{"id":31207,"date":"2021-03-11T09:27:08","date_gmt":"2021-03-11T12:27:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=31207"},"modified":"2021-03-11T09:27:09","modified_gmt":"2021-03-11T12:27:09","slug":"nao-tem-mais-mundo-pra-todo-mundo-diz-deborah-danowski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/03\/11\/nao-tem-mais-mundo-pra-todo-mundo-diz-deborah-danowski\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o tem mais mundo pra todo mundo\u201d, diz Deborah Danowski"},"content":{"rendered":"\n<p>Deborah Danowski n\u00e3o \u00e9 apenas professora, doutora e p\u00f3s-doutora em filosofia. Ela \u00e9 uma das maiores estudiosas do aquecimento global, ou do colapso ecol\u00f3gico, como ela prefere, e militante ambiental aguerrida. Com o companheiro, o antrop\u00f3logo Eduardo Viveiros de Castro, divide alguns cursos na P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da PUC, e a autoria de um livro que vem dando muito o que pensar. Lan\u00e7ado em 2014, \u201cH\u00e1 um mundo por vir: ensaio sobre os medos e os fins\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de ensaio-provoca\u00e7\u00e3o sobre a ruptura do homem com o mundo, que est\u00e1 por tr\u00e1s da destrui\u00e7\u00e3o do planeta em ritmo assustador. As fic\u00e7\u00f5es dist\u00f3picas no cinema, nas s\u00e9ries de TV, nos livros, as vers\u00f5es de \u201cfins dos mundos\u201d que imaginamos, s\u00e3o uma maneira de expressar a percep\u00e7\u00e3o desse colapso, diz Deborah, embora a humanidade esteja longe de perceber a urg\u00eancia e a extens\u00e3o dessa cat\u00e1strofe, da qual a atual pandemia \u00e9 uma pequena amostra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a fil\u00f3sofa, por\u00e9m, lembra o que disse Bruno Latour, a elite financeira, pol\u00edtica e econ\u00f4mica do planeta, sabe muito bem do que est\u00e1 acontecendo e mente para se proteger. Ela chama a aten\u00e7\u00e3o para a desigualdade de efeitos do colapso ecol\u00f3gico sobre as popula\u00e7\u00f5es, como est\u00e1 acontecendo com o coronav\u00edrus. \u201cO aquecimento global \u00e9 democr\u00e1tico como se diz que a pandemia \u00e9 democr\u00e1tica, isto \u00e9, no sentido de que todos, pobres e ricos, s\u00e3o ou ser\u00e3o atingidos. Mas nenhuma das duas coisas \u00e9 democr\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o a quem tem mais capacidade de se proteger, ou meios para reagir, como, no caso da pandemia, o acesso \u00e0 sa\u00fade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensadora inquieta, Deborah concluiu no ano passado seu segundo p\u00f3s-doutorado na PUC-SP \u2013 o primeiro foi conclu\u00eddo em 2001, junto \u00e0 Universidade de Paris IV (Panth\u00e9on-Sorbonne). O tema de sua pesquisa \u201cNegacionismos\u201d n\u00e3o poderia ser mais relevante no mundo e, especificamente, no Brasil de Bolsonaro \u2013 adepto do negacionismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia \u2013 \u201cuma gripezinha\u201d -, \u00e0 ditadura militar e at\u00e9 dos fatos, com seu desprezo pelo jornalismo e pela ci\u00eancia. \u201cTem pessoas que dizem que a Terra \u00e9 plana, que a ditadura militar n\u00e3o existiu no Brasil, ou que a Globo \u00e9 comunista, que os nazistas eram de esquerda, que a cloroquina cura sem sombra de d\u00favida, enfim a lista \u00e9 longa. N\u00e3o pode ser por acaso que todas essas coisas se juntaram neste governo e, embora eu tenha estudado um pouco esse fen\u00f4meno, ele continua sendo um mist\u00e9rio para mim; porque n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 esses absurdos que s\u00e3o ditos sabe-se l\u00e1 por quais interesses, s\u00e3o as pessoas que acreditam neles, e que seguem o que o presidente e seus ministros dizem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Reprodu\u00e7\u00e3o<br>\nDeborah Danowski \u00e9 p\u00f3s-doutora em filosofia e estudiosa do colapso ecol\u00f3gico<br>\nConfira a entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea estuda os fins dos mundos e fala tamb\u00e9m de como essa ideia se traduz culturalmente nas distopias produzidas em filmes, livros, s\u00e9ries. Um dos trechos do H\u00e1 um mundo por vir: ensaio sobre os medos e os fins?, o livro que voc\u00ea escreveu com o antrop\u00f3logo Eduardo Viveiros de Castro, cita uma dessas cat\u00e1strofes imaginadas na fic\u00e7\u00e3o, a do \u201csuperv\u00edrus letal\u201d. Como voc\u00ea recebeu a not\u00edcia dessa pandemia?