{"id":30631,"date":"2021-02-15T09:25:49","date_gmt":"2021-02-15T12:25:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=30631"},"modified":"2021-02-15T09:25:51","modified_gmt":"2021-02-15T12:25:51","slug":"como-os-presidentes-brasileiros-lidaram-com-a-gripe-espanhola-no-inicio-do-seculo-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/02\/15\/como-os-presidentes-brasileiros-lidaram-com-a-gripe-espanhola-no-inicio-do-seculo-20\/","title":{"rendered":"Como os presidentes brasileiros lidaram com a gripe espanhola no in\u00edcio do s\u00e9culo 20?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A gripe espanhola n\u00e3o \u00e9 conhecida como a m\u00e3e de todas as pandemias por acaso. No mundo, estima-se que a doen\u00e7a tenha matado mais de 50 milh\u00f5es de pessoas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, os n\u00fameros mais confi\u00e1veis da \u00e9poca v\u00eam do Rio de Janeiro, a ent\u00e3o capital da Rep\u00fablica, onde foram contabilizados cerca de 15 mil \u00f3bitos entre os meses de setembro e novembro de 1918.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gripe espanhola era muito r\u00e1pida, matava em poucos dias. H\u00e1 not\u00edcias de fam\u00edlias inteiras que morriam em casa e s\u00f3 eram descobertas por vizinhos que notavam a falta de movimento&#8221;, relata a historiadora e antrop\u00f3loga Lilia Schwarcz, professora da Universidade de S\u00e3o Paulo e da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Num momento em que os recursos e o conhecimento cient\u00edfico sobre os v\u00edrus ainda eram escassos, o governo brasileiro demorou para tomar as primeiras medidas e patinou at\u00e9 conseguir coordenar as a\u00e7\u00f5es e criar pol\u00edticas efetivas contra a &#8220;espanhola&#8221;, como a doen\u00e7a era conhecida no per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1918 e 1920, tempo em que a pandemia se manteve ativa no pa\u00eds e no mundo, o Brasil teve tr\u00eas presidentes: Wenceslau Braz (de 15 de novembro de 1914 a 15 de novembro de 1918), Delfim Moreira (de 15 de novembro de 1918 a 28 de julho de 1919) e Epit\u00e1cio Pessoa (de 28 de julho de 1919 a 15 de novembro de 1922).<\/p>\n\n\n\n<p>Num cen\u00e1rio de grande incerteza e muitas mortes, alguns personagens importantes da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica rapidamente viraram bodes expiat\u00f3rios e foram execrados pela imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p>E ningu\u00e9m sofreu mais acusa\u00e7\u00f5es do que o m\u00e9dico Carlos Seidl.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Reputa\u00e7\u00e3o-arranhada\">Reputa\u00e7\u00e3o arranhada<\/h2>\n\n\n\n<p>&#8220;Carlos Seidl era um m\u00e9dico muito famoso, quase um popstar. Ele chegou a ser capa da revista Fon-Fon, uma das mais populares do per\u00edodo&#8221;, relembra Jo\u00e3o Malaia, professor do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal de Santa Maria.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em 1867 no Par\u00e1, Seidl foi presidente da Academia Nacional de Medicina entre 1911 e 1913 e at\u00e9 hoje \u00e9 o patrono da cadeira n\u00famero 17 da entidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O especialista era t\u00e3o antenado ao seu tempo que foi autor de um dos primeiros artigos cient\u00edficos da hist\u00f3ria sobre o uso dos raios-X na medicina.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1912, Seidl assumiu como diretor-geral de Sa\u00fade P\u00fablica, cargo que hoje equivaleria ao de ministro da Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/2879\/production\/_116916301_2.jpg\" alt=\"O m\u00e9dico Carlos Seidl, diretor geral de sa\u00fade p\u00fablica\"\/><figcaption>Legenda da foto,O m\u00e9dico Carlos Seidl, diretor geral de sa\u00fade p\u00fablica, na capa da revista FonFon<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c0 \u00e9poca, n\u00e3o existia um Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. As quest\u00f5es relacionadas a esse tema eram centralizadas no Minist\u00e9rio de Justi\u00e7a e Neg\u00f3cios Interiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo ia relativamente bem na gest\u00e3o de Seidl at\u00e9 o segundo semestre de 1918, quando a gripe espanhola invadiu o Brasil por meio dos portos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"De-piada-a-assunto-s\u00e9rio\">De