{"id":23381,"date":"2019-11-25T18:00:47","date_gmt":"2019-11-25T21:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=23381"},"modified":"2019-11-25T18:00:48","modified_gmt":"2019-11-25T21:00:48","slug":"so-nos-vemos-na-garagem-as-familias-que-dividem-o-carro-para-trabalhar-24h-por-dia-em-apps-de-transporte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/11\/25\/so-nos-vemos-na-garagem-as-familias-que-dividem-o-carro-para-trabalhar-24h-por-dia-em-apps-de-transporte\/","title":{"rendered":"&#8216;S\u00f3 nos vemos na garagem&#8217;: as fam\u00edlias que dividem o carro para trabalhar 24h por dia em apps de transporte"},"content":{"rendered":"\n<p>Na garagem, a conversa \u00e9 sempre r\u00e1pida, pois tempo perdido \u00e9 dinheiro perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta das 6h, Rafaela Machado, 32, se despede das duas filhas e abre a porta da casa ainda em constru\u00e7\u00e3o no bairro de Guaianases, periferia da zona leste paulistana.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu marido, Elisangelo Sena, 35, aguarda do lado de fora do carro. Os dois se cumprimentam: &#8220;Oi, como est\u00e3o as coisas? Tudo certo, beijo, tchau, manda mensagem&#8221;. Ele passa a chave do ve\u00edculo para ela, colocando fim em uma jornada e iniciando a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse breve encontro \u00e9 a primeira das duas vezes em que eles v\u00e3o se ver hoje. E, em meio a raros momentos de descanso a dois, provavelmente esse ciclo vai se repetir amanh\u00e3, depois de amanh\u00e3, no fim de semana e em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Rafaela e Elisangelo formam uma fam\u00edlia de motoristas de aplicativos de transporte. Todos os dias, eles dividem um carro alugado para fazer duas jornadas di\u00e1rias em sequ\u00eancia \u2014 12 horas para cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela come\u00e7a no hor\u00e1rio de pico da manh\u00e3, quando milh\u00f5es de paulistanos se deslocam ao trabalho. Dezenas de viagens depois, Rafaela volta para casa por volta das 18h.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontra Elisangelo na garagem e passa a chave do carro para ele, repetindo a cena de horas antes. E come\u00e7a tudo de novo, dessa vez com ele ao volante.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dias, a BBC News Brasil conversou com fam\u00edlias como a de Rafaela e Elisangelo, que hoje se dedicam a trabalhar com plataformas de transporte, como a Uber e a 99.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas desenharam um quadro parecido: foram parar nos aplicativos por causa do desemprego em meio \u00e0 crise econ\u00f4mica, mas conseguem se manter e pagar as contas com a renda das viagens. Por outro lado, est\u00e3o trabalhando cada vez mais para atingir suas metas, sobrando pouqu\u00edssimo tempo para descansar e manter rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Custos e ganhos<\/h2>\n\n\n\n<p>Elisangelo foi cobrador de \u00f4nibus na zona leste de S\u00e3o Paulo por quase 20 anos at\u00e9 seu cargo ser extinto, pois as linhas passaram a circular apenas com motoristas.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 sua mulher, Rafaela, era frentista em um posto de combust\u00edveis, mas h\u00e1 tr\u00eas anos tamb\u00e9m perdeu o emprego em um corte no quadro de funcion\u00e1rios. &#8220;Depois, sempre que eu fazia uma entrevista, algu\u00e9m perguntava: &#8216;E tem algu\u00e9m para ficar com seus filhos quando eles ficarem doentes?'