{"id":29720,"date":"2020-11-27T16:12:19","date_gmt":"2020-11-27T19:12:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=29720"},"modified":"2020-11-27T16:12:21","modified_gmt":"2020-11-27T19:12:21","slug":"com-mercado-clandestino-seguranca-privada-no-brasil-tem-uso-abusivo-de-forca-bico-de-policiais-e-falta-de-fiscalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2020\/11\/27\/com-mercado-clandestino-seguranca-privada-no-brasil-tem-uso-abusivo-de-forca-bico-de-policiais-e-falta-de-fiscalizacao\/","title":{"rendered":"Com mercado clandestino, seguran\u00e7a privada no Brasil tem uso abusivo de for\u00e7a, &#8216;bico&#8217; de policiais e falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Com o pressuposto de proteger, a seguran\u00e7a privada no Brasil muitas vezes faz justamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o mercado clandestino, com seus profissionais sem certifica\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o raro policiais fazendo &#8220;bicos&#8221; ilegalmente &#8211; e a falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o, inclusive do mercado formal, que levam a crimes e casos abusivos de for\u00e7a f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jo\u00e3o Alberto Silveira Freitas, conhecido como Beto Freitas, homem negro de 40 anos que fazia compras em um Carrefour de Porto Alegre na semana passada, isso lhe custou a vida. Dois seguran\u00e7as &#8211; um deles era PM tempor\u00e1rio &#8211; o espancaram e mataram. Foram presos em flagrante.<\/p>\n\n\n\n<p>A atividade \u00e9 fiscalizada pela Pol\u00edcia Federal, mas especialistas concordam que a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem capacidade de fiscaliza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. H\u00e1 centenas de empresas especializadas e registradas para oferecer a atividade. As outras, n\u00e3o registradas, parte do enorme mercado clandestino que existe, n\u00e3o t\u00eam fiscaliza\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s entregamos armas e poder na m\u00e3o de pessoas que n\u00e3o controlamos&#8221;, afirma o soci\u00f3logo Ignacio Cano, do LAV (Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise da Viol\u00eancia) e professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).<\/p>\n\n\n\n<p>Pule Talvez tamb\u00e9m te interesse e continue lendo<br>\nTalvez tamb\u00e9m te interesse<br>\nMontagem com fotos de Trump e Biden, ambos olhando para o lado<br>\nElei\u00e7\u00f5es nos EUA: Trump aceita in\u00edcio de transi\u00e7\u00e3o para governo Biden nos EUA<br>\nColagem de fotos dos ministros Augusto Heleno, Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos<br>\nO que est\u00e1 em jogo no depoimento de ministros de Bolsonaro nesta ter\u00e7a<br>\nDedo apertando bot\u00e3o &#8216;confirma&#8217; em urna eletr\u00f4nica<br>\nElei\u00e7\u00f5es Municipais 2020: Apenas 1% dos candidatos possui algum tipo de defici\u00eancia<br>\nBoulos em ato de campanha<br>\nComo a dire\u00e7\u00e3o do PSB &#8216;for\u00e7ou&#8217; apoio a Boulos e outros nomes de esquerda no segundo turno<br>\nFim do Talvez tamb\u00e9m te interesse<br>\nUm ex\u00e9rcito de 545 mil vigilantes estavam ativos em 2020, segundo dados do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica deste ano, com mais de 90% deles homens.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os vigilantes e as empresas formais registrados na Pol\u00edcia Federal s\u00e3o a &#8220;ponta do iceberg&#8221;, diz Cl\u00e9ber Lopes, professor do departamento de ci\u00eancias sociais da Universidade Estadual de Londrina e coordenador do laborat\u00f3rio de estudos sobre governan\u00e7a da seguran\u00e7a da mesma institui\u00e7\u00e3o. O mercado paralelo \u00e9 gigante, algo &#8220;muito marcante no mercado brasileiro e da Am\u00e9rica Latina&#8221;, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Boa parte da nossa economia funciona na informalidade, e n\u00e3o \u00e9 diferente no mercado de seguran\u00e7a privada. A maior parte do mercado \u00e9 formada por empresas que funcionam sem regulamenta\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal. O mercado irregular \u00e9 enorme.