{"id":22571,"date":"2019-11-04T13:59:28","date_gmt":"2019-11-04T16:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=22571"},"modified":"2019-11-04T13:59:29","modified_gmt":"2019-11-04T16:59:29","slug":"ecoturismo-faz-renascer-regiao-abalada-por-um-dos-piores-desastres-ambientais-do-governo-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/11\/04\/ecoturismo-faz-renascer-regiao-abalada-por-um-dos-piores-desastres-ambientais-do-governo-militar\/","title":{"rendered":"Ecoturismo faz renascer regi\u00e3o abalada por um dos piores desastres ambientais do governo militar"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\"> Aos poucos, o turismo ressurge na regi\u00e3o amaz\u00f4nica do rio Uatum\u00e3, d\u00e9cadas ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o de uma das hidrel\u00e9tricas que mais prejudicaram o meio-ambiente no Brasil<\/h4>\n\n\n\n<p>Quem avista pela primeira vez as \u00e1rvores semi-submersas que parecem flutuar no c\u00e9u espelhado no leito do rio Uatum\u00e3, na Amaz\u00f4nia, dificilmente dir\u00e1 que este j\u00e1 foi o cen\u00e1rio de um dos maiores desastres ambientais da hist\u00f3ria brasileira recente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos que se seguiram \u00e0 crise do petr\u00f3leo, na d\u00e9cada de 1970, o governo militar e a Eletronorte decidiram construir uma hidrel\u00e9trica na cidade de Presidente Figueiredo, pouco mais de 100 quil\u00f4metros rio acima.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo declarado da constru\u00e7\u00e3o da usina de Balbina era reduzir a depend\u00eancia de Manaus de usinas movidas a combust\u00edveis f\u00f3sseis. A usina, por\u00e9m, inundou uma \u00e1rea de floresta nativa equivalente a 2,4 mil quil\u00f4metros quadrados, quase duas vezes maior que a do Lago de Itaipu (maior hidrel\u00e9trica do mundo,) para produzir menos de 2% da energia produzida pela usina binacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo depois que a obra ficou pronta, Manaus continuou dependendo de usinas t\u00e9rmicas para mais da metade de sua demanda na \u00e9poca. Quando a cidade se conectou ao Sistema Interligado Nacional (SIN), com o linh\u00e3o de Tucuru\u00ed, em 2013, Balbina n\u00e3o respondia por mais de 20% da eletricidade consumida na capital do Amazonas.<\/p>\n\n\n\n<p>Contaminada pelo apodrecimento das \u00e1rvores e animais mortos pelo lago, a \u00e1gua do Uatum\u00e3 nessa \u00e1rea se tornou impr\u00f3pria para banho e consumo humano e, assim que as comportas foram abertas, em 1989, deixou um rastro de mortes de peixes e animais rio abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 contada, entre outras fontes, no document\u00e1rio &#8220;Balbina no Pa\u00eds da Impunidade&#8221;, tamb\u00e9m de 1989, e por mat\u00e9rias de importantes jornais estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Or\u00e7ada oficialmente em US$ 750 milh\u00f5es, Balbina levou quase nove anos para ser constru\u00edda. Tida como cara e de alto custo de manuten\u00e7\u00e3o, recebeu cr\u00edticas desde que ainda era projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o f\u00edsico e ent\u00e3o reitor da Universidade de S\u00e3o Paulo, Jos\u00e9 Goldemberg, havia alternativas melhores, como a constru\u00e7\u00e3o de t\u00e9rmicas abastecidas por g\u00e1s natural que a Petrobras havia descoberto em Juru\u00e1, a 500 quil\u00f4metros de Manaus.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se falava do fato de a obra ser constru\u00edda em uma regi\u00e3o de floresta com imensa biodiversidade. Em mar\u00e7o de 1988, cerca de seis meses ap\u00f3s o in\u00edcio do alagamento dessa regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia, a rep\u00f3rter Marlise Simons, do&nbsp;<em>The New York Times<\/em>, acompanhou uma das equipes de um grupo de 250 pessoas encarregado de encontrar, capturar e soltar em \u00e1reas seguras animais ilhados.