{"id":2910,"date":"2019-03-27T17:50:14","date_gmt":"2019-03-27T20:50:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=2910"},"modified":"2019-03-27T17:50:16","modified_gmt":"2019-03-27T20:50:16","slug":"discriminacao-de-gays-na-prisao-com-pratos-marcados-e-rejeitados-por-faccoes-presos-lgbt-sofrem-com-rotina-de-segregacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/03\/27\/discriminacao-de-gays-na-prisao-com-pratos-marcados-e-rejeitados-por-faccoes-presos-lgbt-sofrem-com-rotina-de-segregacao\/","title":{"rendered":"Discrimina\u00e7\u00e3o de gays na pris\u00e3o: Com pratos marcados e rejeitados por fac\u00e7\u00f5es, presos LGBT sofrem com rotina de segrega\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>O agente penitenci\u00e1rio traz um saco transparente com algumas caixas e o coloca em cima da mesa. Em instantes, a sala do Centro de Deten\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria Pinheiros 2, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, est\u00e1 repleta de pinc\u00e9is e maquiagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Grazy, Chica e L\u00e9ia penteiam os cabelos, passam blush, batom, sombra e fazem os \u00faltimos retoques nos c\u00edlios. A entrevista para a BBC News Brasil \u00e9 considerada por elas um &#8220;dia de princesa&#8221;. Uma das raras oportunidades em que elas podem passar maquiagem e ficar &#8220;montadas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a realidade nos raios &#8211; conjuntos de celas &#8211; do CDP, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, \u00e9 bem diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>A dez grades da cal\u00e7ada da marginal Pinheiros, a popula\u00e7\u00e3o LGBT carcer\u00e1ria enfrenta incont\u00e1veis restri\u00e7\u00f5es. Um gay, por exemplo, n\u00e3o pode tomar \u00e1gua no mesmo copo do que um h\u00e9tero ou usar o mesmo prato. Tamb\u00e9m n\u00e3o pode dividir o mesmo cigarro. At\u00e9 mesmo encostar na vassoura usada para varrer o p\u00e1tio do pres\u00eddio \u00e9 visto como um insulto pelos outros presos. As regras s\u00e3o r\u00edgidas e suas justificativas carregam preconceito e ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 machismo da parte deles. Um preconceito bobo. Acham que o homossexual pratica sexo oral e s\u00e3o pessoas que n\u00e3o t\u00eam um certo cuidado. Eles pensam: &#8216;Vai que voc\u00ea praticou um sexo oral e eu vou dividir um cigarro com voc\u00ea. Eu vou estar fazer um sexo oral de tabela&#8217;. \u00c9 esse tipo de pensamento&#8221;, explica Leonel da Silva Lopes, a L\u00e9ia, que cumpre pena por furto e estelionato.<\/p>\n\n\n\n<p>Crimes cometidos, segundo ela conta, para sustentar seu v\u00edcio em coca\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles dizem que \u00e9 um procedimento que vem das antigas, dos antigos criminosos. Por causa de uns, todos t\u00eam que seguir isso. Na sociedade, a gente vai em um bar e bebemos no mesmo copo, que muitas vezes nem \u00e9 bem lavado e ningu\u00e9m reclama&#8221;, diz L\u00e9ia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que n\u00e3o haja confus\u00e3o, todos os objetos usados pela popula\u00e7\u00e3o LGBT t\u00eam marcas a fogo ou s\u00e3o perfurados, al\u00e9m de serem guardados em prateleiras espec\u00edficas. Antes de entrar no banheiro, os gays tamb\u00e9m precisam dar gritos para anunciar sua chegada e n\u00e3o correr o risco de ver um preso h\u00e9tero sem roupa. Pesquisadores disseram que quebrar alguma dessas regras pode levar at\u00e9 \u00e0 morte em alguns pres\u00eddios do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/194D\/production\/_106177460_cadeia2.jpg\" alt=\"Maquiagens espalhadas em mesa no CDP de Pinheiros 2\"\/><figcaption>Image captionEntrevista para a BBC News Brasil \u00e9 considerada &#8220;Dia de Princesa&#8221;, quando detentas puderam usar maquiagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante mais de tr\u00eas horas, as tr\u00eas