{"id":27622,"date":"2020-06-28T15:09:44","date_gmt":"2020-06-28T18:09:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=27622"},"modified":"2020-06-28T15:09:46","modified_gmt":"2020-06-28T18:09:46","slug":"qual-e-o-futuro-do-sexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2020\/06\/28\/qual-e-o-futuro-do-sexo\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 o futuro do sexo?"},"content":{"rendered":"\n<p>Mas e se deixarmos de lado a quest\u00e3o da procria\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o nascimento do primeiro &#8220;beb\u00ea de proveta&#8221; do mundo em 1978, cerca de 8 milh\u00f5es de pessoas nasceram de fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. E esse n\u00famero pode aumentar muito no futuro, \u00e0 medida que as ferramentas para identificar riscos gen\u00e9ticos em embri\u00f5es se tornam mais sofisticadas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Minha previs\u00e3o mais consolidada \u00e9 que, no futuro, as pessoas ainda far\u00e3o sexo \u2013 mas n\u00e3o tanto com o objetivo de gerar beb\u00eas&#8221;, diz Henry T. Greely, autor do livro\u00a0<em>The End of Sex and the Future of Human Reproduction\u00a0<\/em>(O Fim do Sexo e o Futuro da Reprodu\u00e7\u00e3o Humana, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mar\u00e9..gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-27552\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Daqui a 20 a 40 anos, a maioria das pessoas com um bom plano de sa\u00fade no mundo todo escolher\u00e1 engravidar em um laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro de Greely analisa alguns desafios legais e \u00e9ticos em que a ci\u00eancia do diagn\u00f3stico gen\u00e9tico pr\u00e9-implantacional (PGD, na sigla em ingl\u00eas) esbarra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como na maioria das coisas, haver\u00e1 uma quantidade razo\u00e1vel de rea\u00e7\u00f5es viscerais negativas inicialmente, mas com o passar do tempo, \u00e0 medida que as crian\u00e7as [nascidas via PGD] provarem n\u00e3o ter um rabo e duas cabe\u00e7as&#8221;, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas vai tolerar, como vai preferir se reproduzir n\u00e3o sexualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>E nesse mundo \u2013 em que os beb\u00eas s\u00e3o criados em laborat\u00f3rios; em que apenas uma minoria de mulheres escolhe engravidar por rela\u00e7\u00e3o sexual; em que a \u00e9tica sexual n\u00e3o tem nada a ver com a possibilidade de procria\u00e7\u00e3o \u2013\u2013 qual o significado do sexo?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para que serve o sexo\u201d? Esta \u00e9 uma pergunta que o pesquisador David Halperin faz em um artigo provocante de mesmo nome. O sexo, n\u00f3s pensamos, deve sempre ter um prop\u00f3sito. E esse racioc\u00ednio n\u00e3o \u00e9 necessariamente ruim.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal de contas, ser humano significa ser intelectualmente e emocionalmente curioso. Fazer sexo e teorizar sobre o que isso pode significar \u00e9 muito natural, uma vez que somos animais que passam grande parte do tempo analisando e criticando tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista biol\u00f3gico, h\u00e1 um motivo \u00f3bvio para o sexo entre seres humanos. Fazemos sexo porque isso satisfaz nossos impulsos biol\u00f3gicos, incluindo os impulsos necess\u00e1rios para procriar e se relacionar.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, essas s\u00e3o as duas raz\u00f5es que a tradi\u00e7\u00e3o ocidental nos ensina, ambas organizadas em torno de um prop\u00f3sito ou objetivo final.