{"id":31365,"date":"2021-03-16T10:32:47","date_gmt":"2021-03-16T13:32:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31365"},"modified":"2021-03-16T10:32:49","modified_gmt":"2021-03-16T13:32:49","slug":"neta-leva-videos-de-avo-vitima-da-covid-19-a-milhoes-no-tiktok-quero-espalhar-alegria-como-ela-fazia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/16\/neta-leva-videos-de-avo-vitima-da-covid-19-a-milhoes-no-tiktok-quero-espalhar-alegria-como-ela-fazia\/","title":{"rendered":"Neta leva v\u00eddeos de av\u00f3 v\u00edtima da covid-19 a milh\u00f5es no TikTok: &#8216;Quero espalhar alegria como ela fazia&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p>Dalva Junger e Luisa: neta decidiu compartilhar v\u00eddeos da av\u00f3 materna que foi v\u00edtima da covid-19<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em um almo\u00e7o em fam\u00edlia, a neta diz \u00e0 av\u00f3: &#8220;Tenho v\u00e1rios amigos que t\u00eam o sonho de te conhecer&#8221;. A idosa logo responde: &#8220;Ih, n\u00e3o quero conhecer nenhum deles. Deve ser tudo maconheiro!&#8221;. A rea\u00e7\u00e3o causa um misto de espanto e risadas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em outra situa\u00e7\u00e3o, a idosa usa uma m\u00e1scara de pano no quarto, enquanto est\u00e1 deitada fazendo uma liga\u00e7\u00e3o. A neta chega e questiona: &#8220;Por que voc\u00ea est\u00e1 de m\u00e1scara (em casa), v\u00f3?&#8221;. A idosa responde que havia atendido um rapaz na porta de casa pouco tempo atr\u00e1s e, irritada, vocifera palavr\u00f5es ao contar que est\u00e1 no telefone tentando falar com um atendente de uma empresa.<\/p>\n\n\n\n<p>As duas cenas em fam\u00edlia ilustram situa\u00e7\u00f5es vividas pela universit\u00e1ria Luisa Junger, de 23 anos, e a av\u00f3, a professora aposentada Dalva Junger. Os momentos, registrados pela neta em v\u00eddeos, agora s\u00e3o recorda\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia. Em setembro passado, a idosa de 81 anos morreu em decorr\u00eancia da covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o falecimento da av\u00f3, Luisa decidiu compartilhar alguns registros de Dalva no TikTok. &#8220;Minha av\u00f3 foi v\u00edtima da covid-19, mas me deixou um acervo de v\u00eddeos incr\u00edveis&#8221;, escreveu a jovem na rede social.<\/p>\n\n\n\n<p>Na legenda de um dos v\u00eddeos, a universit\u00e1ria explica que criou o perfil no TikTok para &#8220;compartilhar e espalhar alegria, como ela (Dalva) fazia em vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>As publica\u00e7\u00f5es agradaram muitos usu\u00e1rios da rede social. Um dos v\u00eddeos (o da m\u00e1scara de pano no quarto) teve mais de 3 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es e 267 mil curtidas. &#8220;Muitas pessoas sempre pedem para postar mais coisas dela&#8221;, diz a jovem \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/15E4D\/production\/_117577698_luisa2.jpg\" alt=\"Prints de v\u00eddeo de Dalva deitada na cama do quarto com m\u00e1scara de pano\"\/><figcaption>Legenda da foto,Em um dos v\u00eddeos, Dalva est\u00e1 deitada no quarto com m\u00e1scara quando a neta se aproxima e come\u00e7a a gravar<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"A-av\u00f3-materna\">A av\u00f3 materna<\/h2>\n\n\n\n<p>M\u00e3e de quatro filhas e av\u00f3 de tr\u00eas netos, Dalva foi professora durante tr\u00eas d\u00e9cadas. Moradora da cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde vivia em um apartamento com uma das filhas, a idosa era considerada muito ativa: gostava de passear, dirigir e frequentar academia.<\/p>\n\n\n\n<p>A personalidade da idosa era uma de suas caracter\u00edsticas mais marcantes. &#8220;Era daquele jeito que aparece nos v\u00eddeos. Ela respondia &#8216;na lata&#8217;, n\u00e3o importava para quem fosse&#8221;, diz Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dalva ficou isolada no in\u00edcio da pandemia, conta a neta. A fam\u00edlia precisava convenc\u00ea-la com frequ\u00eancia sobre a import\u00e2ncia de evitar sair do apartamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em alguns dos v\u00eddeos que a neta registrou, \u00e9 poss\u00edvel notar que a idosa era fiel seguidora do presidente Jair Bolsonaro. Ela o defendia com frequ\u00eancia quando via alguma cr\u00edtica. &#8220;Ela acreditava em tudo o que ele falava&#8221;, diz Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia, o presidente adota um discurso para tentar minimizar os riscos da covid-19, como cr\u00edticas ao uso de m\u00e1scaras ou a defesa de tratamentos m\u00e9dicos que n\u00e3o t\u00eam respaldo cient\u00edfico, como a cloroquina. &#8220;No in\u00edcio