<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9, mas foi uma men\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida. A gente mencionou o v\u00edrus letal, e inclusive poder\u00edamos acrescentar o v\u00edrus zumbi, n\u00e9? [rs]. Brincadeiras \u00e0 parte, Eduardo e eu falamos do v\u00edrus letal dentro desse quadro que a gente chamou de imagina\u00e7\u00f5es do fim do mundo. E, embora eu tenha passado anos em torno dessa quest\u00e3o do colapso ambiental, do fim do mundo, e as v\u00e1rias formas desse fim do mundo \u2013 mundo sem gente, gente sem mundo, antes e depois do mundo presente \u2013, que foi como a gente come\u00e7ou a pensar as varia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis nas imagina\u00e7\u00f5es sobre a quebra dessa rela\u00e7\u00e3o do homem com o mundo, pois na verdade \u00e9 sobre isso que \u00e9 o livro, eu tenho que confessar que nunca levei muito a s\u00e9rio esse tipo de coisa \u2013 meteoro, v\u00edrus letal, guerra bacteriol\u00f3gica \u2013 justamente porque j\u00e1 \u00e9 t\u00e3o grande o colapso ecol\u00f3gico que isso ocupava minha mente o tempo todo. Ent\u00e3o foi uma surpresa pra mim tamb\u00e9m. E as primeiras not\u00edcias vinham cheias de adversativas, diziam que o novo coronav\u00edrus n\u00e3o era t\u00e3o grave assim, que n\u00e3o se espalhava t\u00e3o r\u00e1pido quanto o sarampo, ent\u00e3o minha primeira tend\u00eancia foi n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o. Mas, pra mim, foi muito r\u00e1pida essa passagem de n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o a perceber que era uma coisa s\u00e9ria. J\u00e1 outras pessoas demoraram mais a se dar conta. H\u00e1 graus diferentes de velocidade com que as pessoas v\u00e3o se dando conta e v\u00e3o entendendo que aquilo \u00e9 real. A minha universidade, por exemplo, demorou um pouco a fechar, dei aulas com 40 alunos, com 60 alunos, e naquele momento eu j\u00e1 sabia que era s\u00e9rio. Tem graus de velocidade com que as pessoas v\u00e3o se dando conta e v\u00e3o entendendo que aquilo \u00e9 real. Acho que isso \u00e9 muito parecido com a demora maior ou menor com que as pessoas se d\u00e3o conta do colapso ecol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>O colapso ecol\u00f3gico \u00e9 o seu tema principal de estudo. Quando soube da pandemia, voc\u00ea ligou o surgimento do novo coronav\u00edrus a essa cat\u00e1strofe maior? Voc\u00ea acha que as pessoas est\u00e3o fazendo essa liga\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Pra mim, sim, era evidente. N\u00e3o s\u00f3 a origem, mas a forma e a rapidez da dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, que tem a ver com a movimenta\u00e7\u00e3o das pessoas e produtos, com o transporte global, com o desmatamento, com a agroind\u00fastria, com a forma como a gente est\u00e1 vivendo. O colapso ecol\u00f3gico n\u00e3o se resume \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, s\u00e3o v\u00e1rios par\u00e2metros ou limites planet\u00e1rios; e, se um deles cai, se um deles \u00e9 ultrapassado, tudo cai junto, \u00e9 que nem um domin\u00f3. E o v\u00edrus est\u00e1 dentro desses subsistemas ecol\u00f3gicos, que constituem e sustentam a biosfera. Ent\u00e3o, quase imediatamente eu me dei conta e, em seguida, percebi a proximidade desse processo pelo qual as pessoas recebem as not\u00edcias da pandemia e do colapso ecol\u00f3gico e respondem ou n\u00e3o a ela.<\/p>\n\n\n\n<p><br> Claro, h\u00e1 algumas diferen\u00e7as muito grandes, a come\u00e7ar pela velocidade do pr\u00f3prio acontecimento. A pandemia, em um, dois, tr\u00eas meses aqui no Brasil, j\u00e1 tinha assolado tudo, enquanto a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 bem mais gradual: a temperatura est\u00e1 aumentando, os eventos extremos est\u00e3o mais frequentes e fortes, as secas, as tempestades, um pouco aqui, um pouco ali, e os fen\u00f4menos n\u00e3o acontecem na mesma velocidade e da mesma forma no mundo inteiro. Ent\u00e3o isso permite que as pessoas afastem de si, enquanto podem, esse pensamento, esse perigo, porque \u00e9 algo muito mais lento e demorado. Mas temos nos dois casos o mesmo processo de recusa do que est\u00e1 acontecendo, de nega\u00e7\u00e3o, de dizer \u201cn\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grave\u201d, \u201c\u00e9 s\u00f3 uma gripezinha\u201d, \u201cvai ter um rem\u00e9dio que vai nos curar, a vacina vai chegar a tempo\u201d, \u201calgu\u00e9m vai fazer alguma coisa\u201d. E aqui, no Brasil, a gente est\u00e1 percebendo claramente que ningu\u00e9m vai fazer nada; ou melhor, somos n\u00f3s mesmos que estamos fazendo, n\u00f3s que temos que fazer, a sociedade civil, os coletivos, os grupos, ONGs, laborat\u00f3rios, universidades, artistas, porque do outro lado, do lado do Estado, que hoje virou um poder de milicianos, s\u00f3 encontramos a tentativa de nos impedir, de nos barrar.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que \u00e9 especialmente tr\u00e1gico, cruel, al\u00e9m das mortes, \u00e9 esse isolamento que a gente \u00e9 obrigada a fazer, que necessariamente bate em todo mundo e de uma maneira violenta porque n\u00e3o d\u00e1 nem pra gente enfrentar adequadamente esse governo de loucos. A resist\u00eancia existe. Por exemplo, tem esse movimento incr\u00edvel de pessoas que est\u00e3o se juntando para ajudar, os coletivos, uma por\u00e7\u00e3o de grupos da sociedade civil que est\u00e3o se organizando; as pessoas est\u00e3o indo l\u00e1, enfrentando a pandemia com seus pr\u00f3prios corpos, mas \u00e9 muito dif\u00edcil enfrentar o que est\u00e1 acontecendo sem poder ver as pessoas, falar com as pessoas, tocar nas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveitando o gancho da recusa de aceitar a gravidade da pandemia, o colapso ecol\u00f3gico, voc\u00ea pesquisa o negacionismo tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? Como voc\u00ea v\u00ea esse duplo negacionismo do governo, de um lado um presidente que nega fatos hist\u00f3ricos, nega a ditadura militar, de outro a nega\u00e7\u00e3o da gravidade da pandemia, da ci\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu me interessei pela quest\u00e3o do negacionismo por ter me acontecido v\u00e1rias vezes de debater com pessoas, inclusive com pessoas de esquerda, pessoas da academia, que simplesmente n\u00e3o acreditavam no aquecimento global: \u201cIsso \u00e9 aquecimentismo, isso \u00e9 Hollywood, isso s\u00e3o os pa\u00edses desenvolvidos querendo impedir o Brasil de se desenvolver\u201d. E fui percebendo que existem v\u00e1rios graus e v\u00e1rias maneiras de se negar. Desde Olavo de Carvalho, que diz que a Terra \u00e9 plana, Trump, que diz que o aquecimento global \u00e9 uma bobagem ou um compl\u00f4 da China, ou as pessoas que s\u00e3o pagas pelas ind\u00fastrias de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2013 porque o grosso do negacionismo \u00e9 financiado, como aconteceu tamb\u00e9m com a invas\u00e3o de fake news na \u00e9poca das elei\u00e7\u00f5es \u2013; desde esse tipo de gente, ent\u00e3o, at\u00e9 ecologistas, pessoas que h\u00e1 anos trabalhavam em defesa da preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente e da justi\u00e7a ambiental, mas que, quando se viam diante do problema do aquecimento global, tinham como que um obst\u00e1culo epistemol\u00f3gico, para usar o termo do [Gaston] Bachelard. Isso n\u00e3o cabia dentro das suas estruturas mentais. E algo parecido se passa com pessoas que pensam \u201cah, tem sim, mas isso algu\u00e9m vai resolver, v\u00e3o inventar uma tecnologia\u201d e at\u00e9 com n\u00f3s mesmos, que n\u00e3o conseguimos pensar nisso o tempo todo e que portanto tamb\u00e9m negamos uma boa parte do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu achava esse negacionismo um mist\u00e9rio, e um pouco at\u00e9 pra me defender do estado de esp\u00edrito em que eu ficava quando debatia com algu\u00e9m sobre isso, com algu\u00e9m que negava, um dia eu pensei: \u201cVou dar um curso sobre isso\u201d. E comecei desdobrando a nega\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias modalidades, passando por conceitos da psican\u00e1lise, da filosofia, e retrocedi at\u00e9 o Holocausto. Porque o termo \u201cnegacionismo\u201d \u2013 isso \u00e9 importante \u2013 passou a ser usado com um sentido semelhante a partir de 1987 pelo historiador franc\u00eas Henry Rousso, pra denunciar os revisionistas do Holocausto, que diziam que n\u00e3o tinha havido campos de exterm\u00ednio, que n\u00e3o tinha havido genoc\u00eddio de judeus etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9, justamente. Se a pessoa \u00e9 paga pra isso at\u00e9 d\u00e1 pra entender, e se a pessoa tem interesses econ\u00f4micos, pol\u00edticos ou religiosos, isso tamb\u00e9m \u00e9, digamos assim, compreens\u00edvel. Mas e quando isso n\u00e3o existe? Porque, no caso do Holocausto, h\u00e1 documentos provando, testemunhas, hist\u00f3rico das ind\u00fastrias que fabricaram o g\u00e1s Zyklon B e que continuam existindo at\u00e9 hoje. Por que esses empres\u00e1rios colaboraram com o regime nazista? Por que algumas dessas empresas continuam existindo? Acho bem interessante essa compara\u00e7\u00e3o que voc\u00ea faz entre negar o passado e negar o futuro. Porque o aquecimento global j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, e nesse sentido ele \u00e9 presente e passado, mas a grande nega\u00e7\u00e3o \u00e9 de que isso v\u00e1 explodir, com uma dimens\u00e3o muit\u00edssimo maior do que a pandemia da Covid-19, num futuro pr\u00f3ximo, e vai atingir todos n\u00f3s, ou pelo menos nossos filhos e netos, vai atingir todos os povos, incluindo aqueles que menos emitem di\u00f3xido de carbono e outros gases de efeito estufa. Porque o aquecimento global \u00e9 democr\u00e1tico, como se diz que a pandemia \u00e9 democr\u00e1tica, isto \u00e9, no sentido de que todos, pobres e ricos, s\u00e3o ou ser\u00e3o atingidos. Mas nenhuma das duas coisas \u00e9 democr\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o a quem tem mais capacidade de se proteger, ou meios para reagir, como, no caso da pandemia, o acesso \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltando \u00e0 compara\u00e7\u00e3o entre o negacionismo do passado e do futuro. Tem muita coisa diferente nessas duas formas, mas muita coisa parecida tamb\u00e9m. Existe um texto excelente, bastante conhecido, da Shoshana Felman, \u201cIn a era of testimony\u201d, sobre o Shoah, aquele filme maravilhoso do Claude Lanzmann, de 1985, que tem quase nove horas e foi feito s\u00f3 com testemunhas do Holocausto, em que ele leva as testemunhas, em sua maioria sobreviventes dos campos, para aqueles mesmos locais na Pol\u00f4nia e for\u00e7a uma esp\u00e9cie de reencena\u00e7\u00e3o: ele vai fazendo perguntas, e em alguns momentos ficamos at\u00e9 incomodados com isso, porque ele for\u00e7a as pessoas a falar, a se lembrar, mesmo contra a vontade delas, porque quer construir uma mem\u00f3ria. E a Shoshana Felman analisa esplendidamente esse filme e mostra como o Lanzmann se baseia, em parte, numa distin\u00e7\u00e3o feita pelo historiador Raul Hilberg no livro A destrui\u00e7\u00e3o dos judeus europeus, entre tr\u00eas tipos de personagens do Holocausto:\u2013 perpetradores \u2013 nazistas \u2013, v\u00edtimas \u2013 judeus \u2013 e espectadores \u2013 os poloneses que viviam ao redor dos campos ou nas aldeias pr\u00f3ximas. Ent\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas tipos de testemunhas que aparecem no filme: os sobreviventes judeus, os nazistas \u2013 que ele filma escondido \u2013 e os poloneses, que dizem que n\u00e3o tinham nada contra os judeus e que eram proibidos pelos nazistas de olhar, mas que, quando levados pelas perguntas de Lanzmann a falar um pouco mais, percebemos que conheciam muitos detalhes do que se passava, ouviam os gritos, sabiam para que serviam os trens, e n\u00e3o haviam feito nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuanto maior o colapso do governo, maior a virul\u00eancia da guerra cultural\u201d, diz pesquisador da Uerj<br>\nPara o professor Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha, uma vis\u00e3o revanchista e revisionista da hist\u00f3ria brasileira moldou Bolsonaro e os bolsonaristas; \u00e9 essa narrativa que justifica a cria\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o de inimigos em s\u00e9rie enquanto, ao mesmo tempo, torna imposs\u00edvel governar<\/p>\n\n\n\n<p>Inspirada nesse texto, pensei: \u201cEu posso come\u00e7ar trazendo para a quest\u00e3o do aquecimento global essas tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es\u201d. S\u00f3 que eu inseri mais um termo nessa compara\u00e7\u00e3o: os animais criados e mortos nas grandes fazendas-f\u00e1bricas; porque v\u00e1rios j\u00e1 chamaram de genoc\u00eddio, e mesmo de Holocausto, aquilo que fazemos com esses animais, mas vamos