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1602D\/production\/_113075109_p07frl5p.jpg\" alt=\"Foto com dois pinguins\"\/><figcaption>Image caption\u00c9 muito comum ver casais de pinguins do mesmo sexo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Como escrevi em um artigo anterior, foram os estoicos que, na tentativa de coibir a autoindulg\u00eancia, tentaram dar um significado ao sexo: ceder ao prazer sexual \u00e9 leg\u00edtimo desde que fosse com o objetivo de gerar beb\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse princ\u00edpio \u00e9tico foi levado para a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, notoriamente por meio de Santo Agostinho, e continua a exercer enorme influ\u00eancia no Ocidente. E parte da premissa de que o sexo \u00e9 \u00e9tico quando praticado primeiramente para a procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>(Para esclarecer, embora seja apresentada como uma \u00e9tica crist\u00e3, sua origem est\u00e1 em outros lugares. Na verdade, o livro b\u00edblico C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos de Salom\u00e3o celebra o sexo apaixonado, er\u00f3tico e selvagem em seus pr\u00f3prios termos, entre dois amantes \u2013 e n\u00e3o entre marido e mulher, como mais tarde os crist\u00e3os vieram a interpretar erroneamente o poema.)<\/p>\n\n\n\n<p>E, segundo Halperin, a outra raz\u00e3o importante para o sexo prov\u00e9m de Arist\u00f3teles. Na obra&nbsp;<em>Primeiros Anal\u00edticos<\/em>&nbsp;do s\u00e9culo 4 a.C., o fil\u00f3sofo grego apresenta o seguinte silogismo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ser amado, ent\u00e3o, \u00e9 prefer\u00edvel \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual, de acordo com a natureza do desejo er\u00f3tico. O desejo er\u00f3tico, ent\u00e3o, \u00e9 mais um desejo de amor do que de rela\u00e7\u00f5es sexuais. Se \u00e9 sobretudo por isso, esse tamb\u00e9m \u00e9 o seu fim. Ou a rela\u00e7\u00e3o sexual, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 absolutamente um fim ou \u00e9 para o bem de ser amado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Arist\u00f3teles, como explica Halperin, &#8220;o amor \u00e9 o prop\u00f3sito do desejo er\u00f3tico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 o amor que visa o sexo como objetivo, \u00e9 o sexo que tem como objetivo o amor&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira raz\u00e3o pela qual fazemos sexo, de acordo com Arist\u00f3teles, n\u00e3o \u00e9 porque queremos fazer sexo, mas porque queremos amar e ser amados. O sexo \u00e9 sobre algo superior, algo mais nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>Como muitas pessoas, Arist\u00f3teles sup\u00f5e que amor e sexo andam de m\u00e3os dadas \u2013 mas ele nunca procura demonstrar a solidez dessa suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele demonstra, no entanto, pelo menos na interpreta\u00e7\u00e3o de Halperin, \u00e9 que &#8220;o sexo n\u00e3o \u00e9 o objetivo final do desejo er\u00f3tico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>E se esse for o caso, Halperin acredita que a pergunta mais interessante a se fazer n\u00e3o \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre amor e sexo, mas a surpreendente rela\u00e7\u00e3o entre sexo e desejo er\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Arist\u00f3teles est\u00e1 correto, o sexo n\u00e3o tem prop\u00f3sito er\u00f3tico \u2013 seu verdadeiro objetivo est\u00e1 em outro lugar. Em resumo, n\u00e3o fazemos sexo por causa do sexo propriamente dito.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que fazemos sexo ent\u00e3o? Para procriar, com certeza. Para se conectar com o outro, tamb\u00e9m. Mas essas s\u00e3o apenas duas de muitas respostas poss\u00edveis. Como muitos fen\u00f4menos culturais, o sexo ultrapassa seu porqu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Pense na comida. Do ponto de vista da sobreviv\u00eancia, faz sentido que a gente coma e que comamos juntos \u2013 afinal, era vantajoso para nossos ancestrais juntar seus recursos (mais para o grupo significa mais para mim).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando olhamos para a cultura gastron\u00f4mica contempor\u00e2nea \u2013 hamb\u00fargueres folheados a ouro, perfis de comida no Instagram, canais de culin\u00e1ria, happy hours com colegas de trabalho, jantares comunit\u00e1rios promovidos por igrejas \u2013 fica cada vez mais dif\u00edcil definir o objetivo exato do nosso relacionamento com a comida.