piada a assunto s\u00e9rio<\/h2>\n\n\n\n<p>Os primeiros relatos de que uma doen\u00e7a nova come\u00e7ara a se espalhar pela Europa foram encarados com ceticismo e humor no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Jornais e revistas fizeram piadas com a amea\u00e7a que ficava cada vez maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Um artigo publicado em A Careta \u00e9 um exemplo disso. Num trecho, os autores chegam a dizer em tom de pilh\u00e9ria que o v\u00edrus era inven\u00e7\u00e3o dos alem\u00e3es para ganhar a Primeira Guerra Mundial, que naquele ano de 1918 se encaminhava para o fim:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em nossa opini\u00e3o a misteriosa mol\u00e9stia foi fabricada na Alemanha, carregada de virul\u00eancia pelos sabich\u00f5es teut\u00f4nicos, engarrafada e depois distribu\u00edda pelos submarinos que se encarregam de espalhar as garrafas perto das costas dos pa\u00edses aliados, de maneira que, levadas pelas ondas para as praias, as garrafas apanhadas por gente inocente espalhem o terr\u00edvel morbus por todo o universo, desta maneira obrigando os neutros a permanecerem neutros&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um fator que contribui para essa vis\u00e3o \u00e9 o fato de a gripe sazonal, que aparece no outono e no inverno todos os anos, ser encarada com naturalidade pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um artigo de 2005\u00a0assinado pela historiadora Adriana da Costa Goulart revela que a doen\u00e7a era t\u00e3o corriqueira no pa\u00eds que acabou conhecida no per\u00edodo como &#8220;limpa-velhos&#8221;, pelo fato de acometer e matar principalmente a popula\u00e7\u00e3o idosa.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o foi encarada com um pouco mais de seriedade quando uma miss\u00e3o de militares brasileiros, que partiu de navio para ajudar nos esfor\u00e7os de guerra, foi acometida pela &#8220;espanhola&#8221; em setembro de 1918 ao aportar em Dakar, no Senegal.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/7699\/production\/_116916303_3.jpg\" alt=\"Recorte de jornal com informa\u00e7\u00f5es sobre os primeiros brasileiros acometidos pela &quot;espanhola&quot; em Dakar, no Senegal\"\/><figcaption>Legenda da foto,Recorte de jornal com informa\u00e7\u00f5es sobre os primeiros brasileiros acometidos pela &#8220;espanhola&#8221; em Dakar, no Senegal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesse mesmo m\u00eas, a doen\u00e7a chegou oficialmente ao pa\u00eds no navio Demerara, que partiu de Lisboa, em Portugal, e fez paradas nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em cada uma dessas cidades, o desembarque de pessoas infectadas fez com que o v\u00edrus causador da gripe se espalhasse pa\u00eds adentro e causasse um estrago sem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"A\u00e7\u00f5es-instant\u00e2neas\">A\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas<\/h2>\n\n\n\n<p>Ao receber as primeiras not\u00edcias sobre a gripe espanhola, a primeira coisa que o governo brasileiro fez foi negar a gravidade dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos dias depois, por\u00e9m, a realidade se imp\u00f4s: nas \u00faltima semanas de setembro de 1918, come\u00e7aram a ser tomadas medidas preventivas, como revela esse artigo escrito pelo pr\u00f3prio Carlos Seidl em 1919:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Antes do dia 26 de setembro&nbsp;<em>[de 1918]<\/em>&nbsp;o pr\u00f3prio ministro do Interior, de quem solicitei insistentes informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sabia dizer-me qual a natureza da epidemia &#8211; falava-me em c\u00f3lera e peste bub\u00f4nica. (&#8230;) na falta de documenta\u00e7\u00e3o, tomei a delibera\u00e7\u00e3o de recomendar aqui e nos portos uma profilaxia que denominei de indeterminada, isto \u00e9, visando tudo que pudesse ser motivo de transmiss\u00e3o m\u00f3rbida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A historiadora Daiane Silveira Rossi, p\u00f3s-doutoranda pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (FioCruz) e pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), destaca as primeiras medidas instauradas pela administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando a pandemia estourou, as autoridades