{"id":31430,"date":"2021-03-17T09:17:20","date_gmt":"2021-03-17T12:17:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31430"},"modified":"2021-03-17T09:17:21","modified_gmt":"2021-03-17T12:17:21","slug":"politica-de-armas-de-bolsonaro-levanta-espectro-de-guerra-civil-diz-ex-ministro-jungmann","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/17\/politica-de-armas-de-bolsonaro-levanta-espectro-de-guerra-civil-diz-ex-ministro-jungmann\/","title":{"rendered":"Pol\u00edtica de armas de Bolsonaro levanta &#8216;espectro de guerra civil&#8217;, diz ex-ministro Jungmann"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Ex-ministro da Defesa e da Seguran\u00e7a P\u00fablica durante o governo Temer, Raul Jungmann conhece como poucos civis os meandros da elite das For\u00e7as Armadas brasileiras.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Observador privilegiado de alguns dos principais epis\u00f3dios das recentes crises entre militares, civis e o Judici\u00e1rio \u2014 desde o controverso tu\u00edte do general Villas B\u00f4as ao &#8216;prende e solta&#8217; de Lula, em 2018 \u2014, no final de fevereiro Jungmann publicou uma carta aberta aos ministros do STF onde enumera o que v\u00ea como riscos da pol\u00edtica armamentista do presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>No documento, ele pede uma &#8220;interven\u00e7\u00e3o&#8221; dos ministros do Supremo para suspender as portarias e decretos presidenciais de Bolsonaro que desburocratizam e ampliam o acesso a armas e de muni\u00e7\u00e3o por cidad\u00e3os comuns e por aqueles que t\u00eam registro de CAC (colecionador, atirador e ca\u00e7ador).<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, Jungmann argumenta que tais pol\u00edticas est\u00e3o &#8220;erguendo o espectro horripilante de um choque, um conflito de brasileiros contra brasileiros e isso tem um nome na hist\u00f3ria: guerra civil&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando voc\u00ea teve o armamento de popula\u00e7\u00f5es, a Hist\u00f3ria nos ensina, sempre vieram a reboque ou deixaram um rastro de genoc\u00eddio, de massacre de etnias, de popula\u00e7\u00f5es, de golpes, tirania e, inclusive, do ovo da serpente: do fascismo italiano e do nazismo alem\u00e3o&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Na entrevista, Jungmann tamb\u00e9m afirma que, apesar dos pedidos de &#8220;interven\u00e7\u00e3o militar&#8221; por parte de setores radicalizados da sociedade, &#8220;as For\u00e7as Armadas n\u00e3o dar\u00e3o suporte ou apoio a qualquer desvio constitucional, qualquer golpe ou qualquer interrup\u00e7\u00e3o da democracia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionado sobre as elei\u00e7\u00f5es de 2022, Jungmann diz n\u00e3o antever qualquer tipo de interfer\u00eancia ou &#8220;maiores problemas&#8221; por parte dos militares, &#8220;seja com Lula&#8230; Mandetta, Moro, Huck&#8230; e, evidentemente a continuidade do Bolsonaro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira os principais trechos da entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Em fevereiro, o senhor escreveu uma carta aberta aos ministros do Supremo Tribunal Federal em que diz que a pol\u00edtica do governo Bolsonaro de ampliar acesso \u00e0s armas de fogo coloca em risco a democracia no Brasil. Como, em sua opini\u00e3o, tais pol\u00edticas podem ser uma amea\u00e7a \u00e0s institui\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Raul Jungmann &#8211;&nbsp;<\/strong>A quest\u00e3o do armamento ou n\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sempre foi um assunto de debate na \u00e1rea da seguran\u00e7a p\u00fablica. Alguns achavam que isto reduziria a viol\u00eancia e outros, como n\u00f3s, baseado em ampla literatura t\u00e9cnica, ach\u00e1vamos que n\u00e3o, pelo contr\u00e1rio: mais armas mais mortes, menos vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que o presidente da Rep\u00fablica fez um deslocamento do debate da \u00e1rea da seguran\u00e7a p\u00fablica para a \u00e1rea pol\u00edtico-ideol\u00f3gica quando ele diz que \u00e9 preciso armar todo o povo para resistir a tiranias, para resistir a perda de