{"id":31210,"date":"2021-03-11T09:31:45","date_gmt":"2021-03-11T12:31:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31210"},"modified":"2021-03-11T09:31:51","modified_gmt":"2021-03-11T12:31:51","slug":"filhos-sem-maes-como-se-viram-as-familias-com-orfaos-da-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/11\/filhos-sem-maes-como-se-viram-as-familias-com-orfaos-da-covid-19\/","title":{"rendered":"Filhos sem m\u00e3es: como se viram as fam\u00edlias com \u00f3rf\u00e3os da Covid-19"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cTia, vai acabar o oxig\u00eanio aqui, avisaram agora.\u201d Era quase metade da manh\u00e3 abafada de 15 de janeiro, em Manaus (AM), quando Lucas Azevedo Paz ligou desesperado para sua tia. O rapaz de 22 anos havia acabado de receber a informa\u00e7\u00e3o de que nas horas seguintes acabaria todo o oxig\u00eanio da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Dr. Jos\u00e9 Lins, onde estava acompanhando sua m\u00e3e, internada com sintomas da Covid-19. \u201cEles avisaram para que a fam\u00edlia corresse, arranjasse oxig\u00eanio\u201d, conta Denise, a tia que atendeu o telefonema. Em menos de uma hora, Lucas foi de carro buscar um cilindro de g\u00e1s emprestado pela av\u00f3. Quando retornou, o oxig\u00eanio da UPA j\u00e1 havia acabado. \u201cSe ela sobreviveu mais um dia, foi porque a fam\u00edlia conseguiu mais oxig\u00eanio por conta pr\u00f3pria\u201d, diz Denise.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, Lucas costuma dizer que virou pai e m\u00e3e. Passado um m\u00eas do dia em que viu a m\u00e3e morrer por asfixia, no pico do colapso de oxig\u00eanio que assolou Manaus, ele virou o respons\u00e1vel pela fam\u00edlia. Mais velho de quatro irm\u00e3os, ele explica: \u201cA minha m\u00e3e n\u00e3o queria que a gente ficasse desunido, ent\u00e3o eu quero preservar isso\u201d. O rapaz que passou tr\u00eas dias no hospital inventando formas de confortar a m\u00e3e nos v\u00e1rios momentos em que os cilindros de oxig\u00eanio se esvaziaram agora tenta assimilar em casa como se cuida de duas crian\u00e7as e um adolescente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e, Francilene Azevedo, morreu tr\u00eas dias depois de ter sido internada na UPA com sintomas do coronav\u00edrus e deixou, al\u00e9m de Lucas, Amanda, de 4 anos, Giulia, de 9, e Kalil, de 16. Os quatro irm\u00e3os manauaras tentam se reestruturar e descobrir caminhos para seguir a vida sem a pe\u00e7a central da fam\u00edlia. Como Lucas, outras pessoas no Brasil da pandemia assumem da noite para o dia a tarefa de criar crian\u00e7as que perderam familiares diretos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Francilene Azevedo, al\u00e9m de ser m\u00e3e de quatro filhos, era uma artes\u00e3 reconhecida pelo primor com que confeccionava enfeites de cabelo<br>\nUm ano ap\u00f3s o primeiro caso de Covid-19 confirmado no Brasil, a Ag\u00eancia P\u00fablica registra as hist\u00f3rias dessas fam\u00edlias que se veem entre a dor de perder um ente e a urg\u00eancia de garantir condi\u00e7\u00f5es de vida aos mais novos que ficaram. At\u00e9 agora, a pandemia j\u00e1 ceifou mais de 255 mil vidas no Brasil, atingindo todas as 5.570 cidades do pa\u00eds. Na regi\u00e3o Norte, primeira a registrar a presen\u00e7a do v\u00edrus alastrada por todos os munic\u00edpios, a taxa de mortalidade entre pacientes internados \u00e9 a mais alta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A desigualdade de recursos e estrutura de sa\u00fade entre as regi\u00f5es fez crescer o n\u00famero de \u00f3bitos entre os pacientes internados, aponta um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista cient\u00edfica The Lancet, que avaliou milhares de interna\u00e7\u00f5es entre