{"id":23384,"date":"2019-11-25T18:03:21","date_gmt":"2019-11-25T21:03:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=23384"},"modified":"2019-11-25T18:03:23","modified_gmt":"2019-11-25T21:03:23","slug":"sobrevivi-a-meu-marido-e-agora-como-violencia-domestica-marca-mulheres-para-resto-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/11\/25\/sobrevivi-a-meu-marido-e-agora-como-violencia-domestica-marca-mulheres-para-resto-da-vida\/","title":{"rendered":"&#8216;Sobrevivi a meu marido, e agora?&#8217;: como viol\u00eancia dom\u00e9stica marca mulheres para resto da vida"},"content":{"rendered":"\n<p>O som das marteladas ainda ecoa na cabe\u00e7a da dona de casa Marina Mirtes. Seis anos depois, as agress\u00f5es praticadas pelo ex-namorado, que quase a levaram \u00e0 morte, ainda s\u00e3o lembran\u00e7as constantes na vida da mulher. Al\u00e9m dos traumas psicol\u00f3gicos, ela carrega consigo sequelas f\u00edsicas que a impedem retornar ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Marina, que atualmente tem 57 anos, era cabeleireira aut\u00f4noma. Hoje, ela afirma que n\u00e3o tem for\u00e7as para fazer nenhum tipo de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o consigo mais ficar tanto tempo em p\u00e9&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil. Ela relata que est\u00e1 com dois alugu\u00e9is atrasados, sem dinheiro para pagar contas de \u00e1gua e luz e tem apenas arroz e feij\u00e3o para se alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida da dona de casa mudou completamente no fim de setembro de 2013. Ela relata que o ex-companheiro, Jefferson Roberto dos Santos, na \u00e9poca com 31 anos, a agrediu com uma chave de fenda e um martelo, na resid\u00eancia em que eles moravam, em Luzi\u00e2nia (GO).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ele disse que iria abrir a minha cabe\u00e7a&#8221;, diz. Marina acreditava que n\u00e3o sobreviveria \u00e0 agress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A certeza de que seria morta enquanto era agredida pelo companheiro tamb\u00e9m \u00e9 relatada por Geziane Buriola da Silva, de 33 anos. Em abril de 2017, ela teve as m\u00e3os decepadas pelo ent\u00e3o namorado, Jair da Costa, nas proximidades da resid\u00eancia em que eles viviam, no munic\u00edpio de Campo Novo do Parecis (MT).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ele me atacou com um fac\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao meu pesco\u00e7o. Coloquei as minhas m\u00e3os na frente, para me defender&#8221;, diz Geziane.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de perder as m\u00e3os, a vida dela mudou completamente. Ela passou a depender de parentes at\u00e9 para as necessidades b\u00e1sicas. &#8220;N\u00e3o consigo pentear sozinha o meu cabelo. Com o passar do tempo, aprendi a me virar sozinha, mas ainda preciso de ajuda em muitos momentos&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela trabalhava como empregada dom\u00e9stica, mas atualmente n\u00e3o consegue exercer nenhuma profiss\u00e3o, em raz\u00e3o das dificuldades causadas pela aus\u00eancia das m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias de Marina e Geziane ilustram as consequ\u00eancias de agress\u00f5es contra as mulheres. Uma pesquisa feita pelo Instituto Datafolha, sob encomenda pela ONG F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), apontou que 536 mulheres foram agredidas fisicamente a cada hora com socos, empurr\u00f5es ou chutes, no ano passado. Ainda segundo o levantamento, 177 mulheres foram espancadas a cada hora no pa\u00eds em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria dos casos, conforme o levantamento, a v\u00edtima conhecia o agressor \u2014 em muitos casos, era marido, namorado, ex-c\u00f4njuge ou vizinho. A pesquisa tamb\u00e9m revelou que a maioria das agress\u00f5es foram registradas no ambiente dom\u00e9stico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Depois das agress\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Em raz\u00e3o das agress\u00f5es, muitas mulheres passam a ter dificuldades f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. Muitas come\u00e7am a ter dificuldades no trabalho. Dados da Pesquisa de Condi\u00e7\u00f5es Socioecon\u00f4micas e Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar contra a