liberdades. Ora, n\u00e3o pesa sobre o pa\u00eds nenhuma amea\u00e7a, seja real ou imagin\u00e1ria, de que voc\u00ea venha a ter uma tirania, pelo contr\u00e1rio, ainda que sob press\u00e3o nossas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o funcionando at\u00e9 aqui. E, tamb\u00e9m, n\u00e3o existe nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica hoje de relev\u00e2ncia ou mesmo de pouqu\u00edssima relev\u00e2ncia que esteja fora do jogo democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, isso nos leva a tr\u00eas questionamentos, a tr\u00eas graves problemas: em primeiro lugar, ao se propor o armamento da popula\u00e7\u00e3o, est\u00e1 se propondo a quebra do monop\u00f3lio da viol\u00eancia legal, que \u00e9 privativa ao Estado Nacional. Na verdade, o certificado do nascimento de um Estado Nacional \u00e9 quando ele passa a deter o monop\u00f3lio da viol\u00eancia legal. Em segundo lugar, ao quebrar o monop\u00f3lio, voc\u00ea est\u00e1 desfazendo do papel constitucional das For\u00e7as Armadas, que s\u00e3o, digamos assim, a&nbsp;<em>ultima ratio<\/em>, o \u00faltimo suporte da integridade desse Estado Nacional e da nossa soberania, ent\u00e3o isso tamb\u00e9m representa um ataque \u00e0s For\u00e7as Armadas e \u00e9 preciso defender o papel delas. Terceiro e \u00faltimo, ao propor o armamento da popula\u00e7\u00e3o, se n\u00f3s n\u00e3o temos nenhum inimigo, nenhuma amea\u00e7a externa, ent\u00e3o, ainda que n\u00e3o esteja vis\u00edvel no horizonte, voc\u00ea est\u00e1 erguendo o espectro horripilante de um choque, um conflito de brasileiros contra brasileiros e isso tem um nome na hist\u00f3ria: guerra civil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/9461\/production\/_105258973_gettyimages-497510582.jpg\" alt=\"Pessoa segurando arma em mostru\u00e1rio em uma loja\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea teve o armamento de popula\u00e7\u00f5es, a Hist\u00f3ria nos ensina, sempre vieram a reboque ou deixaram um rastro de genoc\u00eddio, de massacre de etnias, de popula\u00e7\u00f5es, de golpes, tirania e, inclusive, do ovo da serpente: do fascismo italiano e do nazismo alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, por isso que eu entendo que essa proposta de armar a popula\u00e7\u00e3o, pelo o que aqui narrei, representa um risco s\u00e9rio e precisa ser afastado, precisa ser devidamente evitado, de uma quebra de nossa estabilidade e por isso me dirigi ao Supremo Tribunal Federal, onde tramitam v\u00e1rios pedidos de suspens\u00e3o dessa pol\u00edtica armamentista do governo federal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O cen\u00e1rio que o senhor pinta \u00e9 bastante preocupante. Na avalia\u00e7\u00e3o do senhor, qual o objetivo do governo Bolsonaro ao facilitar esse acesso a armas? O senhor acha que estas s\u00e3o consequ\u00eancias que o governo n\u00e3o est\u00e1 antevendo ou existe algo deliberado nesse sentido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;<\/strong>&nbsp;Em primeiro lugar, \u00e9 preciso reconhecer que o presidente Bolsonaro sempre teve essa pauta. Eu fui colega dele durante 12 anos na C\u00e2mara dos Deputados, ent\u00e3o ele est\u00e1 sendo absolutamente honesto quando faz a defesa dessa pauta. Em segundo lugar ele atende \u00e0 base que o elegeu, que \u00e9 uma base pr\u00f3-armamentista, em larga medida. E, em terceiro lugar, a\u00ed eu acho que fazer uma interpreta\u00e7\u00e3o literal n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas \u00e9 poss\u00edvel dizer que este tipo de atitude conspira contra a estabilidade democr\u00e1tica. Basta lembrar o que aconteceu h\u00e1 pouco nos Estados Unidos, com a invas\u00e3o do Capit\u00f3lio, e n\u00f3s temos elei\u00e7\u00e3o em 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, independentemente das inten\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o me cabe aqui avaliar, do senhor presidente da Rep\u00fablica, ele comete um enorme equ\u00edvoco, que atenta contra o monop\u00f3lio da viol\u00eancia legal pelo Estado Brasileiro, contra o papel da For\u00e7as Armadas e, evidentemente, contra a possibilidade de voc\u00ea ter conflitos entre brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagine voc\u00ea que em 2022 n\u00f3s temos um resultado eleitoral contestado \u2014 e aparentemente n\u00f3s vamos ter uma reedi\u00e7\u00e3o de polariza\u00e7\u00e3o, igual a de 2018, aparentemente, apenas. Ent\u00e3o tudo isso, evidentemente, agrava nossas preocupa\u00e7\u00f5es e exige medidas imediatas para evitar que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/A489\/production\/_106912124_gettyimages-891605768.jpg\" alt=\"Rev\u00f3lver com tambor aberto\"\/><figcaption>Legenda da foto,Libera\u00e7\u00e3o do acesso a armas de fogo \u00e9 uma das principais bandeiras do presidente<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor foi ministro da Defesa e conhece como poucos civis as For\u00e7as Armadas. Na carta aberta, o senhor fala que essa pol\u00edtica de facilita\u00e7\u00e3o do armamento atenta contra o papel das For\u00e7as Armadas. Mas, ao mesmo tempo, parte das For\u00e7as Armadas parece n\u00e3o estar t\u00e3o incomodada com esse fato, pois temos um recorde de militares em cargos de minist\u00e9rios e secretarias no governo Bolsonaro. Por que o senhor acha que isso ocorre, j\u00e1 que h\u00e1 um conflito entre o papel da For\u00e7as Armadas e essa pol\u00edtica armamentista?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;&nbsp;<\/strong>Em primeiro lugar \u00e9 preciso dizer que o presidente Jair Bolsonaro, durante toda a sua carreira parlamentar, foi um parlamentar de nicho, ou seja, ele tinha duas clientelas espec\u00edficas as quais ele se dedicava: primeira delas s\u00e3o os pr\u00f3prios militares e ele prov\u00e9m exatamente das For\u00e7as Armadas, mais especificamente do Ex\u00e9rcito Brasileiro e, em segundo lugar, os policiais.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que ele assume o governo, n\u00e3o tendo ele uma grande passagem junto \u00e0s elites financeiras, empresariais, culturais, de m\u00eddia etc., etc. para compor o seu governo, ele volta-se para quem? Para os militares. N\u00e3o se volta tanto para as pol\u00edcias, porque as pol\u00edcias s\u00e3o estaduais e n\u00e3o s\u00e3o nacionais, como s\u00e3o as For\u00e7as Armadas. Ent\u00e3o onde \u00e9 que ele vai buscar os quadros para governar com ele? Ele vai buscar isso exatamente com as For\u00e7as Armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado das For\u00e7as Armadas, al\u00e9m daqueles que evidentemente simpatizam com a agenda do presidente, existem outros que n\u00e3o simpatizam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas aqui n\u00f3s temos um problema que n\u00e3o \u00e9 tanto das For\u00e7as Armadas e tampouco do presidente Jair Bolsonaro, que \u00e9 o papel do Congresso Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje se reclama muito da presen\u00e7a dos militares no governo, mas \u00e9 preciso dizer que o Congresso Nacional tem prerrogativas constitucionais para estabelecer restri\u00e7\u00f5es sobre isso. Se o Congresso Nacional, se o poder pol\u00edtico, se a elite civil e pol\u00edtica n\u00e3o imp\u00f5e travas a isso. N\u00e3o seria necessariamente contra militares, mas exatamente para manter a separa\u00e7\u00e3o que \u00e9 fundamental institucionalmente entre governo e For\u00e7as Armadas, que t\u00eam uma miss\u00e3o constitucional voltada para o Estado e n\u00e3o para o governo. O Congresso falha ao n\u00e3o estabelecer isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, reclama-se por exemplo da presen\u00e7a (de militares no governo) \u2014 que eu acho, sobretudo em termos dos militares da ativa, excessiva \u2014, mas n\u00e3o existe nenhuma trava. Em segundo lugar, sendo o presidente da Rep\u00fablica o comandante supremo das For\u00e7as Armadas, n\u00e3o havendo nenhuma trava legal, o que elas podem fazer?<\/p>\n\n\n\n<p>Certa feita eu estava em um debate com o ex-ministro da Justi\u00e7a Tarso Genro, e ele disse: &#8220;As For\u00e7as armadas precisam se pronunciar.&#8221; E eu disse: &#8220;N\u00e3o, elas n\u00e3o devem se pronunciar. Elas devem permanecer exatamente onde est\u00e3o&#8221;, que \u00e9 exatamente voltadas para as suas atividades profissionais, elas n\u00e3o t\u00eam que entrar na pol\u00edtica. Elas n\u00e3o t\u00eam que falar, diferentemente de outras corpora\u00e7\u00f5es, elas n\u00e3o devem falar. Porque se come\u00e7am a falar, v\u00e3o falar hoje, v\u00e3o falar amanh\u00e3 e v\u00e3o falar depois.