contaram com a voz firme e de maneira franca como \u00e9 ser LGBT em um pres\u00eddio masculino. E resumem: &#8220;\u00e9 ser o exclu\u00eddo entre os exclu\u00eddos&#8221;. A entrada da reportagem da BBC News Brasil no pres\u00eddio foi autorizada pela Justi\u00e7a. A visita foi acompanhada pela diretora de sa\u00fade da unidade, uma assessora de imprensa e agentes penitenci\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o cabelo raspado e um \u00f3culos com arma\u00e7\u00e3o azul repousado sobre a testa, usado apenas como adere\u00e7o, L\u00e9ia \u00e9 a representante LGBT na unidade visitada pela reportagem. Cabe a ela instruir os presos homossexuais que chegam sobre as regras da cadeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 criar um ambiente com boa conviv\u00eancia e respeito entre os internos, o oposto do que ela diz ter encontrado em sua primeira passagem pelo sistema penitenci\u00e1rio, 19 anos atr\u00e1s. Sem op\u00e7\u00e3o de trocar de cadeia, L\u00e9ia conta que foi desrespeitada e sofreu muito preconceito nas passagens que teve por pres\u00eddios comandados pelo PCC.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente tinha que costurar, arrumar a cela. Nunca me oprimiram ou bateram, mas eu sentia preconceito por parte deles&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Na unidade onde ela est\u00e1 hoje, chamada de oposi\u00e7\u00e3o por n\u00e3o ter membros do PCC, ainda s\u00e3o impostas as mesmas regras de segrega\u00e7\u00e3o, mas os presos t\u00eam mais respeito \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT. Parte chega a dizer que s\u00f3 as obedece para n\u00e3o contrariar os companheiros de cela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Certa vez, um ladr\u00e3o falou para mim: &#8216;Tem uma menina que vem me visitar que \u00e9 garota de programa. Eu vou saber o que ela fez na rua? Eu a beijo na boca. Eu n\u00e3o bebo no mesmo copo que voc\u00ea n\u00e3o porque eu quero, mas porque os demais criminosos exigem isso. Se eu passar a beber no seu, eu vou passar a beber (no mesmo copo) definitivamente&#8217;. Eu achei at\u00e9 bonito da parte dele&#8221;, conta L\u00e9ia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de uma pilha de livros, ela conta que a biblioteca \u00e9 o seu lugar preferido no pres\u00eddio. Suas obras preferidas s\u00e3o os chamados espirituais e tamb\u00e9m os de autoajuda, como Paulo Coelho e Augusto Cury. Mas tamb\u00e9m l\u00ea Sidney Sheldon e Stephen King. L\u00e9ia afirma que os livros a tornaram mais forte para encarar a vida de isolamento. Mas se emociona ao lembrar de sua m\u00e3e, de 73 anos, que sai de Salvador e percorre 2 mil km para visit\u00e1-la uma ou duas vezes ao ano.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4B36\/production\/_106145291_dsc01053.jpg\" alt=\"Grazy em jardim na penitenci\u00e1ria de Pinheiros 2\"\/><figcaption>Image captionPresos heterossexuais n\u00e3o aceitam usar os mesmos talheres, pratos e copos da popula\u00e7\u00e3o LGBT nos pres\u00eddios brasileiros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando ela cruza o port\u00e3o, a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande. Fico feliz por ela estar viva, mas triste de eu estar preso e minha m\u00e3e tendo que enfrentar filas, de presenciar toda aquela situa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios jovens presos, para me ver. Isso me deixa deprimido. Mas isso me incentiva a sair, mudar de vida e retribuir um pouco por tudo o que ela fez por mim&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e9ia sonha em deixar a cadeia e morar perto dela, em Salvador. Mas seu maior desejo a curto prazo \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o LGBT tenha o &#8220;direito de cumprir dignamente o que n\u00f3s cometemos para que amanh\u00e3 possamos estar com nossos familiares e nos tornar cidad\u00e3os melhores.