{"id":2428,"date":"2019-03-25T17:32:17","date_gmt":"2019-03-25T20:32:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=2428"},"modified":"2019-03-25T17:32:20","modified_gmt":"2019-03-25T20:32:20","slug":"convivencia-entre-idosos-e-criancas-ajuda-a-combater-solidao-e-violencia-na-cidade-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/03\/25\/convivencia-entre-idosos-e-criancas-ajuda-a-combater-solidao-e-violencia-na-cidade-de-deus\/","title":{"rendered":"Conviv\u00eancia entre idosos e crian\u00e7as ajuda a combater solid\u00e3o e viol\u00eancia na Cidade de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p>Cedo pela manh\u00e3, Maria Alzira da Silva costuma pegar sua bengala e subir em um \u00f4nibus em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Casa Emilien Lacay &#8211; exceto quando tiroteios a impedem de transitar pela Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 87 anos, ela \u00e9 uma das atendidas pelo centro de acolhimento de idosos, que tamb\u00e9m funciona como creche, nas proximidades da favela. L\u00e1, Alzira troca confid\u00eancias com amigos de sua idade e carinho com crian\u00e7as que ainda est\u00e3o aprendendo a falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Alzira mora praticamente sozinha h\u00e1 10 anos, desde que sua irm\u00e3 faleceu. Nunca se casou, nem teve filhos. Ela ajudou a criar os sobrinhos e agora convive com um de cerca 40 anos &#8211; ela n\u00e3o sabe a idade ao certo &#8211; que, por conta do trabalho e outros compromissos, passa mais tempo fora de casa do que dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 bom ficar em casa sozinha, n\u00e3o. Ainda mais na nossa comunidade. Esses anos est\u00e3o horr\u00edveis, h\u00e1 muita viol\u00eancia&#8221;, diz. &#8220;Eu tenho um cachorro e um gato em casa&#8230; o cachorro n\u00e3o fala, o gato tamb\u00e9m n\u00e3o&#8221;, ironiza. &#8220;Tenho um quintal, ent\u00e3o planto uma coisa e outra. Mas n\u00e3o \u00e9 como [conviver com] um ser humano, n\u00e9?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p> O bom humor contrasta com o relato de uma vida dura. Na d\u00e9cada de 1960, Alzira vivia na favela da Praia do Pinto, na Zona Sul do Rio, \u00e1rea de alto valor imobili\u00e1rio. At\u00e9 que um inc\u00eandio, cujas causas n\u00e3o foram esclarecidas, destruiu centenas de barracos da comunidade. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1722E\/production\/_106066749_still3.jpg\" alt=\"Conviv\u00eancia entre idosos e crian\u00e7as na Cidade de Deus\"\/><figcaption>Image captionCentro de acolhimento de idosos, que tamb\u00e9m funciona como creche, atende moradores em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ela era dona de uma pequena venda no local e perdeu praticamente tudo. Seu barraco foi parcialmente consumido pelo fogo, e ela passou a dormir no resto que sobrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os moradores remanescentes da Praia do Pinto foram realocados para diferentes locais, e ela acabou se mudando para a Cidade de Deus. Ao longo da vida, Alzira trabalhou como empregada dom\u00e9stica, auxiliar de servi\u00e7os gerais e camel\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 20 anos, j\u00e1 aposentada, conheceu o trabalho da Casa Emilien Lacay por meio de um amigo. Apelidada de &#8220;ca\u00e7ula&#8221;, por ter sido a mais nova entre tr\u00eas irm\u00e3os, decidiu frequentar o lugar. Hoje, \u00e9 uma das mais antigas da casa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conviv\u00eancia alentadora<\/h2>\n\n\n\n<p>O centro de acolhimento, que faz parte da Rede Cruzada, existe h\u00e1 29 anos e atende gratuitamente cerca de 60 idosos e 200 crian\u00e7as. A maioria mora na Cidade de Deus &#8211; e todos est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social. Em m\u00e9dia, os idosos que frequentam a casa vivem com uma renda de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de poder usufruir das diversas atividades promovidas pelo centro, muitos v\u00e3o ao local pela garantia de uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. Juntos, todos t\u00eam aulas de capoeira, teatro e canto. Tr\u00eas vezes por semana, dois dos mais velhos leem livros infantis para os pequenos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8699\/production\/_106075443_still2.jpg\" alt=\"Conviv\u00eancia entre idosos e crian\u00e7as na Cidade de Deus\"\/><figcaption>Image captionH\u00e1 29 anos, o centro atende gratuitamente cerca de 60 idosos e 200 crian\u00e7as &#8211; a maioria mora na Cidade de Deus<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 crian\u00e7as que j\u00e1 perderam irm\u00e3os, idosos que j\u00e1 perderam sobrinhos e filhos na viol\u00eancia, que infelizmente perpassa para a realidade de cada fam\u00edlia que a gente atende&#8221;, explica M\u00e1rcia Bogea, coordenadora da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na rua onde Alzira mora h\u00e1 ao menos tr\u00eas senhoras que perderam parentes pr\u00f3ximos em decorr\u00eancia de confrontos armados e que agora vivem sozinhas. &#8220;Quando me mudei para a Cidade de Deus, a comunidade era mais tranquila&#8221;, conta. &#8220;Nos \u00faltimos cinco anos, a viol\u00eancia ficou pior.