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que aqui h\u00e1 uma grande confus\u00e3o, que \u00e9 preciso esclarecer&#8230; Quem tem falado s\u00e3o militares da reserva que est\u00e3o em fun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas eles n\u00e3o falam pelas For\u00e7as Armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se deve cobrar que os militares se pronunciem sobre pol\u00edtica. Evidente que militar \u00e9 cidad\u00e3o e tem gente l\u00e1 que apoia o governo e tem gente que \u00e9 contr\u00e1ria ao governo, como ali\u00e1s acontece mundo a fora \u2014 mas elas (as For\u00e7as Armadas) devem e est\u00e3o permanecendo voltadas a suas atividades profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o represento e n\u00e3o falo pelas For\u00e7as Armadas, apenas fui quase dois anos ministro da Defesa, mas posso lhe assegurar pelo que conhe\u00e7o e pelo que conheci, que as For\u00e7as Armadas n\u00e3o dar\u00e3o suporte ou apoio a qualquer desvio constitucional, qualquer golpe, qualquer interrup\u00e7\u00e3o da democracia do nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; No m\u00eas passado tamb\u00e9m voltou \u00e0 tona aquele famoso tuite do general Villas B\u00f4as, ent\u00e3o comandante do Ex\u00e9rcito, que ele publicou as v\u00e9speras do julgamento do HC do ex-presidente Lula, em 2018. O senhor tinha acabado de assumir como Ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, saindo da pasta da Defesa. O senhor ficou sabendo desse tu\u00edte antes<\/strong><strong>?<\/strong><strong>Co<\/strong><strong>mo foi essa hist\u00f3ria? O senhor ficou sabendo de que haveria algum posicionamento por parte do general Villas Boas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;<\/strong>&nbsp;N\u00e3o soube e nem caberia. Eu deixei o Minist\u00e9rio da Defesa no dia 27 de fevereiro de 2018 e o tu\u00edte, se eu n\u00e3o me engano, foi no dia 8 de abril ou alguma coisa assim (o tuite de Villas B\u00f4as foi publicado em 3 de abril). Ent\u00e3o a cadeia de comando j\u00e1 n\u00e3o passava por mim de forma alguma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/10747\/production\/_117599376_pzzb2501.jpg\" alt=\"Ex-comandante do Ex\u00e9rcito, general Eduardo Villas B\u00f4as\"\/><figcaption>Legenda da foto,Ex-comandante do Ex\u00e9rcito, general Eduardo Villas B\u00f4as fez uma s\u00e9rie de tuites em 2018 sobre o processo de Lula. \u00c0 \u00e9poca, mensagens foram vistas como uma amea\u00e7a de golpe<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Eu sou um admirador e tenho uma grande amizade com o ex-comandante Villas-B\u00f4as, um amigo que considero pessoal. Mas acho que o tu\u00edte, embora eu entenda as raz\u00f5es que ele apresenta a esse respeito e acho que s\u00e3o ponder\u00e1veis, mas acho que n\u00e3o \u00e9 a forma adequada.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu defendi aqui exatamente que as For\u00e7as Armadas permanecessem focadas em seus aspectos profissionais e em linha com a Constitui\u00e7\u00e3o. Eu acho que, em que pese as preocupa\u00e7\u00f5es, em que pese o clima que estava vivendo, em que pese eu reconhecer que o general Villas B\u00f4as \u00e9 um democrata, mas aquilo n\u00e3o \u00e9 a forma mais adequada de se, digamos assim, de exercer o exerc\u00edcio de press\u00e3o sobre uma Suprema Corte, o que \u00e9, repito, \u00e9 inadequado.