deixar essa quest\u00e3o de fora aqui. Pois bem, eu percebi que essa transposi\u00e7\u00e3o das tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es de Hilberg funciona para o aquecimento global, porque voc\u00ea tem as v\u00edtimas da crise ecol\u00f3gica, come\u00e7ando com os animais e as plantas, j\u00e1 que estamos causando a sexta grande extin\u00e7\u00e3o em massa da hist\u00f3ria da vida na Terra, numa taxa que, dizem alguns, \u00e9 de at\u00e9 mil vez o n\u00famero de esp\u00e9cies que normalmente s\u00e3o extintas no curso da evolu\u00e7\u00e3o; e evidentemente h\u00e1 as v\u00edtimas humanas, porque o colapso ecol\u00f3gico vai atingir todo mundo, embora, em primeiro lugar e mais fortemente, as pessoas mais pobres, as mesmas que est\u00e3o morrendo mais devido ao coronav\u00edrus, n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o temos as v\u00edtimas, os perpetradores, que nesse caso podem ser as grandes empresas de combust\u00edveis f\u00f3sseis, as empresas de processamento de carne, a Monsanto, as mineradoras, o sistema financeiro; e podemos ir desdobrando at\u00e9 onde a gente quiser: h\u00e1 os maiores poluidores e devastadores \u2013 alguns estudos falam em 20 empresas que s\u00e3o respons\u00e1veis por um ter\u00e7o de todas as emiss\u00f5es globais de carbono; outros falam em 100 grandes companhias que, sozinhas, s\u00e3o respons\u00e1veis por 70% das emiss\u00f5es \u2013, mas a partir da\u00ed voc\u00ea pode ir descendo. E temos os espectadores, que somos todos n\u00f3s no fim das contas, porque somos ao mesmo tempo v\u00edtimas e espectadores \u2013 quando n\u00e3o somos perpetradores. E, assim como os poloneses em rela\u00e7\u00e3o aos judeus, n\u00f3s n\u00e3o fazemos quase nada, fazemos muito pouco. Continuamos vivendo como se houvesse amanh\u00e3, como se estivesse tudo bem. A pandemia bateu forte porque a gente n\u00e3o pode, pelo menos neste momento, continuar vivendo como estava vivendo. At\u00e9 a Rede Globo foi for\u00e7ada a dizer: tem alguma coisa errada; tem que ter um sistema de sa\u00fade que proteja todo mundo, tem que ter uma renda b\u00e1sica pra todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0s tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es: como mostrou muito bem a Shoshana Felman, elas n\u00e3o s\u00e3o apenas tr\u00eas perspectivas sobre o que estava acontecendo, tr\u00eas maneiras de ver, elas tamb\u00e9m s\u00e3o tr\u00eas maneiras de n\u00e3o ver. Nem mesmo as v\u00edtimas tinham a no\u00e7\u00e3o da totalidade do que estava acontecendo; os perpetradores tinham que esconder, impedir os outros de ver e dizer, e os espectadores eram impedidos de olhar, viam pelas frestas, digamos assim. E \u00e9 um pouco o que acontece com a gente em rela\u00e7\u00e3o ao aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p>Os espectadores s\u00e3o mais negacionistas que os demais? Porque, se eles n\u00e3o est\u00e3o nem de um lado nem de outro, poderiam ver melhor, n\u00e3o? Por que eles negam o que est\u00e3o vendo?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, acho que voc\u00ea tem raz\u00e3o, e \u00e9 exatamente a\u00ed que a coisa come\u00e7a a ficar mais dif\u00edcil de entender. \u00c9 talvez a \u201czona cinzenta\u201d de que falava o escritor italiano, sobrevivente de Auschwitz, Primo Levi. No filme de Lanzmann, os espectadores trazidos \u00e0 cena s\u00e3o poloneses e alguns alem\u00e3es. E embora eles dissessem que o que aconteceu foi horr\u00edvel, e que eles gostavam dos judeus etc., n\u00e3o hesitaram, por exemplo, em pegar para si as casas dos judeus que foram levados pros campos. E quando, por exemplo, Lanzmann leva Simon Srebnik \u2013 que sobreviveu porque tinha uma voz muito bonita e os alem\u00e3es gostavam de ouvi-lo cantar \u2013 para a aldeia onde ele vivia, os antigos moradores de in\u00edcio festejaram a sua volta, mas, conforme eles v\u00e3o falando \u2013 respondendo \u00e0s perguntas do diretor \u2013, vai se revelando todo o preconceito e toda a raiva que eles tinham dos judeus na \u00e9poca. Isso pra dizer que os espectadores negam por v\u00e1rios motivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um par\u00eantesis para uma diferencia\u00e7\u00e3o importante. O negacionismo \u00e9 um termo que vem do franc\u00eas, como eu disse, n\u00e9gationnisme; em ingl\u00eas