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Doutorando em sociologia pela Universidade Estadual do Cear\u00e1 (Uece), Francisco Elionardo de Melo Nascimento diz que antes do surgimento de fac\u00e7\u00f5es criminosas no sistema penitenci\u00e1rio, os demais presos queriam estar pr\u00f3ximos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT. Hoje, at\u00e9 mesmo a aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como uma falta grave.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A conviv\u00eancia com os homossexuais era disputada por quest\u00f5es afetivas. Como n\u00e3o havia visitas \u00edntimas, era muito comum as rela\u00e7\u00f5es com os homossexuais. A popula\u00e7\u00e3o LGBT tamb\u00e9m tinha a fun\u00e7\u00e3o de ser uma dona de casa, uma faxineira na cadeia. Os demais presos os viam como algo feminino, dedicado a cuidados do lar, enquanto eles tinham a fun\u00e7\u00e3o de provedores&#8221;, relata o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador diz que um dos principais motivos de tamanha restri\u00e7\u00e3o imposta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da comunidade LGBT \u00e9 colocar a masculinidade dos membros de fac\u00e7\u00f5es \u00e0 prova.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O fato de uma pessoa trans impactar nessa masculinidade tamb\u00e9m \u00e9 um reflexo do que acontece do lado de fora das cadeias. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender a pris\u00e3o como um ambiente isolado. A onda de conservadorismo presenciada no pa\u00eds tamb\u00e9m impacta do lado de dentro das pris\u00f5es&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Para n\u00e3o seduzir os caras&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Assim que um preso chega ao sistema penitenci\u00e1rio brasileiro, uma das primeiras perguntas que ele ouve \u00e9 se ele faz parte de uma fac\u00e7\u00e3o criminosa. Se n\u00e3o fizer, ele deve escolher uma sigla para se filiar. Mas essa n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o LGBT.<\/p>\n\n\n\n<p>As fac\u00e7\u00f5es n\u00e3o aceitam que nenhum de seus membros seja gay. Em cadeias dominadas por algumas das maiores fac\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, a segrega\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior. Os presos LGBT n\u00e3o podem deixar o cabelo crescer ou usar short. Mesmo nos dias mais quentes, tamb\u00e9m n\u00e3o podem usar camisetas que deixem a barriga \u00e0 mostra. J\u00e1 os detentos heterossexuais podem ficar sem camisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jairo de Jesus Oliveira Silva, de 29 anos, a Grazy, j\u00e1 passou por cadeias dominadas pelo PCC, por roubo, e hoje est\u00e1 em Pinheiros 2, de oposi\u00e7\u00e3o. Ela diz que as restri\u00e7\u00f5es nas cadeias comandadas pela maior fac\u00e7\u00e3o do pa\u00eds s\u00e3o t\u00e3o r\u00edgidas que a popula\u00e7\u00e3o LGBT mal pode conversar com outros presos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D6FD\/production\/_106173055_dsc01038.jpg\" alt=\"Chica tem diversas passagens pelo sistema penitenci\u00e1rio\"\/><figcaption>Image captionChica disse que seu maior sonho \u00e9 fazer uma cirurgia pl\u00e1stica no rosto para corrigir um procedimento feito no passado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;L\u00e1 tinha muitas regras, a gente era oprimida. A gente tinha que ficar no canto, sem falar com ningu\u00e9m. S\u00f3 (podia falar) o b\u00e1sico, como pedir licen\u00e7a. Tamb\u00e9m n\u00e3o tomava banho com os caras. A gente n\u00e3o podia usar roupa curta, n\u00e3o podia passar um l\u00e1pis na sobrancelha, um l\u00e1pis no olho. Tinha que andar como menino, com bermuda abaixo do joelho 24 horas. Nosso cabelo tinha que manter sempre curto por causa dos caras. Para a gente n\u00e3o seduzir nem arrastar os irm\u00e3os (membros do PCC)&#8221;, conta Grazy.