da pandemia, a minha av\u00f3 at\u00e9 podia duvidar da covid-19 por causa do presidente, mas depois foi entendendo os riscos&#8221;, diz a jovem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/0309\/production\/_117577700_b5f73c40-d561-4eaa-bc04-f32a9a3a9922.jpg\" alt=\"Dalva segura Luisa, quando ela era beb\u00ea, no colo\"\/><figcaption>Legenda da foto,Dalva e Luisa tinham rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A idosa costumava acreditar em diversas fake news sobre a covid-19 e compartilhava os conte\u00fados no WhatsApp. &#8221; A gente tinha que explicar para ela que era mentira&#8221;, comenta Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A jovem relata que a aposentada sempre seguiu os cuidados para se prevenir da covid-19. &#8220;Penso que se a gente n\u00e3o explicasse para a minha av\u00f3 sobre as fake news, essas mentiras poderiam ter tido um impacto negativo para ela&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Em junho, Luisa e uma tia contra\u00edram a covid-19 e desenvolveram sintomas leves. Na \u00e9poca, elas n\u00e3o tiveram contato f\u00edsico com Dalva. Para a jovem, os dois casos na fam\u00edlia fizeram com que a aposentada passasse a acreditar ainda mais na import\u00e2ncia de adotar cuidados contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Luisa, a idosa passou a ter mais dificuldades para ficar em casa quando as medidas de isolamento social no Rio de Janeiro come\u00e7aram a ser cada vez mais flexibilizadas. Em agosto, Dalva voltou a ir \u00e0 igreja com frequ\u00eancia. &#8220;A minha av\u00f3 era cat\u00f3lica e muito religiosa. Quando as missas voltaram a ser presencialmente, n\u00e3o conseguimos segur\u00e1-la em casa&#8221;, diz a neta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela dizia que todo mundo estava saindo, n\u00e3o era prisioneira e que estava tomando todos os cuidados. A minha av\u00f3 n\u00e3o queria ficar trancada em casa. Mas quando sa\u00eda, ela sempre usava m\u00e1scara&#8221;, comenta Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o de setembro, a idosa apresentou os primeiros sintomas da covid-19. A fam\u00edlia afirma n\u00e3o saber como Dalva contraiu o v\u00edrus, mas tem duas hip\u00f3teses: na igreja ou de parentes que tamb\u00e9m foram infectadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A igreja, segundo a fam\u00edlia, orientava que os fi\u00e9is adotassem o distanciamento entre si e usassem m\u00e1scaras. Ainda assim, os parentes avaliam que o local pode ter sido uma poss\u00edvel fonte de infec\u00e7\u00e3o para a idosa, por ser um lugar fechado em que havia diversas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Outra possibilidade \u00e9 que ela tenha pegado da minha tia ou da minha irm\u00e3. As duas tinham voltado a trabalhar presencialmente, mantinham contato com a minha av\u00f3 e tamb\u00e9m contra\u00edram o v\u00edrus. Mas n\u00e3o sabemos quem pode ter passado para quem. At\u00e9 hoje temos nossas d\u00favidas sobre como a minha av\u00f3 pode ter contra\u00eddo (o coronav\u00edrus)&#8221;, explica a jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto os familiares tiveram sintomas leves, a situa\u00e7\u00e3o de Dalva logo se agravou. Ela come\u00e7ou com febre e sintomas de gripe. A idosa foi internada em quatro de setembro em um hospital particular da capital fluminense, ap\u00f3s um monitoramento apontar que o n\u00edvel de satura\u00e7\u00e3o do oxig\u00eanio no sangue dela estava caindo cada vez mais \u2014 situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica de casos mais graves da covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira tomografia apontou que 25% dos pulm\u00f5es da idosa estavam comprometidos pelo coronav\u00edrus. Quatro dias ap\u00f3s ser internada, a situa\u00e7\u00e3o piorou ainda mais e ela foi intubada. A fam\u00edlia recebia informa\u00e7\u00f5es sobre Dalva duas vezes ao dia: \u00e0s 10 da manh\u00e3 e \u00e0s 10 da noite.<\/p>\n\n\n\n<p>A solid\u00e3o no hospital, situa\u00e7\u00e3o recorrente em casos de covid-19, preocupava a fam\u00edlia. &#8220;Desde que foi internada, a minha av\u00f3 ficou sozinha, sem celular, sem contato com a fam\u00edlia ou qualquer coisa que pudesse distrair. Isso pode ter sido bastante dif\u00edcil para ela naquele momento, principalmente porque a minha av\u00f3 ficava no celular o tempo todo&#8221;, diz Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da idosa, que tinha press\u00e3o alta e pr\u00e9-diabetes, piorou cada vez mais. Na manh\u00e3 de 18 de setembro, ela n\u00e3o resistiu \u00e0s complica\u00e7\u00f5es da covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 tudo