fevereiro e agosto de 2020. Segundo a pesquisa, na regi\u00e3o Norte 50% das pessoas internadas vieram a \u00f3bito. Dessas, muitas deixaram familiares e, em alguns casos, como no de Francilene, crian\u00e7as e adolescentes desassistidos. Ainda que a popula\u00e7\u00e3o mais jovem n\u00e3o seja a que mais morre por causa do v\u00edrus, as crian\u00e7as e os adolescentes acabam vitimadas indiretamente, j\u00e1 que a letalidade atinge pais, m\u00e3es, av\u00f3s, tios e respons\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ainda um levantamento dispon\u00edvel que contabilize a quantidade de crian\u00e7as que perderam seus respons\u00e1veis para a Covid-19 no pa\u00eds. Mas, mesmo sem n\u00fameros registrados, a realidade existe e hoje forma-se no Brasil uma gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as que crescer\u00e3o sem os familiares diretos. Um impacto que perpassa o momento da morte e se estender\u00e1 para os pr\u00f3ximos anos, mesmo depois de passada a pandemia. Como resume Denise Azevedo, tia de Lucas, que ajuda a cuidar dos sobrinhos \u00f3rf\u00e3os, \u201cn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a dor da perda, mas tudo que se perde daqui para o futuro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tempo de terror<\/p>\n\n\n\n<p><br> \u201cO que aconteceu com Francilene, pra mim, foi um homic\u00eddio\u201d, diz Denise. Para a fam\u00edlia, que acompanhou a passagem da artes\u00e3 de 46 anos pelo hospital, a tristeza do desfecho se mistura com a indigna\u00e7\u00e3o. \u201cTiraram o direito de lutar da Francilene. N\u00e3o foi a Covid que matou ela, foi a falta de oxig\u00eanio. Isso \u00e9 muito revoltante.\u201d\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Lucas e a tia contaram que pretendem entrar com uma a\u00e7\u00e3o contra o Governo Federal e Estadual buscando indeniza\u00e7\u00e3o por entender que a morte de Francilene foi causada por um colapso no sistema que j\u00e1 era previsto. Segundo a P\u00fablica revelou, ainda no in\u00edcio de janeiro as autoridades do governo Bolsonaro sabiam da \u201cpossibilidade iminente de colapso no sistema de sa\u00fade\u201d dez dias antes, de acordo com documento do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Sa\u00fade sobre o sistema de sa\u00fade de Manaus, de 4 de janeiro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><br> Exatamente dez dias depois da previs\u00e3o do caos, a capital do Amazonas colapsou. E, no dia 15 de janeiro, o quadro de Francilene piorou: \u201cBem no primeiro dia da falta geral de oxig\u00eanio aqui em Manaus\u201d, explica Denise. O g\u00e1s acabou na UPA onde ela estava e, entre a manh\u00e3 do dia 15 e a madrugada de 16, a fam\u00edlia conseguiu levar quatro cilindros. Como aconteceu com outras centenas de fam\u00edlias amazonenses, parentes fizeram vaquinhas e passaram horas em filas buscando oxig\u00eanio. Nesse intervalo de 24 horas, o hospital s\u00f3 havia conseguido fornecer cerca de 50 minutos do g\u00e1s para a m\u00e3e de Lucas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia e a equipe de sa\u00fade tentaram transferir Francilene para um hospital de refer\u00eancia, porque na UPA n\u00e3o havia respiradores ou leitos de UTI. Mas n\u00e3o existiam vagas. \u201cA gente via no olhar dos m\u00e9dicos o desespero, eles vendo as pessoas morrerem e percebendo que n\u00e3o tinha nada para fazer. A \u00fanica coisa que eles podiam fazer era dar morfina, que \u00e9 o que eles estavam fazendo, e fizeram com ela tamb\u00e9m\u201d, conta Denise.