Mulher, divulgados no fim de 2017, apontaram que v\u00edtimas de agress\u00f5es t\u00eam queda de produtividade. O levantamento foi feito com 10 mil mulheres de Estados nordestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme a pesquisa, mulheres que sofreram agress\u00f5es t\u00eam menor capacidade de concentra\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o da capacidade de dormir e estresse frequente. Em raz\u00e3o disso, elas costumam durar menos tempo nos empregos. O levantamento revelou que essas mulheres ganham menos. Os menores sal\u00e1rios entre as v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica est\u00e3o entre as mulheres negras, que tamb\u00e9m figuram, conforme as pesquisas, entre as mais agredidas no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Especialistas afirmam que procurar alternativas para enfrentar a viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 assunto urgente. Segundo os estudos, para que uma v\u00edtima possa seguir em frente ap\u00f3s ser agredida, \u00e9 importante que ela rompa com o ciclo de viol\u00eancia e compreenda sobre os seus direitos. Denunciar o agressor \u00e9 uma tarefa fundamental \u2014 conforme dados do FBSP, mais da metade das mulheres (52%) n\u00e3o denunciou o agressor ou procurou ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>Psic\u00f3loga e pesquisadora do FBSP, Juliana Martins explica que as agress\u00f5es podem afetar as mulheres de diferentes maneiras. &#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esperar que todas elas reajam da mesma forma \u00e0 viol\u00eancia sofrida. Mas o que se pode dizer, com certeza, \u00e9 que a viol\u00eancia vai afetar todas as mulheres que s\u00e3o, foram ou forem v\u00edtimas de viol\u00eancia, cada uma de uma maneira.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever o impacto que vai ter na vida de cada mulher. Mas, sim, uma mulher gravemente agredida pelo companheiro vai enfrentar dificuldades para recuperar sua vida, para confiar nas pessoas e at\u00e9 para confiar nela mesma novamente. As consequ\u00eancias dessas agress\u00f5es podem ser sequelas f\u00edsicas, emocionais ou psicol\u00f3gicas. E podem ser marcas muito profundas, que podem demorar anos para aparecer&#8221;, ressalta Juliana.<\/p>\n\n\n\n<p>Representante interina da ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino ressalta que \u00e9 fundamental compreender que as agress\u00f5es podem terminar em feminic\u00eddio. &#8220;\u00c9 preciso atuar sobre as causas e os fatores da viol\u00eancia contra a mulher, impedindo que isso aconte\u00e7a. \u00c9 urgente garantir a\u00e7\u00f5es e investimentos em preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia de g\u00eanero e para a desconstru\u00e7\u00e3o do machismo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Se a gente terminasse, ele me mataria&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Assim como muitas mulheres, Marina optou por n\u00e3o denunciar o companheiro nas primeiras agress\u00f5es. Ela relata que apanhou dele pela primeira vez quando estavam juntos havia seis meses. &#8220;Nos conhecemos em uma festa em uma ch\u00e1cara. No come\u00e7o, ele parecia muito legal, mas depois foi demonstrando quem era de verdade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/103D0\/production\/_109821566_senhora4.jpg\" alt=\"Marina Mirtes\"\/><figcaption>Image captionAl\u00e9m dos traumas psicol\u00f3gicos, Marina carrega consigo sequelas f\u00edsicas que a impedem retornar ao trabalho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Eles come\u00e7aram a morar juntos logo nos primeiros meses de namoro. A partir de ent\u00e3o, Marina descobriu que ele era extremamente ciumento e possessivo. Segundo ela, o rapaz ficava extremamente agressivo quando consumia bebida alco\u00f3lica. A primeira agress\u00e3o contra ele foi um chute, durante uma discuss\u00e3o. &#8220;Naquele momento, eu n\u00e3o quis mais ficar com ele. Fiquei com medo. Ele se mostrou uma pessoa muito perigosa&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Marina relembra que ficou com medo de terminar e ser perseguida pelo homem. &#8220;Ele disse que se eu terminasse, iria me matar&#8221;, relata. Ela continuou com o rapaz.