se usa denial, nega\u00e7\u00e3o. E uma coisa \u00e9 to deny, negar; outra coisa \u00e9 to be in denial, estar em nega\u00e7\u00e3o, ou em denega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o querer acreditar, o que pode ser entendido, resumidamente, como o mecanismo ps\u00edquico necess\u00e1rio para evitar um sofrimento ainda maior do sujeito \u2013 e a psican\u00e1lise nos ensinou que h\u00e1 v\u00e1rias formas patol\u00f3gicas dessa recusa da realidade, de tor\u00e7\u00e3o da realidade. Os judeus estavam em nega\u00e7\u00e3o, mais do que negavam o que estava acontecendo, embora tenha havido, tamb\u00e9m entre eles, certas atitudes que poderiam ser interpretadas como negacionistas. Mas existem todas essas posi\u00e7\u00f5es dentro de cada uma das posi\u00e7\u00f5es, essa \u00e9 que \u00e9 a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas e os negacionistas de hoje? Porque, quando eles estavam imersos no Holocausto, essa nega\u00e7\u00e3o era poss\u00edvel, mas e agora que a gente sabe com seguran\u00e7a o que aconteceu?<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9. Tem pessoas que dizem, por exemplo, que a Terra \u00e9 plana, que a ditadura militar n\u00e3o existiu no Brasil, ou que a Globo \u00e9 comunista, que os nazistas eram de esquerda, que a cloroquina cura sem sombra de d\u00favida, enfim a lista \u00e9 longa. N\u00e3o pode ser por acaso que todas essas coisas se juntaram neste governo e, embora eu tenha estudado um pouco esse fen\u00f4meno, ele continua sendo um mist\u00e9rio para mim; porque n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 esses absurdos que s\u00e3o ditos sabe-se l\u00e1 por quais interesses, s\u00e3o as pessoas que acreditam neles e que seguem o que o presidente e seus ministros dizem. Eu estava trabalhando com o negacionismo quando entrou o Bolsonaro, e ent\u00e3o tudo ficou desatualizado imediatamente, eu me senti atropelada pela realidade, mesmo que eu j\u00e1 soubesse que tudo que se escreve sobre o aquecimento global fica desatualizado muito r\u00e1pido, j\u00e1 que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o se acirrando cada vez mais rapidamente. Quando eu comecei a trabalhar nesse texto sobre o negacionismo \u2013 o texto que saiu pela n-1 \u2013, eu me concentrava no colapso ecol\u00f3gico, e o Brasil n\u00e3o era como os Estados Unidos, por exemplo. Na direita americana voc\u00ea tem que ser negacionista do clima, sen\u00e3o voc\u00ea \u00e9 democrata, mas aqui n\u00e3o era assim. Com o Bolsonaro ficou assim. O negacionismo se expandiu, o governo inteiro se voltou contra a ci\u00eancia, mesmo no que diz respeito \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus, como estamos vendo. No caso do governo, \u00e9 dif\u00edcil saber se eles acreditam mesmo nisso tudo ou se \u00e9 s\u00f3 uma estrat\u00e9gia\u2026 O Olavo de Carvalho, por exemplo, eu n\u00e3o creio que ele ache que a Terra \u00e9 plana, ou que o nazismo era de esquerda. Mas a coisa chegou a tal ponto que \u00e9 dif\u00edcil saber ali dentro quem acredita no qu\u00ea. Ou at\u00e9 mesmo quem \u00e9 adepto daquelas religi\u00f5es neopentecostais que acham que o mundo vai acabar mesmo, e que ent\u00e3o tudo bem, vamos aumentar o caos, e o v\u00edrus \u00e9 at\u00e9 bem-vindo porque est\u00e1 ajudando a apressar o Apocalipse, para que sobrem s\u00f3 os eleitos. No que o Bolsonaro de fato acredita, n\u00e3o sei. E n\u00e3o cabe a n\u00f3s ter que decifr\u00e1-lo. Mas lembremos que os que apoiaram sua elei\u00e7\u00e3o, acharam que era melhor \u2013 e mesmo vantajoso \u2013 aguentar no governo uma pessoa que diz esse tipo de coisas, contanto que o Paulo Guedes conseguisse fazer passar suas reformas. Onde colocar esses que o apoiaram em plena consci\u00eancia, por c\u00e1lculo pol\u00edtico-econ\u00f4mico? Certamente n\u00e3o entre as v\u00edtimas inocentes. Ser\u00e3o meros espectadores ou, quem sabe, colaboracionistas?