{"id":24646,"date":"2020-01-02T19:09:27","date_gmt":"2020-01-02T22:09:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=24646"},"modified":"2020-01-02T19:09:28","modified_gmt":"2020-01-02T22:09:28","slug":"aquele-gilberto-dimenstein-de-antes-do-cancer-morreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2020\/01\/02\/aquele-gilberto-dimenstein-de-antes-do-cancer-morreu\/","title":{"rendered":"&#8216;Aquele Gilberto Dimenstein de antes do c\u00e2ncer morreu&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p>O jornalista Gilberto Dimenstein, 63, descobriu neste ano\u00a0um c\u00e2ncer de p\u00e2ncreas, com met\u00e1stase no f\u00edgado. Ele conta sobre a doen\u00e7a, o tratamento e as mudan\u00e7as em sua forma de enxergar a vida e as rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sonhei com um mulher dizendo que eu estava com c\u00e2ncer. Sou super-racional, acredito na ci\u00eancia, na l\u00f3gica. Mas foi um sonho t\u00e3o claro que fiquei encasquetado.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui aos m\u00e9dicos, fiz colonoscopia, endoscopia, ultrassonografia, n\u00e3o achavam nada, mas eu continuava impressionado. Um gastroenterologista pediu uma tomografia, &#8220;s\u00f3 para tirar a d\u00favida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui \u00e0s 22h, o resultado come\u00e7ou a demorar. Veio um enfermeiro e perguntou se n\u00e3o sentia muita dor, porque tinha pancreatite, mas eu n\u00e3o sentia nada. N\u00e3o sentia nada. Procurei na internet: pancreatite d\u00e1 em quem bebe &#8211;sou abst\u00eamio h\u00e1 seis anos&#8211; e em quem tem ves\u00edcula &#8211;que eu j\u00e1 tinha tirado. Era c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, j\u00e1 estava no hospital. Tirei o tumor bem no comecinho, o que aparentemente era boa not\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, passadas tr\u00eas semanas, ele estava no f\u00edgado. Fizemos quimioterapia para operar, mas, em vez de parar, o tumor cresceu. Passei quatro meses de tantas m\u00e1s not\u00edcias&#8230; muita febre todo dia, comecei a j\u00e1 me preparar para a despedida. Foi o meu per\u00edodo pessimista.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje &#8211;\u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil falar isso&#8211; estou vivendo o momento mais feliz da minha vida. Aquele Gilberto Dimenstein antes do c\u00e2ncer morreu. Nasceu outro.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2019\/10\/resposta-inicial-a-quimioterapia-deve-definir-tratamento-de-bruno-covas.shtml\">C\u00e2ncer \u00e9 algo que n\u00e3o desejo para ningu\u00e9m<\/a>, mas desejo para todos a profundidade que voc\u00ea ganha ao se deparar com o limite da vida. N\u00e3o queria ter ido embora sem essa experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte da minha vida foi marcada pelo culto a bobagens: ganhar pr\u00eamio, assinar mat\u00e9ria na capa, o tempo todo pensando no pr\u00f3ximo furo. \u00c9 como se estivesse passando por um lugar lindo num trem em alta velocidade, vendo tudo borrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea tem um c\u00e2ncer (ainda mais como o meu, de met\u00e1stase e de p\u00e2ncreas, um tipo muito agressivo), n\u00e3o h\u00e1 alternativa. Ou vive o presente, ou sua vida vira um inferno.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed come\u00e7am a aparecer coisas incr\u00edveis. Gosto de andar de bicicleta, e comecei a sentir o vento no rosto, como se estivesse sendo beijado. Voc\u00ea v\u00ea seu neto deitado com voc\u00ea [Dimenstein tem um neto de dois anos e espera o segundo para daqui a seis meses]. Acorda com os bem-te-vis e escuta os bem-te-vis.