{"id":21100,"date":"2019-10-15T11:41:20","date_gmt":"2019-10-15T14:41:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=21100"},"modified":"2019-10-15T11:41:21","modified_gmt":"2019-10-15T14:41:21","slug":"por-que-decidi-revelar-que-fui-estuprada-quando-crianca-67-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/10\/15\/por-que-decidi-revelar-que-fui-estuprada-quando-crianca-67-anos-depois\/","title":{"rendered":"Por que decidi revelar que fui estuprada quando crian\u00e7a, 67 anos depois"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ex-ministra ganense espera que revela\u00e7\u00e3o de estupro que sofreu h\u00e1 mais de 60 anos possa ajudar meninas em posi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel<\/h4>\n\n\n\n<p>A proeminente jornalista ganense, colunista da BBC e ex-ministra Elizabeth Ohene escreveu recentemente sobre um abuso sexual que sofreu h\u00e1 mais de 60 anos, quando tinha apenas sete anos de idade. Aqui, ela explica por que decidiu tornar sua dor p\u00fablica depois de tanto tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho muita certeza se levei em conta qual seria o efeito de tornar p\u00fablica minha hist\u00f3ria sobre ter sido molestada sexualmente na inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quarta-feira passada, contei essa hist\u00f3ria na coluna semanal que escrevo para o maior jornal de circula\u00e7\u00e3o de Gana, o Daily Graphic.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou uma mulher de 74 anos e contei algo que aconteceu 67 anos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos meus melhores amigos perguntou por que eu escolhi desabafar agora. A hist\u00f3ria, ele disse, \u00e9 dif\u00edcil de ser lida. Portanto, se eu fui capaz de manter segredo por 67 anos, por que eu contei agora, por que n\u00e3o o levei ao meu t\u00famulo?<\/p>\n\n\n\n<p>Elizabeth Ohene, hoje com 74 anos, compartilhou no maior jornal de seu pa\u00eds os abusos sexuais que sofreu na inf\u00e2ncia \u2013 Reprodu\u00e7\u00e3o BBC<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Minha hist\u00f3ria<\/h1>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho certeza se queria descarregar meu fardo sobre um p\u00fablico desprevenido. Decidi h\u00e1 tempos que tinha a responsabilidade de contar essa hist\u00f3ria na esperan\u00e7a de que uma jovem em algum lugar pudesse estar protegida de sofrer o que passei.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez eu deva primeiro contar a hist\u00f3ria e depois tentarei ver se consigo explicar por que a contei.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1952, eu era uma crian\u00e7a feliz de sete anos que morava com minha av\u00f3 em nossa aldeia. Um dia, um homem, conhecido da fam\u00edlia e nosso vizinho, me arrastou para o quarto dele e me molestou sexualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho dificuldade com a terminologia para descrever o que aconteceu. N\u00e3o posso dizer que sabia o que ele havia feito naquele tempo, n\u00e3o tinha nome para o que ele fez, eu nem sequer tinha um nome para a parte do meu corpo que havia sido violada.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo o que sei \u00e9 que ele empurrou os dedos muito \u00e1speros e com unhas quebradas na minha vagina.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe width=\"336\" height=\"280\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me lembro se ele disse algo. O que trago comigo hoje, 67 anos depois, \u00e9 o cheiro esmagador de seu corpo e seus dedos \u00e1speros e com unhas quebradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, sei o que ele fez. E uma das frustra\u00e7\u00f5es que tenho \u00e9 que as normas sociais n\u00e3o me permitem descrever exatamente o que aconteceu \u2013 tenho que me bastar a dizer que fui violada ou molestada sexualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Na volta, minha av\u00f4 cuidou de minha sa\u00fade, pelo menos a sa\u00fade f\u00edsica. N\u00e3o contei a ela o que havia acontecido. Na manh\u00e3 seguinte, quando ela estava me dando banho, notou que havia pus saindo da minha vagina. Ela tomou para si que eu tinha uma infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o me perguntou se alguma coisa tinha acontecido, simplesmente come\u00e7ou a cuidar de mim. Pode ser que ela n\u00e3o tenha imaginado que algo de ruim pudesse ter acontecido com sua neta favorita.