{"id":27376,"date":"2020-05-19T12:57:45","date_gmt":"2020-05-19T15:57:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=27376"},"modified":"2020-05-19T12:57:46","modified_gmt":"2020-05-19T15:57:46","slug":"coronavirus-o-que-dizem-os-estudos-publicados-sobre-cloroquina-defendida-por-bolsonaro-e-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2020\/05\/19\/coronavirus-o-que-dizem-os-estudos-publicados-sobre-cloroquina-defendida-por-bolsonaro-e-trump\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus: o que dizem os estudos publicados sobre cloroquina, defendida por Bolsonaro e Trump"},"content":{"rendered":"\n<p>Considerada pelo presidente Jair Bolsonaro como arma no combate \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus e piv\u00f4 da sa\u00edda de Nelson Teich do comando do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na \u00faltima sexta-feira (15), o medicamento cloroquina n\u00e3o tem efic\u00e1cia e seguran\u00e7a cientificamente comprovadas contra a covid-19. De acordo com as evid\u00eancias mais s\u00f3lidas que existem at\u00e9 agora, a cloroquina e seu derivado, hidroxicloroquina, n\u00e3o exercem influ\u00eancia na mortalidade de pacientes por covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como outras subst\u00e2ncias, a cloroquina e a hidroxicloroquina s\u00e3o algumas entre v\u00e1rias que est\u00e3o sendo testadas agora contra a covid-19, que j\u00e1 matou mais de 300 mil pessoas no mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) n\u00e3o reconhece nenhum medicamento ou vacina para a covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>O Comit\u00ea Cient\u00edfico e a Diretoria da Sociedade Brasileira de Imunologia divulgou um documento em que afirma que &#8220;ainda \u00e9 precoce a recomenda\u00e7\u00e3o de uso deste medicamento na covid-19, visto que diferentes estudos mostram n\u00e3o haver benef\u00edcios para os pacientes que utilizaram hidroxicloroquina&#8221;. J\u00e1 o Conselho Federal de Medicina condiciona seu uso ao crit\u00e9rio m\u00e9dico e consentimento do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, no Brasil, o uso \u00e9 autorizado s\u00f3 em pacientes em estado cr\u00edtico e moderado j\u00e1 internados em hospitais, quando m\u00e9dico e paciente concordam com o uso. Mas o presidente, Jair Bolsonaro, vinha defendendo o uso do medicamento e pressionara Teich para autorizar o uso de cloroquina em pacientes em est\u00e1gio inicial da covid-19 no Brasil. Apoiadores do presidente tamb\u00e9m t\u00eam cobrado a libera\u00e7\u00e3o imediata do medicamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Teich afirmou que o medicamento era uma incerteza, e acabou se demitindo. Luiz Henrique Mandetta, ministro antes dele, disse ao jornal Folha de S.Paulo, em entrevista publicada na segunda-feira (18), que a amplia\u00e7\u00e3o do uso de cloroquina para pacientes com quadro leve do novo coronav\u00edrus pode elevar a press\u00e3o por vagas em centros de terapia intensiva e provocar mortes em casa por arritmia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m na segunda, o presidente americano, Donald Trump, disse estar tomando o medicamento como preven\u00e7\u00e3o contra o coronav\u00edrus, mesmo sem evid\u00eancias cient\u00edficas para tanto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quais s\u00e3o os riscos do uso?<\/h2>\n\n\n\n<p>A cloroquina \u00e9 usada faz algum tempo para prevenir e tratar a mal\u00e1ria, enquanto a hidroxicloroquina j\u00e1 foi usada para tratar a mal\u00e1ria e hoje \u00e9 usada para tratar artrite reumatoide e alguns sintomas de lupus, al\u00e9m de outras doen\u00e7as autoimunes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em uma pandemia, admite-se o que chamamos de reposicionamento de medicamentos. Um medicamento tradicionalmente usado em outras doen\u00e7as pode ser usado em outro cen\u00e1rio&#8221;, explica Ana Cristina Sim\u00f5es e Silva, professora titular do departamento de pediatria da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisadora da CNPQ que fez, com colegas, uma revis\u00e3o de literatura sobre os ensaios cl\u00ednicos da cloroquina para a covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que n\u00e3o \u00e9 correto \u00e9 pessoas sa\u00edrem comprando sem nenhum controle. O medicamento s\u00f3 deve ser usado no hospital, monitorado por m\u00e9dicos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Por j\u00e1 serem usados para outras doen\u00e7as, os efeitos adversos cl\u00e1ssicos dos medicamentos, quando n\u00e3o associados a covid-19, j\u00e1 s\u00e3o