&#8221;, diz, sentada na pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o de um shopping na zona leste. Ela ficou dois anos desempregada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos servi\u00e7os anteriores, o casal era registrado pela Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT). Ou seja, tinha direito a 13\u00ba sal\u00e1rio, f\u00e9rias e folgas remuneradas, fundo de garantia e seguro-desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem alternativa no mercado formal de trabalho, os aplicativos surgiram como alternativa para pagar as contas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/64B9\/production\/_107958752_9560149c-46c5-4d89-b42e-a90b20820e6c.jpg\" alt=\"Imagem da tela do celular com o aplicativo Uber aberto\"\/><figcaption>Image captionEm muitos mercados, o aplicativo Uber \u00e9 motivo de reclama\u00e7\u00e3o de taxistas locais pelo seu modelo de neg\u00f3cio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O modelo aplicado pelas plataformas, no entanto, \u00e9 bastante diferente da CLT. N\u00e3o h\u00e1 sal\u00e1rio fixo nem benef\u00edcios, como f\u00e9rias e folgas. Praticamente todos os custos do servi\u00e7o ficam por conta dos trabalhadores: da manuten\u00e7\u00e3o do carro ao combust\u00edvel, da internet ao seguro contra assaltos e acidentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ganha mais quem trabalha mais e \u00e9 mais bem avaliado pelos passageiros \u2014 e as empresas ficam com at\u00e9 35% do valor de cada corrida.<\/p>\n\n\n\n<p>Elisangelo e Rafaela recorreram a economias pessoais e a um empr\u00e9stimo familiar para comprar um carro e aderir aos aplicativos. Mas logo perceberam que os custos de manuten\u00e7\u00e3o n\u00e3o valiam a pena.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em um ano, a gente trocou tr\u00eas vezes o jogo de pneus e as pastilhas de freio, por exemplo&#8221;, conta o motorista. O seguro anual chegava a R$ 2.700.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidiram vender o carro e alugaram outro ve\u00edculo por R$ 1.575 ao m\u00eas \u2014 assim, transferem o custo de manuten\u00e7\u00e3o e o seguro para a locadora. Por\u00e9m, eles j\u00e1 iniciam o m\u00eas devendo o valor desse aluguel. &#8220;Tamb\u00e9m gastamos R$ 120 por dia com gasolina e uns R$ 60 com alimenta\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Rafaela.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tantos custos, o casal tem uma meta: ganhar entre R$ 150 e R$ 200 livres por dia. Nem sempre conseguem, porque a remunera\u00e7\u00e3o depende de fatores fora do controle do motorista, como avalia\u00e7\u00e3o dos clientes e a demanda por corridas em determinada regi\u00e3o e hor\u00e1rio \u2014 se ela cresce, o pre\u00e7o sobe.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, diferente de um emprego formal, \u00e9 dif\u00edcil saber exatamente o valor que voc\u00ea vai receber ao final do dia. No melhor dos mundos, uma chuva forte na cidade aumenta a procura, a tarifa dobra de pre\u00e7o e voc\u00ea faz dezenas de viagens sem grandes intervalos entre elas. No pior, voc\u00ea fica doente ou seu carro quebra na sa\u00edda de casa, resultando em um dia perdido, sem corridas e sem dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para atingir essa meta, Elisangelo e Rafaela se dividem para trabalhar 24 horas por dia durante sete dias por semana, sem folga. S\u00f3 param nas seis horas do rod\u00edzio semanal de ve\u00edculos, que restringe a circula\u00e7\u00e3o de carros pelo centro expandido de S\u00e3o Paulo. Segundo eles, a renda mensal da fam\u00edlia fica entre R$ 4.500 e R$ 5 mil \u2014 valor que eles nunca tinham ganhado na vida.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Viro o fim de semana trabalhando&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Entre os motoristas ouvidos pela reportagem, h\u00e1 um consenso de que as longas jornadas em sequ\u00eancia prejudicaram as rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Rafaela, por exemplo, conta que conviveu pouco com o marido no \u00faltimo um ano. &#8220;Parece que a gente vive em pa\u00edses diferentes, tipo namoro \u00e0 dist\u00e2ncia&#8221;, diz. Elisangelo concorda: &#8220;S\u00f3 nos vemos na garagem. \u00c9 assim: &#8216;oi, como est\u00e3o as coisas?, tudo certo, beijo, tchau&#8217;. A gente conversa pelo WhatsApp, n\u00e3o temos lazer, n\u00e3o sa\u00edmos mais no fim de semana&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro motorista, Eduardo Costa, 23, conta um cen\u00e1rio parecido. Ele divide o carro com sua m\u00e3e, Daniane Silva, 42. Mesmo vivendo na mesma casa, eles s\u00f3 se veem com mais tempo uma vez por semana, quando param para respeitar o rod\u00edzio. &#8220;De fato, isso aconteceu: n\u00f3s s\u00f3 nos vemos na ter\u00e7a-feira&#8221;, diz. Eduardo \u00e9 jogador de futebol de sal\u00e3o, mas est\u00e1 desempregado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11FC9\/production\/_109737637_uber2.jpg\" alt=\"Homem dirigindo carro\"\/><figcaption>Image captionMotoristas elogiam servi\u00e7o de aplicativos de transportes, mas tamb\u00e9m apontam jornadas de trabalho muito longas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Sua m\u00e3e, ex-gerente de recursos humanos, perdeu um emprego de sete anos no final de 2018. &#8220;Comprei um apartamento em uma segunda-feira. Na quinta, fui demitida. Imagina minha cabe\u00e7a. Fiz 15 entrevistas nesse per\u00edodo, mas o mercado est\u00e1 muito dif\u00edcil. \u00c0s vezes me dizem que sou muito qualificada para o cargo, como se eu fosse ficar descontente e pedir demiss\u00e3o&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hora do aperto, quando os boletos se avolumaram, ela recorreu aos aplicativos.<\/p>\n\n\n\n<p>No emprego anterior, Daniane recebia R$ 10 mil por m\u00eas. Hoje, dividindo o carro com o filho em jornadas de 24 horas por dia, eles ganham juntos por volta de R$ 4,5 mil mensais. &#8220;Cortei tudo para sobreviver, faz um ano que n\u00e3o compro uma roupa para mim. O que a gente ganha hoje basicamente serve para pagar as contas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>As jornadas para atingir as metas, por\u00e9m, tamb\u00e9m s\u00e3o longas e cansativas. Ela costuma dirigir 16 horas por dia \u2014 e, quando volta para casa, entrega o carro para o filho, que trabalha na madrugada. &#8220;Tem dia que chego, sento no sof\u00e1 e e n\u00e3o consigo nem levantar para ir ao banheiro. \u00c9 um cansa\u00e7o f\u00edsico, mas principalmente mental&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>A motorista lamenta o pouco tempo que tem para ficar com o filho, pois ambos trabalham praticamente todos os dias. &#8220;A gente gosta muito de comer juntos, mas, agora, s\u00f3 faz isso muito raramente, uma vez por m\u00eas e olhe l\u00e1.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, m\u00e3e e filho descobriram outro problema: eles ultrapassaram o limite de quilometragem do carro alugado em 5 mil quil\u00f4metros. Cada quil\u00f4metro excedente custa R$ 0,50 \u2014 ou seja, eles ter\u00e3o de pagar mais R$ 2,5 mil \u00e0 locadora. &#8220;Estou rezando para que eles n\u00e3o me cobrem esse valor&#8221;, diz Daniane.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro motorista, Ricardo Gomes, 45, que tem irm\u00e3os, tios e primos atuando nos aplicativos, diz que constantemente vira o fim de semana trabalhando, momento em que a demanda por corridas aumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na sexta, come\u00e7o a rodar \u00e0s 20h, depois do rod\u00edzio. Viro a noite e continuo no s\u00e1bado. Durmo algumas horinhas no carro, enquanto espero corridas no aeroporto de Guarulhos. Volto para casa s\u00f3 para tomar um banho r\u00e1pido, e saio de novo. Viro a noite de s\u00e1bado e rodo o domingo todo. S\u00f3 paro de dirigir mesmo na segunda, \u00e0s 5h&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Gomes era t\u00e9cnico de seguran\u00e7a do trabalho em uma empresa de \u00f4nibus. Na \u00e9poca, ganhava R$ 2.450. Hoje sua renda, descontando os custos, diminuiu para R$ 2 mil mensais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No \u00faltimo emprego, eu tinha f\u00e9rias, folga, 13\u00ba, fundo de garantia. Hoje n\u00e3o tenho nada disso. Isso \u00e9 ruim&#8221;, diz, por telefone, enquanto esperava outra corrida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas sabe por que eu prefiro os aplicativos? Primeiro, porque eu amo dirigir, amo de verdade. Segundo, hoje eu tenho liberdade para fazer meu hor\u00e1rio. Se quiser, eu paro, volto para casa e desligo o carro. Uma vez por semana, pego minha filha no trabalho e a levo para o treino de futebol. N\u00f3s vamos conversando no carro. Antes, eu n\u00e3o podia fazer isso, porque tinha de ficar trabalhando.