<\/p>\n\n\n\n<p>Se ele me consultasse, o que n\u00e3o ocorreu nem ocorreria, porque, dada nossa amizade, ele iria me preservar, eu teria procurado dissuadi-lo. Mas veja, tenho convic\u00e7\u00e3o que outro fosse o resultado do julgamento, ele seria integralmente respeitado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; No livro onde o general conta sobre o tu\u00edte, ele fala que houve participa\u00e7\u00e3o do Alto Comando do Ex\u00e9rcito, n\u00e3o foi o general sozinho que tuitou. Na \u00e9poca, o senhor declarou que &#8220;a fala do general foi no sentido da serenidade e do respeito \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e \u00e0s regras, o que \u00e9 correto&#8221;. O senhor continua mantendo essa avalia\u00e7\u00e3o, sabendo que foi o Alto Comando que planejou esse tu\u00edte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;<\/strong>&nbsp;Em primeiro lugar, \u00e9 preciso entender o seguinte: a decis\u00e3o \u00e9 do comandante e ela \u00e9 intransfer\u00edvel, porque foi ele que o publicou. Se ele chegou a ouvir, como est\u00e1 dentro do livro e n\u00e3o nos cabe duvidar, pode ter sido uma atitude, digamos, mais formal.<\/p>\n\n\n\n<p>De todo o jeito, \u00e9 uma atitude que considero que n\u00e3o \u00e9 adequada para a necess\u00e1ria separa\u00e7\u00e3o que tem que existir entre institui\u00e7\u00f5es. N\u00f3s estamos aqui falando de um outro poder, que \u00e9 o Poder Judici\u00e1rio, e ao mesmo tempo do n\u00e3o envolvimento do Ex\u00e9rcito e das For\u00e7as Armadas em quest\u00f5es t\u00f3picas, em quest\u00f5es de governos, na medida que s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor foi o \u00faltimo civil a ocupar o cargo de ministro da Defesa e, para muitos analistas, o controle civil das For\u00e7as Armadas \u00e9 fundamental para a democracia. O senhor concorda com isso, acha que \u00e9 melhor um civil controlar as For\u00e7as Armadas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;<\/strong>&nbsp;Olha, o grande controle a ser exercido pelas For\u00e7as Armadas se d\u00e1 atrav\u00e9s dos \u00f3rg\u00e3os de controle e, particularmente, atrav\u00e9s do Congresso Nacional e, no caso de conflito, pelo Judici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 fui adepto da tese de que o Minist\u00e9rio da Defesa deveria permanecer apenas nas m\u00e3os dos civis. Mas o controle deve sobretudo n\u00e3o prescindir de duas coisas: que o poder pol\u00edtico civil tenha lideran\u00e7a e projeto para as For\u00e7as Armadas, e n\u00e3o existe isso, sobretudo na \u00e1rea da Defesa. Nosso poder pol\u00edtico n\u00e3o exerce a sua lideran\u00e7a e tampouco tem demonstrado apetite por projetos para a defesa nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu entendimento, \u00e9 muito fr\u00e1gil voc\u00ea dizer &#8220;o controle depende de um civil&#8221;. Voc\u00ea pode botar um civil l\u00e1, vamos supor uma situa\u00e7\u00e3o absurda, que seja simplesmente uma marionete, que n\u00e3o tenha nenhum poder, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O controle efetivo dos \u00f3rg\u00e3os do Executivo est\u00e1 na m\u00e3o do Congresso, s\u00f3 que o Congresso n\u00e3o exerce isso. No in\u00edcio, confesso a ti, eu entendia que deveria continuar a linhagem civil, mas depois melhor refletindo, eu vejo que na\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas colocam (militares no comando).<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estive, por exemplo, com o secret\u00e1rio de Defesa durante o governo Trump, o Jim Mattis, e ele \u00e9 um ex-fuzileiro. Voc\u00ea teve mais at\u00e9 que Secret\u00e1rio de Defesa, voc\u00ea teve o secret\u00e1rio de Estado, o Colin Powell (ex-general que comandou o Departamento de Estado dos EUA entre 2001 e 2005). E algu\u00e9m coloca em d\u00favida o controle civil sobre as For\u00e7as Armadas dos Estados Unidos? Ningu\u00e9m coloca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tanto por a\u00ed. A quest\u00e3o, para mim, tem dois n\u00edveis: primeiro, o poder pol\u00edtico civil n\u00e3o exerce suas prerrogativas na \u00e1rea de Defesa e tamb\u00e9m nas For\u00e7as Armadas. Em segundo lugar, um problema mais abaixo, que \u00e9 o seguinte: o Brasil talvez tenha o \u00fanico Minist\u00e9rio da Defesa do mundo em que voc\u00ea n\u00e3o tem um especialista civil, um gestor civil, de carreira, atuando.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o tem parlamentares que hoje dialogam e entendam sobre as For\u00e7as Armadas. Pode ter um ou outro perdido entre 513. Me lembro de ir, enquanto Ministro da Defesa, em audi\u00eancias p\u00fablicas e confesso, eu percebia no debate o desconhecimento ou distanciamento que existia. Como \u00e9 que voc\u00ea quer liderar?