conhecidos. Os mais relevantes s\u00e3o relacionados ao sistema cardiovascular \u2014 os medicamentos podem acelerar o ritmo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o documento da Sociedade Brasileira de Infectologia, outros efeitos adversos s\u00e3o retinopatias, hipoglicemia grave e toxidade card\u00edaca. Por isso, \u00e9 &#8220;exigido cont\u00ednuo monitoramento m\u00e9dico dos indiv\u00edduos em uso da cloroquina ou hidroxicloroquina&#8221;. Outros efeitos colaterais poss\u00edveis s\u00e3o diarreia, n\u00e1usea, mudan\u00e7as de humor e feridas na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sem prescri\u00e7\u00e3o e acompanhamento m\u00e9dico, a pessoa que toma o medicamento pode correr riscos. S\u00f3 um m\u00e9dico pode monitorar os efeitos colaterais e a quantidade receitada. Isso \u00e9 muito importante&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil o m\u00e9dico intensivista italiano Andrea Cortegiani. &#8220;Os rem\u00e9dios s\u00f3 podem ser tomados sob supervis\u00e3o m\u00e9dica.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, diz ele, para decidir se um medicamento deve ser prescrito para determinada situa\u00e7\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o regulat\u00f3rio do pa\u00eds segue evid\u00eancias, e m\u00e9dicos devem seguir o \u00f3rg\u00e3o regulat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, apesar dos efeitos colaterais cl\u00e1ssicos serem conhecidos, pouco se sabe ainda sobre os efeitos colaterais em pacientes com covid-19, e dos efeitos adversos dos medicamentos usados em associa\u00e7\u00e3o com outros, como o antibi\u00f3tico azitromicina, para pessoas doentes por causa do v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Alguns estudos j\u00e1 publicados<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/129A8\/production\/_112300267_cloquina2.jpg\" alt=\"Exames com cloroquina\"\/><figcaption>Image caption&#8217;A maior parte dos dados divulgados ou publicados at\u00e9 agora em cloroquina ou hidroxicloroquina, e as pesquisas sobre covid-19 em geral, s\u00e3o imprecisas&#8217;, diz levantamento sobre estudos publicados at\u00e9 agora<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A hidroxicloroquina foi vista com esperan\u00e7a como um poss\u00edvel tratamento para o coronav\u00edrus em um primeiro momento por causa de um estudo in vitro feito na China cujos resultados haviam sido positivos. Isso significa que o medicamento foi testado com sucesso em laborat\u00f3rio, em cultura de c\u00e9lulas. A pesquisa concluiu que o medicamento inibiu a entrada do v\u00edrus nas c\u00e9lulas e bloqueou o transporte do v\u00edrus entre organelas das c\u00e9lulas (endossomos e endolisossomos) o que, segundo nota t\u00e9cnica da Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) sobre o estudo, parece ser a etapa determinante para a libera\u00e7\u00e3o do genoma viral nas c\u00e9lulas no caso do Sars-CoV-2.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o resultado obtido em um estudo em laborat\u00f3rio n\u00e3o se traduz necessariamente quando aplicado em humanos. E, para concluir de fato se \u00e9 eficaz e seguro nas pessoas, \u00e9 preciso fazer um estudo cl\u00ednico.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois disso, outro estudo publicado na Fran\u00e7a, feito por cientistas da Universidade de Medicina de Marselha, anunciou resultados positivos. A\u00a0pesquisa\u00a0analisou o uso da hidroxicloroquina associada ao uso do antibi\u00f3tico azitromicina, e concluiu que o tratamento com a hidroxicloroquina era associado \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o ou desapari\u00e7\u00e3o da carga viral em pacientes com covid-19, e que seu efeito era refor\u00e7ado pela azitromicina.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a pesquisa foi desacreditada pela comunidade cient\u00edfica. Houve cr\u00edticas ao n\u00famero reduzido de pacientes (apenas 36), \u00e0 compara\u00e7\u00e3o pouco rigorosa entre grupos de pacientes e a maneira como os resultados foram medidos. O estudo n\u00e3o analisou se o paciente melhorou, piorou ou morreu, mas, sim, por quanto tempo o v\u00edrus era detectado em seu corpo. Al\u00e9m disso, a pesquisa foi aceita para a publica\u00e7\u00e3o em apenas 24 horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros estudos menores tamb\u00e9m foram publicados, como um na\u00a0China, randomizado e com grupos de controle, e 62 pacientes. Pacientes que recebiam hidroxicloroquina, segundo a pesquisa, tiveram per\u00edodos menores de febre e tosse. A quantidade de pessoas no estudo \u00e9 considerada pequena (estudos mais s\u00f3lidos em geral t\u00eam centenas ou milhares de pacientes), e nenhum deles estava em est\u00e1gio grave. O estudo tampouco foi revisado por pares.