{"id":31386,"date":"2021-03-16T11:16:01","date_gmt":"2021-03-16T14:16:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31386"},"modified":"2021-03-16T11:16:03","modified_gmt":"2021-03-16T14:16:03","slug":"em-curitiba-faltam-vagas-e-sobram-lagrimas-no-sistema-de-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/16\/em-curitiba-faltam-vagas-e-sobram-lagrimas-no-sistema-de-saude\/","title":{"rendered":"Em Curitiba, faltam vagas e sobram l\u00e1grimas no sistema de sa\u00fade"},"content":{"rendered":"\n<p>Na \u00faltima quinta-feira, o plant\u00e3o da enfermeira Ana (nome fict\u00edcio) j\u00e1 come\u00e7ou intenso em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Curitiba. T\u00e3o logo teve in\u00edcio o expediente, um paciente internado com Covid-19 entrou em parada cardiorrespirat\u00f3ria. Para que o procedimento de emerg\u00eancia fosse realizado, foi necess\u00e1rio antes afastar as outras camas por perto, encostando umas nas outras para abrir algum espa\u00e7o (com o crescimento no n\u00famero de casos graves da doen\u00e7a, as unidades de sa\u00fade est\u00e3o abarrotadas de pacientes). Mesmo depois de todo o esfor\u00e7o, o desfecho n\u00e3o foi positivo e mais uma vida foi levada pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Num momento em que o sistema de sa\u00fade se encontra \u00e0 beira de um colapso na Regi\u00e3o Metropolitana de Curitiba (RMC), faltam vagas e sobram l\u00e1grimas. L\u00e1grimas por aqueles que se foram e pelo temor do que est\u00e1 por vir. L\u00e1grimas pelo sentimento de impot\u00eancia que se instala entre os profissionais de sa\u00fade, decorrente da impossibilidade de oferecer melhor atendimento aos pacientes acometidos por uma doen\u00e7a sem cura.<\/p>\n\n\n\n<p>Para se ter no\u00e7\u00e3o da gravidade do momento que vivemos, a situa\u00e7\u00e3o que abriu esta reportagem nem foi a mais dram\u00e1tica que Ana viveu em seu trabalho recentemente. Isso porque em outro dia da \u00faltima semana a UPA em que ela trabalha teve de lidar com sete mortes por Covid-19 num \u00fanico plant\u00e3o. \u201c\u00c9 dif\u00edcil, as vezes n\u00e3o conseguimos segurar o choro. Eu j\u00e1 chorei, j\u00e1 vi colegas chorando\u2026\u201d, conta a enfermeira, num relato parecido com o dado pelo m\u00e9dico&nbsp;Andr\u00e9 (tamb\u00e9m nome fict\u00edcio), que trabalha em uma UPA que est\u00e1 recebendo pacientes Covid e num hospital de Curitiba. \u201cEu j\u00e1 chorei, choro de desespero, de pensar \u2018meu Deus, n\u00e3o vai acabar nunca isso?\u2019 Nossa chefe esses dias chorou um monte\u201d, diz ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima ter\u00e7a-feira, quando estava de plant\u00e3o, Andr\u00e9 conta ainda que um carro parou em frente \u00e0 unidade de sa\u00fade em que ele trabalha, chamando sua aten\u00e7\u00e3o por conta dos gritos desesperados que come\u00e7aram a ecoar. No ve\u00edculo estavam os familiares de uma pessoa com Covid-19 que havia sofrido uma parada card\u00edaca. Eles contaram \u00e0 equipe da UPA que tentaram por cerca de 10 minutos acionar o Samu, em v\u00e3o. Resolveram ent\u00e3o colocar por conta pr\u00f3pria o parente no ve\u00edculo e lev\u00e1-lo para ser atendido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCome\u00e7amos a avaliar ele e j\u00e1 constatamos o \u00f3bito\u201d, conta o profissional, desabafando ainda diante de tantas trag\u00e9dias. \u201cA sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que n\u00e3o vou dar conta. Ser\u00e1 que vale a pena ficar aqui? Mas da\u00ed penso que se eu sair seria ainda pior, ent\u00e3o ficamos nessa\u201d, complementa o m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cEste n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o momento mais dif\u00edcil que j\u00e1 enfrentamos, mas algo 20 ou 30 vezes al\u00e9m do que imaginei que pudesse acontecer na minha carreira. Nunca pensei numa situa\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima dessa, que eu chamo de caos por conta da despropor\u00e7\u00e3o entre necessidade de atendimento e a disponibilidade de leitos UTI e n\u00e3o-UTI. \u00c9 uma coisa in\u00e9dita, nunca tinha passado. E \u00e9 frustrante, porque \u00e9 algo que est\u00e1 fora do nosso alcance alguma forma de resolu\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><br>depoimento de um m\u00e9dico que \u00e9 supervisor num hospital privado de Curitiba<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Transporte \u00e9 um dos gargalos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de domingo, outro epis\u00f3dio registrado no Hospital do Trabalhador chamou a aten\u00e7\u00e3o. Em um corredor ao lado do estabelecimento de sa\u00fade, seis ambul\u00e2ncias com pessoas contaminadas pelo novo coronav\u00edrus aguardaram por horas para conseguir um encaminhamento para os pacientes. Segundo os relatos ouvidos