<\/p>\n\n\n\n<p>Anos depois, quando eu era adulta e tentava entender o ocorrido, essa foi a conclus\u00e3o a que cheguei. Era o cen\u00e1rio mais f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve uma outra ocasi\u00e3o, aos 11 anos. Fui estuprada violentamente e pelo mesmo homem.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed est\u00e1, consegui falar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o posso dizer que compreendi melhor o segundo epis\u00f3dio, mas a carga foi maior e eu acho que estive mais perto do que agora chamaria de trauma psicol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas suponho que seja justo dizer que sobrevivi e n\u00e3o acho que tenha ficado irremediavelmente ferida por essas experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiz o que seria considerado um sucesso razo\u00e1vel da minha vida como jornalista, escritora e uma funcion\u00e1ria do governo. Tenho 74 anos e, se eu morrer hoje, no cen\u00e1rio ganense, meu obitu\u00e1rio teria um t\u00edtulo como \u201cCelebra\u00e7\u00e3o da Vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, seria considerado que levei uma vida plena.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, me perguntaram, por que falar agora desse assunto desagrad\u00e1vel e sujo?<\/p>\n\n\n\n<p>Sinto fortemente que h\u00e1 uma aceita\u00e7\u00e3o escandalosa do abuso sexual de crian\u00e7as em nossa sociedade. As meninas, especialmente, correm o risco diante de homens adultos. N\u00e3o \u00e9 um assunto sobre o qual estamos dispostos a falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, houve tentativas de combater os abusos, mas a tarefa \u00e9 \u00e1rdua. Se uma crian\u00e7a \u00e9 violada e algu\u00e9m corajoso ousa denunciar o caso, ela sofre muita press\u00e3o da policia para retirar a den\u00fancia e \u201cresolver o assunto em casa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea persistir na tentativa de processar o molestador, corre o risco de ser exclu\u00eddo da fam\u00edlia. Assim, pouqu\u00edssimos casos como esses chegam ao tribunal ou s\u00e3o processados \u200b\u200bcom sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Temo que outras crian\u00e7as de sete e at\u00e9 tr\u00eas anos estejam sendo submetidas ao que experimentei h\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Indigna\u00e7\u00e3o com a homossexualidade, mas n\u00e3o com os abusos<br>Acredito que essa situa\u00e7\u00e3o persistir\u00e1, a menos que estejamos prontos para conversar sobre esses assuntos. Em Gana, h\u00e1 uma grande relut\u00e2ncia em falar sobre sexo em geral, a menos que se trate de demonstrar indigna\u00e7\u00e3o com a homossexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que existe um consenso geral de que os ganenses n\u00e3o toleram as pessoas LGBT na sua sociedade. Uma pesquisa da Pew Research descobriu que apenas 3% da popula\u00e7\u00e3o diz que a homossexualidade deve ser aceita. H\u00e1 uma forte resist\u00eancia em admitir pessoas LGBT na nossa sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade religiosa est\u00e1 unida e parece haver a suspeita de que a educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas prim\u00e1rias n\u00e3o apenas \u00e9 contra nossa cultura e \u201cn\u00e3o-ganense\u201d, mas uma tentativa de introduzir a homossexualidade em nossa sociedade pela porta dos fundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, o pa\u00eds entrou em uma verdadeira histeria em massa quando surgiu uma suposta tentativa de introduzir no curr\u00edculo escolar uma disciplina sobre educa\u00e7\u00e3o sexual. Para acalmar as coisas, foi preciso uma declara\u00e7\u00e3o do presidente negando qualquer inten\u00e7\u00e3o de lan\u00e7ar algo do tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 dif\u00edcil suscitar esse debate sobre o abuso em relacionamentos heterossexuais, especialmente onde o equil\u00edbrio de poder \u00e9 mais pesado contra a mulher.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-50050089\">Se eu ajudei, irei para o t\u00famulo feliz \u2013 Leia a mat\u00e9ria completa aqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex-ministra ganense espera que revela\u00e7\u00e3o de estupro que sofreu h\u00e1 mais de 60 anos possa ajudar meninas em posi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel A proeminente jornalista ganense, colunista da BBC e ex-ministra Elizabeth Ohene escreveu recentemente sobre um abuso sexual que sofreu h\u00e1 mais de 60 anos, quando tinha apenas sete anos de idade. 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