{"id":2319,"date":"2019-03-25T08:10:33","date_gmt":"2019-03-25T11:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=2319"},"modified":"2019-03-25T08:10:35","modified_gmt":"2019-03-25T11:10:35","slug":"vale-a-pena-tomar-probiotico-apos-tratamento-com-antibiotico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/03\/25\/vale-a-pena-tomar-probiotico-apos-tratamento-com-antibiotico\/","title":{"rendered":"Vale a pena tomar probi\u00f3tico ap\u00f3s tratamento com antibi\u00f3tico?"},"content":{"rendered":"\n<p>Os probi\u00f3ticos s\u00e3o apresentados como tratamento para uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es &#8211; da obesidade a problemas de sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos usos mais comuns \u00e9 a reposi\u00e7\u00e3o da flora intestinal ap\u00f3s um ciclo de antibi\u00f3ticos. A l\u00f3gica \u00e9 a seguinte: os antibi\u00f3ticos destroem o microbioma &#8211; comunidade de micro-organismos que vive no intestino &#8211; junto com as bact\u00e9rias que podem estar causando a infec\u00e7\u00e3o, de modo que a ingest\u00e3o de probi\u00f3ticos (micro-organismos vivos) pode ajudar a restaur\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora pare\u00e7a fazer sentido, h\u00e1 poucas provas de que os probi\u00f3ticos realmente funcionem se utilizados dessa maneira.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadores descobriram, na verdade, que tomar probi\u00f3ticos ap\u00f3s o uso de antibi\u00f3tico atrasa a recupera\u00e7\u00e3o da sa\u00fade intestinal.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">H\u00e1 probi\u00f3ticos melhores que os outros?<\/h2>\n\n\n\n<p>Parte do problema \u00e9 a variedade de coisas associadas ao termo probi\u00f3tico. Para os cientistas, pode ser uma cultura viva de micro-organismos que normalmente habitam o intestino humano saud\u00e1vel. Mas, para os consumidores, os produtos vendidos nos supermercados &#8211; como iogurtes e suplementos &#8211; n\u00e3o correspondem a essa defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando os pesquisadores usam cepas bacterianas vivas em suas pesquisas, o coquetel varia de um laborat\u00f3rio para outro, o que dificulta a compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse \u00e9 o problema &#8211; n\u00e3o h\u00e1 estudos suficientes sobre qualquer probi\u00f3tico espec\u00edfico para dizer que este funciona e esse n\u00e3o&#8221;, diz Sydne Newberry, da institui\u00e7\u00e3o Rand Corporation, que realizou um amplo estudo de meta-an\u00e1lise sobre o uso de probi\u00f3ticos para tratar diarreia induzida por antibi\u00f3ticos em 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa &#8211; que analisou 82 estudos com quase 12 mil pacientes &#8211; mostrou um efeito positivo dos probi\u00f3ticos na redu\u00e7\u00e3o do risco de diarreia causada por antibi\u00f3ticos. Mas devido \u00e0 varia\u00e7\u00e3o &#8211; e \u00e0s vezes \u00e0 falta de clareza &#8211; com que as cepas bacterianas foram usadas, n\u00e3o foi poss\u00edvel identificar ou recomendar probi\u00f3ticos ou coquet\u00e9is espec\u00edficos que funcionassem.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o estudo da Rand Corporation, realizado em 2012, as evid\u00eancias que sustentam o uso de probi\u00f3ticos ap\u00f3s tomar antibi\u00f3ticos n\u00e3o mudaram muito.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1639E\/production\/_105683019_foto_01.jpg\" alt=\"Comprimido de antibi\u00f3tico\"\/><figcaption>Image captionAntibi\u00f3ticos afetam os micro-organismos que vivem no intestino junto com as bact\u00e9rias nocivas que podem estar causando a infec\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o problem\u00e1tico&#8221;, afirma Newberry. &#8220;H\u00e1 mais estudos do que quando fizemos a revis\u00e3o, mas n\u00e3o o suficiente para dizer conclusivamente se os probi\u00f3ticos funcionam ou n\u00e3o. Tampouco o suficiente para dizer quais funcionam.