<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, essa \u00e9 a minha vis\u00e3o: pode ter ministro civil, pode ter ministro militar, mas tem que ter uma grande base civil, com capacidade t\u00e9cnicas e cient\u00edfica l\u00e1 dentro, participando desse processo e voc\u00ea precisa sobretudo que o Congresso Nacional assuma o seu papel, e ele n\u00e3o vem exercendo isso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/A2AD\/production\/_112754614_gettyimages-649087514.jpg\" alt=\"Militares brasileiros marcham com armas\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Semana passada tivemos uma reviravolta pol\u00edtica, o ministro do STF Edson Fachin acabou por anular as condena\u00e7\u00f5es do ex-presidente Lula. Na Folha de S. Paulo um reportagem afirmava que os militares viram com reserva o discurso do ex-presidente Lula depois da anula\u00e7\u00e3o. Eles teriam dito que podem ter dificuldade de rela\u00e7\u00e3o com o presidente caso Lula venha a ser eleito em 2022. O senhor acha que pode ocorrer um problema nesse sentido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;<\/strong>&nbsp;Olha, se em 2022, o Mandetta, o Huck, o Doria, o Moro ou o pr\u00f3prio Lula, chegarem ao poder, eu posso lhe assegurar que da parte das For\u00e7as Armadas n\u00e3o ter\u00e3o qualquer impedimento ou dificuldade para governar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro das For\u00e7as Armadas existem, sim, aqueles que s\u00e3o antipetistas, como h\u00e1 aqueles que tamb\u00e9m tem a outra op\u00e7\u00e3o e s\u00e3o petistas, socialistas ou liberais, ou conservadores. Enfim, isso est\u00e1 tudo representado l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, eu posso dizer que hoje \u00e9 consolidado o sentimento, at\u00e9 porque j\u00e1 viveram o governo Lula anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo do PT durou 14 anos, infelizmente terminou como terminou, mas a verdade \u00e9 que \u00e9 no governo Lula que acontecem duas coisas importantes para as For\u00e7as Armadas. Em primeiro lugar, foi a edi\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica e de uma estrat\u00e9gica nacional de Defesa.<\/p>\n\n\n\n<p>E, al\u00e9m disso, \u00e9 reconhecido que \u00e9 desse per\u00edodo, que foi um per\u00edodo economicamente muito mais folgado, que houve um grande investimento na moderniza\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o das nossas For\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, eu digo isso como algu\u00e9m que fez oposi\u00e7\u00e3o ao governo do PT durante 14 anos, mas tem que reconhecer as coisas que de fato aconteceram e \u00e9 isso que a gente tem a narrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o vejo maiores problemas, seja com Lula, seja com quem for que chegue l\u00e1, o Mandetta, o Moro, o Huck e, evidentemente a continuidade do Bolsonaro. Ser\u00e3o recebidos da mesma forma, em linha com a Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva escreveu que &#8220;aproxima-se o ponto de ruptura&#8221; ap\u00f3s a anula\u00e7\u00e3o das condena\u00e7\u00f5es de Lula. O senhor n\u00e3o v\u00ea isso como refletindo o que se pensa dentro das For\u00e7as Armadas ativas hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;&nbsp;<\/strong>Militares que est\u00e3o na reserva usualmente t\u00eam uma vis\u00e3o em boa medida da Guerra Fria, do combate ao comunismo, da subvers\u00e3o e tudo mais, da pol\u00edtica de seguran\u00e7a nacional e tal. S\u00e3o homens que deram e contribu\u00edram pra na\u00e7\u00e3o e para p\u00e1tria, mas permanecem ainda imersos em um clima que j\u00e1 n\u00e3o existe mais, que j\u00e1 n\u00e3o faz mais sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>De um modo geral, a reserva \u00e9 assim. Ela fica numa posi\u00e7\u00e3o, digamos assim, pr\u00e9-queda do Muro de Berlim e \u00e0s mudan\u00e7as todas que o mundo teve, inclusive o pr\u00f3prio processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o. Na reserva \u00e9 comum, por exemplo, que n\u00e3o se aceite que as For\u00e7as Armadas n\u00e3o tenham um papel moderador, n\u00e3o tenham mais o papel de tutela e tudo mais que tinham no passado. Ent\u00e3o