-brasileiros-correm-risco-sem-tratamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/22\/covid-19-acentua-crise-do-setor-de-hemodialise-e-140-mil-brasileiros-correm-risco-sem-tratamento\/","title":{"rendered":"Covid-19 acentua crise do setor de hemodi\u00e1lise e 140 mil brasileiros correm risco sem tratamento"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Em Tabo\u00e3o da Serra, na Grande S\u00e3o Paulo, o sistema de sa\u00fade municipal entrou em colapso no come\u00e7o desta semana: com os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do munic\u00edpio lotados por causa da pandemia, 12 pacientes morreram \u00e0 espera de uma vaga na rede estadual. Desses, segundo informou a Secretaria de Sa\u00fade do munic\u00edpio \u00e0 BBC News Brasil, cinco precisavam de hemodi\u00e1lise por causa de sobrecarga renal causada pela covid-19, mas todos morreram sem atendimento.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As mortes de Tabo\u00e3o da Serra s\u00e3o o pren\u00fancio de um segundo colapso de sa\u00fade que o Brasil pode viver em breve, causado pela falta de hemodi\u00e1lise, que hoje fornece suporte \u00e0 vida a 140 mil brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o que a reportagem ouviu ap\u00f3s consultar mais de 70 gestores de pequenas e m\u00e9dias cl\u00ednicas de hemodi\u00e1lise espalhadas por todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/162AA\/production\/_117549709_foto2-1.jpg\" alt=\"Equipe de Vit\u00f3ria do Santo Ant\u00e3o portando cartazes\"\/><figcaption>Legenda da foto,Setor de di\u00e1lise vive crise, que foi acentuada por pandemia de covid-19<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"\u00c0-beira-do-colapso\">&#8216;\u00c0 beira do colapso&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>A pernambucana Gabriella Moreira acaba de dar \u00e0 luz sua primeira filha. A jovem de 26 anos est\u00e1 viva por causa de tr\u00eas sess\u00f5es de hemodi\u00e1lise na semana, j\u00e1 que convive, desde o nascimento, com rins polic\u00edsticos e perdeu completamente a fun\u00e7\u00e3o renal aos 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua m\u00e3e lhe doou um rim que durou apenas cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 15, Gabriella fez hemodi\u00e1lise pela primeira vez, at\u00e9 receber um segundo transplante, dessa vez de um doador falecido. Mas o rim parou de funcionar um ano e meio depois, quando a mo\u00e7a tinha apenas 18 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, Gabriella faz pelo menos tr\u00eas sess\u00f5es de hemodi\u00e1lise na semana numa cl\u00ednica a 10 minutos de carro da sua casa, em Vit\u00f3ria do Santo Ant\u00e3o, em Pernambuco.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses oito anos de tratamento, fez faculdade, formou-se nutricionista, casou e engravidou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Minha filha \u00e9 um milagre porque \u00e9 mais dif\u00edcil para uma paciente renal cr\u00f4nica engravidar. Tudo que eu consegui conquistar de bom na minha vida eu devo \u00e0 hemodi\u00e1lise, sem ela eu n\u00e3o teria sobrevivido&#8221;, diz ela \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriella \u00e9 usu\u00e1ria do SUS e faz as sess\u00f5es de di\u00e1lise na Cl\u00ednica do Rim de Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/2E12\/production\/_117549711_foto7-2.jpg\" alt=\"Gabriela com jaleco de nutricionista\"\/><figcaption>Legenda da foto,Gabriella \u00e9 nutricionista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma unidade privada, mas que depende totalmente dos recursos que recebe do sistema p\u00fablico. Durante a gravidez, Gabriella fez seis sess\u00f5es de di\u00e1lise na semana, de segunda a s\u00e1bado, 24 sess\u00f5es no m\u00eas. Mas o SUS s\u00f3 pagou por 18 dessas sess\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O restante somos n\u00f3s que bancamos&#8221;, conta a nefrologista Suzana Morais de Oliveira Melo, gestora da cl\u00ednica. &#8220;Temos levado muitos preju\u00edzos, mas sabemos que se n\u00e3o dialisarmos o paciente pode morrer&#8221;, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>A cl\u00ednica onde