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que sim. Porque esse \u00e9 um trabalho de profissionais, n\u00e3o \u00e9 de pessoas que receberam uma informa\u00e7\u00e3o errada. Eles s\u00e3o financiados para isso, como vimos na \u00faltima campanha eleitoral. E a\u00ed, n\u00e3o basta negar, voc\u00ea tem que colocar alguma coisa no lugar, criar confus\u00e3o, ent\u00e3o se criam os fatos falsos. Isso n\u00e3o \u00e9 denega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 recusa, n\u00e3o \u00e9 desinforma\u00e7\u00e3o, e muito menos discord\u00e2ncia: \u00e9 mentira mesmo, e criminosa, claro. Eles sabem que aquilo \u00e9 falso, mas acham que podem extrair alguma vantagem disso. E essa \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o muito forte tamb\u00e9m dentro do negacionismo clim\u00e1tico. Eles sabem que o aquecimento est\u00e1 acontecendo, ainda mais que cada vez \u00e9 mais dif\u00edcil de ignorar a enorme quantidade e gravidade dos eventos clim\u00e1ticos extremos \u2013 tanto que o n\u00famero de pessoas que, de boa-f\u00e9, digamos assim, n\u00e3o acreditam no aquecimento global est\u00e1 caindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo livro do Bruno Latour \u2013 Onde aterrar \u2013, que, ali\u00e1s, est\u00e1 pra sair em portugu\u00eas aqui no Brasil, tem uma hip\u00f3tese muito interessante para tentar compreender a elei\u00e7\u00e3o do Trump e a geopol\u00edtica global recente. Ele sugere que as elites sabem muito bem, e h\u00e1 bastante tempo, o que est\u00e1 acontecendo, sabem que n\u00e3o h\u00e1 mundo para todos, que aquele ideal propagandeado pelo neoliberalismo, de fazer o bolo crescer para depois distribuir, \u00e9 um engodo. Essa elite nem se preocupa mais em fingir que pretende implantar um Estado de bem-estar social. J\u00e1 faz tempo que eles sabem que n\u00e3o vai dar e escolheram mentir para proteger apenas a si pr\u00f3prios, e para isso tem sido fundamental esse negacionismo financiado h\u00e1 d\u00e9cadas pelas maiores empresas de combust\u00edveis f\u00f3sseis, porque no fundo eles j\u00e1 abandonaram as pessoas. E Latour acrescenta que, se n\u00e3o se entende que \u00e9 esse o papel do negacionismo hoje, n\u00e3o se entende nada do que est\u00e1 acontecendo ultimamente no mundo. Essa \u00e9 uma grande hip\u00f3tese, na minha opini\u00e3o. E, de fato, o que vemos muito claramente na pandemia da Covid-19 \u00e9 essa mesma perda de mundo que estamos vivendo com o colapso ecol\u00f3gico. Os novos pol\u00edticos de direita, os novos nacionalismos, do America First ao Brasil acima de tudo, seguidos cegamente por toda essa gente que se sentiu tra\u00edda e abandonada pelo sonho da modernidade para todos. A consci\u00eancia de que estamos perdendo o mundo modificou a geopol\u00edtica global. N\u00e3o tem mais mundo pra todo mundo, simples assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Arquivo pessoal<br>\nDeborah Danowski segurando cartaz com frase de Oswald de Andrade<br>\nVoc\u00ea est\u00e1 entre aqueles que acham que o mundo n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo depois da pandemia? Esse choque de realidade vai alterar o pensamento das pessoas?<\/p>\n\n\n\n<p>Alterar o mundo, acho que sim, porque n\u00e3o tem como voc\u00ea sair igual de uma coisa desse tamanho. Mas essa esperan\u00e7a de que as pessoas ou os pa\u00edses v\u00e3o sair melhores, que v\u00e3o se dar conta do colapso que vivemos, que temos que mudar pois sen\u00e3o v\u00e3o vir outras pandemias e coisas piores\u2026 Eu sou muito pessimista em rela\u00e7\u00e3o a isso. Aquela reuni\u00e3o ministerial vazada pelo Moro, o que a gente v\u00ea ali? O Salles dizendo: \u201cVamos aproveitar que est\u00e1 todo mundo distra\u00eddo pela pandemia e vamos desregulamentar, passar a boiada\u201d. O Guedes, o que ele diz ali? \u201cVamos salvar as grandes empresas, mas n\u00e3o as pequenas, essas n\u00e3o adianta, n\u00e3o d\u00e3o lucro, n\u00e3o d\u00e3o retorno\u201d. Ou seja, o grande capital est\u00e1 se aproveitando dessa desgra\u00e7a. Os pequenos v\u00e3o quebrar, mas as maiores companhias e o sistema financeiro est\u00e3o sendo compensados e talvez saiam at\u00e9 melhor depois da crise. E tamb\u00e9m sou pessimista porque n\u00e3o sei se, depois que acabar, se acabar \u2013 porque algumas an\u00e1lises dizem que n\u00e3o vai acabar, que vamos ter que aprender a conviver com a Covid-19 \u2013, as pessoas v\u00e3o poder se dar ao luxo de simplesmente pensar: acabou. Algu\u00e9m fez uma charge onde havia tr\u00eas ondas \u2013 a pandemia era a onda menor, depois vinha a crise econ\u00f4mica, uma onda maior, e atr\u00e1s vinha uma onda enorme, monstruosa, um tsunami, que \u00e9 a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica. N\u00e3o