sanit\u00e1rias recomendaram que as pessoas se mantivessem em casa e n\u00e3o fossem aos locais p\u00fablicos. Houve decretos para extinguir algumas pr\u00e1ticas bastante comuns no per\u00edodo, como o h\u00e1bito de cuspir no meio da rua&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>A gravidade da situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m exigiu a constru\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de hospitais de campanha e locais para isolamento de indiv\u00edduos infectados com o v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>As pol\u00edticas restritivas, por\u00e9m, n\u00e3o foram aceitas por parte da imprensa e, por consequ\u00eancia, pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outra edi\u00e7\u00e3o, a mesma revista A Careta reclamou da &#8220;amea\u00e7a da medicina oficial e da ditadura cient\u00edfica&#8221; e sugeria que as pol\u00edticas feriam &#8220;os direitos dos cidad\u00e3os com uma s\u00e9rie de medidas coercitivas, preparando todas as armas da tirania cient\u00edfica contra as liberdades dos povos civis&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"O-bode-expiat\u00f3rio\">O bode expiat\u00f3rio<\/h2>\n\n\n\n<p>Por mais necess\u00e1rias que essas medidas de restri\u00e7\u00e3o fossem, elas n\u00e3o conseguiram conter a subida vertiginosa no n\u00famero de mortes pela &#8220;espanhola&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>E mais uma vez sobrou para Carlos Seidl.<\/p>\n\n\n\n<p>Em editoriais, o m\u00e9dico chegou a ser chamado de &#8220;cretino, relapso e sedicioso&#8221; e acusado de deixar a popula\u00e7\u00e3o entregue \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 11 de novembro de 1918, um artigo do Rio Jornal dizia que o ent\u00e3o diretor-geral de Sa\u00fade P\u00fablica fez &#8220;pouco caso criminoso e abusou da paci\u00eancia do povo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em certos ve\u00edculos, a gripe espanhola passou a ser chamada de &#8220;mal de Seidl&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>E o presidente? Em meio a tanta ira, Wenceslau Braz n\u00e3o foi alvo t\u00e3o frequente assim dos ataques da imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em compara\u00e7\u00e3o com alguns de seus sucessores, Braz era mais fraco e se escudou na figura de Carlos Seidl, um profissional que era muito experiente e gabaritado para lidar com a pandemia&#8221;, avalia Schwarcz, que publicou em outubro de 2020 o livro&nbsp;<em>A Bailarina da Morte: a Gripe Espanhola no Brasil<\/em>&nbsp;(Companhia das Letras), junto da tamb\u00e9m historiadora Heloisa Murgel Starling.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Troca-de-lideran\u00e7a\">Troca de lideran\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o evoluiu at\u00e9 o ponto em que a perman\u00eancia de Seidl no comando se tornou insustent\u00e1vel e ele renunciou ao cargo no dia 19 de outubro de 1918, sentindo-se constrangido pelos ataques e pelas not\u00edcias de que seria substitu\u00eddo a qualquer momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s alguns convites recusados, coube ao m\u00e9dico carioca The\u00f3philo Torres assumir o posto de diretor-geral de Sa\u00fade P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma de suas primeiras a\u00e7\u00f5es foi recrutar o tamb\u00e9m m\u00e9dico e pesquisador Carlos Chagas para assumir as a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 gripe espanhola.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 \u00e9poca, Chagas era diretor do Instituto Oswaldo Cruz e j\u00e1 se tornara reconhecido como o herdeiro intelectual do sanitarista Oswaldo Cruz, que morrera em 1917, um ano antes da pandemia estourar no Brasil e no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 muito simb\u00f3lico o governo olhar para uma institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e escolher o diretor dela para assumir um cargo p\u00fablico de tanta relev\u00e2ncia. \u00c9 como se hoje a pneumologista Margareth Dalcolmo, da FioCruz, fosse convidada para virar ministra da Sa\u00fade&#8221;, compara Rossi.