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, o PCC age dentro dos pres\u00eddios de maneira contradit\u00f3ria do que prev\u00ea o pr\u00f3prio estatuto da fac\u00e7\u00e3o fundada em 1993. O texto divulgado entre os detentos e novos membros do PCC prev\u00ea que todos fa\u00e7am parte de uma &#8220;luta contra as injusti\u00e7as e a opress\u00e3o dentro das pris\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles falam que h\u00e1 igualdade pelo simples fato de o homossexual ter visita \u00edntima. Hoje eles deixam, mas por obriga\u00e7\u00e3o, por causa das leis, n\u00e3o porque gostam. Eu j\u00e1 passei por l\u00e1 e sei do que eu estou falando. A gente \u00e9 tratado de uma maneira diferente que eles passam&#8221;, conta Grazy.<\/p>\n\n\n\n<p>Dilmar da Silva Soares, de 63 anos, a Chica, \u00e9 natural de Pelotas, RS, e tem diversas passagens no sistema carcer\u00e1rio, muitas por roubo &#8211; a maior parte das v\u00edtimas seus pr\u00f3prios clientes como garota de programa &#8211; e at\u00e9 por tr\u00e1fico internacional de drogas quando tentou embarcar com 17 kg de coca\u00edna para Amsterd\u00e3, na Holanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta ter visto cenas de desrespeito, agress\u00f5es e at\u00e9 mortes durante os anos que passou na cadeia. E ainda hoje presencia cenas de preconceito na unidade de Pinheiros 2.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu pegar a vassoura para varrer o raio, n\u00e3o posso. A boia, alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 eles que servem. J\u00e1 aconteceu de passar um p\u00e3o a mais. Tem que devolver porque \u00e9 contado. Eles j\u00e1 n\u00e3o pegam porque eu peguei com a minha m\u00e3o, ent\u00e3o eles deixam ficar&#8221;, conta Chica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990 era tratada como &#8220;uma rainha&#8221; ao chegar no sistema penitenci\u00e1rio e lembra sua chegada \u00e0 Casa de Deten\u00e7\u00e3o Carandiru, onde uma chacina deixou 111 mortos em 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9ramos consideradas as rainhas no Carandiru. A gente chegava, casava, comprava uma cela e vivia com o preso. Ele me dava tudo do que eu precisava, mas eu n\u00e3o podia falar com mais ningu\u00e9m. Quem n\u00e3o casava, podia se prostituir&#8221;, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para evitar o conv\u00edvio com presos do PCC, hoje boa parte da popula\u00e7\u00e3o LGBT pede transfer\u00eancia para uma cadeia de &#8220;seguro&#8221; ou &#8220;oposi\u00e7\u00e3o&#8221;, como s\u00e3o chamados os pres\u00eddios onde n\u00e3o h\u00e1 membros da maior fac\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma delas \u00e9 a unidade Parada Neto (Guarulhos, na Grande S\u00e3o Paulo), dominada pelo Comando Revolucion\u00e1rio Brasileiro da Criminalidade (CRBC), e tamb\u00e9m Pinheiros 2 e 3, na capital paulista, Balbinos 1 e Guare\u00ed, ambas no interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o governo diz que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma divis\u00e3o no sistema penitenci\u00e1rio feminino por conta de orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Na intimidade da cela<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma vez por semana, as grades dos pres\u00eddios se abrem para que familiares e amigos de presos possam levar comida e passar algumas horas na cela com eles. Esse momento \u00e9 visto como sagrado para os detentos, j\u00e1 que \u00e9 \u00fanica oportunidade que eles t\u00eam para rever pessoas que est\u00e3o nas ruas, ter uma refei\u00e7\u00e3o especial e principalmente ter visita \u00edntima.