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Ricardo Tadeu, presidente da Abcfav (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cursos de Forma\u00e7\u00e3o e Aperfei\u00e7oamento de Vigilantes), para cada vigilante legal homologado na Pol\u00edcia Federal, existem tr\u00eas clandestinos ou policiais militares que exercem a fun\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a paralela, &#8220;inclusive trabalhando com a arma de fogo da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem vigia os vigilantes?<br>\nNo mercado formal, j\u00e1 existe um problema de fiscaliza\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o dos profissionais e na condu\u00e7\u00e3o das empresas, segundo Viviane Cubas, pesquisadora do NEV (N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia) da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os escrit\u00f3rios regionais da PF n\u00e3o d\u00e3o conta de fiscalizar as empresas. A capacidade do Estado de fazer esse controle \u00e9 muito prec\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Cubas,&#8221;n\u00e3o h\u00e1 controle externo que acompanhe as atividades dos vigilantes&#8221;. &#8220;E eles t\u00eam uma atua\u00e7\u00e3o cada vez mais ampla, est\u00e3o em \u00e1reas de lazer, consumo, moradia. Quem faz o controle \u00e9 a pr\u00f3pria empresa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 uma s\u00e9rie de outros casos de abuso de autoridade ou at\u00e9 de for\u00e7a f\u00edsica que simplesmente somem porque n\u00e3o h\u00e1 canal para fazer reclama\u00e7\u00e3o direta sobre isso e, quando se faz para a empresa, ela n\u00e3o tem interesse em tornar p\u00fablico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>No mercado clandestino, ent\u00e3o, nem se fala. A presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o irregular n\u00e3o \u00e9 crime &#8211; \u00e9 uma infra\u00e7\u00e3o administrativa. Portanto, diz Lopes, da Universidade Estadual de Londrina, n\u00e3o h\u00e1 instrumentos para inibir esse mercado, e a Pol\u00edcia Federal n\u00e3o pode fazer muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente nesse mercado paralelo onde predominantemente ocorrem os problemas. Segundo Lopes, a maior parte deles est\u00e1 associada ao uso abusivo da for\u00e7a f\u00edsica. &#8220;O policial tende a abusar de uso da for\u00e7a letal, disparo da arma de fogo. Na \u00e1rea de seguran\u00e7a privada \u00e9 diferente, tem mais a ver com o uso da for\u00e7a f\u00edsica&#8221;, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos casos n\u00e3o t\u00eam o desfecho tr\u00e1gico como o do Carrefour, ent\u00e3o n\u00e3o chamam a aten\u00e7\u00e3o e passam impunemente. De acordo com Lopes, o uso abusivo da for\u00e7a f\u00edsica acontece em espa\u00e7os espec\u00edficos, como bares, casas noturnas, estabelecimentos comerciais e terminais de transporte coletivo. Ele lembra de um caso no Rio, em 2009, quando agentes foram gravados chicoteando passageiros para garantir que as portas dos trens se fechassem.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;S\u00e3o espa\u00e7os muito conflitivos, de fluxo de massa e onde seguran\u00e7as s\u00e3o constantemente demandados a atuar&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Tampouco h\u00e1 controle sobre o treinamento dos profissionais. Um vigilante que atua numa casa noturna, por exemplo, deve ter treinamento espec\u00edfico, j\u00e1 que \u00e9 um local com facilitadores de conflito, com jovens e bebidas alco\u00f3licas.<\/p>\n\n\n\n<p>E, sem fiscaliza\u00e7\u00e3o, a responsabiliza\u00e7\u00e3o fica fragilizada. As chances de haver impunidade s\u00e3o maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8216;bico&#8217; ilegal<br>\nA impunidade tamb\u00e9m cresce quando \u00e9 um policial que comete um desvio enquanto faz o famoso &#8220;bico&#8221;. Isso porque quando policiais se envolvem em ocorr\u00eancias, elas dificilmente s\u00e3o registradas, diz Lopes. &#8220;Os policiais podem proteger-se uns aos outros. \u00c9 a consequ\u00eancia de estarmos num mercado com uma zona cinzenta que a gente conhece muito pouco.