<\/p>\n\n\n\n<p>Meses depois, segundo Marina, ela estava em casa ouvindo m\u00fasica quando o ent\u00e3o namorado chegou alcoolizado. &#8220;Ele me pegou pelas costas, me jogou no ch\u00e3o e me chutou. Ele estava com ci\u00fames do cantor que eu estava ouvindo e, por isso, falou que ia me matar com a chave de fenda e com o martelo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ele tentou quebrar a minha testa com o martelo, mas n\u00e3o conseguiu. Ent\u00e3o, ele quebrou parte do meu rosto e do meu nariz com o martelo. Depois, furou meu olho direito com uma chave de fenda&#8221;, narra a dona de casa. Ela relata ter sentido dores intensas. &#8220;Pensei que tinha morrido. Quando acordei, ele havia fugido e eu estava cheia de sangue.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela foi salva por amigos e vizinhos, que chamaram o resgate. No hospital, passou duas semanas na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). &#8220;Fiquei internada em estado grave. Os m\u00e9dicos tiveram de reconstruir parte do meu rosto, principalmente o meu nariz, com parte da minha costela. Tamb\u00e9m colocaram uma placa no meu rosto&#8221;, detalha. Ela ficou cega do olho direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s receber alta hospitalar, a dona de casa passou a viver com medo de que o ex-namorado a atacasse novamente. O homem ficou cinco anos foragido. Ele foi preso somente no fim do ano passado, em Montes Claros (MG). Segundo Marina, ele foi detido por ter agredido outra mulher e os policiais descobriram, ao investigar as anota\u00e7\u00f5es criminais dele, que o homem era foragido. Em raz\u00e3o disso, ele foi encaminhado para Luzi\u00e2nia e o processo por agress\u00e3o a Marina come\u00e7ou a andar.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Tribunal de Justi\u00e7a de Goi\u00e1s, em breve a ju\u00edza deve marcar as audi\u00eancias sobre o caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Marina diz esperar que o ex permane\u00e7a preso e seja condenado pelas agress\u00f5es contra ela. Por\u00e9m, a dona de casa frisa que ele causou danos irrepar\u00e1veis para a sua sa\u00fade. &#8220;Tenho dificuldades para andar, n\u00e3o posso ficar muito tempo no sol, estou com uma depress\u00e3o profunda e n\u00e3o consigo trabalhar. Ele destruiu a minha vida. Acho que n\u00e3o tenho mais jeito, n\u00e3o&#8221;, diz a mulher, em meio a l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p>O maior medo dela \u00e9 ser despejada da casa em que vive junto com seu gato e um cachorro. Ela deve R$ 500 em aluguel. &#8220;Todos os dias a dona vem pedir a casa. Eu n\u00e3o tenho dinheiro para pagar, nem para onde ir. \u00c9 triste. N\u00e3o tenho nem comida. Hoje mesmo, n\u00e3o tomei caf\u00e9 da manh\u00e3, porque n\u00e3o tinha nada para comer. N\u00e3o sei mais o que fazer. Acho que n\u00e3o tenho mais jeito.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que recebeu alta hospitalar, ela vive de doa\u00e7\u00f5es. &#8220;De vez em quando, o pessoal da tev\u00ea vem aqui e faz reportagem comigo. As pessoas se sensibilizam e doam dinheiro, roupas e comida. Mas faz tempo que n\u00e3o vem algu\u00e9m aqui fazer reportagem comigo, por isso estou sem nada&#8221;, diz. A \u00fanica renda fixa dela vem do dinheiro que junta recolhendo e vendendo recicl\u00e1veis. &#8220;Mas n\u00e3o \u00e9 muita coisa, porque n\u00e3o \u00e9 todo dia que tenho disposi\u00e7\u00e3o para andar pela rua para procurar recicl\u00e1veis. Consigo, no m\u00e1ximo, R$ 50 com isso por m\u00eas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos principais objetivos de Marina \u00e9 conseguir se aposentar por invalidez. &#8220;Dia desses, uma advogada levou meus papeis e meus laudos para ver se tenta me aposentar. Mas ela disse que talvez s\u00f3 daqui a dois anos consiga&#8221;, diz, em tom de desanimo. &#8220;O que eu mais quero \u00e9 me aposentar, ter uma casa pra morar e ter comida pra mim e para os meus bichinhos, que precisam de ra\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Eu achava que ele fosse mudar&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>As dificuldades ap\u00f3s ser v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica tamb\u00e9m fazem parte da rotina de Geziane Buriola. Ela se relacionou por um ano e cinco meses com Jair da Costa. Logo nos primeiros meses da rela\u00e7\u00e3o, segundo a mulher, ele come\u00e7ou a agredi-la.