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a entre n\u00f3s e muitos animais n\u00e3o racionais \u00e9 que regularmente temos prazer em fazer coisas in\u00fateis. E n\u00f3s fazemos simplesmente porque gostamos, porque participar de tais atividades nos d\u00e1 prazer \u2013 do tipo que nos distrai de qualquer pergunta sobre porqu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, escreve Halperin, que &#8220;o ato sexual fa\u00e7a sentido apenas quando n\u00e3o faz sentido&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja hora de admitir que o prazer \u00e9 a principal raz\u00e3o pela qual a maioria de n\u00f3s \u2013 incluindo os mais religiosos \u2013 faz sexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ser honesto, h\u00e1 geralmente um sentido em fazer sexo, caso contr\u00e1rio estar\u00edamos fazendo outra coisa. Mas, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, desafiamos a ideia de que o sexo deveria ser feito apenas para fins espec\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>A p\u00edlula anticoncepcional foi revolucion\u00e1ria nesse aspecto, mas deixou uma parcela da sociedade assustada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1391D\/production\/_113075108_p07frj96.jpg\" alt=\"Os anos 1960 e 1970 introduziram novas ideias sobre sexualidade e quebraram muitos tabus\"\/><figcaption>Image captionOs anos 1960 e 1970 introduziram novas ideias sobre sexualidade e quebraram muitos tabus<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Todo mundo sabe o que \u00e9 a p\u00edlula. \u00c9 um objeto pequeno \u2013 mas seu potencial efeito sobre a sociedade \u00e9 muito mais devastador do que a bomba nuclear&#8221;, escreveu a autora Pearl Buck em artigo publicado na revista Sele\u00e7\u00f5es (Readers Digest) de 1968.<\/p>\n\n\n\n<p>Como, ali\u00e1s, muitas ideias conservadoras, o argumento de Buck parece ser baseado na histeria de que a atividade sexual sem prop\u00f3sito significaria o fim da civiliza\u00e7\u00e3o. Para essas pessoas, a chamada revolu\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 respons\u00e1vel pelas vis\u00f5es modernas liberais sobre sexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a revolu\u00e7\u00e3o sexual seja frequentemente usada como um bicho-pap\u00e3o para encerrar, em vez de contribuir para debates importantes, pesquisadores observaram mudan\u00e7as radicais na forma que o sexo era visto pelas pessoas a partir dos anos 1960.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma pesquisa de 2015, Jean M Twenge, professor de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos EUA, analisou o comportamento de americanos em rela\u00e7\u00e3o ao sexo entre as d\u00e9cadas de 1970 e 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Entre as d\u00e9cadas de 1970 e 2010, os americanos se tornaram mais receptivos ao sexo n\u00e3o conjugal\u201d, concluiu ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sintonia com pesquisas anteriores que mostraram um decl\u00ednio na orienta\u00e7\u00e3o religiosa e um aumento nos tra\u00e7os individualistas, um n\u00famero maior de americanos acredita que a sexualidade n\u00e3o precisa ser restringida por conven\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>As novas gera\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e3o agindo com base nessa cren\u00e7a \u2013 elas t\u00eam um n\u00famero significativamente maior de parceiros sexuais e fazem mais sexo casual do que os nascidos no in\u00edcio do s\u00e9culo 20.<\/p>\n\n\n\n<p>Twenge ressalta que, dentro de uma popula\u00e7\u00e3o, os comportamentos ainda podem variar por diversos motivos (dependendo da idade, ra\u00e7a, sexo, cren\u00e7as religiosas etc.), mas a pesquisa mostra que \u201cocorreram mudan\u00e7as geracionais significativas na atitude e no comportamento sexual\u201d ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa vis\u00e3o sobre sexo \u00e9, portanto, em grande parte produto da nossa localiza\u00e7\u00e3o em determinado espa\u00e7o e tempo. Nossa \u00e9tica sexual n\u00e3o \u00e9 atemporal: ela evoluiu, e vai continuar evoluindo. Talvez muito mais r\u00e1pido do que estamos preparados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 natural?