{"id":26952,"date":"2020-03-27T14:02:14","date_gmt":"2020-03-27T17:02:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=26952"},"modified":"2020-03-27T14:02:17","modified_gmt":"2020-03-27T17:02:17","slug":"coronavirus-mortes-suspeitas-acendem-alerta-sobre-total-de-vitimas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2020\/03\/27\/coronavirus-mortes-suspeitas-acendem-alerta-sobre-total-de-vitimas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus: mortes suspeitas acendem alerta sobre total de v\u00edtimas no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Gabriel Martinez tinha 26 anos. M\u00fasico e publicit\u00e1rio, ele morava no Rio de Janeiro (RJ). Segundo a fam\u00edlia, n\u00e3o tinha problemas de sa\u00fade. No \u00faltimo s\u00e1bado (21), morreu em um hospital particular.<\/p>\n\n\n\n<p>Na certid\u00e3o de \u00f3bito, consta que ele teve sepse pulmonar \u2014 uma infec\u00e7\u00e3o no pulm\u00e3o. Os sintomas e a surpresa com a morte do jovem levaram a fam\u00edlia e m\u00e9dicos a desconfiarem da causa: uma poss\u00edvel infec\u00e7\u00e3o pelo novo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma semana depois da morte do m\u00fasico, os testes feitos com base nos materiais colhidos dele ainda n\u00e3o ficaram prontos.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Gabriel nao \u00e9 \u00fanico. Em hospitais e nas redes sociais, hist\u00f3rias de poss\u00edveis v\u00edtimas sem diagn\u00f3stico oficial pela escassez e a demora nos resultados dos testes p\u00f5em em xeque as estat\u00edsticas de mortos pelo coronav\u00edrus no Brasil. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, casos suspeitos n\u00e3o s\u00e3o contabilizados at\u00e9 que sejam confirmados por exames \u2014 que t\u00eam demorado mais de uma semana.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem respostas, a engenheira Maria Aparecida Martinez n\u00e3o fez o vel\u00f3rio do filho. Antes da morte do rapaz, ela mal teve tempo para se despedir dele no hospital. &#8220;Olhei para o meu filho por dois minutos pela \u00faltima vez, porque implorei para a m\u00e9dica. N\u00e3o queriam me deixar aproximar dele por causa da suspeita do v\u00edrus&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela relata que a incerteza sobre a causa da morte do filho tornou a perda ainda mais dif\u00edcil. &#8220;\u00c9 muito descaso e despreparo. Acredito que o meu filho realmente tenha morrido por causa do coronav\u00edrus. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil para a fam\u00edlia n\u00e3o ter essa confirma\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A coordenadora de opera\u00e7\u00f5es Fernanda*, de 39 anos, viveu situa\u00e7\u00e3o semelhante. A m\u00e3e dela morreu no \u00faltimo dia 16, tamb\u00e9m com suspeita de covid-19, a doen\u00e7a causada pelo novo coronav\u00edrus. Por dez dias, ela ficou \u00e0 espera do resultado do exame. &#8220;Essa incerteza foi muito ruim&#8221;, desabafa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7F7A\/production\/_111443623_gabriel7.jpg\" alt=\"Gabriel e os pais\"\/><figcaption>Image captionGabriel Martinez junto com os pais durante sua cola\u00e7\u00e3o de grau: jovem morreu aos 26 anos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitas contamina\u00e7\u00f5es ocorreram e ocorrer\u00e3o por falta dessas informa\u00e7\u00f5es&#8221;, declara Fernanda, que perdeu a m\u00e3e. Ela acredita que muitas pessoas pr\u00f3ximas a um paciente morto por suspeita do novo v\u00edrus podem ignorar o isolamento por n\u00e3o terem o resultado do exame.<\/p>\n\n\n\n<p>A certid\u00e3o de \u00f3bito da m\u00e3e de Fernanda cita que a idosa, de 63 anos, teve problemas respirat\u00f3rios e chega a mencionar a suspeita de covid-19. Mas a confirma\u00e7\u00e3o s\u00f3 veio mais de dez dias ap\u00f3s o exame.<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o divulga dados sobre \u00f3bitos suspeitos de terem sido causados pelo novo coronav\u00edrus, apenas os confirmados. Desta forma, os n\u00fameros reais podem ser muito maiores do que os oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 2,9 mil registros de pessoas infectadas no pa\u00eds e 77 mortes, segundo a pasta, at\u00e9 quinta-feira (26) \u2014 os n\u00fameros oficiais, segundo especialistas, s\u00e3o menores do que a realidade, em raz\u00e3o do baixo n\u00famero de testes dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) orienta que os pa\u00edses fa\u00e7am testes em massa em casos suspeitos, para controlar a pandemia do Sars-Cov-2, como o v\u00edrus \u00e9 chamado oficialmente. No Brasil, por\u00e9m, os resultados demoram at\u00e9 duas semanas e muitos pacientes n\u00e3o s\u00e3o testados em raz\u00e3o da falta de exames.