<\/p>\n\n\n\n<p>Falar em sentidos \u00e9 importante, porque meu tratamento tira o gosto, at\u00e9 a \u00e1gua fica ruim. Com o tratamento, tamb\u00e9m acaba a vida sexual; voc\u00ea fica impotente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma fase de muitos pesadelos, que melhoram com o canabidiol [composto qu\u00edmico derivado da maconha,\u00a0liberado para uso medicinal].<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/1651923583964987-maconha-medicinal\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/12\/03\/15753971435de6a7173685f_1575397143_3x2_md.jpg\" alt=\"Maconha medicinal\"\/><\/a><figcaption><a href=\"https:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/1651923583964987-maconha-medicinal\">Maconha medicinal<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Tudo isso poderia fazer um cara superinfeliz. Mas as rela\u00e7\u00f5es emocionais se sofisticam. Descobri s\u00f3 agora a profundidade da rela\u00e7\u00e3o homem-mulher. Voc\u00ea est\u00e1 com enj\u00f4os, dores n\u00e3o apenas f\u00edsicas, e a pessoa do seu lado o tempo todo. N\u00e3o conhecia essa cumplicidade nesse n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s vivemos nos meios digitais a era da indelicadeza, 500 mil pessoas criticando. Eu acabei entrando no mundo das gentilezas. Cada pessoa tem uma palavra, um ch\u00e1, uma dica de ora\u00e7\u00e3o, um olhar gentil. O outro mundo vai ficando rid\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com ou sem c\u00e2ncer vamos todos morrer, e se pudermos antecipar essa sensa\u00e7\u00e3o, vamos evitar v\u00e1rias bobagens. A clareza maior da morte \u00e9 uma d\u00e1diva. N\u00e3o \u00e9 o fim, mas um come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser o come\u00e7o de um belo fim de vida, viver esses momentos com a fam\u00edlia, ou um pit stop para voltar melhor. O cara tem que ser muito, muito, muito idiota para n\u00e3o voltar melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 que eu ache que morrer \u00e9 bom, mas voc\u00ea come\u00e7a a questionar por que existe, e a conclus\u00e3o \u00e9 que, se n\u00e3o podemos escolher como entramos na vida, podemos decidir como sair dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o m\u00e9dico me disse que eu estava com c\u00e2ncer, passou um dia, dois, tr\u00eas, e n\u00e3o tive medo. S\u00f3 temia o impacto da minha morte nos outros. N\u00e3o me senti desesperado. Nada, nada, nada. At\u00e9 me espantei comigo mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ingl\u00eas se chama &#8220;surrender&#8221; [render-se]. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais no comando, e isso \u00e9 motivo de al\u00edvio. De felicidade, at\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Descobri que meu pavor era passar a vida sem prop\u00f3sito. Olhei para tr\u00e1s, e, apesar de todas as minhas delinqu\u00eancias &#8211;que n\u00e3o foram poucas&#8211;, acho que fiz mais bem que mal. Mudei minha carreira para fazer um jornalismo que n\u00e3o \u00e9 de filantropia nem altru\u00edsmo, mas de empoderamento, de usar a comunica\u00e7\u00e3o para promover causas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o inventei nada, o comunicador n\u00e3o faz o vinho. Mas tira a rolha.