{"id":31433,"date":"2021-03-17T09:50:11","date_gmt":"2021-03-17T12:50:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31433"},"modified":"2021-03-17T09:50:12","modified_gmt":"2021-03-17T12:50:12","slug":"bolsocaro-o-que-explica-inflacao-mais-alta-para-os-mais-pobres-durante-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/17\/bolsocaro-o-que-explica-inflacao-mais-alta-para-os-mais-pobres-durante-a-pandemia\/","title":{"rendered":"&#8216;Bolsocaro&#8217;? O que explica infla\u00e7\u00e3o mais alta para os mais pobres durante a pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Em um ano de pandemia do coronav\u00edrus, os brasileiros (alguns mais que outros) viram os pre\u00e7os dos alimentos subirem. A alta da infla\u00e7\u00e3o virou alvo de campanha de cr\u00edticos ao governo do presidente Jair Bolsonaro, que espalharam cartazes em S\u00e3o Paulo com o termo &#8220;Bolsocaro&#8221;, com reclama\u00e7\u00f5es sobre disparada nos pre\u00e7os nos mercados.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de o pre\u00e7o em si ser igual para todo mundo, o tamanho do impacto dos aumentos varia para cada fam\u00edlia, de acordo com a chamada cesta de consumo \u2014 ou seja, depende dos grupos de produtos que elas costumam consumir e quanto do or\u00e7amento delas esses itens representam.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um ano de pandemia (mar\u00e7o de 2020 a fevereiro de 2021), a infla\u00e7\u00e3o sentida pelas fam\u00edlias brasileiras mais pobres foi de 6,75%.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa taxa representa o dobro do impacto para as fam\u00edlias mais ricas, de 3,43% no mesmo per\u00edodo, segundo os dados do indicador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) de infla\u00e7\u00e3o por faixa de renda.<\/p>\n\n\n\n<p>O indicador divide as fam\u00edlias brasileiras em seis faixas de renda e avalia como a infla\u00e7\u00e3o afeta, m\u00eas a m\u00eas, cada um desses grupos.<\/p>\n\n\n\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o da pesquisa considera como fam\u00edlias de renda muito baixa as que t\u00eam ganho domiciliar menor que R$ 1.650,50. E as fam\u00edlias classificadas como de renda alta s\u00e3o aquelas cujo ganho domiciliar \u00e9 superior a R$ 16.509,66.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"O-que-explica-a-diferen\u00e7a\">O que explica a diferen\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p>A economista Maria Andreia Lameiras, pesquisadora respons\u00e1vel pelo Indicador Ipea de Infla\u00e7\u00e3o por Faixa de Renda, explica que, antes da pandemia, o n\u00edvel de infla\u00e7\u00e3o era mais parecido entre as diferentes faixas de renda, com varia\u00e7\u00f5es mensais mais distribu\u00eddas em diferentes itens, em vez de uma press\u00e3o concentrada em um grupo de consumo espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Antes, as coisas iam se contrabalanceando, era mais parecido. A pandemia explode alta de pre\u00e7o de alimentos e joga para baixo o pre\u00e7o de servi\u00e7os.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E por que a alta em alimentos impacta mais os mais pobres? Porque essas fam\u00edlias gastam cerca de 25% de seu or\u00e7amento com alimentos em domic\u00edlio, enquanto os mais ricos gastam menos de 10% nessa categoria, segundo Lameiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator que explica essa disparidade, segundo a pesquisadora, \u00e9 que houve uma redu\u00e7\u00e3o em parte dos servi\u00e7os consumidos pelas fam\u00edlias mais ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles n\u00e3o s\u00f3 sofreram menos com alta dos alimentos, como se beneficiaram da queda do pre\u00e7o de servi\u00e7os&#8221;, disse. &#8220;Os mais ricos, que tinham parte do or\u00e7amento destinada a passeios, cinema, jantares, isso tudo eles pararam de consumir. Essa parcela do or\u00e7amento dessas fam\u00edlias foram preservadas. At\u00e9 gastos fixos, como mensalidade escolar, muitos col\u00e9gios particulares deram descontos nas mensalidades com o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Por-que-os-alimentos-ficaram-mais-caros\">Por que os alimentos ficaram mais caros<\/h2>\n\n\n\n<p>A alta de alimentos vista em 2020 \u00e9 explicada tanto por fatores internos quanto externos.