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da tarde do dia 16, ap\u00f3s horas sem oxig\u00eanio, Francilene faleceu. Lucas conta que era perto das 13 horas quando ouviu os m\u00e9dicos dizerem: \u201cD\u00e1 morfina, d\u00e1 morfina. Tira ele da sala\u201d. \u00c0s 14 horas chegou o oxig\u00eanio que familiares tinham conseguido, mas n\u00e3o havia mais tempo. A m\u00e3e tinha partido e Lucas assumia a tarefa de cuidar dos irm\u00e3os.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Juntos, os quatro filhos est\u00e3o se virando como conseguem na casa em que j\u00e1 moravam, sob a tutela do irm\u00e3o mais velho. Os parentes v\u00e3o visitar quando podem e se juntaram para pagar o aluguel. Uma tia arranjou uma m\u00e1quina de lavar e a namorada do de Lucas est\u00e1 ensinando os irm\u00e3os a cozinharem juntos. \u201cAs noites \u00e9 que s\u00e3o a parte dif\u00edcil\u201d, diz Kalil, de 16 anos. \u201c\u00c9 quando a menor sente mais saudade.\u201d&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 poucos dias, tia Denise recebeu outra liga\u00e7\u00e3o dos filhos de Francilene. Era o do meio, Kalil, pedindo ajuda. \u201cTia, a senhora precisa vir aqui. Minha irm\u00e3 ficou mocinha e eu n\u00e3o sei o que fazer\u201d. Mais uma vez, Denise se organizou para dar o suporte aos sobrinhos e apareceu para uma longa visita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sem registro<\/p>\n\n\n\n<p><br> Como Lucas, Kalil, Giulia e Amanda, que ficaram sem Francilene, muitas outras crian\u00e7as ficaram sem a m\u00e3e neste Brasil de pandemia descontrolada. Na regi\u00e3o Norte, ao menos 26.141 pessoas faleceram por conta da Covid-19. Mas o n\u00famero n\u00e3o contabiliza todos os casos. Nessa conta falta, por exemplo, Francilene, que, apesar de ter falecido com resultado positivo para o teste do coronav\u00edrus, teve a causa de \u00f3bito registrada como \u201cparada card\u00edaca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A subnotifica\u00e7\u00e3o que apaga os casos gera revolta nas fam\u00edlias, que exigem, ao menos, que fique registrada a causa verdadeira da partida de seus entes. No Amap\u00e1, Maria do Rem\u00e9dio amarga essa sensa\u00e7\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o. Sua nora, Paloma Ramos, faleceu depois de quase um m\u00eas internada com sintomas de Covid no hospital p\u00fablico M\u00e3e Luzia, em Macap\u00e1. Ela chegou a fazer o teste, mas morreu sem diagn\u00f3stico. O resultado positivo para o coronav\u00edrus ficou pronto quase um m\u00eas depois de sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Paloma Ramos realizaria em breve o sonho de formar-se em pedagogia. Morreu antes, com 26 anos e gr\u00e1vida de sua segunda filha<br>\nInternada no dia 8 de maio de 2020, Paloma n\u00e3o p\u00f4de ser acompanhada por nenhum familiar em momento algum. No hospital, a cada duas horas a fam\u00edlia podia acessar uma atualiza\u00e7\u00e3o do prontu\u00e1rio. \u201cQuando foi Dia das M\u00e3es, uma mo\u00e7a l\u00e1 mandou umas fotos dizendo que ela estava muito mal, que a gente tirasse ela de l\u00e1 e procurasse um hospital melhor\u201d, lembra Maria. Mas, segundo ela, as condi\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o permitiam \u00e0 fam\u00edlia buscar outro tipo de tratamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Paloma tinha 26 anos quando morreu, estava prestes a se formar em pedagogia e gr\u00e1vida de sua segunda filha. Deixou, al\u00e9m do sonho de ser professora, uma filha de 5 anos. Maria Vit\u00f3ria agora vive com a av\u00f3, o pai, o av\u00f4 e os tios. \u201cEla entende que a m\u00e3e dela foi embora. Fala que sua m\u00e3e virou estrelinha. \u00c0 noite ela pede pra olhar o c\u00e9u e \u00e0s vezes chora de saudade\u201d, conta a av\u00f3 Maria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 29 de maio completar\u00e1 um ano da morte de Paloma, mas at\u00e9 agora a filha pequena e o marido vi\u00favo n\u00e3o conseguiram voltar a morar na casa que lutaram para construir juntos. Uma semana antes de o coronav\u00edrus chegar na fam\u00edlia, Paloma, Maria Vit\u00f3ria e o marido haviam se mudado para a casa nova. \u201cParece mentira, ela queria tanto ter a casinha dela. Eles estavam quase acabando a obra, tinham se mudado e ela desfrutou s\u00f3 uma semana l\u00e1.