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/12\/30\/15777335545e0a4db23ca6b_1577733554_2x3_rt.jpg\" alt=\"Gilberto Dimenstein fala sobre como encarar a doen\u00e7a e o uso medicinal de maconha, entre outras coisas sobre sua trajet\u00f3ria\"\/><figcaption>Gilberto Dimenstein fala sobre como encarar a doen\u00e7a e o uso medicinal de maconha, entre outras coisas sobre sua trajet\u00f3ria &#8211; Bruno Santos\/Folhapress<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Acabei sendo obrigado a deixar de ser aquele jornalista racional, imparcial. Deixei de ser um espectador e passei a ser torcedor. Voc\u00ea vira um eunuco como jornalista, porque passa a querer dar s\u00f3 boa not\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 antes do c\u00e2ncer tinha come\u00e7ado minha &#8220;quimioterapia social&#8221;, na Orquestra Sinf\u00f4nica de Heli\u00f3polis [de cujo conselho Dimenstein \u00e9 presidente], que esteve perto de fechar. Em nenhum momento neste ano parei de trabalhar, arrecadar fundos, promover esse e outros projetos que acompanho. N\u00e3o \u00e9 bondade, \u00e9 conex\u00e3o com a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho segundo s\u00e3o Jo\u00e3o diz &#8220;No princ\u00edpio era o verbo&#8221;. \u00c9 a palavra que gera o poder, e n\u00f3s, comunicadores, trabalhamos com isso, podemos fazer as pessoas poderosas trabalharem juntas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje h\u00e1 um enorme desperd\u00edcio. H\u00e1 um ditado \u00e1rabe maravilhoso, &#8220;gavi\u00e3o n\u00e3o voa em bando&#8221;, ainda mais perfeito em ingl\u00eas, &#8220;eagles don\u00b4t fly together&#8221; &#8211;eagles tem o mesmo som de egos. Cada um quer ter seu legado, sua placa, seu projeto. Um secret\u00e1rio n\u00e3o trabalha com outro, a prefeitura n\u00e3o trabalha com o estado, um dinheiro enorme sai pelo ralo, sem meta, sem avalia\u00e7\u00e3o, sem trabalho articulado, uma cat\u00e1strofe.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo \u00e9 como um corpo humano. H\u00e1 pessoas que espalham infec\u00e7\u00f5es, se xingam, se odeiam. [O presidente dos EUA, Donald] Trump e [o presidente brasileiro, Jair] Bolsonaro n\u00e3o criaram isso, mas sintetizam essa cultura da infec\u00e7\u00e3o, do \u00f3dio, do confronto. E h\u00e1 os gl\u00f3bulos brancos, as pessoas que n\u00e3o deixam o mundo acabar, que inventaram a anestesia, o antibi\u00f3tico, descobriram a h\u00e9lice dupla do DNA.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu tumor passou por an\u00e1lise gen\u00e9tica &#8211;recebi o resultado ontem [sexta, 27]&#8211;, e sou um caso de 1% cuja muta\u00e7\u00e3o talvez tenha um tratamento promissor. Em ratos, eliminaram o c\u00e2ncer de p\u00e2ncreas, e est\u00e3o come\u00e7ando a testar em humanos, procurando a dose certa. J\u00e1 me dispus a fazer parte dos testes no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 at\u00e9 meio canalha, mas penso &#8220;ser\u00e1 que eu vou ajudar a encontrar a cura?&#8221;. Para um jornalista que gosta de furos, voc\u00ea se transformar num furo de si mesmo \u00e9 incr\u00edvel, n\u00e9? Mas para ajudar os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei a ficar otimista. Ganhei da minha mulher dois ingressos para ver o [m\u00fasico] Bobby McFerrin nos EUA, em maio. J\u00e1 estou com planos para o ano que vem. Voc\u00ea volta a ter projetos, \u00e9 a vida voltando a circular. Eu acho que tenho muita chance, muita chance.<\/p>\n\n\n\n<p>Vida ap\u00f3s a morte? Se for igual a esta, prefiro que n\u00e3o exista. Se eu acordasse e estivessem l\u00e1 Trump, Bolsonaro, [primeiro-ministro da Hungria, Viktor] Orb\u00e1n, n\u00e3o sei se queria, n\u00e3o [risos].<\/p>\n\n\n\n<p>Outline<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista Gilberto Dimenstein, 63, descobriu neste ano\u00a0um c\u00e2ncer de p\u00e2ncreas, com met\u00e1stase no f\u00edgado. Ele conta sobre a doen\u00e7a, o tratamento e as mudan\u00e7as em sua forma de enxergar a vida e as rela\u00e7\u00f5es humanas. Sonhei com um mulher dizendo que eu estava com c\u00e2ncer. Sou super-racional, acredito na ci\u00eancia, na l\u00f3gica. 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