<\/p>\n\n\n\n<p>A Secretaria da Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria (SAP) informou em nota que uma resolu\u00e7\u00e3o de 2014 garante que todos os direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBT sejam respeitados nos pres\u00eddios, inclusive visitas \u00edntimas. Mas nos pres\u00eddios paulistas, apenas em 2018 o PCC mandou um aviso aos seus membros para que isso fosse permitido no Estado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/88DD\/production\/_106173053_portao.jpg\" alt=\"Chica voltando para sua cela\"\/><figcaption>Image captionSegundo os presos e agentes penitenci\u00e1rios, as regras internas dos pres\u00eddios s\u00e3o ditadas pelas fac\u00e7\u00f5es e n\u00e3o pelo governo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Especialistas, agentes penitenci\u00e1rios e os pr\u00f3prios presos entrevistados pela reportagem dizem que n\u00e3o importa quais leis sejam aprovadas pelo governo, pois dentro da cadeia as regras s\u00e3o ditadas pelas fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo \u00e9 que apenas em 2007 o PCC passou a proibir o estupro de gays dentro das penitenci\u00e1rias comandadas pela fac\u00e7\u00e3o, segundo a pesquisadora Camila Nunes Dias, autora de livros sobre o PCC e pesquisadora do N\u00facleo de Estudos e Viol\u00eancia da USP.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desde ent\u00e3o, quem tiver rela\u00e7\u00f5es sexuais com gays tamb\u00e9m passa a ser considerado &#8216;bicha&#8217;, como s\u00e3o chamados pelos presos da fac\u00e7\u00e3o. Antes disso, era admitido (o estupro). Hoje, ainda s\u00e3o obrigados a deixar a fac\u00e7\u00e3o e serem transferidos para uma cela espec\u00edfica&#8221;, afirma Dias.<\/p>\n\n\n\n<p>A diretora de sa\u00fade do CDP de Pinheiros 2, Eliane de Souza, afirmou que o Estado n\u00e3o tem nada a ver com essas proibi\u00e7\u00f5es impostas por fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essas quest\u00f5es, como n\u00e3o poder tomar \u00e1gua no mesmo copo, s\u00e3o internas deles. Para n\u00f3s, s\u00e3o todas pessoas privadas de liberdade com os mesmos direitos. Mas eles (LGBT) merecem uma aten\u00e7\u00e3o especial. Eles v\u00eam da sociedade e muitas vezes sofrem exclus\u00e3o dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia. Chegam no limite do ser humano, no direito de ir e vir, e merecem aten\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela diz que a unidade promove atividades e oficinas na unidade sobre cidadania, oferece roupas \u00edntimas e tenta ao m\u00e1ximo tratar de maneira humanizada essa popula\u00e7\u00e3o. Na unidade, tamb\u00e9m \u00e9 permitido manter cabelo comprido e todos chamam os gays e trans pelo nome social, inclusive os funcion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Teve resist\u00eancia dos agentes? Teve. Mas foram entendendo que tratar pelo nome social e atender as necessidades deles era melhor para toda a seguran\u00e7a. A gente tamb\u00e9m entende que segregar \u00e9 um preconceito, ent\u00e3o elas convivem com os heteros. \u00c0 medida que o corpo funcional respeita, os presos respeitam tamb\u00e9m&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/126D5\/production\/_106177457_cadeia5.jpg\" alt=\"Diretora de sa\u00fade Eliane Souza\"\/><figcaption>Image captionDiretora de sa\u00fade do pres\u00eddio de Pinheiros 2 diz que popula\u00e7\u00e3o LGBT tem tratamento especial e que copos marcados s\u00e3o quest\u00f5es deles<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A unidade de Pinheiros 2 tem capacidade para 793 pessoas, mas hoje abriga 1601 presos. Entre eles, 254 s\u00e3o autodeclarados LGBT, o equivalente a 15% de sua popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Segundo o Conselho Nacional de Justi\u00e7a, S\u00e3o Paulo tem 236 mil presos. A SAP estima que entre 5 e 6 mil sejam LGBT.