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Pelo menos o b\u00e1sico eu tenho&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Assim como Gomes, outros motoristas elogiaram o setor como uma esp\u00e9cie de &#8220;salvador da p\u00e1tria&#8221;, mesmo que tamb\u00e9m apontem problemas. Isso porque eles encaram a atividade como uma renda certa em momentos de dificuldade financeira. Ou seja, se voc\u00ea tem acesso a um carro e internet, basta coloc\u00e1-lo para rodar, ligar o celular e as corridas v\u00e3o aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Gra\u00e7as a Deus que eles existem e que tenho esse trabalho. Cinco anos atr\u00e1s, o que uma fam\u00edlia desempregada como a minha faria? A gente n\u00e3o teria nada. Hoje, pelo menos o b\u00e1sico eu tenho gra\u00e7as ao Uber. N\u00f3s temos de agradecer&#8221;, diz Daniane, que continua fazendo entrevistas em sua \u00e1rea original.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu filho Eduardo concorda: &#8220;O ponto positivo \u00e9 que voc\u00ea consegue ter uma renda se estiver desempregado&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Elisangelo credita a constru\u00e7\u00e3o de sua casa \u00e0 renda que ganha dirigindo \u2014 ele n\u00e3o pensa em trocar de emprego t\u00e3o cedo. &#8220;Se eu ainda fosse cobrador, nunca conseguiria fazer a obra como consigo agora. Ainda bem que os aplicativos existem&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua esposa, Rafaela, est\u00e1 cursando o primeiro ano de Direito em uma faculdade particular. &#8220;N\u00e3o penso em trabalhar dirigindo para o resto da vida. Mas, enquanto estudo, os aplicativos me ajudam muito.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C5E7\/production\/_109736605_uber.jpg\" alt=\"Logomarca da Uber\"\/><figcaption>Image captionA plataforma da Uber j\u00e1 conta com 600 mil motoristas no Brasil<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Uberiza\u00e7\u00e3o&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>O crescimento do setor foi bastante r\u00e1pido no Brasil. A Uber, por exemplo, chegou ao pa\u00eds em junho de 2014 e, atualmente, j\u00e1 conta com 600 mil motoristas \u2014 a empresa n\u00e3o revela dados sobre faturamento, tempo m\u00e9dio de conex\u00e3o dos profissionais nem o rendimento m\u00e9dio dos motoristas, pois ele pode variar de acordo com a cidade e com o tempo online de cada pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril, um estudo do Instituto Locomotiva apontou que 4 milh\u00f5es de pessoas trabalham para plataformas do tipo no Brasil atualmente, o que inclui aplicativos de transporte e de entrega, como Rappi e iFood \u2014 17 mih\u00f5es usam os servi\u00e7os regularmente.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da mobilidade, essa onda chama aten\u00e7\u00e3o por alguns motivos. Em um momento de crise econ\u00f4mica e alta de desemprego, milhares de pessoas conseguiram uma fonte de renda para sobreviver, mesmo que na informalidade. Al\u00e9m disso, os apps de transporte criaram uma alternativa barata de locomo\u00e7\u00e3o em cidades com rede p\u00fablica e de t\u00e1xi prec\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, v\u00eam aumentando as reclama\u00e7\u00f5es e os relatos de precariza\u00e7\u00e3o e jornadas cada vez mais exaustivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, informais e mediadas por aplicativos, t\u00eam sido chamadas por pesquisadores de &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221;, em refer\u00eancia \u00e0 empresa americana. Inicialmente, a Uber foi criticada por se recusar a seguir qualquer regula\u00e7\u00e3o estatal e por n\u00e3o estabelecer v\u00ednculos empregat\u00edcios com seus colaboradores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela e outras empresas do ramo costumam alegar que suas tecnologias apenas facilitam a intera\u00e7\u00e3o entre quem precisa do servi\u00e7o e quem o oferece.