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00edtulo apontava: &#8220;O Brasil quer hidrel\u00e9tricas, mas a que custo?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4246\/production\/_109466961_uatuma2.jpg\" alt=\"\u00c1rvores submersas na regi\u00e3o da usina de Balbina\"\/><figcaption>Image captionDecomposi\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores submersas produzem impacto 25 vezes maior no efeito estufa do que antes da hidrel\u00e9trica, segundo c\u00e1lculos de ec\u00f3logo da Embrapa<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Os animais terrestres aqui ou fugiram ou morreram&#8221;, contava \u00e0 jornalista o zo\u00f3logo Bento Melo, enquanto seguiam pelo rio em expedi\u00e7\u00e3o. &#8220;Estamos buscando animais de \u00e1rvores, como primatas, pregui\u00e7as, felinos e tamandu\u00e1s.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Sem o mesmo tipo de socorro, bichos menores como lagartos, escorpi\u00f5es e aranhas se defendiam como podiam &#8211; ficavam amontoados na copa das \u00e1rvores, o que resultava em imagens ins\u00f3litas de folhagens tomadas por essas esp\u00e9cies.<\/p>\n\n\n\n<p>Animais que nadam bem foram deixados sozinhos. O alagamento resultou na cria\u00e7\u00e3o de mais de 3,5 mil ilhas no lago, algumas pequenas, outras com alguns quil\u00f4metros quadrados. &#8220;Ningu\u00e9m tem a m\u00ednima ideia de quantos bichos h\u00e1 nesta \u00e1rea, nem a quantidade de vida que ela pode sustentar&#8221;, dizia Melo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao menos duas aldeias ind\u00edgenas existentes na regi\u00e3o do lago \u2014 como a dos Waimiri-Atroari \u2014 foram transferidas e, com a morte dos peixes, ap\u00f3s o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o, muitos moradores da regi\u00e3o ficaram sem ter o que comer e beber.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Problemas ambientais prolongados<\/h2>\n\n\n\n<p>Os efeitos ambientais s\u00e3o sentidos at\u00e9 hoje. A decomposi\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores submersas geram di\u00f3xido de carbono na superf\u00edcie e, no fundo do lago, metano, com impacto 25 vezes maior no efeito estufa do que antes da hidrel\u00e9trica, segundo c\u00e1lculos do ec\u00f3logo Alexandre Kemenes, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/18482\/production\/_109485499_uatuma8.jpg\" alt=\"Barragem da usina hidrel\u00e9trica de Balbina\"\/><figcaption>Image captionRecentemente, a usina de Balbina foi considerada a pior hidrel\u00e9trica brasileira, em uma lista de mais de 100 nomes composta por especialistas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Preso ao fundo pela press\u00e3o, o g\u00e1s \u00e9 liberado na passagem da \u00e1gua pelas turbinas da usina e contribui para a morte de peixes do fundo do rio, como os bagres. Com isso, de acordo com Kemenes, Balbina emite dez vezes mais gases do efeito estufa que uma usina termel\u00e9trica a carv\u00e3o com a mesma pot\u00eancia \u2014 h\u00e1 outros estudos que apontam um n\u00famero menor, mas todos trazem evid\u00eancias de que a hidrel\u00e9trica emite mais gases de efeito estufa que uma termel\u00e9trica com potencial equivalente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo isso, e pela baixa capacidade de gera\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao tamanho do lago, recentemente a usina foi considerada a pior hidrel\u00e9trica brasileira, em uma lista de mais de 100 nomes composta por especialistas como Luiz Pinguelli Rosa, ex-presidente da Eletrobr\u00e1s e professor de planejamento energ\u00e9tico da Coppe\/UFRJ.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados 30 anos, a \u00e1gua do Uatum\u00e3 ainda n\u00e3o voltou a ser pot\u00e1vel e peixes de algumas esp\u00e9cies, antes comuns, s\u00e3o hoje relativamente raros.