<\/p>\n\n\n\n<p>O doutorando Francisco Nascimento, que tamb\u00e9m atua como agente penitenci\u00e1rio no Cear\u00e1, faz, ao lado de outros pesquisadores, um estudo nacional sobre a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria LGBT e diz que cada pres\u00eddio tem uma maneira diferente de lidar com a quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As regras mudam de acordo com o espa\u00e7o onde as pris\u00f5es est\u00e3o situadas. H\u00e1 unidades do mesmo Estado, comandadas pela mesma fac\u00e7\u00e3o, mas com regras diferentes. No Cear\u00e1, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 permitida nenhuma aproxima\u00e7\u00e3o com gays. Quando h\u00e1 rebeli\u00e3o, por exemplo, os homossexuais s\u00e3o os primeiros a serem atacados, junto com criminosos que cometeram crimes tidos como &#8216;proibidos&#8217;, como estupro e pedofilia&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador conta que certa vez, um grupo de presos do Estado chegou a decapitar esses presos, que inclu\u00edam gays. Foram gravados v\u00eddeos de extrema viol\u00eancia exibindo peda\u00e7os de corpos e compartilhadas imagens por aplicativos de mensagem de celulares com a fam\u00edlia dos mortos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A volta \u00e0s ruas<\/h2>\n\n\n\n<p>Depois de cumprir durante anos uma pena cheia de restri\u00e7\u00f5es em um ambiente insalubre, os presos se deparam com o retorno \u00e0s ruas e a busca por um emprego. Se o peso de ter no hist\u00f3rico uma passagem \u00e9 considerado um entrave para um preso heterossexual, no caso dos LGBTs \u00e9 quase um atestado permanente de desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 complicado porque a gente sai sem ch\u00e3o. A gente sai direto para uma casa de cafetina, para a rua, se prostituir. Porque a gente n\u00e3o vai sair daqui e ir direto para um emprego. At\u00e9 voc\u00ea correr atr\u00e1s, tirar documentos de novo. E at\u00e9 voc\u00ea achar algu\u00e9m que te d\u00ea um emprego \u00e9 muito dif\u00edcil hoje em dia&#8221;, afirmou Grazy, que \u00e9 natural de Bel\u00e9m do Par\u00e1 e conta que a dist\u00e2ncia da terra natal \u00e9 mais uma barreira.<\/p>\n\n\n\n<p>A diretora de sa\u00fade de Pinheiros 2 diz que a unidade oferece curso de cabeleireiro e outras oficinas para que os internos aprendam uma profiss\u00e3o. Entre as atividades, eles fazem at\u00e9 mesmo ursos, que s\u00e3o doados para crian\u00e7as do Hospital do C\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente quer que quando elas sa\u00edrem daqui, tenham pelo menos um curso. Que fazer programas seja apenas uma op\u00e7\u00e3o delas&#8221;, afirma Eliane Souza.<\/p>\n\n\n\n<p>Chica diz que fazer os trabalhos na unidade, como o croch\u00ea, \u00e9 uma terapia. Ela n\u00e3o recebe visitas, mas tem um namorado na unidade. Seu maior sonho \u00e9 fazer uma cirurgia pl\u00e1stica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Coloquei silicone na face muito cedo, quando eu tinha 18 anos. \u00c9 \u00f3bvio que a pele ficou fl\u00e1cida e caiu, ent\u00e3o eu pretendo levantar. Eu quero ter um trabalho, por mais simples que seja. O importante \u00e9 n\u00e3o voltar para a cadeia. Vamos supor, se eu procurar uma ONG e falarem voc\u00ea vai ser faxineira de escola, eu vou aceitar porque eu vou ter meu sal\u00e1rio, condi\u00e7\u00f5es de pagar por um teto e quero terminar meus estudos, terminar o ensino m\u00e9dio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O agente penitenci\u00e1rio traz um saco transparente com algumas caixas e o coloca em cima da mesa. Em instantes, a sala do Centro de Deten\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria Pinheiros 2, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, est\u00e1 repleta de pinc\u00e9is e maquiagens. Grazy, Chica e L\u00e9ia penteiam os cabelos, passam blush, batom, sombra e fazem os \u00faltimos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2911,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":{"0":"post-2910","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cotidiano"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/gay.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2910"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2910"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2910\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2912,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2910\/revisions\/2912"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}