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Uber, os motoristas &#8220;n\u00e3o s\u00e3o empregados nem prestam servi\u00e7o&#8221; \u00e0 companhia. Em nota \u00e0 BBC News Brasil, a empresa alega que os trabalhadores &#8220;independentes&#8221; contrataram os servi\u00e7os do aplicativo, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. &#8220;Dessa forma, a Uber n\u00e3o exerce controle sobre os motoristas, que escolhem livremente os dias e hor\u00e1rios de uso do aplicativo, se aceitam ou n\u00e3o viagens&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua principal concorrente, a 99, vai na mesma linha. &#8220;Passageiros e motoristas s\u00e3o livres para escolher se utilizam o servi\u00e7o, se instalam outro aplicativo de transporte e em qual momento iniciam, pausam e finalizam o uso, de acordo com a sua conveni\u00eancia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>As duas companhias alegam que n\u00e3o incentivam que seus motoristas fa\u00e7am jornadas longas, mesmo que haja promo\u00e7\u00f5es para que os profissionais fiquem mais tempo dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A Uber recomenda que todos os parceiros observem as orienta\u00e7\u00f5es das autoridades de tr\u00e2nsito, inclusive quanto \u00e0 necessidade de estarem descansados para dirigir \u2014 o desrespeito \u00e0s regras de tr\u00e2nsito configura viola\u00e7\u00e3o aos Termos e Condi\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o dos motoristas parceiros e pode levar at\u00e9 ao encerramento da parceria.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a 99 nota que &#8220;a ado\u00e7\u00e3o de promo\u00e7\u00f5es e incentivos n\u00e3o tem como objetivo aumentar o tempo logado, mas sim equilibrar a oferta e a demanda e disponibilizar op\u00e7\u00f5es mais baratas para o passageiro e mais rent\u00e1veis para o condutor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13793\/production\/_109536797_gettyimages-1142552455.jpg\" alt=\"Protestos em frente ao Wall Street contra o tratamento das empresas de transporte compartilhado\"\/><figcaption>Image captionNos Estados Unidos, motoristas j\u00e1 protestaram contra v\u00e1rias empresas de transporte compartilhado, como a Uber e a Lyft<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Puni\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Cr\u00edticos argumentam que, apesar desse discurso de autonomia apontado pelas companhias, elas ainda controlam o trabalho e sua massa de motoristas. As empresas podem, por exemplo, aumentar ou diminuir as tarifas sem negocia\u00e7\u00e3o com os profissionais, dar descontos a passageiros, priorizar quem tem avalia\u00e7\u00e3o mais alta, excluir motoristas sem explica\u00e7\u00e3o e puni-los caso eles n\u00e3o aceitem determinadas corridas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a p\u00f3s-doutoranda Ludmila Costhek Ab\u00edlio, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, a &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o come\u00e7ou com a Uber nem se restringe \u00e0 companhia americana. Segundo ela, a crise ec\u00f4nomica vivida pelo Brasil n\u00e3o pode ser creditada como o principal fator do crescimento do setor, mas sim um processo de informaliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa do IBGE apontou que 38,8 milh\u00f5es (41,1%) dos 93,8 milh\u00f5es de pessoas que comp\u00f5em a for\u00e7a de trabalho no Brasil atuavam na informalidade no terceiro trimestre deste ano \u2014 um recorde na s\u00e9rie hist\u00f3rica iniciada em 2012. No per\u00edodo, a taxa de desemprego bateu 11,8%.