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/EBC9\/production\/_116916306_5.jpg\" alt=\"A pneumologista Margareth Dalcolmo\"\/><figcaption>Legenda da foto,A pneumologista Margareth Dalcolmo, da FioCruz, recebe a primeira dose da vacina contra a covid-19<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Pante\u00e3o-de-her\u00f3is\">Pante\u00e3o de her\u00f3is<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dias de outubro de 1918, Chagas intensificou as medidas preventivas e ordenou a cria\u00e7\u00e3o de hospitais de campanha e postos de atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em diversos bairros do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, a pandemia come\u00e7ava a arrefecer na capital do Brasil e a situa\u00e7\u00e3o voltava a ficar mais est\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Carlos Chagas vai entrar no per\u00edodo em que a doen\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 no descenso e acaba ficando com toda a fama. Fica parecendo que ele milagrosamente deu um fim na pandemia&#8221;, observa Schwarcz.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a antrop\u00f3loga, esse momento hist\u00f3rico marca a constru\u00e7\u00e3o de alguns her\u00f3is nacionais, com o resgate da figura de Oswaldo Cruz como o pai da sa\u00fade p\u00fablica brasileira e o primeiro representante da classe dos m\u00e9dicos pol\u00edticos que viria a se tornar t\u00e3o comum no pa\u00eds dali em diante.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro nome que voltou com for\u00e7a junto ao de Oswaldo Cruz e Carlos Chagas foi o de Rodrigues Alves, que havia sido presidente entre 1902 e 1906.<\/p>\n\n\n\n<p>A administra\u00e7\u00e3o de Alves no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 ficou muito marcada pelas medidas de saneamento e vacina\u00e7\u00e3o implementadas por Oswaldo Cruz, que causaram uma mudan\u00e7a enorme na cidade do Rio de Janeiro \u2014 e desembocaram at\u00e9 na famosa &#8220;Revolta da Vacina&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/14281\/production\/_116916528_6.jpg\" alt=\"O m\u00e9dico Carlos Chagas\"\/><figcaption>Legenda da foto,O m\u00e9dico Carlos Chagas virou her\u00f3i nacional ap\u00f3s assumir as a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 gripe espanhola<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Alves concorreu novamente \u00e0 Presid\u00eancia em 1918 e ganhou a elei\u00e7\u00e3o para suceder Wenceslau Braz a partir do dia 15 de novembro daquele mesmo ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, aos 70 anos e com uma sa\u00fade muito fr\u00e1gil, o pol\u00edtico paulista n\u00e3o conseguiu assumir o cargo pela segunda vez. Ele morreu no dia 16 de janeiro de 1919 sem tomar posse.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Quem-matou-Rodrigues-Alves\">Quem matou Rodrigues Alves?<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje existe o mito de que Alves morreu de gripe espanhola. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O conselheiro, como era conhecido pelo povo, chegou a ir v\u00e1rias vezes para Guaratinguet\u00e1 (SP), sua cidade natal, para se recuperar.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram meses de idas e vindas entre o Rio de Janeiro e o interior paulista at\u00e9 a sua morte. E, como explicado mais acima, sabe-se que a &#8220;espanhola&#8221; matava em poucos dias ap\u00f3s o in\u00edcio dos sintomas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Alves tinha problemas card\u00edacos e respirat\u00f3rios que j\u00e1 vinham h\u00e1 muito tempo. Acontece que as oligarquias mineiras e paulistas queriam um nome forte para disputar as elei\u00e7\u00f5es e ele tinha esse capital pol\u00edtico&#8221;, diz Schwarcz.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do \u00f3bito, o conselheiro tamb\u00e9m passou a ser cultuado como um mito nacional.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/0DE9\/production\/_116916530_7.png\" alt=\"Capa do jornal &quot;A Gazeta de Not\u00edcias&quot; do dia 17 de janeiro de 1919\"\/><figcaption>Legenda da foto,Capa do jornal &#8220;A Gazeta de Not\u00edcias&#8221; do dia 17 de janeiro de 1919 traz informa\u00e7\u00f5es sobre a morte do presidente eleito Rodrigues Alves<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Ao dizer que Alves morreu de gripe espanhola, cria-se a ideia de um her\u00f3i que morreu junto de seu povo, e n\u00e3o que os brasileiros haviam eleito uma pessoa que j\u00e1 estava doente&#8221;, completa a especialista.