{"id":25645,"date":"2020-02-05T16:18:26","date_gmt":"2020-02-05T19:18:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=25645"},"modified":"2020-02-05T16:18:28","modified_gmt":"2020-02-05T19:18:28","slug":"homem-que-vive-em-caverna-ha-29-anos-usa-internet-e-edita-jornal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2020\/02\/05\/homem-que-vive-em-caverna-ha-29-anos-usa-internet-e-edita-jornal\/","title":{"rendered":"Homem que vive em caverna h\u00e1 29 anos usa internet e edita jornal"},"content":{"rendered":"\n<p> Vilmar Godinho \u00e9 natural de Porto Alegre e vive em perfeita harmonia com a natureza. Seu lar s\u00e3o quatro rochas que formam uma caverna, situada entre os morros que separam as paradis\u00edacas praias da Guarda do Emba\u00fa e Pinheira, na regi\u00e3o de Palho\u00e7a, a cerca de 50 km ao sul de Florian\u00f3polis. O local \u00e9 conhecido como Vale da Utopia e integra o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, uma reserva ambiental. Pelo celular o &#8220;Guardi\u00e3o do Vale&#8221;, como \u00e9 chamado, conta ter resolvido se instalar na caverna no ver\u00e3o de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Fui com os amigos passar alguns dias na praia da Pinheira. Acabei conhecendo o Vale e curti muito o local&#8221;, conta ele, com fala serena.<\/p>\n\n\n\n<p> De acordo com Godinho, a caverna j\u00e1 teve um morador antes: o dono das terras viveu ali por um bom tempo e organizava encontros com amigos. A ideia, na \u00e9poca, era organizar uma comunidade alternativa no local. &#8220;A terra \u00e9 de propriedade de um escritor, Wilson Galv\u00e3o do Rio Apa, que pertencia a um grupo de anarquistas. Na verdade, eles queriam p\u00f4r na pr\u00e1tica essas experi\u00eancias anarquistas, mas acabou n\u00e3o dando resultado, e ent\u00e3o ficou o nome de Vale da Utopia. Depois disso teve uma mulher, uma artista que viveu por l\u00e1 durante alguns anos. Quando cheguei, estava tudo abandonado, depredado e com muito lixo. Foi ent\u00e3o que fiquei limpando, arrumando as coisas e permaneci na caverna&#8221;, contou o ex-artista pl\u00e1stico e publicit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p> Guardi\u00e3o e aprendiz Sob as rochas do morro foi constru\u00edda uma pequena cabana de madeira com cerca de 4 metros quadrados. \u00c9 ali que o &#8220;Guardi\u00e3o&#8221; dorme e se abriga do frio e da chuva h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas, desde que deixou sua vida e seus familiares em Porto Alegre. Ao lado da cabana ainda h\u00e1 um segundo c\u00f4modo no interior da caverna que serve como &#8220;sala de estar&#8221;, com direito a uma mesa de pedra esculpida pela pr\u00f3pria natureza e bancos em madeira. A cozinha \u00e9 um fog\u00e3o a lenha.<\/p>\n\n\n\n<p> Sobre sua dieta, Godinho afirmou que at\u00e9 agora n\u00e3o consegue ser 100% auto-sustent\u00e1vel. &#8220;Estou em constante aprendizado com a terra e encontro certas dificuldades aqui na \u00e1rea. H\u00e1 muita queimada na mata e o solo \u00e9 duro, ent\u00e3o tem de trabalhar, cavar, colocar nutrientes e ter cuidados para os animais n\u00e3o comerem.&#8221; A base de sua alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por frutas, legumes e verduras que ele mesmo planta em torno de sua moradia. Vez ou outra, Godinho d\u00e1 uma escapada ao supermercado para comprar cereais, j\u00e1 na praia da Pinheira.<\/p>\n\n\n\n<p> Quando se instalou na gruta, afirmou que costumava pescar e se alimentava de peixes e mariscos, mas virou vegetariano, o que facilitou um pouco sua adapta\u00e7\u00e3o. &#8220;Grande parte das frutas e verduras eu colho daqui da horta mesmo&#8221;, disse. Para matar a sede e fazer sua higiene pessoal, o ermit\u00e3o tem a sua disposi\u00e7\u00e3o, nas proximidades da caverna, uma fonte de \u00e1gua doce.<\/p>\n\n\n\n<p> Questionado pela reportagem sobre como lida com a solid\u00e3o, Vilmar afirmou que nesta \u00e9poca do ano (ver\u00e3o) \u00e9 dif\u00edcil se sentir sozinho em raz\u00e3o do movimento de turistas na regi\u00e3o. &#8220;Tiro proveito deste tempo para me concentrar, meditar nas coisas que est\u00e3o por vir. A solid\u00e3o tamb\u00e9m alimenta a gente e faz parte desse processo. N\u00e3o me sinto sozinho.&#8221; J\u00e1 na temporada de inverno, Godinho confessa que fica abrigado na caverna. &#8220;Fico por aqui mesmo, apesar do frio, n\u00e3o vou para a Porto Alegre. S\u00f3 vou \u00e0 capital ga\u00facha uma vez por ano visitar meus irm\u00e3os.