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, um\u00a0estudo\u00a0preliminar sobre o uso de cloroquina para tratar pacientes com sintomas de covid-19 foi interrompido depois que 11 pessoas morreram. Segundo os pesquisadores, altas doses do medicamento poderiam levar a quadros severos de arritmia ou batimentos card\u00edacos irregulares. A pesquisa preliminar foi divulgada no medRxiv, um servidor virtual de informa\u00e7\u00f5es da \u00e1rea da sa\u00fade. Mais tarde, no fim de abril, uma vers\u00e3o revisada por pares foi publicada na revista Jama (Journal of American Medical Association), um importante peri\u00f3dico do meio cient\u00edfico. Os cientistas\u00a0recomendaram\u00a0que altas doses de cloroquina n\u00e3o deveriam ser adotadas para pacientes em est\u00e1gio grave de covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>A FDA, a Anvisa americana, alertou contra o uso de hidroxicloroquina ou cloroquina fora do hospital ou de ensaios cl\u00ednicos por causa de &#8220;problemas de arritmia&#8221;. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 provas de que hidroxicloroquina e cloroquina sejam seguras ou eficazes para tratar e prevenir a covil-19&#8221;, diz comunicado do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E, por fim, duas grandes pesquisas recentes foram publicadas em peri\u00f3dicos cient\u00edficos, e as duas jogaram um balde de \u00e1gua fria na hip\u00f3tese de que a hidroxicloroquina poderia ser uma boa solu\u00e7\u00e3o para a covid-19. Ambas foram observacionais \u2014 em outras palavras, feitas com um olhar posterior aos dados de pacientes tratados e, portanto, com poder cient\u00edfico menor que ensaios cl\u00ednicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nos estudos observacionais, voc\u00ea volta no passado e verifica o que aconteceu, ou ent\u00e3o vai acompanhando casos sem fazer interven\u00e7\u00f5es&#8221;, explica Sim\u00f5es e Silva. &#8221; Esses estudos t\u00eam poder cient\u00edfico um pouco menor. N\u00e3o permitem concluir se um rem\u00e9dio \u00e9 ben\u00e9fico ou n\u00e3o. Os estudos sugerem, e da\u00ed tem que fazer depois um ensaio cl\u00ednico para ter o grau de evid\u00eancia necess\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, os dois estudos foram com um n\u00famero elevado de pacientes e feito com revis\u00e3o por pares (submeter o trabalho cient\u00edfico ao escrut\u00ednio de um ou mais especialistas do mesmo escal\u00e3o que os autores) de respeitados peri\u00f3dicos cient\u00edficos, e, portanto, s\u00e3o mais robustos do que os estudos menores publicados at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das pesquisas foi publicada na segunda (11) na revista Jama (Journal of the American Medical Association). O\u00a0estudo\u00a0com 1.438 pacientes n\u00e3o encontrou redu\u00e7\u00e3o de mortalidade por covid-19 nas pessoas medicadas com hidroxicloroquina. A pesquisa analisou dados de pacientes internados entre 15 de mar\u00e7o e 24 de abril em hospitais da regi\u00e3o metropolitana de Nova York.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro\u00a0estudo\u00a0foi publicado no The New England Journal of Medicine, e examinou 1.376 pacientes que ficaram internados por mais de 24 horas em estados moderados ou graves da doen\u00e7a. Do total, 58,9% foram medicados com a hidroxicloroquina, e o restante n\u00e3o. A pesquisa apontou que n\u00e3o havia evid\u00eancias de que o uso da hidroxicloroquina influenciou na redu\u00e7\u00e3o de mortes ou intuba\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ensaios randomizados e controlados de hidroxicloroquina com pacientes com covid-19 s\u00e3o necess\u00e1rios&#8221;, concluiu a pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tantos estudos e confus\u00e3o sobre eles, que um\u00a0levantamento\u00a0feito por pesquisadores dos Estados Unidos e Canad\u00e1 analisou justamente os estudos que j\u00e1 existem sobre a efic\u00e1cia e seguran\u00e7a dos medicamentos contra a covid-19. Publicado no Journal of Clinical Epidemiology, o trabalho analisou 12 pesquisas j\u00e1 publicadas. Concluiu que a metodologia usada at\u00e9 agora tem sido &#8220;muito pobre&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A maior parte dos dados divulgados ou publicados at\u00e9 agora em cloroquina ou hidroxicloroquina, e as pesquisas sobre covid-19 em geral, s\u00e3o imprecisas e correm um risco alto de vi\u00e9s em suas estimativas de efeito. Essa \u00e9 nossa preocupa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o estudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o levantamento, a demanda massiva por evid\u00eancias de tratamento para uma doen\u00e7a nova como a covid-19 pode estar afetando, de modo n\u00e3o intencional, a conduta dos estudos cient\u00edficos. Tamb\u00e9m pode estar afetando os processos de publica\u00e7\u00e3o e de revis\u00e3o por pares.