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, observa ele, os contatos com as corpora\u00e7\u00f5es podem facilitar a resolu\u00e7\u00e3o de problemas de maneira r\u00e1pida e informal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso, e por uma s\u00e9rie de outros elementos vistos como vantajosos, que empresas de vigil\u00e2ncia irregulares d\u00e3o prefer\u00eancia \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o de policiais &#8211; que tamb\u00e9m s\u00e3o vistos com bons olhos nas empresas onde atuam como vigilantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os profissionais, por sua vez, procuram o mercado usualmente por causa dos sal\u00e1rios baixos da carreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das &#8220;vantagens&#8221; \u00e9 seu porte de arma. Enquanto vigilantes privados s\u00f3 podem portar armas durante o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o e em locais onde a vigil\u00e2ncia armada \u00e9 considerada necess\u00e1ria, policiais t\u00eam porte de arma &#8211; e costumam usar a das corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que a participa\u00e7\u00e3o dos policiais no mercado informal incorre em conflitos de interesse e atrapalha o momento de folga em que deveriam estar se recuperando da atividade &#8211; exaustiva e estressante &#8211; do policiamento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando os policiais duplicam a sua jornada, sua irritabilidade pode aumentar e ele pode se tornar mais suscet\u00edvel a cometer desvios. Isso vulnerabiliza policiais e a seguran\u00e7a p\u00fablica&#8221;, diz Lopes.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, policiais se tornam muito mais vulner\u00e1veis quando realizam seguran\u00e7a particular do que seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 not\u00f3rio que policiais morrem mais fora do servi\u00e7o do que dentro do servi\u00e7o &#8211; e uma das explica\u00e7\u00f5es para isso \u00e9 o bico policial. Ali, ele est\u00e1 trabalhando sozinho, sem apoio da equipe e sem uniforme da pol\u00edcia, que representa um poder simb\u00f3lico durante sua atividade. Pode sofrer retalia\u00e7\u00e3o de um criminoso ou ser mesmo vitimado.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desses problemas e apesar de ser ilegal, a participa\u00e7\u00e3o dos policiais no mercado de vigil\u00e2ncia \u00e9 tolerada, diz Cubas, do NEV. &#8220;Fazem vista grossa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Treinamento<br>\nUm dos homens presos preventivamente por agredir e matar Beto Freitas era policial militar tempor\u00e1rio, ou seja, contratado por um processo seletivo simplificado, sem treinamento policial.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, ele n\u00e3o tinha Carteira Nacional de Vigilante, segundo a Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois eram funcion\u00e1rios da empresa Vector, que prestava servi\u00e7os para o Carrefour de Porto Alegre. De acordo com a PF, a Vector havia sido fiscalizada em agosto de 2020, e n\u00e3o foram encontradas irregularidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ser vigilante no Brasil, um profissional deve passar por uma das quase 300 escolas regulamentadas pela Pol\u00edcia Federal, com instrutores homologados e credenciados pela institui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o 200 horas para o curso b\u00e1sico, e uma lei obriga que o vigilante retorne a cada dois anos para a sala de aula para uma reciclagem. \u00c9 depois desse curso que o vigilante recebe a Carteira Nacional de Vigilante.<\/p>\n\n\n\n<p>No curso, diz Tadeu, da Abcfav, h\u00e1 disciplinas como a de rela\u00e7\u00f5es humanas no trabalho, primeiros socorros, direito &#8211; direito constitucional, direito ambiental, direito trabalhista e direitos humanos, &#8220;onde est\u00e1 a mat\u00e9ria que a gente fala sobre qualquer tipo preconceito, como o racial&#8221;, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E ainda tem a mat\u00e9ria &#8216;Uso progressivo da for\u00e7a&#8217;. \u00c9 onde houve o excesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, as imagens gravadas do caso em Porto Alegre mostram que &#8220;n\u00e3o houve nenhuma t\u00e9cnica de imobiliza\u00e7\u00e3o, houve um espancamento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A imobiliza\u00e7\u00e3o tem como t\u00e9cnica imobilizar m\u00e3os e pernas. Voc\u00ea n\u00e3o pode entrar numa linha de sufocamento, excesso de choque. N\u00e3o pode ficar sentado em cima do t\u00f3rax de uma pessoa&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Um vigilante sem certifica\u00e7\u00e3o, como aquele que trabalhava no Carrefour, n\u00e3o passa por esse curso &#8211; que j\u00e1 estava em vias de ser refor\u00e7ado justamente com aulas antirracismo e sobre preconceito, em parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares &#8211; projeto que deve ser agora acelerado depois do caso de Beto Freitas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m j\u00e1 viu um cliente branco ser v\u00edtima de uma agress\u00e3o dessa viol\u00eancia. 