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como todo fen\u00f4meno humano, a atividade sexual veio de algum lugar. Chegamos \u00e0s nossas pr\u00e1ticas, comportamentos e \u00e9ticas sexuais por meio de uma longa e tortuosa jornada desde os animais que nos precederam \u2013 uma jornada que remonta ao in\u00edcio da vida no universo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, mesmo se nos concentrarmos em nossa esp\u00e9cie, vamos encontrar muitas evid\u00eancias de que alguns conceitos tradicionais sobre sexo s\u00e3o menos naturais do que pens\u00e1vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez, ouvi um pastor evang\u00e9lico americano condenar a homossexualidade, o que para a congrega\u00e7\u00e3o dele parecia uma piada engra\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o deveria ter que lembrar a voc\u00eas que dois homens n\u00e3o deveriam ficar juntos. At\u00e9 os animais do curral sabem disso!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O que o pastor estava argumentando era que a homossexualidade n\u00e3o \u00e9 natural \u2013 e que, por isso, os animais n\u00e3o a praticavam.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele n\u00e3o sabe, no entanto, \u00e9 que o comportamento homossexual \u00e9 bastante comum no reino animal. O macaco-japon\u00eas, a mosca-das-frutas, o besouro-castanho, o albatroz-de-laysan, o golfinho-nariz-de-garrafa \u2013 s\u00e3o apenas algumas das mais de 500 esp\u00e9cies que desenvolvem rela\u00e7\u00f5es homossexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, os animais n\u00e3o se identificam como gays, tampouco se identificam como n\u00e3o gays. O que nos leva a um fato extremamente \u00f3bvio, mas raramente contemplado \u2013 que os seres humanos, pelo menos no \u00faltimo s\u00e9culo, se definiram com base no tipo de sexo que praticam.<\/p>\n\n\n\n<p>A heterossexualidade come\u00e7ou a ter um significado; e esse significado foi constru\u00eddo, especificamente, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 homossexualidade. Se voc\u00ea quer entender que significado \u00e9 esse, comece se fazendo a mesma pergunta que Jonathan Ned Katz levanta no livro&nbsp;<em>A Inven\u00e7\u00e3o da Heterossexualidade<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Que interesses foram atendidos pela divis\u00e3o do mundo em heterossexuais e homossexuais?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer pessoa que foi provocada na inf\u00e2ncia, como eu, por parecer gay sabe que essa distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi feita com a melhor das inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O interessante \u00e9 pensar por quanto tempo essa divis\u00e3o h\u00e9tero\/homo vai continuar se perpetuando. Uma pesquisa do instituto YouGov de 2019 mostrou que quase quatro em cada dez millennials n\u00e3o se identificam como &#8220;completamente heterossexuais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso possivelmente tem menos a ver com mudan\u00e7as na orienta\u00e7\u00e3o sexual do que com mudan\u00e7as no significado dessa orienta\u00e7\u00e3o. Resumindo, definir a identidade de algu\u00e9m com base na atividade sexual \u00e9 provavelmente menos importante hoje do que h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo em que a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo \u00e9 amplamente aceita como uma varia\u00e7\u00e3o natural e saud\u00e1vel da sexualidade humana, n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o importante formar uma identidade p\u00fablica baseada em pr\u00e1ticas sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, quanto mais separarmos o sexo do seu prop\u00f3sito, menos gente vai pensar sobre o que o ato sexual pode significar e como pode contribuir para a identidade de um indiv\u00edduo.<\/p>\n\n\n\n<p>O prop\u00f3sito do sexo n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o para a cultura gay, assim como \u00e9 para a cultura heterossexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte disso \u00e9 situacional: sem a perspectiva da gravidez biol\u00f3gica e (at\u00e9 recentemente) do casamento, os gays s\u00e3o livres para fazer sexo com o \u00fanico objetivo de fazer sexo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0D64\/production\/_113082430_p07frlw8.jpg\" alt=\"pintura antiga com casal na cama\"\/><figcaption>Image captionNossos conceitos de sexualidade e identidade evolu\u00edram continuamente ao longo da hist\u00f3ria<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estou sugerindo que o sexo gay n\u00e3o tenha um prop\u00f3sito: ele pode ter muitos prop\u00f3sitos, incluindo, \u00e9 claro, o amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a cultura gay, historicamente, se mostrou mais aberta \u00e0 ideia de que nem sempre precisa haver um prop\u00f3sito no sexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa postura, \u00e9 claro, parece se opor aos valores morais e concep\u00e7\u00f5es culturais sobre sexo h\u00e1 tanto tempo em voga, o que talvez possa explicar a discrimina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica contra os gays.