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma preocupa\u00e7\u00e3o em particular \u00e9 a falta de pesquisas sobre a seguran\u00e7a no uso de probi\u00f3ticos. Embora geralmente sejam considerados inofensivos em pessoas saud\u00e1veis, h\u00e1 relatos preocupantes de efeitos colaterais &#8211; como fungos se alastrando na corrente sangu\u00ednea &#8211; entre pacientes mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Probi\u00f3ticos em pessoas saud\u00e1veis<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa recente realizada por cientistas do Instituto Weizmann de Ci\u00eancia em Israel descobriu que, mesmo entre pessoas saud\u00e1veis, tomar probi\u00f3ticos depois de um ciclo de antibi\u00f3tico n\u00e3o era inofensivo. Na verdade, eles dificultaram os processos de recupera\u00e7\u00e3o intestinal que em tese deveriam acelerar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores, liderados por Eran Elinav, deram a 21 pessoas um ciclo de antibi\u00f3ticos de amplo espectro por uma semana. Depois disso, fizeram uma colonoscopia e uma endoscopia do trato gastrointestinal superior para examinar o estado do microbioma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como esperado, muitas mudan\u00e7as importantes ocorreram em rela\u00e7\u00e3o aos micr\u00f3bios &#8211; muitos morreram por causa dos antibi\u00f3ticos&#8221;, diz Elinav.<\/p>\n\n\n\n<p>Os participantes foram divididos ent\u00e3o em tr\u00eas grupos. No primeiro, n\u00e3o houve interven\u00e7\u00e3o ap\u00f3s os antibi\u00f3ticos &#8211; a ideia era esperar para ver. O segundo tomou um probi\u00f3tico comum por um m\u00eas. E o terceiro foi submetido a um transplante fecal &#8211; uma pequena amostra de suas pr\u00f3prias fezes, coletada antes do in\u00edcio do uso do antibi\u00f3tico, foi devolvida ao c\u00f3lon assim que o tratamento terminou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4A5E\/production\/_105683091_foto_02.jpg\" alt=\"Laborat\u00f3rio\"\/><figcaption>Image captionOs probi\u00f3ticos n\u00e3o funcionam exatamente da mesma maneira para todo mundo porque os microbiomas s\u00e3o diferentes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A descoberta surpreendente foi que o grupo que tomou probi\u00f3ticos apresentou a resposta mais fraca em termos de microbioma e o que mais levou tempo para recuperar a sa\u00fade intestinal. Mesmo no fim do estudo &#8211; ap\u00f3s cinco meses de acompanhamento &#8211; esse grupo ainda n\u00e3o havia atingido o n\u00edvel de sa\u00fade intestinal pr\u00e9-antibi\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s encontramos um efeito adverso potencialmente alarmante de probi\u00f3ticos&#8221;, diz Elinav.<\/p>\n\n\n\n<p>A boa not\u00edcia, no entanto, \u00e9 que o grupo que recebeu o transplante fecal se saiu muito bem. Em poucos dias, os participantes reconstitu\u00edram completamente seu microbioma original.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitas pessoas tomam antibi\u00f3ticos ao redor do mundo. Precisamos tentar entender melhor esse efeito adverso potencial que n\u00e3o hav\u00edamos percebido&#8221;, afirma Elinav.<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1 cada vez mais evid\u00eancia de que tomar probi\u00f3ticos quando a sa\u00fade intestinal est\u00e1 fragilizada n\u00e3o \u00e9 uma boa ideia. Outro estudo recente mostrou que os probi\u00f3ticos n\u00e3o fazem bem para crian\u00e7as pequenas internadas com gastroenterite. Em um experimento nos EUA, 886 crian\u00e7as com gastroenterite com idade entre tr\u00eas meses e quatro anos tomaram um ciclo de cinco dias de probi\u00f3ticos ou placebo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/987E\/production\/_105683093_foto_03.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o do intestino\"\/><figcaption>Image captionTomar probi\u00f3ticos quando a sa\u00fade do intestino est\u00e1 fragilizada pode n\u00e3o ser uma boa ideia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A taxa de gastroenterite moderada a grave continuada dentro de duas semanas foi ligeiramente maior (26,1%) no grupo que tomou probi\u00f3tico do que no grupo com placebo (24,7%). E n\u00e3o houve diferen\u00e7a entre os dois grupos em termos da dura\u00e7\u00e3o da diarreia ou v\u00f4mito.