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que come\u00e7aram os registros de casos de transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria \u2014 quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel identificar a origem do v\u00edrus \u2014 no Brasil, h\u00e1 duas semanas, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade passou a orientar que sejam testados somente os pacientes graves ou profissionais de sa\u00fade que est\u00e3o na linha de frente dos casos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pasta afirma que os testes ser\u00e3o ampliados em breve, pois adquiriu 22,9 milh\u00f5es que ser\u00e3o distribu\u00eddos em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Ele n\u00e3o tinha problemas respirat\u00f3rios&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Maria Aparecida relata que o filho passou a se sentir mal seis dias antes de morrer. Era um domingo quando ele come\u00e7ou a ter febre. &#8220;Fizemos como os meios de comunica\u00e7\u00e3o e os m\u00e9dicos dizem. Mantivemos o controle dele em casa, cuidando como se fosse uma gripe&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que, desde os primeiros sintomas do filho, tentou procurar um local no qual ele pudesse fazer exames, no Rio de Janeiro. &#8220;Liguei insistentemente para todos os laborat\u00f3rios. Queria pagar pelo exame particular, mas sequer me atendiam. Em nenhum lugar era poss\u00edvel fazer esses exames&#8221;, diz a engenheira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CD9A\/production\/_111443625_gabriel.jpg\" alt=\"Gabriel Martinez\"\/><figcaption>Image captionGabriel era m\u00fasico e publicit\u00e1rio: ele morreu ap\u00f3s ter sintomas semelhantes \u00e0 covid-19<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os sintomas do jovem pioraram e a febre n\u00e3o cessou. Tr\u00eas dias depois do in\u00edcio do mal-estar, os pais levaram Gabriel para uma unidade de sa\u00fade particular na capital carioca.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ele foi medicado, saiu com antibi\u00f3ticos e disseram que se ele n\u00e3o melhorasse, deveria ir novamente ao hospital. Os m\u00e9dicos deram tamb\u00e9m um pedido de exame para o coronav\u00edrus, mas n\u00e3o t\u00ednhamos onde fazer, porque nenhum laborat\u00f3rio nos atendia&#8221;, relata Aparecida.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo s\u00e1bado (21), Gabriel disse aos pais que n\u00e3o tinha for\u00e7as para levantar da cama. Foi encaminhado ao hospital. Uma tomografia apontou que mais de 50% dos pulm\u00f5es dele estavam comprometidos \u2014 condi\u00e7\u00e3o que costuma acontecer em casos de covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O meu filho era totalmente saud\u00e1vel. Nunca teve problemas respirat\u00f3rios. Ele n\u00e3o era fumante, n\u00e3o tinha asma, diabetes, bronquite ou qualquer problema de sa\u00fade&#8221;, diz Aparecida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;De repente, ele teve esses problemas nos pulm\u00f5es e os m\u00e9dicos disseram que poderia ser coronav\u00edrus. N\u00e3o t\u00e1 comprovado ainda, por falta do exame, mas n\u00e3o tenho d\u00favida de que era isso mesmo&#8221;, diz a m\u00e3e do jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que retornou ao hospital, os m\u00e9dicos passaram a acompanhar Gabriel como se fosse um paciente com o novo coronav\u00edrus, por ser considerado um caso altamente suspeito. O protocolo para acompanhar pessoas com a covid-19 inclui o uso de Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPI) e isolamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Horas ap\u00f3s dar entrada no hospital, Gabriel foi entubado e teve a primeira parada card\u00edaca. S\u00f3 ent\u00e3o, segundo a m\u00e3e, fizeram o teste de coronav\u00edrus nele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O m\u00e9dico me disse sobre a orienta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, de que os testes devem ser feitos somente em pessoas em estado grave. Quando a pessoa chega ao estado terminal, a\u00ed eles se preocupam em fazer o teste, para depois virar estat\u00edstica&#8221;, diz Aparecida.