sei se vai dar tempo de conscientizar todo mundo, eu sou pessimista. Tenho esperan\u00e7as, vai que as pessoas se iluminam, percebem que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar desse jeito, mas n\u00e3o sei n\u00e3o. Vai haver mudan\u00e7as; a crise econ\u00f4mica vir\u00e1 com certeza, vai ter rupturas de h\u00e1bitos, a maneira de se deslocar no mundo vai se alterar, talvez se reforcem em alguns pa\u00edses algumas redes de seguran\u00e7a social; mas n\u00e3o sei se vir\u00e1 a grande mudan\u00e7a, um mundo realmente diferente. Em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cH\u00e1 um mundo por vir\u201d, acho que continuamos naquela modalidade que a gente analisa ali, que \u00e9 a degrada\u00e7\u00e3o gradual. Claro que dentro dessa degrada\u00e7\u00e3o gradual a pandemia foi uma enorme pancada, mas, quando ela passar ou mesmo quando se retomar mais ou menos as coisas como eram, a tend\u00eancia \u00e9 seguir nesse quadro maior de degrada\u00e7\u00e3o. Acho que a gente vai ter que conviver com isso, e vai ter que aprender a se organizar, a resistir sozinhos, coletivamente. E nesse sentido, acho incr\u00edvel como a sociedade civil est\u00e1 se organizando para ajudar a combater a pandemia, ou ao menos para ajudar os que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de maior fragilidade a enfrent\u00e1-la. Isso talvez saia fortalecido. Porque as pessoas tiveram que inventar muito r\u00e1pido e p\u00f4r em marcha imediatamente essas inven\u00e7\u00f5es. Era uma quest\u00e3o de vida ou morte. A pandemia fez as pessoas exercitarem a imagina\u00e7\u00e3o e isso \u00e9 fundamental, porque \u00e9 o que teremos que fazer conforme o colapso ecol\u00f3gico se aprofunde. Nos reorganizar, inventar pequenas sa\u00eddas pol\u00edticas, econ\u00f4micas, desviantes da grande pol\u00edtica, da grande economia, dessa coisa destrutiva que nos apresentaram como se fosse a \u00fanica realidade poss\u00edvel, uma realidade \u00fanica e sem sa\u00edda. A pandemia est\u00e1 mostrando que esse discurso era falso, e nesse sentido sinto uma esperan\u00e7azinha.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00eddia, os jornalistas v\u00eam desempenhando um papel importante tanto para revelar a realidade da pandemia como do governo Bolsonaro. Voc\u00ea acha que, em rela\u00e7\u00e3o ao aquecimento global, a imprensa tem a mesma boa performance?<\/p>\n\n\n\n<p>De jeito nenhum. A imprensa fala pouqu\u00edssimo do colapso ecol\u00f3gico que est\u00e1 acontecendo e, quando fala, fala de um jeito meio blas\u00e9. Sempre se diz que vai dar tudo certo, que, se cada um fizer a sua parte, tudo vai se resolver. Esse \u00e9 o papel que a grande m\u00eddia tem feito em rela\u00e7\u00e3o ao aquecimento global. \u00c0s vezes, no Dia do Meio Ambiente ou na \u00e9poca das confer\u00eancias do clima \u2013 as COPs \u2013, a m\u00eddia fala um pouco mais, p\u00f5em uns programas especiais \u00e0 meia-noite falando disso e logo depois vem um an\u00fancio de caminhonete 4\u00d74. Tudo continua como est\u00e1, a economia tem que crescer. Sobretudo no Brasil, a m\u00eddia tem sido p\u00e9ssima para levar a s\u00e9rio o colapso ecol\u00f3gico. Se eles levassem a s\u00e9rio, imagine o papel que poderiam ter. Eu considero a grande m\u00eddia quase t\u00e3o criminosa quanto os negacionistas profissionais. Porque, se estamos falando de centenas de milhares de mortes na pandemia, talvez alguns milh\u00f5es, no caso do aquecimento global as mortes v\u00e3o chegar a bilh\u00f5es. \u00c9 uma coisa enorme para os humanos e para os outros seres vivos tamb\u00e9m. Isso deveria ser levado a s\u00e9rio como a pandemia est\u00e1 sendo levada a s\u00e9rio. Se isso acontecesse, se a m\u00eddia parasse de se vender como um espectador neutro \u2013 coisa que sabemos que n\u00e3o existe \u2013, a gente a\u00ed teria s\u00f3 o poderoso mas pequeno grupo dos negacionistas profissionais e daquelas cem grandes companhias poluidoras para combater juntos.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deborah Danowski n\u00e3o \u00e9 apenas professora, doutora e p\u00f3s-doutora em filosofia. Ela \u00e9 uma das maiores estudiosas do aquecimento global, ou do colapso ecol\u00f3gico, como ela prefere, e militante ambiental aguerrida. 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