Gabriella faz di\u00e1lise est\u00e1 endividada e corre o risco de fechar ainda em 2021. Se isso acontecer, Gabriella e outros 329 pacientes de seis munic\u00edpios ficar\u00e3o sem o atendimento e ter\u00e3o que ser transferidos pela Secretaria de Sa\u00fade local para unidades mais distantes, e 82 funcion\u00e1rios ser\u00e3o demitidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A unidade de seis s\u00f3cios atende no local h\u00e1 20 anos, com todos os pacientes vindos do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p>A gestora da cl\u00ednica conta que os preju\u00edzos v\u00eam se acumulando m\u00eas ap\u00f3s m\u00eas: &#8220;Nosso equil\u00edbrio financeiro j\u00e1 era apertado por causa da falta de reajuste da tabela do SUS h\u00e1 mais de quatro anos. A situa\u00e7\u00e3o se agravou demais na pandemia, com a subida astron\u00f4micas dos (pre\u00e7os dos) insumos e os custos de equipamentos novos de prote\u00e7\u00e3o e afastamentos de funcion\u00e1rios. Hoje, meus custos mensais s\u00e3o de R$ 930 mil, e minhas entradas s\u00e3o de R$ 860 mil&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A gest\u00e3o tem usado empr\u00e9stimos para honrar a folha de pagamento e feito todos os cortes poss\u00edveis: tr\u00eas m\u00e9dicos j\u00e1 foram demitidos. Exames complementares oferecidos aos pacientes, como raio-x e ultrassonografia, foram cortados.<\/p>\n\n\n\n<p>O almo\u00e7o, essencial para a recupera\u00e7\u00e3o no meio das sess\u00f5es cansativas de di\u00e1lise, foi substitu\u00eddo por um lanche. A cl\u00ednica tamb\u00e9m deixou de investir em novos equipamentos de di\u00e1lise, que ficam obsoletos em 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a gestora, os s\u00f3cios tamb\u00e9m n\u00e3o recebem remunera\u00e7\u00e3o h\u00e1 meses. &#8220;Antes eu ainda tirava R$ 6 mil por m\u00eas pra me sustentar, mas agora nem isso eu tenho mais. A minha vida pessoal se tornou um caos, eu e a cl\u00ednica estamos no limite&#8221;, afirma Suzana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Relatos-de-todo-o-pa\u00eds\">Relatos de todo o pa\u00eds<\/h2>\n\n\n\n<p>A realidade da cl\u00ednica de Vit\u00f3ria do Santo Ant\u00e3o, a 56 km do Recife, n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No Centro de Nefrologia de Itabaiana, no agreste sergipano, o cen\u00e1rio \u00e9 parecido. O nefrologista Jos\u00e9 Roberto Nogueira Lima pensa em fechar a cl\u00ednica nos pr\u00f3ximos seis meses por causa das d\u00edvidas com fornecedores de insumos m\u00e9dicos, que se acumulam.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nossos pacientes s\u00e3o muito pobres e s\u00f3 podem comer o que t\u00eam em casa, geralmente muita macaxeira, cuscuz e banana prata&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Os alimentos, ricos em s\u00f3dio e pot\u00e1ssio, s\u00e3o como veneno para um paciente renal cr\u00f4nico, que passa a precisar de mais sess\u00f5es de di\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/6B66\/production\/_117549472_foto3-1.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Roberto Nogueira Lima, gestor da cl\u00ednica em Itaiabana\/SE\"\/><figcaption>Legenda da foto,Jos\u00e9 Roberto Nogueira Lima pensa em fechar a cl\u00ednica em em Itaiabana (SE) por causa das d\u00edvidas com fornecedores de insumos m\u00e9dicos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Alguns dialisam cinco vezes na semana, mas o SUS s\u00f3 cobre quatro sess\u00f5es, o resto n\u00f3s bancamos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a cl\u00ednica fechar, 130 pacientes podem ficar sem atendimento e 32 funcion\u00e1rios podem ser demitidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de reajuste da tabela do SUS vem de anos. Recentemente, esse quadro foi agravado por uma longa lista de outros custos novos e sufocantes que a cl\u00ednica tem suportado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A caixa de 100 luvas cir\u00fargicas antes da pandemia custava R$ 5, agora custa por volta de R$ 90&#8221;, relata o m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>A heparina \u2014 subst\u00e2ncia usada para impedir coagula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea nas sess\u00f5es \u2014 hoje custa por volta de R$ 35 por ampola, diz Jos\u00e9 Roberto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Antes da pandemia, compr\u00e1vamos por R$ 14, R$ 15&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>De 70 gestores de unidades de di\u00e1lise em 15 estados brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil, 47 est\u00e3o enfrentando algum tipo de dificuldade para fazer os investimentos essenciais e honrar a folha de pagamento. Desses, 18 consideram reduzir a capacidade de atendimento, demitir funcion\u00e1rios ou at\u00e9 mesmo fechar as portas nos pr\u00f3ximos seis meses.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Pandemia-piorou-problema\">Pandemia piorou problema<\/h2>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 2020, quando eclodiu a crise do coronav\u00edrus, o pre\u00e7o dos insumos hospitalares disparou por causa das dificuldades de fornecimento do mercado chin\u00eas, do aumento da procura e da disparada do d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nossa empresa se endividou por causa da tremenda infla\u00e7\u00e3o dos insumos&#8221;, conta Karla Israel, gestora de uma cl\u00ednica em Manaus.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/B986\/production\/_117549474_foto4-1.jpg\" alt=\"Equipe da Cl\u00ednica de Itabaiana\"\/><figcaption>Legenda da foto,Equipe da Cl\u00ednica de Itabaiana, no agreste sergipano<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Ainda n\u00e3o recebemos pelos atendimentos de dezembro e janeiro, o custo dos insumos aumentou significativamente e o valor das sess\u00f5es de hemodi\u00e1lise do SUS est\u00e1 sem reajuste h\u00e1 muitos anos&#8221;, reclama Maria Am\u00e9lia Abdo Barreto, que administra uma cl\u00ednica em Adamantina (SP).<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio, &#8220;praticamente todos os prestadores de nefrologia (do Estado) est\u00e3o quebrados, n\u00e3o conseguem mais atender&#8221;, afirma o executivo Bruno Haddad, presidente da DaVita Tratamento Renal, uma das maiores multinacionais do ramo, que administra 76 cl\u00ednicas de di\u00e1lise no pa\u00eds, oito delas no estado fluminense.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Sufocamento-econ\u00f4mico-\">Sufocamento econ\u00f4mico<\/h2>\n\n\n\n<p>Das 820 unidades de di\u00e1lise abertas hoje no pa\u00eds, pelo menos 710 s\u00e3o privadas. Apesar disso, elas prestam servi\u00e7o ao SUS e s\u00e3o respons\u00e1veis por 85% dos atendimentos dos pacientes do sistema, conforme informa\u00e7\u00f5es do \u00faltimo Censo Nacional de Di\u00e1lise da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).<\/p>\n\n\n\n<p>As unidades privadas recebem do or\u00e7amento da sa\u00fade por procedimento realizado, com base numa tabela que n\u00e3o \u00e9 reajustada h\u00e1 quatro anos, e isso explica parte dos problemas que o setor vem experimentando: atualmente, o valor pago pelo SUS por sess\u00e3o de hemodi\u00e1lise \u00e9 de R$ 194,20.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo reajuste foi em janeiro de 2017, quando a remunera\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o passou de R$ 179,03 para o valor atual. Se corrigido pela infla\u00e7\u00e3o medida pelo IGP-M, em janeiro de 2021, esse valor deveria ser de R$ 281,63.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Carlos Oct\u00e1vio Ock\u00e9-Reis, economista do Ipea e especialista em economia da sa\u00fade p\u00fablica, o fen\u00f4meno de degrada\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica tem liga\u00e7\u00e3o direta com a emenda constitucional 95, a PEC do teto de gastos, que criou um novo modelo de financiamento do SUS a partir da infla\u00e7\u00e3o passada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A implanta\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica num pa\u00eds que j\u00e1 apresentava um sistema universal de sa\u00fade subfinanciado mostra seus resultados nefastos nas filas de cirurgia eletiva, consultas com especialistas e tratamentos de m\u00e9dia e alta complexidade como a di\u00e1lise. De l\u00e1 pra c\u00e1, o gasto p\u00fablico per capita com