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico disse \u00e0 engenheira que o exame demoraria cerca de sete dias para ficar pronto, mesmo se tratando de um caso grave. Horas depois, Gabriel morreu. &#8220;Nem sei quando esse exame vai ficar pronto&#8221;, lamenta a m\u00e3e do rapaz.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pais seguiram as orienta\u00e7\u00f5es da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) para casos de mortes por coronav\u00edrus e cremaram o filho \u2014 a medida \u00e9 a mais recomendada, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 considerada pela entidade como obrigat\u00f3ria, pois os parentes tamb\u00e9m podem optar por enterro com caix\u00e3o lacrado. A recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma para casos suspeitos ou confirmados.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11BBA\/production\/_111443627_corona88.jpg\" alt=\"Sala de hospital\"\/><figcaption>Image captionEspecialistar comentam que demora em resultados de exames sobre coronav\u00edrus traz diversos problemas no combate \u00e0 pandemia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A Anvisa recomenda que a cerim\u00f4nia de despedida de um paciente com coronav\u00edrus deva reunir o menor n\u00famero poss\u00edvel de pessoas, preferencialmente apenas os familiares mais pr\u00f3ximos, para reduzir a possibilidade de cont\u00e1gio. Os participantes do funeral devem evitar apertos de m\u00e3os ou outros tipos de contatos e precisam seguir orienta\u00e7\u00f5es de higiene \u2014 como o uso de \u00e1lcool em gel e lavar as m\u00e3os com \u00e1gua e sab\u00e3o com frequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sem saber se o filho estava com o novo coronav\u00edrus, os pais n\u00e3o fizeram nenhuma cerim\u00f4nia de despedida para o jovem. &#8220;Eu e o meu marido liberamos o corpo dele no hospital. O caix\u00e3o estava lacrado. Depois, o corpo foi levado para o cremat\u00f3rio, onde pegamos as cinzas dele&#8221;, relata Aparecida. Os amigos de Gabriel n\u00e3o conseguiram se despedir do jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quarta-feira (25), os pais dele colocaram a urna com as cinzas do jovem em um cemit\u00e9rio da capital carioca. Ali, parentes e amigos poder\u00e3o prestar homenagens ao rapaz. &#8220;Estamos em uma situa\u00e7\u00e3o em que s\u00f3 podemos receber abra\u00e7os virtuais ou liga\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 sendo muito dif\u00edcil n\u00e3o poder abra\u00e7ar de verdade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, Aparecida convive com a saudade e a incerteza. &#8220;D\u00f3i muito olhar pra cama dele e ver que ele n\u00e3o vai estar l\u00e1, ou n\u00e3o ouvir mais o barulho da chave dele abrindo a porta de casa. Est\u00e1 sendo muito dif\u00edcil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Sem respostas sobre o exame do filho, ela, o marido, o outro filho e a nora est\u00e3o em isolamento. &#8220;N\u00e3o estamos saindo de casa, \u00e0 espera por respostas&#8221;, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estou indignada com o modo com que as autoridades est\u00e3o tratando o coronav\u00edrus, achando que \u00e9 um &#8216;resfriadinho'&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Espera angustiante<\/h2>\n\n\n\n<p>A espera de Fernanda por respostas durou mais de 10 dias. A m\u00e3e dela, a aposentada J\u00falia*, se dividia entre os cuidados com a casa e com a neta e trabalhos volunt\u00e1rios, como em um centro esp\u00edrita em S\u00e3o Paulo (SP). A idosa tinha diabetes, colesterol alto e hipertens\u00e3o. &#8220;Mas era tudo controlado. Ela fazia atividades f\u00edsicas uma vez por semana&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sintomas da covid-19 come\u00e7aram em quatro de mar\u00e7o, quando J\u00falia teve dores no corpo e na garganta. No dia seguinte, foi ao pronto-socorro de uma unidade da operadora Prevent Senior, especializada em planos de sa\u00fade para idosos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Entre o dia cinco e 13 de mar\u00e7o, a levamos quatro vezes ao pronto-socorro. Os tr\u00eas primeiros m\u00e9dicos pediram apenas exames de sangue e raio-X do pulm\u00e3o dela e negaram que ela tivesse sintomas de covid-19. Somente o \u00faltimo pediu uma tomografia do t\u00f3rax e exames para a covid-19 e H1N1. Nessa noite, constataram comprometimento da fun\u00e7\u00e3o pulmonar&#8221;, relata Fernanda.