<\/p>\n\n\n\n<p>Lameiras destaca que a pandemia levou muitas pessoas para casa, o que aumenta o consumo de supermercado, e lembra que houve um medo geral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de abastecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Al\u00e9m do aumento do consumo imediato, muitos pa\u00edses come\u00e7aram a ter medo de falta de abastecimento e o que aconteceu: pa\u00edses que produziam e exportavam parte da sua produ\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a diminuir ou ficar com a produ\u00e7\u00e3o interna. Ent\u00e3o teve aumento da demanda e, ao mesmo tempo, a oferta n\u00e3o consegue dar conta.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela lembra que, diferente de outros itens, o alimento \u00e9 um produto que voc\u00ea n\u00e3o tem como aumentar a oferta rapidamente. &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 colhendo uma coisa que plantou um ano atr\u00e1s, em outro cen\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Se o descasamento entre oferta e demanda ocorreu no mundo todo, no Brasil tamb\u00e9m entra no cen\u00e1rio a grande desvaloriza\u00e7\u00e3o do real. &#8220;A\u00ed, essa alta de alimentos no Brasil fica ainda maior, porque aquele alimento que tenho que importar fica mais caro e porque o produtor do gr\u00e3o, da carne, v\u00ea que \u00e9 mais vantajoso exportar do que vender para o mercado interno, porque ele vai receber em d\u00f3lar e acaba tendo rentabilidade muito maior&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O aux\u00edlio emergencial tamb\u00e9m entra nessa conta, na avalia\u00e7\u00e3o de Lameiras. &#8220;As vendas de supermercado cresceram ao longo de 2020, a ind\u00fastria de alimentos foi uma das poucas que subiram em 2020. Mesmo o alimento estando mais caro na prateleira, as pessoas compraram ele porque elas tinham renda, porque veio o aux\u00edlio emergencial&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2020, como forma de compensar impactos da pandemia principalmente para os trabalhadores informais, o governo criou o aux\u00edlio emergencial, que inicialmente tinha parcelas de R$ 600.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio deste ano, os benefici\u00e1rios ficaram sem uma defini\u00e7\u00e3o (e pagamentos) e, em mar\u00e7o,\u00a0o Congresso aprovou a PEC Emergencial, proposta de altera\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o que cria mecanismos para conter gastos p\u00fablicos e libera R$ 44 bilh\u00f5es extras para custear a volta do aux\u00edlio emergencial. O in\u00edcio do pagamento ainda depende da publica\u00e7\u00e3o de uma Medida Provis\u00f3ria pelo governo Jair Bolsonaro com as novas regras do benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>A disparidade entre a taxa de infla\u00e7\u00e3o dos mais pobres e dos mais ricos j\u00e1 chegou a ser maior em 2020, considerando o acumulado de janeiro a setembro. Naquele per\u00edodo, o aumento para as fam\u00edlias mais pobres (2,5%) foi mais de 10 vezes maior que a alta sentida pelas pessoas mais ricas (0,2%).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Impacto-no-dia-a-dia\">Impacto no dia a dia<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/AAE9\/production\/_114935734_gettyimages-157288292.jpg\" alt=\"arroz e feij\u00e3o\"\/><figcaption>Legenda da foto,Durante a pandemia, houve alta dos pre\u00e7os de alimentos, que afetam mais as fam\u00edlias mais pobres<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Junto com o desemprego, a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos indicadores da economia com impacto mais direto (e f\u00e1cil de ser percebido) na vida das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de outros aspectos da economia, a alta inflacion\u00e1ria puxada por alimentos est\u00e1 no dia a dia da popula\u00e7\u00e3o, aponta Lameiras. &#8220;Um dia ela vai l\u00e1 e a batata t\u00e1 R$ 5 e, no outro dia, t\u00e1 R$ 7. Isso est\u00e1 muito pr\u00f3ximo. Isso traz para ela a percep\u00e7\u00e3o de que a economia brasileira est\u00e1 mal.