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1D58\/production\/_109821570_geziane1.jpg\" alt=\"Geziane Buriola\"\/><figcaption>Image captionGeziane teve as m\u00e3os decepadas pelo ent\u00e3o namorado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu era muito apaixonada por ele e achava que pudesse mudar&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>As agress\u00f5es, segundo Geziane, eram constantes. Ela chegou a registrar den\u00fancias contra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas todas as vezes, eu pensava que ele pudesse mudar, retirava a queixa e volt\u00e1vamos a ficar juntos. Eu era cega de amor por ele. Esse era o meu maior problema.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Geziane era empregada dom\u00e9stica. As agress\u00f5es passaram a prejudicar o trabalho dela. &#8220;Por diversas vezes, deixei de trabalhar por vergonha, porque estava com hematomas por causa das agress\u00f5es&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Um m\u00eas antes de ser atacada, ela havia terminado o relacionamento e se mudou para a casa da m\u00e3e. Por\u00e9m, ela conta que o homem insistiu em retomar o namoro e disse que tinha mudado. &#8220;Acabei voltando com ele, por acreditar nessa mudan\u00e7a. Mas depois, descobri que ele j\u00e1 estava planejando me matar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela relata que Jair tinha um fac\u00e3o, que amolava diariamente desde a \u00faltima vez em que voltaram. &#8220;Eu perguntava para ele o motivo de ficar amolando aquela faca, mas ele dizia que uma hora eu descobriria. Nunca desconfiei que fosse para me atacar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de 10 abril de 2017, ela estava em casa quando foi atacada pelo homem. &#8220;Ele tinha bebido muito. Passou o dia inteiro amolando o fac\u00e3o, mas eu n\u00e3o desconfiava de nada. A gente estava no sof\u00e1 de casa, quando, de repente, ele me puxou pelo cabelo, ergueu a m\u00e3o e pegou o fac\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Percebi que ele queria cortar meu pesco\u00e7o. Eu o joguei pra tr\u00e1s e corri. Ca\u00ed no port\u00e3o da casa da vizinha, porque estava chovendo. Ele veio atr\u00e1s de mim. O primeiro golpe dele com o fac\u00e3o foi na cabe\u00e7a e o segundo foi no ombro. Ele se sentou nas minhas pernas, porque eu n\u00e3o consegui me levantar, e direcionou o fac\u00e3o para o meu pesco\u00e7o. A minha defesa foi colocar minhas m\u00e3os em frente&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Geziane define o momento como um filme de terror. &#8220;\u00c9 uma imagem que nunca vou esquecer na vida&#8221;, diz. Em seguida, o homem fugiu. &#8220;Ele acreditou que tinha me matado e correu pela rua, porque os vizinhos foram atr\u00e1s dele quando ouviram os meus gritos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela foi levada ao hospital em estado grave e teve as m\u00e3os e os punhos amputados. &#8220;Passei 25 dias em coma. Os m\u00e9dicos n\u00e3o acreditavam que eu fosse sobreviver.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-namorado dela foi preso no dia do crime. Ele alegou que estava revoltado porque teria sido tra\u00eddo por ela. O homem permaneceu preso na cadeia p\u00fablica de Campo Novo do Parecis at\u00e9 o dia do julgamento, em julho deste ano. O homem foi condenado a 15 anos e seis meses de pris\u00e3o em regime fechado pela tentativa de feminic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Tribunal de Justi\u00e7a de Mato Grosso, at\u00e9 o momento n\u00e3o foi protocolado nenhum recurso da defesa do ex-namorado de Geziane ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o. O agressor n\u00e3o pode recorrer em liberdade, em raz\u00e3o da gravidade do crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de o homem estar na cadeia, Geziane confessa que teme que ele volte a atac\u00e1-la. &#8220;Ainda tenho essa sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, mesmo com ele preso&#8221;, revela. Para ela, a pena aplicada ao ex foi insuficiente. &#8220;Daqui a uns dois ou tr\u00eas anos, se ele tiver bom comportamento, vai estar em liberdade. Queria que ele permanecesse preso por toda a vida, para pagar pelo que fez comigo&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de mais de um m\u00eas internada, ap\u00f3s