muito dif\u00edcil. Toda vez que a gente lembra dela, cai no choro. Ela era muito presente em nossas vidas. Mas a gente tem certeza de que ela est\u00e1 bem agora. A minha av\u00f3 era muito ativa, com certeza n\u00e3o queria ficar debilitada em uma cama e sofrendo. Ela n\u00e3o suportaria isso&#8221;, afirma Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A jovem era a neta mais nova de Dalva. As duas moravam no mesmo pr\u00e9dio e tinham contato frequente. &#8220;A minha av\u00f3 foi a pessoa que eu mais amei em toda a minha vida. At\u00e9 os meus pais tinham ci\u00fames e falavam que quando ela morresse eu n\u00e3o teria outra igual na minha vida. A gente tinha uma liga\u00e7\u00e3o muito forte&#8221;, comenta a universit\u00e1ria. Duas semanas depois de perder a av\u00f3, ela tatuou o nome de Dalva na costela.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Os-v\u00eddeos-no-TikTok\">Os v\u00eddeos no TikTok<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/5129\/production\/_117577702_bb62d68a-031c-49e1-bbf0-096fbaefd5f5.jpg\" alt=\"Dalva e a neta\"\/><figcaption>Legenda da foto,Em setembro passado, Dalva morreu em decorr\u00eancia da covid-19<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Cerca de um m\u00eas ap\u00f3s a morte da av\u00f3, Luisa decidiu compartilhar no TikTok alguns v\u00eddeos que havia feito da idosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, a neta havia publicado no Instagram diversos v\u00eddeos da av\u00f3. Os amigos de Luisa costumavam dizer que queriam muito conhecer a idosa. &#8220;Eles gostavam dos v\u00eddeos dela e pediam para postar cada vez mais. Diziam que ela alegrava o dia deles. Eles achavam o mau humor dela engra\u00e7ado&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu adorava perturbar a minha av\u00f3, porque ela era muito esquentadinha e logo xingava&#8221;, comenta Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>No Instagram, os v\u00eddeos de Dalva eram vistos por amigos ou familiares de Luisa. Por\u00e9m, quando a jovem decidiu postar no TikTok ap\u00f3s a morte da av\u00f3, as publica\u00e7\u00f5es ganharam um grande alcance.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Comecei postando somente para amigos no TikTok. Mas logo tomou uma propor\u00e7\u00e3o muito grande, porque muitos desconhecidos come\u00e7aram a ver. At\u00e9 mesmo pessoas que foram alunas da minha av\u00f3 no passado viram os v\u00eddeos e comentaram sobre ela&#8221;, diz a universit\u00e1ria. &#8220;Foi uma repercuss\u00e3o muito boa. Adoro responder as pessoas e as mensagens&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o perfil da jovem no TikTok tem 40,7 mil seguidores e os v\u00eddeos acumulam, juntos, 726 mil curtidas. Nos coment\u00e1rios, muitos relatam que se divertem com o jeito espont\u00e2neo da idosa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o esperava que os v\u00eddeos da minha av\u00f3 pudessem chegar a tantas pessoas. Mas eu sempre falava para ela: &#8216;v\u00f3, voc\u00ea tem que ficar famosa, porque \u00e9 muito engra\u00e7ada&#8217;. Ela respondia: &#8216;para de bobeira'&#8221;, diz Luisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A jovem relata que a fam\u00edlia gosta do sucesso dos v\u00eddeos de Dalva. &#8220;Eles riem juntos e sabem da repercuss\u00e3o. Ningu\u00e9m nunca foi contra publicar esses v\u00eddeos&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela afirma que a av\u00f3 tamb\u00e9m gostava de ser filmada. &#8220;Ela dizia que n\u00e3o queria fazer os v\u00eddeos. Mas no fundo, ela gostava e acabava topando gravar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A jovem n\u00e3o pretende, ao menos por enquanto, parar de compartilhar os momentos com a av\u00f3. &#8220;A quantidade de v\u00eddeos dela \u00e9 limitada. Mas enquanto tiver conte\u00fado, pretendo continuar postando qualquer coisa que me lembre dela&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Luisa, os v\u00eddeos no TikTok representam uma forma de homenagear Dalva. &#8220;Eu posto porque me d\u00e1 prazer ver as pessoas se divertindo com ela. Sinto que assim n\u00e3o estou deixando a imagem da minha av\u00f3 ser esquecida de jeito nenhum&#8221;, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dalva Junger e Luisa: neta decidiu compartilhar v\u00eddeos da av\u00f3 materna que foi v\u00edtima da covid-19 Em um almo\u00e7o em fam\u00edlia, a neta diz \u00e0 av\u00f3: &#8220;Tenho v\u00e1rios amigos que t\u00eam o sonho de te conhecer&#8221;. A idosa logo responde: &#8220;Ih, n\u00e3o quero conhecer nenhum deles. Deve ser tudo maconheiro!&#8221;. 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