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora a filha e o marido de Paloma dormem na casa da av\u00f3 Maria. Junto dos av\u00f3s e tios, tudo fica mais f\u00e1cil e a Maria Vit\u00f3ria cresce mais acompanhada, dizem. Desde que Paloma faleceu, Maria Vit\u00f3ria dorme com a av\u00f3. Muitas vezes abra\u00e7a Maria do Rem\u00e9dio dizendo: \u201cAh, minha v\u00f3, hoje eu queria era abra\u00e7ar a minha m\u00e3e\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A dupla perda de Roberto<\/p>\n\n\n\n<p><br> A falta de estrutura e as falhas no atendimento nos casos de Covid-19 se estendem por todo o Brasil. Em Pl\u00e1cido de Castro, munic\u00edpio no interior do Acre, a agente comunit\u00e1ria de sa\u00fade Simonete Ribeiro de Paiva, de 40 anos, buscou ajuda m\u00e9dica duas vezes antes de vir a \u00f3bito no dia 20 de janeiro deste ano. Cerca de dez dias antes, ela come\u00e7ara a sentir os primeiros sintomas da Covid-19. No dia 16, com dores no peito e falta de ar, Simonete procurou o Hospital Manoel Marinho Monte. Acompanhada do esposo, Roberto dos Santos, ela esperou por algumas horas at\u00e9 ser atendida. \u201cQuando fomos atendidos, a m\u00e9dica disse que ia internar ela, s\u00f3 que quando trocou de plant\u00e3o o outro m\u00e9dico mandou a gente de volta pra casa\u201d, relata Roberto. Simonete estava gr\u00e1vida de seis meses, al\u00e9m de sofrer com asma e doen\u00e7a pulmonar obstrutiva cr\u00f4nica (DPOC).<\/p>\n\n\n\n<p>Em casa, Simonete voltou a passar mal. No dia seguinte, Roberto a levou de novo ao hospital, onde, dessa vez, a encaminharam para a Maternidade B\u00e1rbara Heliodora, na capital, Rio Branco, a 93 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia de Pl\u00e1cido de Castro. A gestante chegou a ficar internada durante um dia enquanto os m\u00e9dicos decidiam se iam ou n\u00e3o fazer o parto da crian\u00e7a, para ent\u00e3o dar andamento ao tratamento. Um dia depois, fizeram um raio-x que apontou o comprometimento de 60% do pulm\u00e3o e a gravidade de seu quadro cl\u00ednico. Mesmo assim, Simonete foi novamente encaminhada para outra unidade de sa\u00fade \u2013 o Instituto de Traumatologia e Ortopedia do Acre (INTO-AC), onde faleceu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Simonete Paiva era uma agente de sa\u00fade empenhada em cuidar da comunidade. Faleceu sem atendimento apropriado, ap\u00f3s o parto de seu terceiro filho Roberto afirma que a morte de Simonete foi causada por neglig\u00eancia m\u00e9dica. \u201cNo INTO n\u00e3o tinha estrutura nenhuma pra ter uma mulher gr\u00e1vida na situa\u00e7\u00e3o dela, porque aqui n\u00e3o tem UTI neonatal, n\u00e3o tem nada, e mesmo assim mandaram ela pra c\u00e1. A maternidade era o lugar para ela ficar, l\u00e1 tinha UTI pra ela e para o beb\u00ea\u201d, conta. Depois de ter dado entrada no INTO na quarta-feira, Simonete passou pelo parto do beb\u00ea e faleceu cerca de dez minutos depois. A crian\u00e7a foi encaminhada para a UTI neonatal da mesma maternidade, que um dia antes a transferiu e l\u00e1 sobreviveu por apenas 48 horas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Indignado com a dupla perda, Roberto questionou o m\u00e9dico da maternidade ao saber que, assim como a esposa, outra mulher tinha dado entrada na unidade com as mesmas condi\u00e7\u00f5es, gr\u00e1vida de seis meses, com covid-19, e tinha sobrevivido. \u201cA minha