o ataque, ela foi para a casa da fam\u00edlia. Al\u00e9m de perder as m\u00e3os, as agress\u00f5es do ex-companheiro tamb\u00e9m deixaram cortes na cabe\u00e7a, no rosto e no abd\u00f4men da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>O padrasto e a m\u00e3e dela a ajudaram a se restabelecer. &#8220;Eles me auxiliaram a trocar fraldas e nas atividades do cotidiano, porque eu n\u00e3o conseguia&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, Geziane ainda tem dificuldades. &#8220;Mas tento me virar sozinha, porque n\u00e3o gosto de ficar dando trabalho para os outros&#8221;, revela. O maior sonho dela atualmente \u00e9 conseguir as pr\u00f3teses. &#8220;Quero conquistar ainda mais a minha independ\u00eancia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ajud\u00e1-la a conseguir pr\u00f3teses para as m\u00e3os, um site criou uma vaquinha online para arrecadar R$ 112 mil, que devem ser utilizados para comprar equipamentos modernos que que possuem abertura e fechamento das m\u00e3os por meio da a\u00e7\u00e3o muscular. At\u00e9 esta segunda-feira (25), j\u00e1 haviam sido arrecadados R$ 96,2 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>A renda mensal de Geziane corresponde a um sal\u00e1rio m\u00ednimo, ap\u00f3s conseguir um benef\u00edcio tempor\u00e1rio por invalidez. Ela afirma que seu objetivo \u00e9 voltar a trabalhar. &#8220;Quero ser cada vez mais independente. Mas sei que terei dificuldades e a minha vida nunca mais ser\u00e1 como antes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Maria da Penha<\/h2>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0s in\u00fameras hist\u00f3rias de mulheres agredidas, uma costuma ser lembrada com frequ\u00eancia: a da ativista Maria da Penha, que inspirou a Lei de combate \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica contra a mulher no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Penha, hoje com 74 anos, sofreu grave viol\u00eancia do ent\u00e3o marido, o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros. Ela conta que vivia um casamento infeliz e afirma que o marido costumava ser agressivo. Em maio de 1983, a ativista foi baleada pelo homem.<\/p>\n\n\n\n<p>O tiro deixou Penha na cadeira de rodas. Ela conta que teve de reaprender a viver. A ativista era servidora p\u00fablica e se aposentou por invalidez.<\/p>\n\n\n\n<p>Por 19 anos e seis meses, per\u00edodo que faz quest\u00e3o de frisar, a ativista buscou por justi\u00e7a. &#8220;Ele foi julgado e condenado por duas vezes (no in\u00edcio dos anos 90), mas saiu do F\u00f3rum em liberdade, porque os advogados logo entravam com recursos&#8221;, explica \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 90, ela escreveu a sua hist\u00f3ria no livro&nbsp;<em>Sobrevivi. Posso contar<\/em>. &#8220;No livro, contei toda a hist\u00f3ria, incluindo as contradi\u00e7\u00f5es dele. Eu dizia que se a Justi\u00e7a n\u00e3o o condenasse, ao menos quem lesse o livro saberia que ele teve culpa&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/178CF\/production\/_91336469_penha.jpg\" alt=\"Maria da Penha\"\/><figcaption>Image captionMais de 35 anos ap\u00f3s ser baleada, Maria da Penha afirma que o per\u00edodo mais dif\u00edcil foi superado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Penha chegou \u00e0 Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 1998, ap\u00f3s ser encaminhada por duas entidades internacionais de direitos humanos que haviam tido acesso ao livro dela &#8211; Cejil (Centro pela Justi\u00e7a e pelo Direito Internacional) e Cladem (Comit\u00ea Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher).<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 2001, a Corte condenou o Brasil e determinou que o pa\u00eds prendesse o ex-marido de Penha e recomendou que fossem garantidas mais prote\u00e7\u00f5es legais \u00e0s mulheres no pa\u00eds. Viveros foi julgado novamente e condenado a oito anos de pris\u00e3o. Ele ficou dois anos em regime fechado e outros seis entre o semiaberto e aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei 11.340, que seguia a orienta\u00e7\u00e3o da Corte Interamericana de Direitos Humanos para maior prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, foi aprovada pelo Congresso somente em agosto de 2006. Em homenagem \u00e0 respons\u00e1vel pela