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p> Tretas com a Justi\u00e7a Por viver no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental, Vilmar enfrentou s\u00e9rios problemas com a Justi\u00e7a catarinense. O imbr\u00f3glio come\u00e7ou em fevereiro de 2016, quando o \u00f3rg\u00e3o jur\u00eddico determinou que o homem desocupasse a caverna. Caso n\u00e3o aceitasse a ordem, teria que pagar uma multa de R$ 500 di\u00e1rios. Na \u00e9poca, o poss\u00edvel despejo causou revolta na comunidade local, porque os defensores e amigos alegavam que o estilo de vida de Godinho n\u00e3o prejudicava o meio ambiente. <\/p>\n\n\n\n<p> O protesto realizado em abril de 2016 ganhou as redes sociais com a campanha &#8220;Deixem o Vilmar em paz&#8221;. Sobre a atual situa\u00e7\u00e3o judicial, o Guardi\u00e3o afirma calmamente e em poucas palavras que &#8220;o processo jur\u00eddico continua&#8230; est\u00e1 l\u00e1, parado&#8221;. Ao celular, parece n\u00e3o dar muita aten\u00e7\u00e3o ao fato.<\/p>\n\n\n\n<p> Em uma de suas postagens no Facebook (sim, o moderno &#8220;homem das cavernas&#8221; tem conta na rede social mais popular do mundo e possui mais de mil seguidores), Vilmar rebate a Justi\u00e7a catarinense, que o acusa de obter recursos naturais do Parque Estadual, como lenha e \u00e1gua para o sustento. &#8220;Crime ambiental \u00e9 a falta de saneamento b\u00e1sico nas comunidades locais&#8221;, contestou o ambientalista.<\/p>\n\n\n\n<p> Al\u00e9m de viver na gruta, Vilmar Godinho costuma transferir o que sabe sobre os cuidados com o meio ambiente a estudantes de escolas e universidades da regi\u00e3o que visitam o Vale da Utopia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong> Profiss\u00e3o: editor de jornal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Preocupado com a quest\u00e3o ambiental, Godinho resolveu criar em 1994 um jornal comunit\u00e1rio chamado &#8220;Espinheira&#8221;. A ideia inicial, segundo uma das colaboradoras do peri\u00f3dico, a conterr\u00e2nea e arquiteta Elizabeth Albrecht, &#8220;era fazer um jornal que protegesse (como um espinheiro protege) a comunidade e as agress\u00f5es ao meio ambiente&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> De 1994 a 2007 as edi\u00e7\u00f5es eram mensais. O jornal parou de circular e voltou em meados de 2016, sob o nome &#8220;Espinheira Santa&#8221;, venerando a cura da sociedade e os avan\u00e7os \u00e0 prote\u00e7\u00e3o ambiental. No entanto, em 2019 foram distribu\u00eddas gratuitamente apenas duas edi\u00e7\u00f5es. &#8220;A ideia \u00e9 lan\u00e7ar para 2020 quatro edi\u00e7\u00f5es, duas a cada semestre&#8221;, afirmou a arquiteta, que reside na praia da Pinheira h\u00e1 mais de 30 anos. <\/p>\n\n\n\n<p> Albrecht afirmou que conhece Vilmar desde que ele se instalou no Vale da Utopia e lembra do dia em que o &#8220;homem das cavernas&#8221; conquistou seu primeiro celular. <\/p>\n\n\n\n<p> &#8220;Foi muito engra\u00e7ado porque a gente acabou ajudando durante muito tempo no jornal. \u00c9 o Godinho que coordena, edita, avalia as mat\u00e9rias escritas pelos colaboradores, mas ele n\u00e3o tinha telefone celular. N\u00f3s sempre brinc\u00e1vamos com ele, dizendo: &#8216;meu Deus, Vilmar, quando n\u00f3s precisamos falar algo contigo, a gente precisa subir o morro da Pinheira, descer, ir at\u00e9 o Vale da Utopia e entrar na caverna para conversar. Por favor, compra um telefone!&#8221;&#8217;, contou a ga\u00facha, que teve um filho com Godinho, Huanan J. Albrecht Godinho, hoje com 19 anos. O jovem mora na Lagoa da Concei\u00e7\u00e3o, em Florian\u00f3polis, e estuda na Universidade Federal de Santa Catarina.<\/p>\n\n\n\n<p> Hiper conectado O jornalista Dagoberto Bordin, diretor da Associa\u00e7\u00e3o R\u00e1dio Comunit\u00e1ria Pinheira, afirma que Vilmar Godinho &#8220;vive em perfeita harmonia com a natureza, ele \u00e9 um profeta&#8221;. Bordin o conhece desde os anos 1990. &#8220;Uma vez por semana ele sai da caverna, desce o morro e vem aqui ao jornal, usa o computador e edita as mat\u00e9rias em conjunto com a equipe, todos volunt\u00e1rios.&#8221; <\/p>\n\n\n\n<p> Muito pr\u00f3ximo ao colega e amigo, Dagoberto Bordin lembra de uma noite, em 2004, quando recebeu um telefonema de Porto Alegre. Eram os familiares de Godinho comunicando a morte de sua m\u00e3e, que sofria de Alzheimer. &#8220;Ele ainda n\u00e3o tinha telefone, ent\u00e3o fui caminhando \u00e0 noite pelos morros at\u00e9 a caverna dele na companhia do meu c\u00e3o, um Border Collie. Estava chovendo muito e, quando chegamos ao Vale da Utopia, Vilmar n\u00e3o estava na caverna. Ao retornar para vila, encontrei ele no jornal, em uma antiga sala que alug\u00e1vamos naquele tempo. Foi a\u00ed que o avisei sobre o falecimento da m\u00e3e&#8221;, recordou emocionado o amigo.<\/p>\n\n\n\n<p> Mesmo vivendo tanto tempo isolado em meio \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica, Vilmar Godinho nunca foi picado por cobras, escorpi\u00f5es e outros animais pe\u00e7onhentos. &#8220;Ele tem uma sintonia maravilhosa com esses bichos.&#8221; <\/p>\n\n\n\n<p>Uol<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vilmar Godinho \u00e9 natural de Porto Alegre e vive em perfeita harmonia com a natureza. 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