{"id":21194,"date":"2019-10-16T09:16:47","date_gmt":"2019-10-16T12:16:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=21194"},"modified":"2019-10-16T09:16:48","modified_gmt":"2019-10-16T12:16:48","slug":"o-coringa-que-existe-em-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/10\/16\/o-coringa-que-existe-em-nos\/","title":{"rendered":"O Coringa que existe em n\u00f3s"},"content":{"rendered":"\n<p>*Fl\u00e1vio Cordeiro<\/p>\n\n\n\n<p>Assisti Coringa neste final de semana. H\u00e1 tempos n\u00e3o sa\u00eda de uma sala de cinema t\u00e3o incomodado. Creio ser essa uma das fun\u00e7\u00f5es principais da arte: incomodar para acordar. O mecanismo dos pesadelos \u00e9, mais ou menos, o mesmo. O pesadelo nos faz despertar incomodados por uma quest\u00e3o que precisa ser encarada ou, do contr\u00e1rio, permanecer\u00e1 nos assombrando noites a fio. A arte, por vezes, com beleza e emo\u00e7\u00e3o, incomoda pelo mesmo motivo: nos apresenta um tema indigesto com o qual, como sociedade, precisamos lidar. Coringa \u00e9 certamente indigesto.<\/p>\n\n\n\n<p>Coringa n\u00e3o fala de um louco; fala do processo de enlouquecimento que uma sociedade insana \u00e9 capaz de produzir atrav\u00e9s do massacre cotidiano que imp\u00f5e aos seus membros mais fragilizados. Portanto, fala de todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, no s\u00e1bado pela manh\u00e3, antes de decidir comprar ingressos para o filme, reli, meio ao acaso, \u201cA Pol\u00edtica da Experi\u00eancia\u201d, de Ronald Laing, psiquiatra escoc\u00eas que j\u00e1 citei num recente artigo&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.jb.com.br\/colunistas\/olhar_para_dentro\/2019\/08\/1015113-alma-em-chamas.html\">AQUI<\/a>. Este livro pode ser lido como uma esp\u00e9cie de making of do Coringa. Diz Laing, escrevendo em 1967: \u201cNa Gr\u00e3-Bretanha, no momento, existem cerca de 60.000 homens e mulheres internados em manic\u00f4mios. Uma crian\u00e7a nascida hoje na Gr\u00e3-Bretanha tem dez vezes mais oportunidades de ingressar num manic\u00f4mio que numa universidade. Isso pode ser considerado um sinal de que estamos enlouquecendo nossos filhos com muito mais efic\u00e1cia do que os estamos educando. Talvez seja nossa pr\u00f3pria maneira de educ\u00e1-los que os enlouque\u00e7a\u201d. Enquanto assistia a dan\u00e7a do Coringa no cinema, essas palavras martelavam na minha cabe\u00e7a, e eu me peguei pensando: quantos Coringas foram constru\u00eddos nessas cinco d\u00e9cadas que separam os escritos de Laing dos dias atuais?<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a medicina e a ci\u00eancia continuam buscando uma suposta origem org\u00e2nica para a loucura, Laing nos confronta com uma importante quest\u00e3o: at\u00e9 que ponto a loucura \u00e9 um produto social? Descaso, desprezo, abusos, humilha\u00e7\u00e3o, pobreza end\u00eamica, exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua \u00e0 viol\u00eancia; esses s\u00e3o todos aspectos sociais envolvidos no processo do enlouquecimento. S\u00e3o todos produtos de Gotham City.<\/p>\n\n\n\n<p>Jung, que foi psiquiatra no maior hospital psiqui\u00e1trico da Su\u00ed\u00e7a, num tempo em que o psiquiatra residia com a sua fam\u00edlia no hospital, afirma que se nos dermos ao trabalho de escutar com cuidado e aten\u00e7\u00e3o \u00e0quela pessoa que se encontra mentalmente adoecida, o discurso que parece absurdo, adquire subitamente um sentido. Ao descobrir um sentido no sem-sentido, h\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o mais humana daquela pessoa que sofre dos mesmos problemas humanos que n\u00f3s, e, segundo Jung &#8220;nem de longe \u00e9 uma m\u00e1quina cerebral em desordem\u201d; assim, continua ele: &#8220;Passamos a reconhecer na loucura apenas uma rea\u00e7\u00e3o inusitada a problemas emocionais que pertencem a todos n\u00f3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que infere-se a partir da vis\u00e3o de Jung \u00e9 que h\u00e1 um Coringa muito mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s do que supomos ou gostar\u00edamos de admitir, simplesmente porque, sendo humanos, estamos todos expostos ao ambiente potencialmente enlouquecedor das Gotham Cities que criamos. N\u00e3o estou me atendo \u00e0s explos\u00f5es de viol\u00eancia do personagem no filme, mas sim ao fato de que a realidade social massacrante \u00e9 capaz de tornar a vida t\u00e3o insuport\u00e1vel a ponto de tragar a integridade psicol\u00f3gica do indiv\u00edduo.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme mostra um indiv\u00edduo que revida com viol\u00eancia as mesmas viol\u00eancias e humilha\u00e7\u00f5es que sofre repetidamente. Mas, na vida real, os loucos quase nunca revidam, eles adoecem; seu del\u00edrio \u00e9 a forma que encontram para lidar com o absurdo do cen\u00e1rio inumado de Gotham City. S\u00e3o, ao contr\u00e1rio, as pessoas ditas \u201cnormais&#8221; que mais violentam e que d\u00e3o aval para a viol\u00eancia institucionalizada.<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra argentino Alfredo Moffatt afirma que em 30 anos de trabalho em oficinas terap\u00eauticas, com pacientes esquizofr\u00eanicos, jamais testemunhou um epis\u00f3dio de viol\u00eancia. Diz ele: \u201cOs loucos s\u00e3o boa gente, s\u00e3o pac\u00edficos\u201d, o mesmo n\u00e3o podendo dizer dos &#8220;normais\u201d. Sobre os ditos \u201cnormais&#8221;, devolvo a palavra a Ronald Laing: \u201cA pessoa \u2018normalmente alienada\u2019, em raz\u00e3o de agir mais ou menos como os demais, \u00e9 considerada s\u00e3 pois a sociedade valoriza altamente o homem normal. Homens normais mataram talvez 100.000.000 de seus semelhantes normais nos \u00faltimos cinquenta anos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de glorificar a loucura, que \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de sofrimento humano das mais graves, mas sim de relativizar a dita normalidade, dado que Gotham City e seus cidad\u00e3os \u201cnormais&#8221; produzem Coringas em s\u00e9rie.<\/p>\n\n\n\n<p>A agonizante transforma\u00e7\u00e3o de Arthur Fleck em Coringa me fez lembrar de uma antiga frase do pensador indiano Jiddu Krishnamurti: \u201cN\u00e3o \u00e9 sinal de sa\u00fade estar bem adaptado a uma sociedade doente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o Coringa dan\u00e7a, Gotham City enlouquece.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* Psic\u00f3logo e Psicoterapeuta<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Fl\u00e1vio Cordeiro Assisti Coringa neste final de semana. H\u00e1 tempos n\u00e3o sa\u00eda de uma sala de cinema t\u00e3o incomodado. 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