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Entendemos as barreiras para executar pesquisas rigorosas quando os sistemas de sa\u00fade est\u00e3o saturados com uma nova doen\u00e7a. No entanto, uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia de pandemia n\u00e3o transforma m\u00e9todos e dados com problemas em resultados confi\u00e1veis. A pesquisa cl\u00ednica robusta e comparativa que \u00e9 necess\u00e1ria para tomar decis\u00f5es informadas e baseadas em evid\u00eancias segue ausente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10298\/production\/_112300266_cloroquina1.jpg\" alt=\"Cloroquina\"\/><figcaption>Image captionH\u00e1 mais de 150 ensaios cient\u00edficos envolvendo cloroquina e hidroxicloroquina contra a covid-19 registrados em diversos bancos de dados internacionais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que n\u00e3o h\u00e1 estudos com conclus\u00e3o definitiva ainda?<\/h2>\n\n\n\n<p>O motivo pela falta de evid\u00eancias sobre a efic\u00e1cia e seguran\u00e7a dos medicamentos para a covid-19 \u00e9 a metodologia das pesquisas publicadas at\u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os estudos que temos at\u00e9 agora s\u00e3o pequenos. Alguns sugerem a efic\u00e1cia do medicamento, e outros, o contr\u00e1rio, mostram at\u00e9 efeitos colaterais graves&#8221;, diz Ana Cristina Sim\u00f5es e Silva, a professora da UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ainda n\u00e3o temos um estudo de grande porte, confi\u00e1vel, que d\u00ea respaldo ou conclus\u00e3o sobre o medicamento para essa doen\u00e7a. O desenho do estudo \u00e9 extremamente importante para sua conclus\u00e3o. Os mais confi\u00e1veis e bem desenhados ainda est\u00e3o em andamento, sem resultados publicados.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Por enquanto, diz Cortegiani, o m\u00e9dico intensivista e pesquisador italiano, o que podemos dizer \u00e9 que os dados que temos agora s\u00e3o melhores do que t\u00ednhamos antes, mas ainda n\u00e3o s\u00e3o conclusivos. Em mar\u00e7o, ele publicou uma pesquisa resumindo as evid\u00eancias que se tinha at\u00e9 o momento para a cloroquina como tratamento para a covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, &#8220;sabemos que talvez o tratamento com hidroxicloroquina n\u00e3o seja capaz de influenciar a mortalidade de pacientes por covid-19, e que possivelmente ministrar o medicamento com [o antibi\u00f3tico] azitromicina pode causar maiores danos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as evid\u00eancias mais confi\u00e1veis at\u00e9 agora apontem para essa conclus\u00e3o, isso ainda pode mudar com novas pesquisas, ressalta ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos com metodologia mais completa ainda devem ser publicados. H\u00e1 mais de 150\u00a0ensaios\u00a0cient\u00edficos registrados em diversos bancos de dados internacionais envolvendo cloroquina e hidroxicloroquina, sozinhos ou com outros medicamentos como tratamento contra a covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma das pesquisas publicadas at\u00e9 agora atingiu o&nbsp;<em>gold standard&nbsp;<\/em>(o &#8220;padr\u00e3o ouro&#8221;, no jarg\u00e3o cient\u00edfico) para demonstrar a seguran\u00e7a e efic\u00e1cia de um medicamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse padr\u00e3o exige um ensaio cl\u00ednico randomizado, ou seja, com integrantes escolhidos de forma aleat\u00f3ria e com vari\u00e1veis controladas, e feito em grande escala. Tamb\u00e9m h\u00e1 outras metodologias que conferem mais legitimidade a um estudo: o duplo-cego, quando nem o paciente nem o examinador sabem o que est\u00e1 sendo usado como vari\u00e1vel, e os grupos de controle, em que se examina uma vari\u00e1vel por vez \u2014 usando, por exemplo, um tratamento padr\u00e3o, um placebo ou nenhum tratamento, em diferentes grupos. &#8220;Isso torna o estudo mais robusto e a conclus\u00e3o fica mais confi\u00e1vel&#8221;, diz Sim\u00f5es e Silva.