<\/p>\n\n\n\n<p>Como muitas crian\u00e7as, fui ensinado a julgar a \u00e9tica sexual sob uma \u00fanica perspectiva \u2013 se a rela\u00e7\u00e3o sexual tinha acontecido dentro de um relacionamento s\u00e9rio e monog\u00e2mico (geralmente, no casamento).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, finalmente, comecei a questionar esse padr\u00e3o \u2013 principalmente porque as mesmas pessoas que me ensinaram isso tamb\u00e9m me ensinaram que os seres humanos foram criados por Deus alguns milhares de anos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o conhecimento de biologia deles era t\u00e3o fraco, ent\u00e3o por que dar aten\u00e7\u00e3o ao que eles tinham a dizer sobre sexo, que \u00e9 um fen\u00f4meno biol\u00f3gico?<\/p>\n\n\n\n<p>Percebi que o que eles acreditavam ser \u00e9tico n\u00e3o fazia sentido para os gays, que n\u00e3o s\u00e3o capazes de conceber filhos por meio de uma uni\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia hip\u00f3crita, na melhor das hip\u00f3teses, e cruel, na pior das hip\u00f3teses, advogar por um padr\u00e3o sexual que impe\u00e7a uma parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos atos sexuais heterossexuais n\u00e3o resulta no nascimento de um beb\u00ea, e, por alguma raz\u00e3o, o sexo sem procria\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 classificado como antinatural, da maneira como o sexo homossexual sem procria\u00e7\u00e3o costuma ser condenado.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, a resist\u00eancia \u00e0 homossexualidade est\u00e1 em decl\u00ednio. Um estudo conduzido pela Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles (UCLA), nos EUA, analisou a mudan\u00e7a de atitude das pessoas em 141 pa\u00edses \u2013 e constatou que em 80 pa\u00edses (57%) houve um aumento na aceita\u00e7\u00e3o de pessoas LGBT entre os anos de 1981 e 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem tudo s\u00e3o flores: enquanto os pesquisadores descobriram que os pa\u00edses tradicionalmente mais abertos (Isl\u00e2ndia, Holanda, Su\u00e9cia, Dinamarca, Andorra e Noruega) se tornaram mais tolerantes ao longo do tempo, os pa\u00edses mais fechados (Azerbaij\u00e3o, Bangladesh, Ge\u00f3rgia e Gana) se tornaram ainda menos tolerantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora essas atitudes antigays n\u00e3o devam ser ignoradas, \u00e9 importante lembrar que a maioria dos pa\u00edses estudados apresentou uma toler\u00e2ncia maior \u00e0 homossexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas raz\u00f5es para crer em uma ampla aceita\u00e7\u00e3o da homossexualidade, incluindo a cobertura positiva da imprensa sobre quest\u00f5es LGBT, o apoio p\u00fablico a organiza\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e psicol\u00f3gicas e o fato de que a maioria das pessoas conhece algu\u00e9m LGBT (\u00e9 mais dif\u00edcil acreditar que os gays querem destruir a civiliza\u00e7\u00e3o quando eles s\u00e3o seu professor de piano, o florista, o padre ou o bombeiro local).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que os gays nem sempre s\u00e3o exemplos perfeitos de \u00e9tica sexual \u2013 me refiro aqui aos homens, grupo com o qual estou mais familiarizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na comunidade masculina gay, h\u00e1 um culto a homens com tipos espec\u00edficos de corpo (musculosos e magros, por exemplo), o que passa a mensagem de que aqueles que n\u00e3o atendem a esse padr\u00e3o est\u00e9tico (a maioria de n\u00f3s) s\u00e3o menos merecedores ou dignos do que aqueles que atendem.