99% dos casos que n\u00f3s temos \u00e9 sempre o negro e o negro e pobre sofrendo esse tipo de agress\u00e3o. Temos um recorte claro e definitivo&#8221;, diz Jos\u00e9 Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte de Beto Freitas, gravada por testemunhas, aconteceu \u00e0s v\u00e9speras da celebra\u00e7\u00e3o do Dia da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os freios de conten\u00e7\u00e3o foram todos liberados diante do negro. N\u00f3s vimos uma raiva solta, brutal. Ningu\u00e9m faria isso se fosse uma pessoa branca. Os freios n\u00e3o permitiriam isso. \u00c9 esse tipo de autoriza\u00e7\u00e3o mental que se estabelece diante de um branco e diante de um negro que precisa mudar&#8221;, diz Vicente.<\/p>\n\n\n\n<p>A expans\u00e3o do mercado<br>\nHistoricamente, s\u00e3o as pol\u00edcias que nascem do setor privado, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Mil\u00edcias privadas protegiam pr\u00edncipes e reis e trabalhavam para grupos importantes nas comunidades, como propriet\u00e1rios de terra, sem nenhum controle, conta Andr\u00e9 Zanetic, doutor em ci\u00eancias pol\u00edticas e autor de v\u00e1rios estudos sobre seguran\u00e7a privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme os Estados foram se instituindo, as pol\u00edcias foram se institucionalizando tamb\u00e9m. O marco da cria\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia p\u00fablica \u00e9 a pol\u00edcia de Londres, em 1829. Quando a pol\u00edcia p\u00fablica se institucionaliza nos Estados europeus e nos Estados Unidos, no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, a mil\u00edcia se retrai.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os anos 1940 e 1950 trazem tamb\u00e9m uma prolifera\u00e7\u00e3o de atividades privadas, e uma demanda por vigil\u00e2ncia. Nessa \u00e9poca, a pol\u00edcia privada come\u00e7a a crescer no mundo. Hoje, a seguran\u00e7a privada \u00e9 maior que a pol\u00edcia na maior parte dos pa\u00edses, diz Zanetic.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a seguran\u00e7a privada come\u00e7a formalmente em 1969, durante o regime militar. &#8220;A justificativa foi pautada nos assaltos a bancos naquele per\u00edodo, cometidos pelas guerrilhas. O decreto-lei estabeleceu que os bancos deveriam fazer uso obrigatoriamente da seguran\u00e7a privada&#8221;, afirma Zanetic.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos assaltos, j\u00e1 havia um setor pulsante que pressionava pela regulamenta\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio para poder desenvolv\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos anos 1970, surgem os primeiros shoppings centers e uma diversifica\u00e7\u00e3o do mercado, ampliando o rol de vigil\u00e2ncia e exigindo uma nova lei para o setor, de 1983. O final dos anos 1980 v\u00ea a abertura de empresas especializadas em guarda-costas, transporte de valores, vigil\u00e2ncia patrimonial, entre outros, diz Lopes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o boom \u00e9 nos anos 1990. &#8220;Tem a ver primeiro com problemas na \u00e1rea de seguran\u00e7a. Essa ideia de que a seguran\u00e7a privada cresce quando a viol\u00eancia cresce e a pol\u00edcia n\u00e3o d\u00e1 conta \u00e9 s\u00f3 um pano de fundo, e n\u00e3o se aplica. O mercado \u00e9 gigantesco na maior parte dos pa\u00edses desenvolvidos, como a Inglaterra e os Estados Unidos&#8221;, explica Lopes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o por que o mercado cresceu? A resposta est\u00e1 nas demandas do setor privado. Eram muito espec\u00edficas de empresas e organiza\u00e7\u00f5es para os quais o setor de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o teria voca\u00e7\u00e3o ou recursos para responder, diz Lopes. Exemplos: furto no interior das corpora\u00e7\u00f5es, demandas de shoppings center, demandas de propriedades privadas abertas ao p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Imagina uma planta petroqu\u00edmica, com demandas muito espec\u00edficas. O setor