medida, tornou-se conhecida como Lei Maria da Penha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de 35 anos ap\u00f3s ser baleada e ter que reaprender sobre a vida, Penha afirma que o per\u00edodo mais dif\u00edcil foi superado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Procuro pensar que foi ruim, mas estou colaborando para uma sociedade mais justa&#8221;, diz. Ela se tornou ativista e criou o Instituto Maria da Penha, que tem o objetivo de conscientizar sobre os direitos das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s levamos orienta\u00e7\u00f5es aos lugares, como em f\u00e1bricas e empresas, sobre como reconhecer quando uma mulher \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica e como ajud\u00e1-la a superar essa situa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As agress\u00f5es contra as mulheres<\/h2>\n\n\n\n<p>A Lei Maria da Penha \u00e9 considerada um marco importante para enfrentar a viol\u00eancia contra as mulheres no Brasil. Ela elevou as penas e determinou as cria\u00e7\u00f5es de infraestrutura de atendimento \u00e0s agredidas, como a cria\u00e7\u00e3o de delegacias de mulheres. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m estabeleceu instrumentos legais para que ju\u00edzes tomassem medidas urgentes, como determinar o afastamento f\u00edsico do agressor.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, houve outras altera\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis na legisla\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher, como a Lei do feminic\u00eddio, de 2015, e a de importuna\u00e7\u00e3o sexual, sancionada no ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essas leis s\u00e3o importantes. Mas somente elas n\u00e3o bastam&#8221;, afirma a psic\u00f3loga Juliana Martins, do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Ela considera que \u00e9 fundamental que haja mais pol\u00edticas p\u00fablicas para acolher e proteger as mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A rede de prote\u00e7\u00e3o para essas mulheres n\u00e3o \u00e9 simples, pois \u00e9 preciso resgatar sua autoestima, autoconfian\u00e7a e capacidade de se ver capaz novamente, para que possa ter acesso a maneiras de ter autonomia financeira.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Fazer uma rede de prote\u00e7\u00e3o funcionar n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Demanda entendimento do poder p\u00fablico, que precisa compreender que isso \u00e9 importante e priorit\u00e1rio. Depois, demanda uma disposi\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es para conversarem e trabalharem conjuntamente. Para isso, \u00e9 preciso, entre outras coisas, investimento e capacita\u00e7\u00e3o&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo especialistas, h\u00e1 iniciativas pontuais que auxiliam as mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia f\u00edsica ou psicol\u00f3gica, por meio de projetos apoiados por alguns gestores p\u00fablicos ou pela iniciativa privada. Por\u00e9m, tais medidas s\u00e3o consideradas insuficientes, em raz\u00e3o do grande n\u00famero de mulheres que sofrem viol\u00eancia no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 fundamental ampliar a rede de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres. \u00c9 preciso alcan\u00e7ar mais mulheres em diferentes localidades do pa\u00eds&#8221;, declara Ana Carolina Querino, da ONU Mulheres Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as mulheres que sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica, Marina Mirtes pede para dar um recado. &#8220;Conhecia v\u00e1rias mulheres que foram v\u00edtimas de feminic\u00eddio. Com o meu caso e com tudo o que tenho acompanhado, digo que \u00e9 fundamental que a mulher v\u00e1 embora na primeira agress\u00e3o. Ela n\u00e3o deve acreditar que ele vai mudar&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O som das marteladas ainda ecoa na cabe\u00e7a da dona de casa Marina Mirtes. Seis anos depois, as agress\u00f5es praticadas pelo ex-namorado, que quase a levaram \u00e0 morte, ainda s\u00e3o lembran\u00e7as constantes na vida da mulher. Al\u00e9m dos traumas psicol\u00f3gicos, ela carrega consigo sequelas f\u00edsicas que a impedem retornar ao trabalho. 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