{"id":27614,"date":"2020-06-28T14:57:15","date_gmt":"2020-06-28T17:57:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=27614"},"modified":"2020-06-28T14:58:41","modified_gmt":"2020-06-28T17:58:41","slug":"nove-indigenas-xavante-morrem-em-24-horas-com-sintomas-de-covid-19-denunciam-liderancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2020\/06\/28\/nove-indigenas-xavante-morrem-em-24-horas-com-sintomas-de-covid-19-denunciam-liderancas\/","title":{"rendered":"Nove ind\u00edgenas Xavante morrem em 24 horas com sintomas de covid-19, denunciam lideran\u00e7as"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Com uma popula\u00e7\u00e3o de 22.000 pessoas, \u00edndios da etnia j\u00e1 tem 102 casos de infec\u00e7\u00e3o confirmados<\/h4>\n\n\n\n<p>Entre a \u00faltima sexta-feira e este s\u00e1bado, um per\u00edodo de 24 horas, nove ind\u00edgenas da etnia Xavante morreram com sintomas de&nbsp;covid-19&nbsp;no Mato Grosso, incluindo um beb\u00ea. Tr\u00eas delas j\u00e1 tiveram o diagn\u00f3stico confirmado e outras seis ainda aguardam o resultado dos exames, segundo informam ao EL PA\u00cdS lideran\u00e7as locais. Caso se confirme que o coronav\u00edrus foi o respons\u00e1vel por todas essas mortes o n\u00famero de v\u00edtimas fatais pela doen\u00e7a entre os Xavante, que t\u00eam uma popula\u00e7\u00e3o de 22.000 pessoas, chegar\u00e1 a 21 desde o in\u00edcio da pandemia. Mais uma amostra de como a&nbsp;doen\u00e7a j\u00e1 se espalha entre os \u00edndios brasileiros, colocando em risco at\u00e9 os que vivem isolados, sem contato com outros grupos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mar\u00e9..gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-27552\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 h\u00e1 entre os Xavante 102 casos da doen\u00e7a confirmados, al\u00e9m de 61 suspeitos, de acordo com o \u00faltimo boletim publicado pelo Distrito Sanit\u00e1rio Especial Ind\u00edgena (DSEI) Xavante, ligado \u00e0 Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai), na \u00faltima quinta-feira (25\/06). Esses n\u00fameros, no entanto, divergem das&nbsp;cifras oficiais da pr\u00f3pria Sesai, que contabiliza cinco mortes e 84 infec\u00e7\u00f5es entre esses ind\u00edgenas. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade informou que a diverg\u00eancia se deve ao tempo em que as notifica\u00e7\u00f5es locais demoram para ser inclu\u00eddas no sistema geral. O DSEI confirmou a ocorr\u00eancia dessas nove mortes nas \u00faltimas 24 horas, por exemplo, mas o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ainda n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo&nbsp;coronav\u00edrus&nbsp;j\u00e1 chegou em pelo menos quatro dos nove territ\u00f3rios da etnia que se distribuem ao longo de 14 munic\u00edpios do&nbsp;Mato Grosso. O primeiro \u00f3bito entre esse povo foi o de um beb\u00ea, em 11 de maio, na terra Mar\u00e3iwatsede. Ali, 12 ind\u00edgenas foram infectados e dois morreram. Agora, o territ\u00f3rio mais afetado \u00e9 a Terra Ind\u00edgena de S\u00e3o Marcos, que concentra 64 dos 102 casos confirmados. \u201cO v\u00edrus est\u00e1 se alastrando muito r\u00e1pido. Esta semana, uma senhora teve que ser transferida para uma UTI em Cuiab\u00e1, onde faleceu\u201d, conta ao EL PA\u00cdS Clar\u00eancio U\u2019repaiwe Tsuwt\u00e9, presidente do conselho distrital da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi precisamente para alertar os ind\u00edgenas de S\u00e3o Marcos sobre a gravidade da doen\u00e7a que o l\u00edder xavante Crisanto Rudzo Tseremeyw\u00e1 gravou um v\u00eddeo de um leito hospitalar, na \u00faltima segunda-feira (22\/06), com um aparelho de respira\u00e7\u00e3o. Ele e os pais foram infectados em junho. O pai continua internado em uma UTI, a m\u00e3e faleceu na quarta-feira (24\/06). \u201cPrestem muita aten\u00e7\u00e3o no que vou falar, se voc\u00ea est\u00e1 se sentindo mal, a sa\u00fade n\u00e3o est\u00e1 boa, seu peito est\u00e1 doendo, se est\u00e1 sentindo falta de ar, n\u00e3o espere muito, voc\u00ea deve buscar o tratamento. Quando a doen\u00e7a j\u00e1 estiver tomando conta, \u00e9 muito dif\u00edcil curar. Quando come\u00e7a a fechar o pulm\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil para salvar, a nossa imunidade \u00e9 muito baixa para essa doen\u00e7a\u201d, alerta Crisanto, em seu pr\u00f3prio idioma.