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando as \u00e1guas baixaram, o cheiro de peixe morto era insuport\u00e1vel. Tudo aqui em volta, no mato, onde a \u00e1gua chegou, cheirava muito mal&#8221;, lembra o ribeirinho Ant\u00f4nio Martins Queir\u00f3s, de 65 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, hoje, \u00e9 outra e o que era degrada\u00e7\u00e3o, nos \u00faltimos anos, vem se transformando em oportunidade para quem vive em uma \u00e1rea rica em belezas naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas depois do desastre ambiental, o ecoturismo encontra espa\u00e7o no rio Uatum\u00e3, com a cria\u00e7\u00e3o de uma reserva de desenvolvimento sustent\u00e1vel, controle do acesso de barcos-hot\u00e9is vindos de fora e participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o local na atividade tur\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, o turismo vai substituindo como fonte de renda a pesca, a ca\u00e7a e outras formas de extrativismo nocivas ao meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pousadas e preserva\u00e7\u00e3o ambiental<\/h2>\n\n\n\n<p>Sentado sobre uma pilha de tijolos, descal\u00e7o, de bermuda e camisa p\u00f3lo, o ribeirinho Ant\u00f4nio Queir\u00f3s discorre sobre seus planos. At\u00e9 2018, vivia da agricultura de subsist\u00eancia e da venda de melancias que plantava no entorno da casa onde mora.<\/p>\n\n\n\n<p>A picada de uma surucucu (a segunda), no entanto, o levou a repensar o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Animado pelos resultados de outros ribeirinhos, decidiu usar suas economias para construir uma pousada e se somou ao grupo que vem investindo no ecoturismo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 s\u00e3o dez as pousadas em funcionamento na regi\u00e3o, e outras cinco devem entrar em opera\u00e7\u00e3o at\u00e9 2020. At\u00e9 cinco anos atr\u00e1s, eram apenas duas pousadas. &#8220;\u00c9 minha aposentadoria. J\u00e1 n\u00e3o tenho disposi\u00e7\u00e3o para a agricultura&#8221;, diz Queir\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>O bom momento atual \u00e9 reflexo de a\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o ambiental na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2004, depois de um per\u00edodo de forte degrada\u00e7\u00e3o do rio, iniciado com a abertura das comportas de Balbina, o governo do Estado do Amazonas transformou uma \u00e1rea quase duas vezes maior que o munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, no entorno do rio, na Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel do Uatum\u00e3 (RDS Uatum\u00e3).<\/p>\n\n\n\n<p>A unidade de preserva\u00e7\u00e3o ambiental foi o ponto de partida de um plano estrat\u00e9gico de desenvolvimento sustent\u00e1vel para a regi\u00e3o, que prev\u00ea, entre outras coisas, a explora\u00e7\u00e3o do ecoturismo, do turismo de base comunit\u00e1ria e da pesca esportiva como alternativas de renda para as popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12CA6\/production\/_109466967_uatuma3.jpg\" alt=\"Pousada na beira do rio Uatum\u00e3\"\/><figcaption>Image captionHoje s\u00e3o dez as pousadas em funcionamento na regi\u00e3o, e outras cinco devem entrar em opera\u00e7\u00e3o at\u00e9 2020; cinco anos atr\u00e1s, eram apenas duas as op\u00e7\u00f5es para os turistas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Primeiro, veio a proibi\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de pousadas na regi\u00e3o por quem n\u00e3o fosse morador \u2014 havia duas, hoje fechadas. Depois, o ordenamento para a constru\u00e7\u00e3o de pousadas pelos ribeirinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, houve a restri\u00e7\u00e3o a barcos-hot\u00e9is, vindos de Manaus, que at\u00e9 2016 podiam circular em qualquer um dos tr\u00eas p\u00f3los da reserva.