{"id":3057,"date":"2019-03-28T13:06:48","date_gmt":"2019-03-28T16:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=3057"},"modified":"2019-03-28T13:07:10","modified_gmt":"2019-03-28T16:07:10","slug":"o-drama-das-pessoas-com-mais-de-50-anos-que-passam-a-noite-na-fila-e-saem-sem-trabalho-do-mutirao-do-emprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/03\/28\/o-drama-das-pessoas-com-mais-de-50-anos-que-passam-a-noite-na-fila-e-saem-sem-trabalho-do-mutirao-do-emprego\/","title":{"rendered":"O drama das pessoas com mais de 50 anos que passam a noite na fila e saem sem trabalho do Mutir\u00e3o do Emprego"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Cheguei aqui \u00e0 meia-noite, dormi na fila e acabei de ser descartada, como se eu fosse um lixo&#8221;, diz Edna Teixeira, de 58 anos, cabisbaixa.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dois anos desempregada, a bab\u00e1 deixou sua casa no bairro da Lapa, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, \u00e0s 23h de segunda-feira, passou 11 horas esperando atendimento no Mutir\u00e3o do Emprego, no centro da cidade, e saiu sem nenhuma entrevista marcada. O feir\u00e3o oferecia mais de 6 mil vagas em 30 empresas diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a maior parte dos jovens abordados pela reportagem da BBC News Brasil na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira deixou o local com entrevistas marcadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A estimativa da central sindical Uni\u00e3o Geral dos Trabalhadores (UGT) era de que havia mais de 15 mil pessoas na fila &#8211; segundo a central, 1.200 seriam atendidas no mesmo dia e que as outras receberiam senhas para voltar nos pr\u00f3ximos dias. O presidente do \u00f3rg\u00e3o prometeu atender todas as pessoas, nem que fossem necess\u00e1rios dez dias.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Disseram que aqui teria 6 mil empregos, peguei a senha 283 e pensei que sairia com um trabalho. Sou massoterapeuta, esteticista e depiladora. Tinha vaga para balconista e caixa de supermercado. Eu tenho o perfil, me ofereci, mas minha idade me barrou&#8221;, afirmou Teixeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como ela, nenhuma das mais de dez pessoas com mais de 50 anos entrevistadas pela reportagem na fila, que dava voltas no Vale do Anhangaba\u00fa, conseguiu sequer agendar uma entrevista at\u00e9 o fim do dia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3DC1\/production\/_106190851_menor3.jpg\" alt=\"Edna na frente do Sindicato dos Comerci\u00e1rios, em SP\"\/><figcaption>Image captionEdna Teixeira, de 58 anos, passou 11 horas na fila do Mutir\u00e3o do Emprego, mas n\u00e3o conseguiu um trabalho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A bab\u00e1 afirmou que faz bicos com os vizinhos para conseguir ao menos pagar as contas de \u00e1gua e luz enquanto n\u00e3o encontra um emprego fixo. Ela conta que s\u00f3 n\u00e3o passa fome porque mora com a filha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela banca tudo em casa. \u00c9 horr\u00edvel essa sensa\u00e7\u00e3o. A cada dia que passa, a gente perde as esperan\u00e7as e se sente como se n\u00e3o fosse mais \u00fatil em nada. Mas eu n\u00e3o vou desistir. Vou fazer um curso para ser cuidadora de idosos e tentar um novo rumo&#8221;, disse, antes de entrar no metr\u00f4 e voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Baixa qualifica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O presidente da central sindical UGT, Ricardo Patah, reconheceu que as pessoas com mais de 50 anos t\u00eam mais dificuldade para conseguir um emprego. Segundo ele, o principal motivo \u00e9 a falta de qualifica\u00e7\u00e3o &#8211; a UGT participou da organiza\u00e7\u00e3o do mutir\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O P\u00e3o de A\u00e7\u00facar faz contrata\u00e7\u00f5es da terceira idade. Mas a gente v\u00ea que tem muitas pessoas que n\u00e3o se qualificam. Nos \u00faltimos dois feir\u00f5es como este, n\u00e3o preenchemos 40% das vagas por este motivo. Este ano, vamos tamb\u00e9m dar qualifica\u00e7\u00e3o para ocupar 80% das ofertas de emprego. Por exemplo, vamos dar curso de Excel para operadoras de caixa sem experi\u00eancia&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B2F1\/production\/_106190854_menor4.jpg\" alt=\"Presidente da UGT, Ricardo Patah\"\/><figcaption>Image captionPresidente da UGT diz que uma das principais barreiras para conseguir um emprego \u00e9 a falta de qualifica\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas mesmo quem tem experi\u00eancia e qualifica\u00e7\u00e3o encontra dificuldades.