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter grupos de controle \u00e9 importante para poder comparar resultados de quem recebeu tratamento com os medicamentos, e assim aferir sua efic\u00e1cia e seguran\u00e7a. &#8220;Se voc\u00ea tiver efeitos adversos maiores no grupo que recebeu o medicamento em rela\u00e7\u00e3o ao grupo que n\u00e3o recebeu, voc\u00ea consegue medir a seguran\u00e7a das drogas testadas&#8221;, explica Cortegiani.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ensaio cl\u00ednico randomizado \u00e9 importante porque, do contr\u00e1rio, voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 certeza que qualquer efeito \u00e9 derivado do tratamento, diz a microbiologista americana-holandesa Elisabeth Bik, consultora em integridade cient\u00edfica que se especializou em analisar publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>E Sim\u00f5es e Silva explica por que \u00e9 necess\u00e1rio ter um tamanho amostral grande, de centenas ou milhares de pessoas. &#8220;Um tamanho amostral pequeno significa que pode ter tido um vi\u00e9s de sele\u00e7\u00e3o, pegando s\u00f3 pacientes com casos leves, por exemplo, que iam melhorar de qualquer jeito.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quanto mais pacientes, maior a chance da conclus\u00e3o ser correta e poder ser generalizada para a popula\u00e7\u00e3o. Tem um poder estat\u00edstico maior.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante que um estudo cient\u00edfico passe por um processo de revis\u00e3o por pares. Isso consiste em submeter o trabalho cient\u00edfico ao escrut\u00ednio de um ou mais especialistas do mesmo escal\u00e3o que o autor, que fazem coment\u00e1rios ou sugerem a edi\u00e7\u00e3o do trabalho analisado, com arbitragem do editor da publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Publica\u00e7\u00f5es sem esse processo s\u00e3o vistos com desconfian\u00e7a por acad\u00eamicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 preciso entender que, sem a revis\u00e3o por pares, aquela publica\u00e7\u00e3o consiste apenas na vis\u00e3o do autor sobre as coisas, sem que outros cientistas tenham lido aquilo&#8221;, diz Bik.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, diz ela, &#8220;a revis\u00e3o por pares, que normalmente leva meses, est\u00e1 sendo acelerada&#8221;. &#8220;Todos est\u00e3o sedentos por conhecimento sobre o coronav\u00edrus, mas pular esse processo pode causar mais danos do que o contr\u00e1rio&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>E o fato de que os medicamentos est\u00e3o no meio de uma disputa pol\u00edtica \u2014 envolvendo press\u00e3o por seu uso feita por presidentes, com no caso do Brasil e dos EUA \u2014 n\u00e3o ajuda as pesquisas, segundo um artigo da revista&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-020-01165-3\">Nature<\/a>: &#8220;Algumas pessoas n\u00e3o querem participar em ensaios cl\u00ednicos que os obrigariam a abrir m\u00e3o de tratamentos com cloroquina&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O virologista Jeremy Rossman, professor da Universidade de Kent, no Reino Unido, no entanto, diz que, apesar dos estudos feitos at\u00e9 agora serem pequenos, tiveram uma variedade de ensaios cl\u00ednicos em diferentes formatos e diferentes pa\u00edses com dados suficientes para provar que a cloroquina n\u00e3o ajuda para a covid-19. &#8220;N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o ajuda, como h\u00e1 um risco.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele acha que nem vale a pena fazer ensaios cl\u00ednicos maiores, e que seria &#8220;absolutamente essencial focar nos medicamentos com maior chance de sucesso&#8221;. &#8220;Quanto mais cedo tivermos esses dados, melhor. Precisamos priorizar, e j\u00e1 foi provado que a cloroquina n\u00e3o deve ser prioridade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Estudos em andamento<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/150B8\/production\/_112300268_cloroquina9.jpg\" alt=\"Testes em laborat\u00f3rio\"\/><figcaption>Image captionNo Brasil, segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio da Conep (Comiss\u00e3o Nacional de \u00c9tica em Pesquisa), h\u00e1 15 ensaios com cloroquina ou hidroxicloroquina em andamento<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, h\u00e1, sim, grandes estudos em andamento \u2014 e devemos ter uma resposta mais definitiva em breve. H\u00e1 um grande esfor\u00e7o internacional para verificar se o medicamento \u00e9 de fato eficiente e seguro contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>A cloroquina e sua variante est\u00e3o entre os quatro f\u00e1rmacos que est\u00e3o sendo estudados em uma iniciativa lan\u00e7ada pela OMS batizada de Solidariedade \u2014 e o Brasil faz parte dela, por meio da Fiocruz.