sa\u00fade vem diminuindo a passos largos&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/CA52\/production\/_117549715_foto1-1.jpg\" alt=\"Suzana Melo, gestora da Cl\u00ednica do Rim de Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o\/PE\"\/><figcaption>Legenda da foto,Suzana Melo, gestora da Cl\u00ednica do Rim de Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o (PE): &#8216;Temos levado muitos preju\u00edzos, mas sabemos que se n\u00e3o dialisarmos o paciente pode morrer&#8217;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio de arrocho de remunera\u00e7\u00f5es do SUS que a capacidade financeira das cl\u00ednicas de hemodi\u00e1lise tende a se debilitar mais. A salva\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos tem sido atender planos de sa\u00fade privados, que remuneram melhor, para equilibrar a defasagem do SUS e fechar a conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quem gere cl\u00ednica de di\u00e1lise sabe que uns 15% de pacientes de conv\u00eanio equilibram os 85% atendidos pelo SUS&#8221;, afirma Jos\u00e9 Roberto, da cl\u00ednica de Itabaiana (SE).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os grandes do mercado, a l\u00f3gica se assemelha: &#8220;uma cl\u00ednica que s\u00f3 atende pacientes do SUS n\u00e3o funciona. Mesmo uma cl\u00ednica com um mix razo\u00e1vel com conv\u00eanios particulares j\u00e1 sofre muito e n\u00e3o consegue se sustentar&#8221;, afirma o presidente da DaVita no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Aumento-de-impostos-\">Aumento de impostos<\/h2>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 2021, o governo do Estado de S\u00e3o Paulo revogou a isen\u00e7\u00e3o de ICMS sobre a venda de insumos m\u00e9dicos para cl\u00ednicas de hemodi\u00e1lise, passando a tribut\u00e1-los em 18%. A medida tem efeito no custo do atendimento em todo o pa\u00eds, j\u00e1 que o Estado concentra as principais unidades de fabrica\u00e7\u00e3o de insumos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s negocia\u00e7\u00e3o de nove meses com as principais entidades representativas do setor, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade liberou em 29 de dezembro de 2020, para estados e munic\u00edpios, um aporte \u00fanico de R$ 109 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Os recursos devem ser rateados entre as unidades de di\u00e1lise do pa\u00eds. S\u00e3o numerosos, no entanto, os relatos de que o dinheiro ainda n\u00e3o chegou onde deveria chegar. Dezenas de entrevistados e as entidades representativas tamb\u00e9m apontaram que os repasses regulares de dezembro tamb\u00e9m n\u00e3o foram pagos em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Endividamento-dos-pequenos\">Endividamento dos pequenos<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que as contas de numerosas unidades de todo o pa\u00eds t\u00eam se tornado deficit\u00e1rias, gestores pequenos e m\u00e9dios t\u00eam se endividado para pagar custos fixos, enquanto as grandes multinacionais investem recursos aguardando a melhora do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>O gestor da DaVita n\u00e3o quis entrar em detalhes sobre os planos de investimentos no pa\u00eds, mas afirmou que, apesar de o momento atual ser ruim, &#8220;a vis\u00e3o da DaVita para o Brasil \u00e9 de longo prazo, mas s\u00f3 acreditamos que isso seja poss\u00edvel com a melhora desse contexto. Os pequenos est\u00e3o quebrando e os grandes est\u00e3o tentando sobreviver&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a abertura do mercado brasileiro de sa\u00fade ao capital estrangeiro em 2015, grandes multinacionais como DaVita, Diaverum e Fresenius Medical Care t\u00eam feito um forte movimento de aquisi\u00e7\u00e3o de cl\u00ednicas de di\u00e1lise no Brasil, e j\u00e1 respondem por 15% do setor, conforme artigo intitulado &#8220;Perspectivas Globais de Di\u00e1lise: Brasil&#8221;, publicado em mar\u00e7o de 2020 na revista cient\u00edfica Kidney360, uma das publica\u00e7\u00f5es de nefrologia mais importantes do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas no primeiro semestre de 2020, a DaVita adquiriu oito cl\u00ednicas privadas no pa\u00eds, conforme informa\u00e7\u00f5es do site oficial da empresa.