esposa teve um atendimento diferente. O meu filho estava bem, o tamanho e peso dele estavam normais. Esse beb\u00ea tinha nascido com 900 gramas, 6 meses e sobreviveu. O meu filho estava t\u00e3o bem com 1,4 quilos, 39 cent\u00edmetros. Por que ele n\u00e3o sobreviveu tamb\u00e9m? O m\u00e9dico disse que eram casos diferentes, que o outro nen\u00ea tinha nascido num lugar com estrutura preparada para isso e que a minha esposa deu \u00e0 luz num lugar que n\u00e3o tinha estrutura nenhuma pra uma m\u00e3e fazer o parto de uma crian\u00e7a, ainda mais com Covid\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Simonete deixou tamb\u00e9m dois filhos, Rodrigo, com 18 anos, e Juan, com 9. Durante a \u00faltima conversa que teve com o marido por telefone, um dia antes de falecer, a agente de sa\u00fade pediu que ele \u201ccuidasse dos meninos\u201d. \u201cDepois disso ela desligou, n\u00e3o tivemos mais contato. E foi muito dif\u00edcil contar para eles o que aconteceu, foi muito doloroso. Tem sido complicado assimilar o luto\u201d, diz. Roberto e os filhos est\u00e3o morando com a sogra, pois ainda n\u00e3o conseguiram voltar para casa. A fam\u00edlia tem dado apoio para que eles se recuperem. Ele ainda n\u00e3o sabe como vai ser quando voltarem para casa. Segundo ele, o filho mais velho tem lidado bem com a situa\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00f3s, a fam\u00edlia, somos os seus psic\u00f3logos, conversamos bastante.\u201d J\u00e1 Juan, o mais novo, ainda est\u00e1 aprendendo a lidar com a perda da m\u00e3e. Ele chora toda vez que pensa em Simonete e na saudade que ela deixou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem diagn\u00f3stico&nbsp;<br>\nNo bolo de casos de Covid-19 que se esvaem sem notifica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles pacientes que padeceram do coronav\u00edrus sem, no entanto, nunca terem ouvido o diagn\u00f3stico. Em S\u00e3o Sebasti\u00e3o da Boa Vista, pequeno munic\u00edpio no Arquip\u00e9lago do Maraj\u00f3, Par\u00e1, no come\u00e7o da pandemia todos tinham medo de falar em Covid, at\u00e9 os m\u00e9dicos. \u201cOs m\u00e9dicos diziam que era pneumonia, que era fraqueza da gravidez\u201d, conta Thamara Freitas, irm\u00e3 de Mar\u00edlia Freitas, que faleceu gr\u00e1vida, com dificuldade de respirar. \u201cNingu\u00e9m sabia como cuidar. E ela demorou pra pedir ajuda porque tinha todo esse preconceito com o v\u00edrus\u201d, lembra a irm\u00e3. Quando foi internada, Mar\u00edlia fez um teste, mas o resultado saiu apenas um dia antes de ela morrer, quando j\u00e1 estava mal e n\u00e3o pode ser informada do diagn\u00f3stico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00edlia faleceu gr\u00e1vida de quatro meses, no dia 7 de maio, depois de oito dias internada. Al\u00e9m do beb\u00ea que morreu com ela, deixou Ana Rosa, filha de 11 anos que est\u00e1 vivendo com o pai. A morte de Mar\u00edlia, por ter se arrastado no hospital por dias e por ser o caso de uma mulher gr\u00e1vida conhecida na cidade, que morreu \u00e0 espera da transfer\u00eancia, causou revolta no munic\u00edpio. Thamara conta que no dia seguinte a cidade amanheceu indignada e houve panela\u00e7os espont\u00e2neos na frente de muitas casas. \u201cAs pessoas sa\u00edram na cal\u00e7ada com panelas gritando. Pedindo socorro porque a cidade estava abandonada e as pessoas estavam morrendo uma atr\u00e1s da outra.