<\/p>\n\n\n\n<p>As embarca\u00e7\u00f5es costumavam trazer dezenas de pessoas e deixavam para tr\u00e1s apenas lixo, contam os ribeirinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, por\u00e9m, a circula\u00e7\u00e3o ficou restrita a um dos p\u00f3los, o menor, onde n\u00e3o h\u00e1 pousadas. &#8220;Assim, os barcos deixaram de concorrer com as comunidades locais&#8221;, afirma Cristiano Gon\u00e7alves, gerente da unidade de preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Melhorias para a economia local<\/h2>\n\n\n\n<p>De acordo com Gon\u00e7alves, dos pouco mais de 1,4 mil turistas registrados na reserva no ano passado, cerca de 40% ficaram hospedados em pousadas de ribeirinhos \u2014 os demais vieram nos barcos-hot\u00e9is remanescentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em anos anteriores, segundo Cristiano Gon\u00e7alves, gerente da RDS do Uatum\u00e3, o controle do acesso era falho, o que n\u00e3o permite compara\u00e7\u00f5es precisas sobre a evolu\u00e7\u00e3o da demanda. De todo modo, antes n\u00e3o havia pousadas suficientes para atender \u00e0 demanda por hospedagem em terra na reserva. Agora h\u00e1, o que indica aumento na procura pelas pousadas de ribeirinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um pre\u00e7o m\u00e9dio de R$ 4,2 mil por pessoa por 5 dias (exclu\u00eddos os custos da viagem de Manaus at\u00e9 o Uatum\u00e3 e a compra de combust\u00edvel), as estimativas s\u00e3o de que tenham deixado entre R$ 700 mil e R$ 1 milh\u00e3o com as cerca de 150 fam\u00edlias envolvidas de alguma forma com o turismo, afirma o gestor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em toda a reserva, vivem 362 fam\u00edlias, que somam cerca de 1,6 mil pessoas, em 20 comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m desse dinheiro, uma taxa de turismo que varia de R$ 25 a R$ 50 \u00e9 cobrada dos visitantes e usada pelas comunidades ribeirinhas e na fiscaliza\u00e7\u00e3o da pesca esportiva pela Associa\u00e7\u00e3o Agroextrativista das Comunidades do Rio Uatum\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/180CB\/production\/_109470589_uatuma5.jpg\" alt=\"O ribeirinho Ant\u00f4nio Martins Queir\u00f3s na frente de sua pousada em constru\u00e7\u00e3o\"\/><figcaption>Image captionO ribeirinho Ant\u00f4nio Martins Queir\u00f3s usou suas economias para construir uma pousada na \u00e1rea da reserva do Uatum\u00e3<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os ganhos se refletem em melhorias para receber os turistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que come\u00e7ou a receber visitantes, em 2014, Jos\u00e9 Firme Fonteles, de 49 anos, amplia ano a ano a estrutura de sua pousada. Na primeira vez, h\u00e1 cinco anos, recebeu seis turistas nos tr\u00eas quartos da pr\u00f3pria casa, por falta de op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em 2019 recebeu o primeiro grupo, com vinte pescadores do sul do pa\u00eds, em oito quartos de madeira, dispostos um ao lado do outro, com boa estrutura (banheiros privativos e ar-condicionado, raridade h\u00e1 alguns anos), al\u00e9m da \u00e1rea comum, coberta, com bar e vista para o rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Para 2020, os planos s\u00e3o construir ao menos mais dois chal\u00e9s. &#8220;O turismo \u00e9 financeiramente muito melhor do que a agricultura, que tem pouco mercado&#8221;, diz Fonteles.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do refor\u00e7o na renda, o turismo ainda n\u00e3o permite a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva \u00e0 atividade dentro da RDS do Uatum\u00e3. Tradicionalmente, a maior procura \u00e9 pelo turismo de pesca esportiva, entre os meses de setembro e dezembro, quando o rio est\u00e1 mais vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos demais meses do ano, com o rio mais cheio, restam \u00e0s fam\u00edlias principalmente a agricultura familiar como alternativa de renda.