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto menor o or\u00e7amento familiar, menos margem a fam\u00edlia tem para acomodar eventuais aumentos nos pre\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando a gente fala de aumento de infla\u00e7\u00e3o, falamos que a situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias mais pobres est\u00e1 piorando&#8221;, diz. &#8220;Muitas vezes a alta at\u00e9 acontece por fatores ex\u00f3genos. N\u00e3o necessariamente uma alta de pre\u00e7os de alimentos est\u00e1 ligada a alguma pol\u00edtica errada do governo. Mas, para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, o que ela v\u00ea \u00e9 que o alimento est\u00e1 subindo na boca do mercado e o dinheiro dela t\u00e1 cada vez valendo menos. Isso de fato gera uma insatisfa\u00e7\u00e3o para essas fam\u00edlias.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Disparidade-da-infla\u00e7\u00e3o-deve-diminuir\">Disparidade da infla\u00e7\u00e3o deve diminuir<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de a infla\u00e7\u00e3o ter subido muito mais para os mais pobres em um ano de pandemia, o resultado de fevereiro (\u00faltimo dado dispon\u00edvel) \u00e9 diferente. Houve aumento de pre\u00e7o para as seis faixas de renda pesquisadas, mas os aumentos foram levemente maiores para as faixas de renda mais altas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro, segundo o relat\u00f3rio, &#8220;a maior contribui\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria, em todos os segmentos de renda, veio do grupo transportes, impactado pela alta de 7,1% dos combust\u00edveis&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as fam\u00edlias mais pobres, al\u00e9m do combust\u00edvel, houve impacto dos reajustes de 0,33% do \u00f4nibus urbano e de 0,56% do trem. Outra contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 alta da infla\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias com menor renda veio da habita\u00e7\u00e3o, que inclui aumentos de 0,66% dos alugu\u00e9is, de 1% da taxa de \u00e1gua e esgoto e de 3% do botij\u00e3o de g\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as mais ricas, houve uma alta em educa\u00e7\u00e3o, devido ao reajuste de 3,1% das mensalidades escolares. Na \u00e1rea de transportes, em contrapartida ao aumento do combust\u00edvel, a queda de 3,0% nos pre\u00e7os das passagens a\u00e9reas ajudou a atenuar o aumento para este grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>A infla\u00e7\u00e3o de fevereiro para a faixa de renda mais alta foi de 0,98% e, para a de renda mais baixa, 0,67%.<\/p>\n\n\n\n<p>Lameiras diz que &#8220;a tend\u00eancia para os pr\u00f3ximos meses \u00e9 que essa diferen\u00e7a da infla\u00e7\u00e3o para ricos e pobres comece a diminuir&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela diz que espera uma alta menor do pre\u00e7o de alimentos neste ano e uma retomada de servi\u00e7os. E aponta que esse cen\u00e1rio tamb\u00e9m depende do comportamento do c\u00e2mbio.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, ela diz que ainda n\u00e3o d\u00e1 pra esperar uma queda no pre\u00e7o dos alimentos no mercado. &#8220;Ningu\u00e9m espera queda de pre\u00e7os de alimentos em 2021, ainda que para alguns produtos possa ter queda em um m\u00eas ou outro. Mas, no geral, estamos esperando que alimentos subam menos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um ano de pandemia do coronav\u00edrus, os brasileiros (alguns mais que outros) viram os pre\u00e7os dos alimentos subirem. A alta da infla\u00e7\u00e3o virou alvo de campanha de cr\u00edticos ao governo do presidente Jair Bolsonaro, que espalharam cartazes em S\u00e3o Paulo com o termo &#8220;Bolsocaro&#8221;, com reclama\u00e7\u00f5es sobre disparada nos pre\u00e7os nos mercados. 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