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Dados do Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica (ISP) mostram que a sensa\u00e7\u00e3o maior de inseguran\u00e7a de Alzira tem fundamento. Em 2018, ano em que militares assumiram a seguran\u00e7a p\u00fablica do Estado do Rio, uma pessoa foi morta a cada tr\u00eas dias, em m\u00e9dia, na regi\u00e3o da 32\u00aa DP, que abrange a Cidade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros de homic\u00eddios dolosos e mortes por interven\u00e7\u00e3o de agentes do Estado voltaram a subir ap\u00f3s terem baixado com a cria\u00e7\u00e3o da Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP) na favela, em 2009.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/122D9\/production\/_106075447_still1.jpg\" alt=\"Conviv\u00eancia entre idosos e crian\u00e7as na Cidade de Deus\"\/><figcaption>Image captionJuntos, todos t\u00eam aulas de capoeira, teatro e canto<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Interrup\u00e7\u00f5es for\u00e7adas<\/h2>\n\n\n\n<p>As frequentes trocas de tiros entre policiais e traficantes afetam as atividades do centro de acolhimento, localizado a menos de cinco minutos de carro da Cidade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Daqui a gente escuta [os tiroteios]. A dire\u00e7\u00e3o fica preocupada com bala perdida e coloca todo mundo pra dentro&#8221;, explica Alzira.<\/p>\n\n\n\n<p>Antigamente, caso o transporte p\u00fablico fosse interrompido quando os confrontos come\u00e7avam, ela ia a p\u00e9 para o centro de acolhimento. Agora, por conta de sua mobilidade reduzida, acaba ficando em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>As limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas afetam sua vida social como um todo. Apaixonada por samba, Alzira costumava desfilar no samb\u00f3dromo todo Carnaval. Agora, n\u00e3o vai mais &#8220;para n\u00e3o prejudicar o desempenho das escolas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Problemas de locomo\u00e7\u00e3o e de vis\u00e3o limitam o relacionamento de alguns idosos com crian\u00e7as no centro. Mas, no geral, n\u00e3o impedem que troquem carinho e aten\u00e7\u00e3o. Muitas das crian\u00e7as t\u00eam pais ausentes e s\u00e3o criadas apenas pelas m\u00e3es. Como algumas fam\u00edlias vieram do Norte e do Nordeste, o conv\u00edvio com os av\u00f3s nem sempre \u00e9 poss\u00edvel. Alzira e seus colegas acabam suprindo essa aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3C61\/production\/_106075451_alzira3.jpg\" alt=\"Alzira\"\/><figcaption>Image captionApaixonada por samba, Alzira costumava desfilar no samb\u00f3dromo todo carnaval<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;As crian\u00e7as os encontram na rua e os chamam de &#8216;vov\u00f4&#8217; e &#8216;vov\u00f3&#8217;. H\u00e1 crian\u00e7as que j\u00e1 sa\u00edram daqui e continuam em contato com os idosos. As m\u00e3es as levam nas casas dos idosos porque foi criado um v\u00ednculo afetivo muito importante,&#8221; conta M\u00e1rcia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu me lembro muito das minhas crian\u00e7as quando eram pequenas, porque eu n\u00e3o podia dar muito carinho e ficar com eles o tempo todo. Quando a gente trabalha fora, n\u00e3o tem tempo para quase nada&#8221;, explica Quit\u00e9ria dos Santos Dantas, de 71 anos. &#8220;Aquele carinho que voc\u00ea n\u00e3o p\u00f4de dar para os seus filhos, voc\u00ea pode dar pra eles, como se fossem os seus.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Lista de espera<\/h2>\n\n\n\n<p>M\u00e3e de quatro filhos, a mais velha j\u00e1 falecida, Quit\u00e9ria frequenta a casa h\u00e1 mais de dez anos. No in\u00edcio, ela resistiu aos convites de amigos para se juntar ao grupo, pensando que o lugar se tratava de um asilo e que ela perderia sua liberdade. Agora, \u00e9 sempre uma das primeiras a chegar para passar o dia no centro, que funciona de segunda a sexta-feira.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa recebe verba de um conv\u00eanio com a prefeitura e de apoiadores, originalmente direcionada \u00e0s crian\u00e7as. Mas o or\u00e7amento, que foi afetado pela crise nos \u00faltimos anos, \u00e9 distribu\u00eddo de forma a atender tamb\u00e9m os idosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas acima de 65 anos e crian\u00e7as de at\u00e9 4 anos e 11 meses passam por um processo seletivo que inclui uma an\u00e1lise socioecon\u00f4mica e um sorteio. Atualmente, h\u00e1 lista de espera para entrar no centro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A nossa proposta \u00e9 que as crian\u00e7as saibam como \u00e9 a realidade onde elas moram, mas tamb\u00e9m que existe um outro lado da vida, com carinho e amor. Para que elas cres\u00e7am sempre pensando no lado bom e venham a contribuir para o crescimento da sociedade,&#8221; explica M\u00e1rcia. &#8220;A gente acha que essa intera\u00e7\u00e3o entre idoso e crian\u00e7a vai impactar em qual adulto essa crian\u00e7a vai ser.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O conv\u00edvio tamb\u00e9m motiva os mais velhos a esperar por dias melhores. &#8220;N\u00f3s estamos indo e eles est\u00e3o vindo [para este mundo], ent\u00e3o a crian\u00e7a \u00e9 uma esperan\u00e7a&#8221;, diz Alzira.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte:BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cedo pela manh\u00e3, Maria Alzira da Silva costuma pegar sua bengala e subir em um \u00f4nibus em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Casa Emilien Lacay &#8211; exceto quando tiroteios a impedem de transitar pela Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. 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