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2523\/production\/_109470590_uatuma6.jpg\" alt=\"Rio Uatum\u00e3 no p\u00f4r do sol\"\/><figcaption>Em 2019, cerca de 1,4 mil turistas visitaram a reserva no ano passado; cerca de 40% ficaram hospedados em pousadas de ribeirinhos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A reserva e o combate \u00e0 pesca predat\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o da demanda na pesca esportiva \u2014 que se diferencia da tradicional pela devolu\u00e7\u00e3o dos peixes fisgados \u00e0 \u00e1gua \u2014 foi um dos pontos-chave para que as melhorias na infraestrutura de ecoturismo na \u00e1rea, com potencial de gera\u00e7\u00e3o de renda o ano inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da reserva teve papel crucial nessa consolida\u00e7\u00e3o. A pesca predat\u00f3ria, por exemplo, passou a ser combatida com a cria\u00e7\u00e3o da RDS Uatum\u00e3. Antes disso, n\u00e3o havia nenhum combate \u00e0 pr\u00e1tica &#8211; era comum pescadores de final de semana, vindos de Manaus e cidades pr\u00f3ximas, voltarem para casa com isopores cheios de tucunar\u00e9s, peixes que foram ficando cada vez mais raros.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a fiscaliza\u00e7\u00e3o, os peixes maiores, justamente os que atraem os praticantes da pesca esportiva, passaram a ser protegidos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O tucunar\u00e9, com o manejo, tem aumentado. T\u00ednhamos relatos de pescadores esportivos que, em 2014, n\u00e3o encontravam mais peixes grandes. S\u00f3 pequenos, e em pouca quantidade. Agora, temos relatos de peixes de oito, dez quilos&#8221;, diz Gon\u00e7alves.<\/p>\n\n\n\n<p>Como parte dos esfor\u00e7os para a diversifica\u00e7\u00e3o do turismo, segundo o gestor da RDS do Uatum\u00e3, algumas pousadas constru\u00edram trilhas com acesso a cachoeiras e \u00e1reas de igap\u00f3s (um tipo de vegeta\u00e7\u00e3o caracter\u00edstico da Amaz\u00f4nia onde s\u00e3o comuns esp\u00e9cies como vit\u00f3ria-r\u00e9gia, orqu\u00eddeas e brom\u00e9lias).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/159BB\/production\/_109470588_uatuma4.jpg\" alt=\"O ribeirinho Jos\u00e9 Camilo da Silva mostra um buriti\"\/><figcaption>O ribeirinho Jos\u00e9 Camilo da Silva mostra um buriti, numa das trilhas abertas para uma pousada<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A reserva tem tamb\u00e9m \u00e1reas altas para a constru\u00e7\u00e3o de mirantes. &#8220;A ideia daqui para frente \u00e9 fortalecer o ecoturismo e o turismo de base comunit\u00e1ria, j\u00e1 que a pesca esportiva est\u00e1 consolidada&#8221;, afirma Gon\u00e7alves. &#8220;Vamos apoiar a organiza\u00e7\u00e3o dos moradores e a constru\u00e7\u00e3o de infraestrutura para atrair esse p\u00fablico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pousada de Fonteles, por exemplo, uma trilha de cerca de 3 quil\u00f4metros foi aberta e est\u00e1 sendo preparada para receber turistas. Ao longo do caminho rec\u00e9m-aberto, h\u00e1 um pequeno c\u00f3rrego canalizado com t\u00e1buas e represado para criar peixes e \u00e1reas de extra\u00e7\u00e3o de madeira para produ\u00e7\u00e3o de t\u00e1buas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas comunidades pr\u00f3ximas \u00e0 pousada, \u00e9 poss\u00edvel ver como \u00e9 produzida a farinha de mandioca na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, com mandioca brava.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto anda pelo trilha, Jos\u00e9 Camilo da Silva, de 46 anos, genro do propriet\u00e1rio Fonteles, indica ao visitante \u00e1rvores de madeira nobre, aponta pegadas de animais como pacas e on\u00e7as pintadas, imita o barulho de aves e mostra as frutas da regi\u00e3o, como o buriti, a graviola e o tucum\u00e3. \u00c9 um prot\u00f3tipo dos passeios que pretendem oferecer.