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essas empresas capitalizaram e intensificaram o processo de informaliza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vinha ocorrendo h\u00e1 alguns anos. A reforma trabalhista foi aprovada nesse sentido. A gente fala que os motoristas est\u00e3o trabalhando muito, mas e n\u00f3s, pesquisadores, jornalistas, advogados? H\u00e1 uma normaliza\u00e7\u00e3o dessas jornadas longas e sem remunera\u00e7\u00e3o&#8221;, opina.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, esse modelo tem uma novidade em rela\u00e7\u00e3o aos chamados bicos. &#8220;Agora, as empresas transferem os custos e os riscos da atividade para o trabalhador. \u00c9 ele quem paga pelos meios de produ\u00e7\u00e3o, como carro, manuten\u00e7\u00e3o, seguro&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Rodrigo Carelli, procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e professor de Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, discorda da avalia\u00e7\u00e3o de que a crise n\u00e3o teve grande influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, as empresas se aproveitaram de um momento ruim na economia para aumentar suas fileiras. &#8220;Em um cen\u00e1rio de pleno emprego, como o que vivemos no in\u00edcio da d\u00e9cada, dificilmente as pessoas aceitariam as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho que esses aplicativos oferecem&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Em diversos casos, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e ex-motoristas entraram na Justi\u00e7a para reinvindicar v\u00ednculo empregat\u00edcio dos profissionais com as empresas, o que garantiria uma s\u00e9rie de direitos previstos pela CLT. Mas a Justi\u00e7a brasileira tem constantemente negado essas demandas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro, julgando um caso espec\u00edfico, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) decidiu que n\u00e3o existe esse v\u00ednculo, dizendo que os motoristas &#8220;n\u00e3o mant\u00eam rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica com a empresa porque seus servi\u00e7os s\u00e3o prestados de forma eventual, sem hor\u00e1rios pr\u00e9-estabelecidos, e n\u00e3o recebem sal\u00e1rio fixo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o Estado americano da Calif\u00f3rnia aprovou um projeto de lei que classifica os profissionais como funcion\u00e1rios de empresas como a Uber \u2014 isso que garantiria alguns benef\u00edcios, como uma remunera\u00e7\u00e3o min\u00edma. O mesmo ocorreu em Nova York. No Reino Unido, a Justi\u00e7a tamb\u00e9m considerou que os profissionais tinham direitos trabalhistas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Vou ficar em casa fazendo o qu\u00ea?&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>O motorista Arnaldo Correra, 62, ficou satisfeito quando seu filho, que atuava com ele nos aplicativos, conseguiu fazer o caminho inverso: voltou para o mercado formal.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Achei muito bom que ele conseguiu um trabalho registrado, porque os aplicativos, apesar de ajudarem a gente a conseguir dinheiro, n\u00e3o t\u00eam garantia nenhuma. Eu mesmo s\u00f3 trabalho nisso porque fico pensando: vou ficar em casa fazendo o qu\u00ea?&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Carrera voltou a trabalhar recentemente depois de seis meses parado por causa de uma cirurgia de h\u00e9rnia. &#8220;Nesse tempo todo n\u00e3o ganhei um centavo&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um m\u00eas de retorno ao volante, ele teve uma surpresa: a Uber excluiu seu perfil e ele n\u00e3o pode mais trabalhar na plataforma \u2014 usando apenas a 99, sua renda caiu 60%, diz. &#8220;Nunca me explicaram por que fui suspenso. Tamb\u00e9m n\u00e3o fui atr\u00e1s: a gente j\u00e1 sabe que eles nunca informam o motivo.&#8221;<br><\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na garagem, a conversa \u00e9 sempre r\u00e1pida, pois tempo perdido \u00e9 dinheiro perdido. 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