<\/p>\n\n\n\n<p>Desempregada h\u00e1 dois anos, Eliete dos Santos Azevedo, de 59 anos, trabalhou durante anos na \u00e1rea de atendimento ao cliente em redes sociais. Ela conta ter sido demitida sob s justificativa de &#8220;cortes de custos por causa da crise&#8221; e n\u00e3o conseguiu se reencaixar no mercado desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A idade pesa. Ontem mesmo entreguei um curr\u00edculo na Lapa para trabalhar em uma loja e disseram que s\u00f3 pegam mocinhas. \u00c9 muito triste ter de passar por um constrangimento desses&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela diz que durante o tempo desempregada faz bicos como monitora em escolinhas infantis. Conta, ainda, que a renda do marido garante o sustento da fam\u00edlia. Mas que ele ainda sacrifica parte do sal\u00e1rio para poder trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4343\/production\/_106191271_menor6.jpg\" alt=\"Pessoas em fila do Mutir\u00e3o do Emprego\"\/><figcaption>Image captionEstimativa \u00e9 que mais de 15 mil pessoas aguardaram em fila no Mutir\u00e3o do Emprego no centro de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente mora em Caieiras (regi\u00e3o metropolitana de SP) e ele trabalha em S\u00e3o Paulo. Como as empresas n\u00e3o querem pagar vale transporte intermunicipal, ele diz que mora na capital e tira R$ 9,20 por dia do pr\u00f3prio bolso para pagar o \u00f4nibus a mais. Eu tamb\u00e9m coloquei um endere\u00e7o daqui no curr\u00edculo para facilitar porque sei que o patr\u00e3o n\u00e3o quer arcar com esse custo e na nossa cidade o emprego est\u00e1 mais dif\u00edcil ainda&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>A fila para entrar no pr\u00e9dio do Sindicato dos Comerci\u00e1rios &#8211; onde representantes de 30 empresas estavam distribu\u00eddos em dez andares &#8211; fazia carac\u00f3is entre grades, dava voltas no Vale do Anhangaba\u00fa e chegava ao largo do Paissandu.<\/p>\n\n\n\n<p>Na fila, era poss\u00edvel ver pessoas com sinais de cansa\u00e7o, fome e sede. Ao entrar no pr\u00e9dio do sindicato, todos ganhavam um lanche e uma caixinha de achocolatado. No local, tamb\u00e9m eram oferecidas vagas de emprego para pessoas com defici\u00eancia e imigrantes. Segundo a UGT, 80% das ofertas eram para as \u00e1reas do com\u00e9rcio e servi\u00e7os, como a\u00e7ougueiro, balconista e assistente de telemarketing.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FD29\/production\/_106190846_menor1.jpg\" alt=\"Luis Carlos Duarte, de 63 anos, na fila do Mutir\u00e3o do Emprego\"\/><figcaption>Image captionLuis Carlos Duarte, de 63 anos, disse que perdeu o emprego por conta da automa\u00e7\u00e3o em sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um deles \u00e9 o analista de mesa de cr\u00e9dito Luis Carlos Duarte, de 63 anos. Ele trabalhava em uma loja varejista at\u00e9 outubro de 2018, quando um sistema automatizado passou a fazer a avalia\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito dos clientes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Agora, estou tentando trabalhar como porteiro, mas eles pedem experi\u00eancia de 6 meses. At\u00e9 fiz um curso, mas n\u00e3o adianta. Mercado para quem passa dos 40 \u00e9 muito mais dif\u00edcil. O governo tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 nenhum incentivo para a gente estudar e a gente fica esquecido. Hoje, eu aceito trabalhar em qualquer \u00e1rea. Quem quer emprego n\u00e3o escolhe&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Duarte \u00e9 divorciado e ainda paga uma pens\u00e3o de R$ 500 por m\u00eas. A situa\u00e7\u00e3o dele s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 mais grave porque ele mora com a m\u00e3e, de 81 anos, e n\u00e3o precisa pagar aluguel. Para ele, conseguir um trabalho no feir\u00e3o \u00e9 sua chance de reconstruir sua vida. &#8220;Fico aqui at\u00e9 conseguir, nem que eu durma na fila&#8221;, disse.