de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o&#8221;, exemplifica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tem a ver com mudan\u00e7as mais amplas sobre como a economia se organiza. E para as corpora\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m se torna vantajoso terceirizar, j\u00e1 que representa uma vantagem competitiva para a empresa, com mais especializa\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de custos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o mercado \u00e9 enorme no Brasil &#8211; a formalidade ao lado da clandestinidade -, e s\u00f3 deve crescer mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Pol\u00edcia de choque em forma\u00e7\u00e3o durante protesto contra o racismo, depois que Jo\u00e3o Alberto Silveira Freitas foi espancado at\u00e9 a morte por seguran\u00e7as em um supermercado Carrefour em Porto Alegre<br><\/p>\n\n\n\n<p>Moderniza\u00e7\u00e3o<br>\nH\u00e1 uma d\u00e9cada, tramita na C\u00e2mara e no Senado o &#8220;Estatuto da Seguran\u00e7a Privada&#8221;, um texto que reuniu projetos sobre o tema que tramitavam no Congresso. Est\u00e1 parado no Senado, sob relatoria do senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP).<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta atualizaria a lei que at\u00e9 hoje regula a atividade, de 1983, criminalizando e punindo quem contrata e quem oferece o servi\u00e7o de seguran\u00e7a clandestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Cano, da UERJ, as empresas que contratam servi\u00e7os de vigil\u00e2ncia deveriam ser mais responsabilizadas. &#8220;Elas t\u00eam muitos recursos. Deveriam organizar uma rede entre elas, com uma certid\u00e3o com garantia de qualidade do servi\u00e7o contratado. Temos que cobrar o poder p\u00fablico, mas as empresas deveriam tomar iniciativa tamb\u00e9m&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando a pol\u00edcia comete um crime ou faz barbaridade, se cobra do governador. Quando o vigilante do Carrefour faz isso, provavelmente n\u00e3o haver\u00e1 consequ\u00eancias sist\u00eamicas&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Seria a quest\u00e3o de colocar para o Carrefour: que treinamento tinha essas pessoas, como tinham sido recrutados, que tipo de teste de sele\u00e7\u00e3o tinham feito?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em nota, o Carrefour afirmou que todas as empresas de vigil\u00e2ncia contratadas pela empresa s\u00e3o homologadas pela Pol\u00edcia Federal. &#8220;A contrata\u00e7\u00e3o dos profissionais destas empresas n\u00e3o possui interfer\u00eancia do Carrefour, mas desde o triste epis\u00f3dio ocorrido com o Sr. Jo\u00e3o Alberto, em Porto Alegre, estamos revisando os contratos com todos os nossos prestadores de servi\u00e7o para a parte de vigil\u00e2ncia como uma forma de nos certificarmos que todos os protocolos obrigat\u00f3rios do Carrefour est\u00e3o sendo seguidos, incluindo a contrata\u00e7\u00e3o de profissionais que estejam alinhados com os valores da empresa, de toler\u00e2ncia e respeito.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A Vector, empresa terceirizada pelo Carrefour para a qual os profissionais que cometeram a agress\u00e3o trabalhavam, por sua vez, disse ter rescindido por justa causa os contratos de trabalho dos colaboradores. Afirmou que n\u00e3o atuava na \u00e1rea de vigil\u00e2ncia do supermercado, mas sim na de fiscaliza\u00e7\u00e3o de preven\u00e7\u00e3o e perdas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo abriu uma investiga\u00e7\u00e3o no quadro societ\u00e1rio e de funcion\u00e1rios da empresa Vector. Tr\u00eas PMs de S\u00e3o Paulo s\u00e3o s\u00f3cios da empresa, e a suspeita \u00e9 de que infringiram o regulamento que pro\u00edbe agentes p\u00fablicos em empregos de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o pressuposto de proteger, a seguran\u00e7a privada no Brasil muitas vezes faz justamente o contr\u00e1rio. \u00c9 o mercado clandestino, com seus profissionais sem certifica\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o raro policiais fazendo &#8220;bicos&#8221; ilegalmente &#8211; e a falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o, inclusive do mercado formal, que levam a crimes e casos abusivos de for\u00e7a f\u00edsica. 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