pela reportagem, esse aspecto log\u00edstico tem sido um dos grandes gargalos do sistema neste momento t\u00e3o cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa UPA, temos alguns casos de pacientes graves, mas eles n\u00e3o podem ficar muito tempo ali porque n\u00e3o temos todos os recursos. Ent\u00e3o imagine que eu consigo uma vaga em um hospital para esse paciente, ligo para o Samu e pe\u00e7o esse transporte, uma ambul\u00e2ncia com m\u00e9dico. Se eu pego a vaga umas 16 horas e aciono o Samu, o paciente vai sair meia-noite, as vezes no meio da madrugada. Ent\u00e3o o transporte eu imagino que est\u00e1 bem complicado, pouca ambul\u00e2ncia para muito paciente\u201d, afirma o m\u00e9dico Andr\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>O depoimento de um socorrista do Samu corrobora com as afirma\u00e7\u00f5es. Segundo esse profissional, nos \u00faltimos dias as equipes n\u00e3o t\u00eam conseguido parar nem para almo\u00e7ar direito. Com os pacientes j\u00e1 dentro das ambul\u00e2ncias, pode levar horas at\u00e9 um leito ficar dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeu pen\u00faltimo plant\u00e3o foi bem complicado, Covid em cima de Covid. Pegava na unidade de sa\u00fade e levava para a UPA. O r\u00e1dio tamb\u00e9m n\u00e3o parava, s\u00f3 escutava \u2018viatura tal com Covid positivo\u2019\u201d, diz o socorrista. \u201cEsse \u00e9 o momento mais cr\u00edtico e que estou com mais medo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2018O duro \u00e9 entrar na internet e ainda ver gente falando em tratamento precoce\u2019<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;socorrista do Samu conta ainda que fica chateado ao ver relatos de aglomera\u00e7\u00e3o e pessoas promovendo festas em um momento t\u00e3o cr\u00edtico como o atual. A falta de empatia e sensibilidade \u00e9 o que mais choca. \u201cA vontade \u00e9 pegar o pessoal na rua, fazendo festa, aglomera\u00e7\u00e3o, e levar dentro da UPA para ver a situa\u00e7\u00e3o, levar para dentro dos hospitais. Todo mundo tem de trabalhar, n\u00e3o nego isso, mas, do meu ponto de vista, morto n\u00e3o compra. O pessoal tinha de ter um pouco mais de respeito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o doutor Andr\u00e9 comenta que \u00e9 &#8220;duro\u201d trabalhar o dia inteiro com casos de Covid-19 e depois, quando entra na internet, ainda ver&nbsp;pessoas falando em tratamento precoce.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo m\u00e9dico, tudo que prescrevo \u00e9 validado em estudos. Os estudos de mais alta evid\u00eancia demonstram que n\u00e3o tem nada de benef\u00edcio [com medicamentos como cloroquina e ivermectina] e as vezes ainda pega complica\u00e7\u00f5es, faz efeito colateral. Esses dias recebi um paciente com hepatite grave por uso de ivermectina. E a\u00ed? Como vai fazer num caso desses? E tem muita gente usando que acha estar protegido, a\u00ed se exp\u00f5e, passa para o v\u00f4, a v\u00f3, eles morrem e a\u00ed vem o remorso. J\u00e1 peguei v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es assim.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Consumo de oxig\u00eanio dispara e estoque de rem\u00e9dios est\u00e1 perto do fim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a explos\u00e3o na procura por atendimento, o Paran\u00e1 j\u00e1 come\u00e7a a enfrentar problemas como a falta de oxig\u00eanio (principalmente na regi\u00e3o oeste e norte do estado) e o risco de medicamentos utilizados para a entuba\u00e7\u00e3o acabar. De acordo com o Cento de Medicamentos do Paran\u00e1 (Cemepar), por exemplo, o estado s\u00f3 tem estoque para mais tr\u00eas dias no que diz respeito a rem\u00e9dios usados em ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica. Para resolver a situa\u00e7\u00e3o, foi pedido mais insumos ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o consumo de oxig\u00eanio cresceu at\u00e9 500% no \u00faltimo m\u00eas nos munic\u00edpios paranaenses, com previs\u00e3o de nova alta no m\u00eas de mar\u00e7o. A situa\u00e7\u00e3o levou tr\u00eas cervejarias de Clevel\u00e2ndia, a 414 quil\u00f4metros de Curitiba, a interromper parte da produ\u00e7\u00e3o do produto para doar cilindros \u00e0 unidades de sa\u00fade e ajudar na conten\u00e7\u00e3o da crise sanit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem Paran\u00e1<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.bemparana.com.br\/assinatura\" target=\"_blank\"><br> <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima quinta-feira, o plant\u00e3o da enfermeira Ana (nome fict\u00edcio) j\u00e1 come\u00e7ou intenso em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Curitiba. T\u00e3o logo teve in\u00edcio o expediente, um paciente internado com Covid-19 entrou em parada cardiorrespirat\u00f3ria. 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