\u201d Naquele in\u00edcio de pandemia, Mar\u00edlia era a d\u00e9cima v\u00edtima contabilizada na cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Mar\u00edlia Freitas morreu gr\u00e1vida de sua segunda filha, e desencadeou uma onda de panela\u00e7os em S\u00e3o Sebasti\u00e3o da Boa&nbsp;Vista<br>\nExatamente dez dias depois, morreria sua prima, tamb\u00e9m gr\u00e1vida. No Brasil, a mortalidade materna por Covid-19 assusta. N\u00e3o h\u00e1 dados nacionais consolidados, mas algumas pesquisas mostram que gr\u00e1vidas com sintomas do coronav\u00edrus t\u00eam maior risco de desenvolver a forma grave da doen\u00e7a. Em um estudo publicado na International Journal of Ginecology and Obstetrics que analisa n\u00fameros internacionais de \u00f3bitos de gr\u00e1vidas e pu\u00e9rperas (p\u00f3s-parto), o Brasil aparece com 77% dessas mortes no mundo, no per\u00edodo analisado, de fevereiro a junho de 2020.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00edlia e a prima morreram nesse intervalo, mas n\u00e3o h\u00e1 como ter certeza se ambos os casos foram contabilizados, pela demora nos testes em S\u00e3o Sebasti\u00e3o da Boa Vista. Segundo Thamara, o munic\u00edpio estava largado, sem estrutura e sem capacidade de enfrentar o v\u00edrus. S\u00e3o Sebasti\u00e3o da Boa Vista tem um baixo \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH), entre os 500 menores do pa\u00eds, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano do Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia considera que a lota\u00e7\u00e3o e a falta de estrutura no sistema de sa\u00fade foram algumas das causas do \u00f3bito de Mar\u00edlia. Ela tinha 35 anos e faleceu no hospital de sua cidade enquanto esperava ser transferida para Bel\u00e9m em um barco que, prometido pelo prefeito, nunca chegou. \u201cEu sempre falo que o que aconteceu foi neglig\u00eancia\u201d, diz Thamara. Durante a interna\u00e7\u00e3o, o oxig\u00eanio era escasso e precisava ser compartilhado, faltava equipe e a compra de medicamentos para cada paciente ficava a cargo das fam\u00edlias. \u201cCompramos a ivermectina, a azitromicina, os xaropes. Tudo que diziam que precisava\u201d, lembra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre uma correria e outra, as fam\u00edlias dos internados se desdobravam para arranjar itens b\u00e1sicos, como rem\u00e9dios e oxig\u00eanio, no caso de Mar\u00edlia e Francilene. Mas, quando n\u00e3o estavam no hospital, precisavam se virar cuidando dos filhos dos pacientes que, com as m\u00e3es internadas, dependiam dos familiares. E ainda dependem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como diz Denise: \u201cO Estado foi cruel com muitas fam\u00edlias. \u00c9 algo que n\u00e3o pode passar porque vai mexer com toda a estrutura da fam\u00edlia, de quem ficou\u201d. Ela, assim como a av\u00f3 de Maria Vit\u00f3ria, o pai de Juan e Rodrigo e a tia de Ana Rosa, se preocupa com o desamparo que paira sobre as crian\u00e7as que perderam os entes. E se pergunta: como v\u00e3o fazer para viver os pr\u00f3ximos anos?  <\/p>\n\n\n\n<p>Apublica.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTia, vai acabar o oxig\u00eanio aqui, avisaram agora.\u201d Era quase metade da manh\u00e3 abafada de 15 de janeiro, em Manaus (AM), quando Lucas Azevedo Paz ligou desesperado para sua tia. O rapaz de 22 anos havia acabado de receber a informa\u00e7\u00e3o de que nas horas seguintes acabaria todo o oxig\u00eanio da Unidade de Pronto Atendimento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":31211,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":{"0":"post-31210","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/filhos-sem-maes-como-se-viram-as-familias-com-orfaos-da-covid-19.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31210"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31210"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31210\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31212,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31210\/revisions\/31212"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}