<\/p>\n\n\n\n<p>A tecnologia, por meio de aplicativos como o Grindr (plataforma que promove encontros gays), tornou esse padr\u00e3o excludente ainda mais evidente \u2013 nesses aplicativos, os homens s\u00e3o reduzidos a imagens de partes do seu corpo, e os que n\u00e3o s\u00e3o considerados objeto de desejo s\u00e3o rapidamente bloqueados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNada de gordos ou afeminados\u201d \u00e9, para nossa vergonha, um bord\u00e3o que pode ser ouvido com bastante frequ\u00eancia nesses aplicativos, o que significa que ainda temos que refletir muito quando se trata da nossa \u00e9tica sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar dessas lacunas, \u00e9 a cultura gay que, durante todo esse tempo, tem oferecido ao mundo novas maneiras de pensar sobre \u00e9tica sexual \u2013 maneiras que n\u00e3o envolvem procria\u00e7\u00e3o, casamento, amor ou sequer relacionamentos s\u00e9rios e monog\u00e2micos.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta considerar uma pesquisa de 2005 que mostrou que 40% dos casais gays apoiam relacionamentos abertos, em compara\u00e7\u00e3o com 5% dos casais heterossexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Se esse tipo de experi\u00eancia sexual realmente se tornar a norma \u2013 como algumas pessoas sugerem \u2013, ser\u00e3o os gays que ter\u00e3o aberto essa porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Suponho que alguns heterossexuais podem se ofender com essas ideias, mas \u00e9 dif\u00edcil fazer de conta que a cultura heterossexual tem o papel de paladino da moral em quest\u00f5es sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura popular est\u00e1 repleta de casos de relacionamentos heterossexuais problem\u00e1ticos. A \u00e9tica sexual heterossexual \u201ctradicional\u201d \u2013 que, como os historiadores sustentam, foi criada no s\u00e9culo 19 \u2013 foi testada e considerada a desejar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos, v\u00e1rios futuristas previram como ser\u00e1 o futuro do sexo. Da pornografia a encontros virtuais (em que, a dist\u00e2ncia, as pessoas chegam ao orgasmo por meio da tecnologia h\u00e1ptica, que permite transmitir sensa\u00e7\u00f5es t\u00e1teis), o futuro do sexo ser\u00e1 mais digital, mais sint\u00e9tico e menos org\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, embora o futuro traga, sem d\u00favida, grandes mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, tamb\u00e9m devemos considerar que algumas das principais mudan\u00e7as v\u00e3o envolver novas concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Haver\u00e1, por exemplo, novos conceitos sobre reprodu\u00e7\u00e3o. Desde 1978, mais de oito milh\u00f5es de beb\u00eas nasceram por meio de fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. A previs\u00e3o \u00e9 que esse n\u00famero aumente drasticamente \u00e0 medida que essa tecnologia se torna mais acess\u00edvel e onipresente.<\/p>\n\n\n\n<p>O controle da natalidade e os m\u00e9todos contraceptivos tamb\u00e9m ajudaram a separar o sexo da procria\u00e7\u00e3o em nosso imagin\u00e1rio cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Se as previs\u00f5es de Greely sobre o diagn\u00f3stico gen\u00e9tico pr\u00e9-implantacional (PGD) estiverem corretas, em algum momento nas pr\u00f3ximas quatro d\u00e9cadas, haver\u00e1 uma mudan\u00e7a radical em rela\u00e7\u00e3o a como nascem os beb\u00eas. O PGD se tornar\u00e1 acess\u00edvel gra\u00e7as ao desenvolvimento da gen\u00e9tica e das pesquisas com c\u00e9lulas-tronco.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3474\/production\/_113082431_p07frm3d.jpg\" alt=\"Dois homens se beijando\"\/><figcaption>Image captionA vis\u00e3o sobre homossexualidade est\u00e1 mudando no Ocidente \u2013 e pode abrir caminho para um debate mais aberto sobre sexo em geral<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Um casal que quer ter filhos visitar\u00e1 uma cl\u00ednica \u2013 ele deixar\u00e1 uma amostra de esperma; ela deixar\u00e1 uma amostra de pele. Uma ou duas semanas depois, os futuros pais receber\u00e3o informa\u00e7\u00f5es sobre 100 embri\u00f5es criados a partir de suas c\u00e9lulas, dizendo a eles o que os genomas dos embri\u00f5es preveem para o futuro deles&#8230; Depois, selecionar\u00e3o que embri\u00f5es ser\u00e3o transferidos para o \u00fatero para uma poss\u00edvel gravidez e nascimento&#8221;, resumiu Greely no jornal brit\u00e2nico The Guardian.