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mercado bilion\u00e1rio de probi\u00f3ticos<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de evid\u00eancias como essa, a demanda por probi\u00f3ticos \u00e9 enorme e crescente. Em 2017, esse mercado foi avaliado em mais de US$ 1,8 bilh\u00e3o, e a previs\u00e3o \u00e9 que atinja US$ 66 bilh\u00f5es at\u00e9 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Dado o envolvimento pesado da ind\u00fastria, conclus\u00f5es claras sobre o qu\u00e3o \u00fateis s\u00e3o os probi\u00f3ticos ainda precisam ser comprovadas&#8221;, diz Elinav, do Instituto Weizmann de Ci\u00eancia em Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual autoridades regulat\u00f3rias, como a ag\u00eancia que controla os alimentos e medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em ingl\u00eas) e os \u00f3rg\u00e3os reguladores europeus ainda n\u00e3o aprovaram um probi\u00f3tico para uso cl\u00ednico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso n\u00e3o quer dizer que os probi\u00f3ticos devam ser descartados por completo. O problema parece estar mais no modo de utiliza\u00e7\u00e3o do que no uso em si. Muitas vezes os probi\u00f3ticos s\u00e3o comprados no supermercado, mas os consumidores podem n\u00e3o saber exatamente o que est\u00e3o levando para casa ou mesmo se a cultura ali ainda est\u00e1 viva.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quem deve usar probi\u00f3ticos?<\/h2>\n\n\n\n<p>O grupo do Instituto Weizmann de Ci\u00eancia tamb\u00e9m pesquisou sobre quem poderia se beneficiar dos probi\u00f3ticos. Ao medir a presen\u00e7a de certos genes relacionados ao sistema imunol\u00f3gico, a equipe conseguiu prever quem seria receptivo \u00e0s bact\u00e9rias probi\u00f3ticas para colonizar o intestino, e aqueles em que elas simplesmente &#8220;passariam batido&#8221; sem se instalar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso \u00e9 muito interessante e importante, pois indica que nosso sistema imunol\u00f3gico tamb\u00e9m participa das intera\u00e7\u00f5es com bact\u00e9rias [probi\u00f3ticas]&#8221;, explica o pesquisador Elinav.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso abre caminho para o desenvolvimento de tratamentos probi\u00f3ticos personalizados com base no perfil gen\u00e9tico de cada um. Um sistema assim \u00e9 &#8220;realista e poderia ser desenvolvido relativamente em breve&#8221;, de acordo com Elinav.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, para se tornar realidade, ser\u00e3o necess\u00e1rias mais pesquisas sobre a adapta\u00e7\u00e3o probi\u00f3tica e testes com mais cepas bacterianas em grupos maiores de indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de personaliza\u00e7\u00e3o pode alavancar o potencial dos tratamentos probi\u00f3ticos para a sa\u00fade intestinal. No momento, a falta de consist\u00eancia nas descobertas se deve em parte ao fato de os probi\u00f3ticos serem tratados como drogas convencionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea toma um comprimido de paracetamol, pode ter quase certeza de que o princ\u00edpio ativo vai cumprir sua fun\u00e7\u00e3o ao interagir com receptores no c\u00e9rebro, anestesiando a sensa\u00e7\u00e3o de dor. Isso ocorre porque os receptores de dor da maioria das pessoas s\u00e3o parecidos o suficiente para reagir da mesma maneira \u00e0 droga.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o microbioma n\u00e3o \u00e9 apenas um receptor &#8211; est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de um ecossistema. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que costuma ser comparado a uma floresta tropical por sua complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Consequentemente, identificar e customizar um tratamento probi\u00f3tico que vai funcionar em algo t\u00e3o complexo e individual quanto o ecossistema interno de algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso em mente, n\u00e3o \u00e9 de se surpreender que micro-organismos vivos estocados nas prateleiras do supermercado possam n\u00e3o funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p>BBCFuture<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os probi\u00f3ticos s\u00e3o apresentados como tratamento para uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es &#8211; da obesidade a problemas de sa\u00fade mental. 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