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Recorde de peixes<\/h2>\n\n\n\n<p>Entusiasta das mudan\u00e7as em curso na reserva, Silva diz que a explora\u00e7\u00e3o do turismo tem como consequ\u00eancia, tamb\u00e9m, a conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ribeirinha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Antes, a gente matava um peixe de oito quilos e vendia na cidade, a R$ 5 o quilo, para ganhar R$ 40. Hoje, com ele vivo, temos umas 14 ou 15 pessoas empregadas, tirando R$ 3 mil por temporada&#8221;, afirma o ribeirinho. &#8220;Agora, temos que fazer o mesmo com a ca\u00e7a para atrair os turistas e empregar o dobro de gente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h\u00e1 melhorias a serem feitas, avaliam organizadores de grupos de turismo de pesca esportiva que vendem pacotes na reserva. Em algumas das pousadas, n\u00e3o h\u00e1 ar condicionado, por exemplo. Encontrar bons cozinheiros tamb\u00e9m \u00e9 tarefa dif\u00edcil, e h\u00e1 resist\u00eancia de alguns ribeirinhos a fazer cursos para melhorar o atendimento, diz Almir Eduardo Altram, da Pesca &amp; Mordomia, do interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10596\/production\/_109466966_peixe.jpg\" alt=\"O empres\u00e1rio Orlando Welter mostra o tucunar\u00e9 do Uatum\u00e3, que capturou praticando pesca esportiva\"\/><figcaption>O empres\u00e1rio Orlando Welter mostra o tucunar\u00e9 do Uatum\u00e3, que capturou praticando pesca esportiva; antes, n\u00e3o havia fiscaliza\u00e7\u00e3o contra pesca predat\u00f3ria<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desde o ano passado, ele leva turistas \u00e0 pousada do ribeirinho Og\u00e9simo Miranda, no Uatum\u00e3. Silvio Montibeller, da Montibeller Pesca Esportiva, de Santa Catarina, concorda. Afirma que, de fato, h\u00e1 quest\u00f5es a serem resolvidas. Mas avalia que, aos poucos, melhorias v\u00eam sendo feitas e h\u00e1 bom potencial de atrair visitantes. &#8220;A \u00fanica forma de dar errado \u00e9 se come\u00e7ar a acontecer disputas entre os propriet\u00e1rios locais&#8221;, diz Montibeller, no ramo desde os anos 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a satisfa\u00e7\u00e3o de quem j\u00e1 faz turismo na regi\u00e3o pode ser um bom indicador do caminho que vem sendo seguido no Uatum\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uma semana no rio, o empres\u00e1rio Orlando Welter, de Florian\u00f3polis (SC) fazia a viagem de volta a Manaus. Sentado em uma das primeiras poltronas da lancha, ele mostrava as fotos dos peixes fisgados, feitas com o celular. Acostumado a viajar quatro vezes ao ano para pescar, em cinco dias, contava ter pego com o irm\u00e3o, seu companheiro de viagem, 158 tucunar\u00e9s. &#8220;Batemos nosso recorde&#8221;, dizia o turista.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos poucos, o turismo ressurge na regi\u00e3o amaz\u00f4nica do rio Uatum\u00e3, d\u00e9cadas ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o de uma das hidrel\u00e9tricas que mais prejudicaram o meio-ambiente no Brasil Quem avista pela primeira vez as \u00e1rvores semi-submersas que parecem flutuar no c\u00e9u espelhado no leito do rio Uatum\u00e3, na Amaz\u00f4nia, dificilmente dir\u00e1 que este j\u00e1 foi o cen\u00e1rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":22572,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":{"0":"post-22571","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-meio-ambiente"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/bbc.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22571"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22571"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22571\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22573,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22571\/revisions\/22573"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}