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Linha-sucess\u00f3ria\">Linha sucess\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a morte de Rodrigues Alves, o advogado mineiro Delfim Moreira foi seu substituto. Ele era o vice-presidente da chapa vencedora das elei\u00e7\u00f5es de 1918.<\/p>\n\n\n\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, por\u00e9m, exigia que um novo pleito fosse organizado. O vice s\u00f3 poderia virar presidente se o ocupante do cargo principal morresse dois anos depois de sua posse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s as novas elei\u00e7\u00f5es, o eleito foi o jurista paraibano Epit\u00e1cio Pessoa, que assumiu a Presid\u00eancia em 28 de julho de 1919 e ficou at\u00e9 15 de novembro de 1922.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas administra\u00e7\u00f5es de Moreira e Pessoa, a situa\u00e7\u00e3o da gripe espanhola parecia estar relativamente bem controlada no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 registros de surtos e situa\u00e7\u00f5es de calamidade em outras regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A exemplo do que ocorre agora em 2020 e 2021, a cidade de Manaus foi uma das mais atingidas pela gripe espanhola.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A partir de 1919, os presidentes adotam uma postura de &#8216;n\u00e3o \u00e9 problema meu, n\u00e3o tenho que resolver tudo&#8217; muito parecida ao que \u00e9 feito hoje por Jair Bolsonaro&#8221;, analisa Schwarcz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Liberou-geral\">Liberou geral<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a queda de casos e mortes pela espanhola, houve um relaxamento natural nas medidas de preven\u00e7\u00e3o contra a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O carnaval de 1919, inclusive, \u00e9 famoso at\u00e9 hoje como uma das maiores festas populares de todos os tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Malaia usa o futebol como exemplo de como a pandemia virou assunto do passado com uma rapidez impressionante.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Brasil seria sede do campeonato sul-americano de 1918, que acabou adiado pela gripe e pela doen\u00e7a de Rodrigues Alves. O torneio aconteceu com est\u00e1dios lotados em maio de 1919, poucos meses ap\u00f3s o pico de mortes&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa acabaria com a sele\u00e7\u00e3o brasileira como campe\u00e3, no que seria o primeiro t\u00edtulo internacional de nosso futebol.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Semelhan\u00e7as-e-coincid\u00eancias\">Semelhan\u00e7as e coincid\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das no\u00e7\u00f5es mais equivocadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gripe espanhola (e que tamb\u00e9m se aplica \u00e0 covid-19, diga-se) \u00e9 a de que a pandemia foi &#8220;democr\u00e1tica&#8221; e atingiu todas as classes sociais de maneira igual.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O desenvolvimento das pandemias de 1918 e 2020 \u00e9 semelhante. As duas chegaram ao pa\u00eds por meio dos ricos, que viajaram ao exterior, voltaram de navio ou avi\u00e3o e tinham condi\u00e7\u00f5es de buscar algum tratamento. Mas quem morreu aos montes foi a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, que vivia nos morros e nas periferias&#8221;, aponta Schwarcz.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto que aproxima os dois momentos hist\u00f3ricos \u00e9 a procura desenfreada por tratamentos milagrosos, que na pr\u00e1tica n\u00e3o possuem valida\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No Rio Grande do Sul, o estoque de carne de frango chegou a acabar, porque as pessoas acreditavam que canja e caldo de galinha podiam curar a doen\u00e7a&#8221;, conta Rossi.