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/169DA\/production\/_111443629_corona2.jpg\" alt=\"M\u00e9dico analisando teste de coronav\u00edrus\"\/><figcaption>Image captionMinist\u00e9rio da Sa\u00fade anunciou 22 milh\u00f5es de testes chegar\u00e3o ao pa\u00eds nas pr\u00f3ximas semanas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Parecia que os primeiros m\u00e9dicos n\u00e3o estavam preparados ou n\u00e3o estavam esperando a pandemia chegar. Pareciam n\u00e3o saber qualquer protocolo espec\u00edfico para a suspeita da doen\u00e7a&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 13, a idosa foi internada; em dois dias foi entubada porque a fun\u00e7\u00e3o pulmonar piorou. Ao todo, segundo a filha, J\u00falia passou quatro dias internada e morreu. O resultado do exame feito em 12 de mar\u00e7o saiu somente na quinta-feira (26): positivo para covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernanda critica o fato de que, mesmo sendo um caso grave, que posteriormente se tornou um \u00f3bito, o exame da sua m\u00e3e n\u00e3o se tornou prioridade.<\/p>\n\n\n\n<p>A idosa foi cremada. &#8220;N\u00e3o houve nenhuma orienta\u00e7\u00e3o por parte do hospital sobre como dever\u00edamos proceder, mas achamos mais prudente cremar, para evitar algum tipo de contamina\u00e7\u00e3o. Comunicamos aos parentes e amigos que n\u00e3o haveria vel\u00f3rio, por conta da suspeita de coronav\u00edrus&#8221;, diz a filha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sem respostas do exame, desde que J\u00falia foi internada os parentes mais pr\u00f3ximos passaram a ficar em isolamento. &#8220;N\u00e3o tivemos sintomas. J\u00e1 tivemos tosse, mas j\u00e1 passou&#8221;, diz. Ela, o marido e a filha de quatro anos permanecem em casa, em uma propriedade no mesmo terreno em que a idosa morava.<\/p>\n\n\n\n<p>A confirma\u00e7\u00e3o do exame para o coronav\u00edrus foi uma forma de Fernanda encerrar a ang\u00fastia da espera por respostas sobre a morte da m\u00e3e. &#8220;Ainda n\u00e3o processei o resultado. \u00c9 muito recente e muito complexo. Mas, por fim, houve um desfecho e poderei viver meu luto&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil, pouco ap\u00f3s receber o resultado.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurada pela reportagem, a operadora de sa\u00fade Prevent Senior n\u00e3o comentou o caso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Faltam testes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A demora para os resultados de pacientes em estado grave ou mortos ilustra as dificuldades do enfrentamento ao coronav\u00edrus no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A OMS recomenda testes em massa para casos suspeitos, mesmo aqueles que n\u00e3o sejam graves, justamente para &#8220;achatar a curva&#8221; de transmiss\u00e3o \u2014 ou seja, evitar que milhares de pessoas fiquem doentes ao mesmo tempo, evitando assim uma sobrecarga ainda maior no sistema de sa\u00fade. A medida foi adotada por pa\u00edses como Coreia do Sul e Alemanha, que se tornaram bons exemplos no combate \u00e0 pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a realidade at\u00e9 ent\u00e3o \u00e9 diferente do recomendado pela organiza\u00e7\u00e3o mundial. Os exames n\u00e3o costumam sair antes de sete dias \u2014 exceto em hospitais particulares com laborat\u00f3rios pr\u00f3prios que seguem as orienta\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Era fundamental, desde o princ\u00edpio, seguir a orienta\u00e7\u00e3o da OMS e testar todos os casos suspeitos. Muitos pacientes s\u00e3o assintom\u00e1ticos e podem transmitir para pessoas que est\u00e3o em grupos de risco (idosos, diab\u00e9ticos, cardiopatas ou pessoas com outras comorbidades)&#8221;, afirma o m\u00e9dico Jaques Sztajnbok, supervisor da UTI do Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sztajnbok acompanhou duas mortes por suspeita de coronav\u00edrus na UTI do Em\u00edlio Ribas. Mais de sete dias depois, ainda n\u00e3o obteve respostas dos exames. &#8220;Esse resultado \u00e9 fundamental at\u00e9 mesmo para a equipe m\u00e9dica que atendeu o paciente. Os trabalhadores que acompanharam essa pessoa que pode estar com coronav\u00edrus podem ter gripe ou febre e se souberem que foi um caso de covid-19, logo v\u00e3o se afastar. Ter esses testes com rapidez \u00e9 muito importante&#8221;, declara.