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde seu contato com os n\u00e3o ind\u00edgenas, principalmente nos anos 1940, os Xavante desenvolveram problemas cr\u00f4nicos como&nbsp;diabetes&nbsp;e&nbsp;hipertens\u00e3o, comorbidades que os tornam ainda mais vulner\u00e1veis ao novo coronav\u00edrus. \u201cAs fam\u00edlias de lideran\u00e7as est\u00e3o muito assustadas, j\u00e1 que s\u00e3o os l\u00edderes que t\u00eam mais atividades fora das aldeias. Uma fam\u00edlia enterrou quatro pessoas em quatro dias\u201d, conta Ana Paula Sabino, que trabalha h\u00e1 20 anos com os Xavante e atua no Instituto Socioambiental (ISA) na Frente Parlamentar pelos Direitos dos Povos Ind\u00edgenas,&nbsp;junto a Joenia Wapichana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Paula tamb\u00e9m conta sobre uma mo\u00e7a Xavante&nbsp;gr\u00e1vida de 42 semanas&nbsp;cujo beb\u00ea n\u00e3o nascia e ela, por medo da contamina\u00e7\u00e3o, resistia a ir ao hospital. Quando finalmente foi levada, constaram que ela tinha covid-19 e que seu beb\u00ea havia morrido no \u00fatero. \u201cMuitos n\u00e3o querem buscar ajuda m\u00e9dica, porque t\u00eam medo de sair da aldeia e n\u00e3o voltar mais. Preferem se tratar com os xam\u00e3s e os rem\u00e9dios caseiros\u201d, diz Ana Paula, que critica a DSEI por n\u00e3o orientar a comunidade sobre a dimens\u00e3o da pandemia. \u201cAt\u00e9 duas semanas atr\u00e1s, tratavam como se fosse uma gripezinha\u201d, afirma. Em nota, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade informou que orienta os trabalhadores da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade ind\u00edgena a priorizarem o trabalho de busca ativa domiciliar de casos de s\u00edndrome gripal e&nbsp;s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda grave (SRAG), realizando a triagem dos casos para evitar a circula\u00e7\u00e3o de pessoas com sintomas respirat\u00f3rios. A Sesai diz que enviou 1.920 testes de tipo sorol\u00f3gico para o DSEI Xavante.<\/p>\n\n\n\n<p>Rafael Weree, Xavante e assessor parlamentar no Congresso para pol\u00edticas indigenistas e um dos facilitadores da&nbsp;PL 1142, que cria o Plano Emergencial para Enfrentamento \u00e0 covid-19 nos Territ\u00f3rios Ind\u00edgenas, confirma os relatos de Ana Paula. \u201cNo in\u00edcio, os Xavante n\u00e3o acreditavam muito na gravidade da doen\u00e7a, mas agora que est\u00e3o perdendo pessoas pr\u00f3ximas, todo mundo est\u00e1 assustado. N\u00e3o existe a\u00e7\u00e3o por parte da DSEI, n\u00e3o nos d\u00e3o orienta\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele, acrescentando que, em muitas aldeias, faltam rem\u00e9dios at\u00e9 para tratar outras doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Rafael tem sentido de perto o impacto do coronav\u00edrus nas aldeias: j\u00e1 perdeu tios e tias para a covid-19 e, no \u00faltimo domingo, a av\u00f3 de 103 anos. \u201c\u00c9 uma dor muito grande, porque ela era uma s\u00e1bia, a matriarca da nossa terra ind\u00edgena. No total, contamos 20 mortes em dez dias. Estamos enterrando duas pessoas por dia\u201d, denuncia. Na quarta-feira, foi lan\u00e7ada, com apoio da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (Apib), a&nbsp;campanha S.O.S. Xavante, que visa captar recursos para instalar uma Unidade Avan\u00e7ada de Sa\u00fade pr\u00f3ximo \u00e0s aldeias Xavante e fornecer material sanit\u00e1rio e seguran\u00e7a alimentar para que esses ind\u00edgenas possam manter-se em isolamento nas aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de alguns povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o norte do pa\u00eds, onde muitos t\u00eam adentrado mais na floresta para se proteger do coronav\u00edrus, os Xavante n\u00e3o t\u00eam para onde fugir em um Estado dominado por planta\u00e7\u00f5es de soja e pastos para a pecu\u00e1ria. \u201cA \u00fanica coisa que podemos fazer \u00e9 parar de ir na cidade comprar mantimentos, adotar o isolamento total\u201d, diz Rafael. Clar\u00eancio U\u2019repaiwe Tsuwt\u00e9, no entanto, cobra uma solu\u00e7\u00e3o do Governo brasileiro. \u201cA Constitui\u00e7\u00e3o diz que se os povos origin\u00e1rios s\u00e3o amea\u00e7ados por um desastre natural ou uma epidemia como essa, \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o do Estado nos realocar para outro territ\u00f3rio e garantir nossa seguran\u00e7a. No passado, eles j\u00e1 nos moveram por interesse pr\u00f3prio\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Clar\u00eancio se refere \u00e0&nbsp;ditadura militar brasileira, que, em 1966, usou avi\u00f5es da For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira (FAB) para&nbsp;retirar os Xavante de Mar\u00e3iwatsed\u00e9 de suas terras originais&nbsp;e transport\u00e1-los at\u00e9 S\u00e3o Marcos, para permitir as atividades da empresa agropecu\u00e1ria Sui\u00e1-Miss\u00fa, que se instalou na regi\u00e3o com o apoio do Governo militar. A situa\u00e7\u00e3o provocou uma epidemia de sarampo entre os ind\u00edgenas, que matou entre 75 e 120 Xavante. Para Ana Paula, a situa\u00e7\u00e3o se repete. \u201cEssa regi\u00e3o \u00e9 um vale dos esquecidos. O que est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 um&nbsp;genoc\u00eddio da mesma forma que ocorreu na ditadura\u201d, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>El Pais<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma popula\u00e7\u00e3o de 22.000 pessoas, \u00edndios da etnia j\u00e1 tem 102 casos de infec\u00e7\u00e3o confirmados Entre a \u00faltima sexta-feira e este s\u00e1bado, um per\u00edodo de 24 horas, nove ind\u00edgenas da etnia Xavante morreram com sintomas de&nbsp;covid-19&nbsp;no Mato Grosso, incluindo um beb\u00ea. 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