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1918, uma das maiores promessas contra a &#8220;espanhola&#8221; era o sal de quinino, um tratamento usado contra mal\u00e1ria e dores nas articula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele era vendido em algumas farm\u00e1cias como um &#8220;santo rem\u00e9dio&#8221;, apesar da falta de evid\u00eancias de sua efic\u00e1cia contra a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1930, o sal de quinino foi substitu\u00eddo no tratamento da mal\u00e1ria por uma outra mol\u00e9cula: a cloroquina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/BDD2\/production\/_116649584_7c0cdd64-2e63-4606-8c0b-9f5cb633bf97.jpg\" alt=\"Jair Bolsonaro sorri e segura embalagem de hidroxicloroquina\"\/><figcaption>Legenda da foto,Bolsonaro fez uma s\u00e9rie de apelos p\u00fablicos para o uso da hidroxicloroquina como suposto &#8216;tratamento precoce&#8217; contra a covid-19<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Essa mesma cloroquina (ou hidroxicloroquina) hoje \u00e9 defendida por alguns como &#8220;tratamento precoce&#8221; contra a covid-19, a despeito das contraindica\u00e7\u00f5es de entidades como a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria e a Sociedade Brasileira de Infectologia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Pelo menos em 1918, n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma autoridade pol\u00edtica ou cient\u00edfica apoiando o uso de sal de quinino, como Bolsonaro faz hoje com a cloroquina&#8221;, compara Schwarcz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Diferen\u00e7a-fundamental\">Diferen\u00e7a fundamental<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o principal ponto que separa as crises de gripe espanhola e de covid-19 est\u00e1 na atua\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os federais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ao contr\u00e1rio do que aconteceu no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, vemos hoje uma vontade deliberada do governo de sabotar todas as medidas de preven\u00e7\u00e3o e contra a dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus&#8221;, analisa Malaia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/8319\/production\/_116916533_8.jpg\" alt=\"Hospital de campanha da \u00e9poca da gripe espanhola\"\/><figcaption>Legenda da foto,Hospital de campanha da \u00e9poca da gripe espanhola<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o d\u00e1 pra prever no est\u00e1gio atual \u00e9 como as pessoas v\u00e3o encarar esta pandemia quando ela virar coisa do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Schwarcz destaca que, ap\u00f3s a pior fase da crise sanit\u00e1ria de 1918, o assunto simplesmente desapareceu das cr\u00f4nicas dos jornais e das conversas nas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>A gripe virou um marcador temporal: &#8220;os tempos da espanhola&#8221; se tornou uma express\u00e3o para lembrar de algum fato ocorrido no per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que o mesmo vai acontecer agora com a covid-19?<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora acredita que ainda n\u00e3o d\u00e1 pra saber se o per\u00edodo p\u00f3s-pandemia ser\u00e1 caracterizado por grandes debates ou um &#8220;esquecimento coletivo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;De uma maneira ou de outra, as pessoas v\u00e3o ficar muito marcadas. E pode ser que a sociedade prefira lidar com isso atrav\u00e9s do sil\u00eancio. Mas todos saberemos que ser\u00e1 um sil\u00eancio repleto de barulhos&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC Brasil<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gripe espanhola n\u00e3o \u00e9 conhecida como a m\u00e3e de todas as pandemias por acaso. No mundo, estima-se que a doen\u00e7a tenha matado mais de 50 milh\u00f5es de pessoas. No Brasil, os n\u00fameros mais confi\u00e1veis da \u00e9poca v\u00eam do Rio de Janeiro, a ent\u00e3o capital da Rep\u00fablica, onde foram contabilizados cerca de 15 mil \u00f3bitos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":30632,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":{"0":"post-30631","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/presida.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30631"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30631"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30631\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30633,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30631\/revisions\/30633"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30632"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30631"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30631"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30631"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}