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do servi\u00e7o de epidemiologia do Em\u00edlio Ribas, tamb\u00e9m critica a demora nos resultados de exames de pacientes mortos com suspeita de covid-19. &#8220;O Brasil j\u00e1 restringiu os testes atuais aos pacientes mais graves, que correspondem a cerca de 20% dos casos. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem nenhum sentido haver atraso para os resultados desses pacientes&#8221;, declara.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 importante que esses pacientes (que morreram com suspeita de coronav\u00edrus) tenham os resultados o quanto antes, at\u00e9 mesmo para que os familiares, caso o teste d\u00ea positivo, possam se isolar e a equipe m\u00e9dica esteja atenta, caso tenha sido exposta a alguma situa\u00e7\u00e3o&#8221;, pontua a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade diz, em nota, que, em caso de morte por suspeita de coronav\u00edrus, orienta que os tr\u00e2mites para a emiss\u00e3o do atestado de \u00f3bito sejam os mais \u00e1geis poss\u00edveis e recomenda que o vel\u00f3rio aconte\u00e7a &#8220;de forma mais c\u00e9lere poss\u00edvel, evitando concentra\u00e7\u00e3o de pessoas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos familiares desses pacientes, a pasta afirma que pede &#8220;que adotem as recomenda\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias para garantia da sua seguran\u00e7a&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A pasta, por\u00e9m, n\u00e3o tem uma orienta\u00e7\u00e3o para que exames de pacientes mortos por suspeita de coronav\u00edrus sejam considerados prioridades. &#8220;A recomenda\u00e7\u00e3o (sobre o assunto) ser\u00e1 apresentada na coletiva nos pr\u00f3ximos dias. Pe\u00e7o que aguarde&#8221;, diz a assessoria de imprensa do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade \u00e0 reportagem da BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta semana, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade afirmou que aumentar\u00e1 o alcance dos testes. Para isso, o Brasil ir\u00e1 adquirir 14,9 milh\u00f5es de testes RT-PCR, que detectam a presen\u00e7a do v\u00edrus na amostra e, por isso, s\u00e3o considerados mais precisos, e 8 milh\u00f5es de testes r\u00e1pidos, que detectam a presen\u00e7a de anticorpos que o corpo produz contra o v\u00edrus \u2014 e, portanto, s\u00f3 acusam se algu\u00e9m est\u00e1 doente alguns dias ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o, quando o organismo come\u00e7a a reagir.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, os testes r\u00e1pidos ser\u00e3o destinados aos profissionais da sa\u00fade. Os do tipo RT-PCR ser\u00e3o usados nos casos mais graves. Parte deles deve come\u00e7ar a ser distribu\u00edda na pr\u00f3xima semana.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica Ana Freitas defende que o tempo ideal para os resultados \u00e9 de 48 horas ap\u00f3s a coleta do material do paciente. &#8220;Ter os resultados o quanto antes \u00e9 uma medida ampla de sa\u00fade para a redu\u00e7\u00e3o de casos&#8221;, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Sztajnbok, o aumento nos n\u00fameros de testes \u00e9 medida urgente. Ele afirma que muitas mortes por coronav\u00edrus podem ter sido registradas de outras formas, por falta de exames.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se apenas na UTI que coordeno h\u00e1 dois \u00f3bitos sem respostas at\u00e9 o momento, ent\u00e3o deve haver muitas mortes por pneumonia, insufici\u00eancia respirat\u00f3ria ou mal s\u00fabito que podem ter rela\u00e7\u00e3o com a covid, mas n\u00e3o h\u00e1 resultados dos exames. Deve haver uma centena de casos assim&#8221;, declara.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Nomes alterados a pedido da coordenadora de opera\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriel Martinez tinha 26 anos. M\u00fasico e publicit\u00e1rio, ele morava no Rio de Janeiro (RJ). Segundo a fam\u00edlia, n\u00e3o tinha problemas de sa\u00fade. No \u00faltimo s\u00e1bado (21), morreu em um hospital particular. Na certid\u00e3o de \u00f3bito, consta que ele teve sepse pulmonar \u2014 uma infec\u00e7\u00e3o no pulm\u00e3o. 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