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o pensavam em voltar<\/h2>\n\n\n\n<p>De acordo com o economista e consultor Cosmo Donato, da LCA Consultores, a taxa de desemprego entre pessoas com mais de 50 anos no Brasil saltou de 2,92% em mar\u00e7o de 2012 para 5,38% em dezembro de 2018. Segundo ele, o n\u00famero \u00e9 considerado baixo, mas h\u00e1 uma alta taxa de desalentados (aqueles que desistiram de procurar um trabalho e sa\u00edram das estat\u00edsticas de desemprego) que pode elevar esse n\u00famero futuramente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitos idosos j\u00e1 tinham deixado o mercado de trabalho h\u00e1 tempos e com a crise est\u00e3o tentando realoca\u00e7\u00e3o. Muitos porque precisam recompor renda familiar ou porque a aposentadoria n\u00e3o \u00e9 mais suficiente. Mas \u00e9 dif\u00edcil para eles porque n\u00e3o se qualificaram nesse tempo parado, pois n\u00e3o pensavam em trabalhar novamente&#8221;, disse.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/102AB\/production\/_106191266_menor5.jpg\" alt=\"Neli Aparecida Rodrigues Almeida, de 58 anos\"\/><figcaption>Image captionMesmo com ensino superior incompleto e vasta experi\u00eancia, Neli Aparecida Rodrigues Almeida, de 58 anos, est\u00e1 desempregada h\u00e1 tr\u00eas anos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Aqui! Eu trabalho com cozinha!&#8221;, grita Neli Aparecida Rodrigues Almeida, de 58 anos, ao ver um homem perguntando se algu\u00e9m procurava emprego na \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>Com curso superior incompleto em pedagogia, ela conta que est\u00e1 desempregada h\u00e1 tr\u00eas anos. Diz que nesse per\u00edodo j\u00e1 trabalhou de maneira informal como manicure, auxiliar de cozinha e at\u00e9 como assistente de telemarketing. Seu desejo \u00e9 ver novamente a carteira de trabalho assinada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 um sonho, mas sei que a idade chega e as portas se fecham. Hoje, dependo do meu marido e dos meus filhos. Se n\u00e3o fosse ele e meus filhos, n\u00e3o conseguir\u00edamos pagar nem o R$ 1 mil de aluguel&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>O consultor Cosmo Donato afirmou que a economia do pa\u00eds ainda n\u00e3o reagiu e a alta taxa de desemprego atinge todas as idades, mas as pessoas com mais de 50 anos est\u00e3o entre as que encontram mais dificuldades em conseguir um emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O problema \u00e9 ainda maior nesses cargos de baixa qualifica\u00e7\u00e3o. A concorr\u00eancia \u00e9 alta, principalmente com os jovens. E como temos muito mais jovens procurando emprego e eles se sujeitam a aceitar empregos que pagam menos e exigem menor qualifica\u00e7\u00e3o, os idosos dificilmente conseguem competir&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele diz que o desemprego entre jovens tamb\u00e9m gera um efeito cascata que leva idosos a tentarem voltar ao mercado de trabalho para contribuir com a renda familiar e isso aumenta ainda mais o desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso puxa para o mercado de trabalho pessoas que n\u00e3o estavam mais nele. Voc\u00ea aumenta o n\u00famero de desempregados. A grande quest\u00e3o que a gente ressalta \u00e9 que o desemprego est\u00e1 alto de uma maneira geral.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Chance para os mais jovens<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/177DB\/production\/_106191269_menor7.jpg\" alt=\"Julio Cesar Macedo, de 32 anos, ap\u00f3s sair do Mutir\u00e3o do Emprego\"\/><figcaption>Image captionJulio Cesar Macedo, de 32 anos, ficou animado ap\u00f3s ter conseguido uma entrevista de emprego para esta semana<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se para quem tinha mais de 50 anos o dia foi de decep\u00e7\u00e3o, muitos dos mais jovens sa\u00edram com uma express\u00e3o de alegria do Mutir\u00e3o do Emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s mais de dez horas na fila, o fiscal de preven\u00e7\u00e3o de perdas Julio Cesar Macedo, de 32 anos, saiu com uma boa not\u00edcia. Na quinta-feira, ele vai fazer uma entrevista para trabalhar em um supermercado, nove meses ap\u00f3s ter pedido demiss\u00e3o de um emprego na mesma \u00e1rea, no qual ganhava R$ 1.400 por m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para mim foi \u00f3timo porque eu sempre levo curr\u00edculo diretamente na loja e n\u00e3o adianta. Agora, quero conseguir esse emprego e buscar qualifica\u00e7\u00e3o profissional para depois conseguir um sal\u00e1rio melhor e n\u00e3o passar mais por isso. Hoje, eu n\u00e3o tenho casa, moro num centro de acolhida. Quero morar numa casa e tocar a vida da melhor forma poss\u00edvel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Cheguei aqui \u00e0 meia-noite, dormi na fila e acabei de ser descartada, como se eu fosse um lixo&#8221;, diz Edna Teixeira, de 58 anos, cabisbaixa. 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