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas podem se incomodar com a ideia de &#8220;beb\u00eas projetados&#8221;, mas quando lembramos que a maioria das pessoas que tem filhos escolheu uma a outra com base em certas caracter\u00edsticas, sabendo muito bem que essas caracter\u00edsticas provavelmente seriam transmitidas aos seus filhos, fica mais dif\u00edcil fazer uma separa\u00e7\u00e3o entre as tecnologias que Greely estuda e a reprodu\u00e7\u00e3o padr\u00e3o por sexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Haver\u00e1 novos conceitos sobre monogamia e relacionamento s\u00e9rio. Ter um parceiro sexual por toda a vida adulta parece uma perspectiva mais facilmente alcan\u00e7ada quando a expectativa de vida \u00e9 menor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a expectativa de vida da popula\u00e7\u00e3o tem aumentado. De 1960 a 2017, a m\u00e9dia subiu 20 anos. E, at\u00e9 2040, a previs\u00e3o \u00e9 que aumente mais quatro anos \u2013 n\u00famero considerado conservador para alguns futuristas. Steven Austad, por exemplo, acredita que o primeiro homem a completar 150 anos nasceu antes de 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desta perspectiva, qu\u00e3o realista \u00e9 exigir que algu\u00e9m fique restrito ao mesmo parceiro sexual por 130 anos? Mas nem precisar\u00edamos olhar t\u00e3o \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo agora, as taxas de div\u00f3rcio e recasamento n\u00e3o param de crescer. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, de 2013, quatro em cada dez casamentos americanos envolvem o recasamento de pelo menos um dos noivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, com uma expectativa de vida maior, &#8220;at\u00e9 que a morte nos separe&#8221; simplesmente deixe de ser nosso objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Haver\u00e1 ainda novos conceitos sobre identidade sexual. Se o sexo deixa de significar algo al\u00e9m de sexo; se as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o provocadas por terem uma orienta\u00e7\u00e3o sexual \u201cdiferente\u201d; se a reprodu\u00e7\u00e3o acontece em um laborat\u00f3rio; pode ser que os futuros seres humanos se sintam \u00e0 vontade para fazer sexo com homens e mulheres quando der vontade. Ou pode ser que se sintam confort\u00e1veis em cultivar seus pr\u00f3prios desejos sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que o conceito de orienta\u00e7\u00e3o e identidade sexual est\u00e1 vinculado a uma no\u00e7\u00e3o arcaica de reprodu\u00e7\u00e3o? No futuro, palavras como &#8220;heterossexual&#8221; e &#8220;homossexual&#8221; ser\u00e3o ouvidas apenas na aula de hist\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p>Esses conceitos v\u00e3o virar cada vez mais uma tend\u00eancia \u2013 gra\u00e7as, em grande parte, \u00e0 comunidade LGBT que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tem convidado a cultura dominante a repensar sua \u00e9tica sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos atr\u00e1s, em uma confer\u00eancia, ouvi a fil\u00f3sofa Judith Butler, refer\u00eancia em estudos de g\u00eanero, dizer: &#8220;Talvez a coisa mais queer em rela\u00e7\u00e3o ao sexo seja apenas desfrut\u00e1-lo&#8221;. Eu n\u00e3o concordei na \u00e9poca, mas agora consigo entender.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o sexo sirva sempre para algo \u2013 mas para algu\u00e9m, e n\u00e3o para alguma coisa. E seu prop\u00f3sito seja servir \u00e0s pessoas que fazem sexo por prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>O significado do sexo n\u00e3o vai existir para al\u00e9m da empatia e o prazer que ele proporciona \u00e0s pessoas \u2013 o prazer da sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, do v\u00ednculo social, da experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No futuro, o significado do sexo ser\u00e1 apenas sexo.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC Brasil<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas e se deixarmos de lado a quest\u00e3o da procria\u00e7\u00e3o? Desde o nascimento do primeiro &#8220;beb\u00ea de proveta&#8221; do mundo em 1978, cerca de 8 milh\u00f5es de pessoas nasceram de fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. 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