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional de \u00c9tica em Pesquisa (Conep), h\u00e1 15 ensaios com cloroquina ou hidroxicloroquina em andamento. Alguns resultados devem sair no fim de maio.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos estudos \u00e9 do Projeto Coaliz\u00e3o Covid Brasil, liderado pelos hospitais Albert Einstein, S\u00edrio Liban\u00eas e HCor, al\u00e9m da Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva. Entre outros objetivos, o grupo realiza testes cl\u00ednicos com a cloroquina e a hidroxicloroquina.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia \u00e9 realizar testes em 70 hospitais pelo pa\u00eds em mais ou menos mil pessoas com diferentes quadros: dos leves aos mais graves, inclusive aqueles que est\u00e3o na UTI, em uma pesquisa que deve durar entre dois e tr\u00eas meses.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hospital no Piau\u00ed<\/h2>\n\n\n\n<p>Apoiadores de Bolsonaro tamb\u00e9m t\u00eam incensado uma iniciativa em Floriano, uma cidade de 60 mil habitantes no Piau\u00ed, onde um hospital tem administrado hidroxicloroquina, azitromicina e corticoides de acordo com o est\u00e1gio da doen\u00e7a. A ministra da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos, Damares Alves, visitou o munic\u00edpio na quinta-feira (14) e reuniu-se com o prefeito da cidade, o secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade e m\u00e9dicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Comprova, projeto jornal\u00edstico que verifica desinforma\u00e7\u00e3o nas redes, o tratamento aplicado no Hospital Regional Tib\u00e9rio Nunes foi aplicado em 15 pessoas, sem grupo de controle (pacientes que n\u00e3o fizeram uso do medicamento para fins cient\u00edficos de compara\u00e7\u00e3o). N\u00e3o h\u00e1 comparativo ou estudo que indique que a melhora cl\u00ednica se deu exclusivamente por conta das medica\u00e7\u00f5es usadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 revista Veja, o secret\u00e1rio de Sa\u00fade de Floriano (PI), James Rodrigues, disse ter receio de que os resultados anunciados pelo munic\u00edpio no uso da cloroquina se tornem uma &#8220;explora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nos preocupa muito essa explora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o pode. No Brasil h\u00e1 uma divis\u00e3o: esquerda \u00e9 contra a cloroquina e a direita \u00e9 a favor. N\u00e3o \u00e9 assim. As evid\u00eancias que temos aqui s\u00e3o pequenas. Em vez de ficar com bra\u00e7os cruzados, estamos buscando alternativas&#8221;, disse \u00e0 revista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o virologista Rossman, a politiza\u00e7\u00e3o da cloroquina d\u00e1 \u00e0s pessoas &#8220;falsa esperan\u00e7a&#8221;, e a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um bom tratamento ou um bom medicamento pode fazer com que n\u00e3o tomem as mesmas precau\u00e7\u00f5es que tomariam. Tamb\u00e9m pode fazer com que elas se automediquem, o que \u00e9 extremamente perigoso, al\u00e9m de zerar o estoque de rem\u00e9dios de quem realmente precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 um perigo real em politizar o assunto antes das evid\u00eancias cient\u00edficas. Tem havido uma desconex\u00e3o grande entre as mensagens pol\u00edticas e o que os dados cient\u00edficos dizem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considerada pelo presidente Jair Bolsonaro como arma no combate \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus e piv\u00f4 da sa\u00edda de Nelson Teich do comando do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na \u00faltima sexta-feira (15), o medicamento cloroquina n\u00e3o tem efic\u00e1cia e seguran\u00e7a cientificamente comprovadas contra a covid-19. De acordo com as evid\u00eancias mais s\u00f3lidas que existem at\u00e9 agora, a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":27377,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":{"0":"post-27376","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/112300267_cloquina2.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27376"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27376"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27378,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27376\/revisions\/27378"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27377"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}