eu acho que isso \u00e9 a express\u00e3o de um pensamento que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o pensamento da For\u00e7as Armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quero dizer que n\u00e3o existam l\u00e1 dentro militares que pensem assim, mas a c\u00fapula, as escolas de forma\u00e7\u00e3o, esses oficiais superiores, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o inclinados ou se deixam levar por esse tipo de percep\u00e7\u00e3o. Eles pensam muito mais na profiss\u00e3o e no respeito \u00e0 democracia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Sobre seu per\u00edodo como ministro extraordin\u00e1rio da Seguran\u00e7a P\u00fablica (2018-2019), surgiu no contexto das mensagens vazadas entre o ex-juiz Sergio Moro e a For\u00e7a Tarefa da Lava-Jato um di\u00e1logo do procurador Deltan Dallagnol em que ele diz que a ministra do STF C<\/strong><strong>a<\/strong><strong>rmen L\u00facia teria ligado para o senhor no epis\u00f3dio da guerra de liminares que quase libertou o presidente Lula, em 2018. Ele teria dito para o senhor que o Lula n\u00e3o deveria ser libertado. O senhor se envolveu de alguma forma nessa a\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jungmann &#8211;&nbsp;<\/strong>No dia que eu chamo de &#8220;prende-solta&#8221; do Lula, que teve duas ordens para soltar e duas ordem para prender, alternadamente, eu recebi liga\u00e7\u00f5es de todo mundo, de formadores de opini\u00e3o, de pessoal de comunica\u00e7\u00e3o, de editor, de autoridade, ministro, o pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica ligou e pediu que o mantivesse informado do que estava se passando.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos telefonemas que eu recebi, foi exatamente da ministra C\u00e1rmen L\u00facia para pedir informa\u00e7\u00f5es: &#8220;Jungmann, como \u00e9 que t\u00e1 isso? Como \u00e9 que t\u00e1 acontecendo?&#8221;. Eu narrei tudo o que estava acontecendo, o conflito que estava se dando e, evidentemente, a dificuldade que tem a Pol\u00edcia Federal, executora da a\u00e7\u00e3o judicial, de lidar com essa situa\u00e7\u00e3o. E em seguida, ela me disse: &#8220;Eu vou soltar uma nota sobre isso. Eu estou preocupada&#8221;, e eu disse: &#8220;Fa\u00e7a isso, senhora presidente&#8221;. E nada mais trocamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, eu vou repetir o que eu disse quando me fizeram pela primeira vez essa pergunta: isso \u00e9 uma mentira. Repito: \u00e9 uma mentira. N\u00e3o houve esse di\u00e1logo. A ministra \u00e9 uma ju\u00edza e sabe que se ela assim procedesse, estaria incorrendo no crime de obstru\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a. Se eu, porventura, recebesse &#8211; que n\u00e3o recebi &#8211; esse pedido, eu estaria incorrendo em obstru\u00e7\u00e3o de Justi\u00e7a, o que obviamente n\u00e3o fiz.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso mesmo, eu resolvi interpelar o senhor Deltan Dallagnol para que ele confirme e desminta isso, porque n\u00e3o faz nenhum sentido. N\u00e3o houve nada disso de parte da ministra C\u00e1rmen L\u00facia, que ent\u00e3o presidia o Supremo, e da minha parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo amor de Deus, quando a Pol\u00edcia Federal est\u00e1 trabalhando junto ao Judici\u00e1rio, o ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica e da Justi\u00e7a n\u00e3o tem poder nenhum, est\u00e1 se passando em outro poder. A Pol\u00edcia Federal trabalha de m\u00e3os dadas com o Judici\u00e1rio e quem poderia autorizar ou solicitar isso \u00e9 exatamente o juiz da quest\u00e3o, o juiz do caso.<\/p>\n\n\n\n<p>A mim n\u00e3o caberia e tampouco \u00e0 senhora presidente do Supremo nenhuma a\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o estar\u00edamos cometendo um crime de obstru\u00e7\u00e3o de Justi\u00e7a, o que nem ela e nem eu cometemos.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex-ministro da Defesa e da Seguran\u00e7a P\u00fablica durante o governo Temer, Raul Jungmann conhece como poucos civis os meandros da elite das For\u00e7as Armadas brasileiras. 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