<\/p>\n\n\n\n<p>Se nos centros de maior renda as chances de sobreviv\u00eancia das cl\u00ednicas s\u00e3o maiores por causa da remunera\u00e7\u00e3o dos conv\u00eanios particulares e interesse de multinacionais nas regi\u00f5es mais rent\u00e1veis, \u00e9 nos interiores e regi\u00f5es de menor renda que a crise do setor tende a chegar ao paciente renal cr\u00f4nico com mais for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente o caso de Gabriella: &#8220;aqui em Vit\u00f3ria do Santo Ant\u00e3o, n\u00e3o tem cl\u00ednica de conv\u00eanio m\u00e9dico, eu n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de pagar por um, muito menos por uma hemodi\u00e1lise particular&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses lugares de menor renda, o SUS \u00e9 a \u00fanica fonte de financiamento poss\u00edvel para o setor de di\u00e1lise. No interior brasileiro, s\u00e3o comuns hist\u00f3rias de pacientes que precisam viajar at\u00e9 300 km para um munic\u00edpio maior, tr\u00eas vezes por semana, para fazer o tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O que pode acontecer nesses lugares mais vulner\u00e1veis se o subfinanciamento do setor persistir?<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Centros de Di\u00e1lise e Transplante (ABCDT), Marcos Vieira Alexandre, oferece um diagn\u00f3stico pessimista: &#8220;as cl\u00ednicas de di\u00e1lise ainda n\u00e3o receberam sequer os aportes de dezembro, quem n\u00e3o tem capital de giro est\u00e1 se endividando e os equipamentos est\u00e3o ficando velhos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vemos a chance de colapso do sistema, com unidades de di\u00e1lise fechando por todo o pa\u00eds. Isso vai gerar um problema de desassist\u00eancia s\u00e9rio e vai pressionar as vagas de interna\u00e7\u00e3o hospitalar dispon\u00edveis, que ser\u00e3o ocupadas por pacientes aguardando vagas de di\u00e1lise&#8221;, diz Alexandre.<\/p>\n\n\n\n<p>Bruno Haddad, da DaVita, vai mais longe: &#8220;s\u00e3o cinco anos sem reajustes e os custos m\u00e9dicos v\u00eam subindo a uma infla\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 17 a 20%. A pandemia s\u00f3 veio para intensificar essa situa\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Muito em breve, o SUS vai sofrer um colapso porque os pacientes n\u00e3o ter\u00e3o onde ser atendidos e migrar\u00e3o para os hospitais p\u00fablicos, que n\u00e3o t\u00eam capacidade de absorver nem 5% da demanda desse tipo de paciente &#8211; que piora muito r\u00e1pido quando n\u00e3o t\u00eam acesso aos cuidados&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriella Moreira conversa com os m\u00e9dicos que cuidam dela e sabe da possibilidade de a Cl\u00ednica do Rim de Vit\u00f3ria do Santo Ant\u00e3o fechar nos pr\u00f3ximos meses. &#8220;Estou muito nervosa, j\u00e1 tive crises de p\u00e2nico por causa disso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Se a cl\u00ednica fechar, talvez ela seja realocada para uma cl\u00ednica no Recife ou at\u00e9 em Caruaru, a duas horas de viagem da sua casa &#8211; se houver vagas.<\/p>\n\n\n\n<p>O paciente de di\u00e1lise costuma sair muito cansado de cada sess\u00e3o: &#8220;a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de ter corrido uma maratona, eu chego em casa mo\u00edda. Se precisar viajar pra longe tr\u00eas vezes por semana, vou ter que desistir da carreira de nutricionista e terei muita dificuldade de estar presente para minha filha&#8221;, desabafa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tenho medo de faltar vaga de hemodi\u00e1lise, mesmo longe de casa, e eu n\u00e3o ver a minha filha crescer, medo de morrer. Por agora, eu decidi viver e lutar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Tabo\u00e3o da Serra, na Grande S\u00e3o Paulo, o sistema de sa\u00fade municipal entrou em colapso no come\u00e7o desta semana: com os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do munic\u00edpio lotados por causa da pandemia, 12 pacientes morreram \u00e0 espera de uma vaga na rede estadual. 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