{"id":20896,"date":"2019-10-11T13:16:53","date_gmt":"2019-10-11T16:16:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=20896"},"modified":"2019-10-11T13:16:54","modified_gmt":"2019-10-11T16:16:54","slug":"terapia-inedita-na-america-latina-devolve-futuro-a-paciente-com-cancer-terminal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/10\/11\/terapia-inedita-na-america-latina-devolve-futuro-a-paciente-com-cancer-terminal\/","title":{"rendered":"Terapia in\u00e9dita na Am\u00e9rica Latina devolve futuro a paciente com c\u00e2ncer terminal"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">M\u00e9dicos da USP aplicaram pela primeira vez imunoterapia que usa c\u00e9lulas T do paciente para tratar linfoma grav\u00edssimo<\/h4>\n\n\n\n<p>m funcion\u00e1rio p\u00fablico aposentado de 63 anos, morador de Belo Horizonte, chegou ao Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto da USP, no interior de S\u00e3o Paulo, com um quadro de sa\u00fade grav\u00edssimo. Lutando contra o c\u00e2ncer desde 2017, ele j\u00e1 havia passado por radioterapia e quimioterapia, sem sucesso. A batalha parecia fadada \u00e0 derrota quando os m\u00e9dicos conseguiram autoriza\u00e7\u00e3o para tentar uma nova terapia, que levou \u00e0 remiss\u00e3o total da doen\u00e7a. Foi assim que o aposentado se tornou o primeiro paciente da Am\u00e9rica Latina tratado com c\u00e9lulas CAR T.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsse paciente \u00e9 portador de um linfoma n\u00e3o Hodgkins avan\u00e7ado, uma doen\u00e7a agressiva. Ele j\u00e1 foi submetido a quatro linhas de tratamento pr\u00e9vias, teve uma resposta muito ruim, inclusive refrat\u00e1ria a algumas delas, e veio justamente para fazer o&nbsp;<em>CAR T-cell<\/em>\u201d, conta Renato Cunha, m\u00e9dico que cuida do caso em Ribeir\u00e3o Preto. Cunha est\u00e1 \u00e0 frente da tarefa de desenvolver uma plataforma brasileira de terapia com c\u00e9lulas CAR T no \u00e2mbito do Centro de Terapia Celular (CTC), um Centro de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp) sediado na USP.<\/p>\n\n\n\n<p><em>CAR T-cell<\/em>, do ingl\u00eas, significa \u201cc\u00e9lula T com receptor de ant\u00edgeno quim\u00e9rico\u201d. O complicado nome indica que o tratamento usa c\u00e9lulas geneticamente modificadas. Trata-se de uma terapia recente para combater o c\u00e2ncer. Nos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration, um \u00f3rg\u00e3o de vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria semelhante \u00e0 nossa Anvisa) liberou a terapia para uso comercial em 2018. L\u00e1, como em outros pa\u00edses ricos, os resultados s\u00e3o t\u00e3o promissores que renderam aos seus precursores o pr\u00eamio Nobel de Fisiologia e Medicina no ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO c\u00e2ncer, todo mundo sabe, \u00e9 um desafio. Os tratamentos t\u00eam melhorado muito e esse tratamento com as c\u00e9lulas CAR T \u00e9 um dos mais promissores que existem no momento. \u00c9 um tratamento dispon\u00edvel em poucos pa\u00edses\u201d, afirma o m\u00e9dico hematologista Dimas Tadeu Covas, professor da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (FMRP) da USP e coordenador do CTC. \u201cN\u00f3s desenvolvemos uma tecnologia toda nossa, toda nacional, dentro de um instituto p\u00fablico, dentro de um hospital p\u00fablico, apoiado pela USP, pela Fapesp, pelo CNPq&nbsp;<em>[Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico]&nbsp;<\/em>e&nbsp;pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Portanto, (\u00e9) um tratamento que se destina aos nossos pacientes do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS)\u201d, completa o professor.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal problema da terapia com c\u00e9lulas CAR T \u00e9 o custo. Segundo Covas, nos EUA, a produ\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas e as despesas hospitalares, juntas, chegam a custar US$ 1 milh\u00e3o (mais de R$ 4 milh\u00f5es). Covas calcula que a plataforma brasileira poder\u00e1 baratear o tratamento em at\u00e9 20 vezes, na compara\u00e7\u00e3o com o custo de um produto comercial. Al\u00e9m disso, a ideia \u00e9 que o CTC mantenha aberto o protocolo de produ\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas CAR T, permitindo que outros laborat\u00f3rios reproduzam as t\u00e9cnicas para cuidar de mais pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cRepresenta um grande avan\u00e7o cient\u00edfico, porque \u00e9 um tratamento muito recente, uma tecnologia protegida por segredos industriais. E, por outro lado, \u00e9 um grande avan\u00e7o em termos sociais. Vamos poder oferecer isso, daqui a algum tempo, para a nossa popula\u00e7\u00e3o\u201c, comemora o coordenador do CTC.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Como funcionam as c\u00e9lulas CAR-T?<\/h3>\n\n\n\n<p>A terapia com c\u00e9lulas CAR T n\u00e3o \u00e9 simples. Exige uma estrutura laboratorial complexa, certificada pela Anvisa e com boas pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o. Exige tamb\u00e9m hospitais com capacidade para fazer transplantes de medula \u00f3ssea, bons laborat\u00f3rios e bom suporte de tratamento intensivo. Uma vez que as condi\u00e7\u00f5es permitam, tudo come\u00e7a com uma amostra de sangue do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso sistema imunol\u00f3gico \u00e9 composto majoritariamente de dois tipos de c\u00e9lulas especializadas. Um deles \u00e9 o linf\u00f3cito B, respons\u00e1vel por produzir anticorpos. O outro \u00e9 o linf\u00f3cito T, que funciona como um guarda do nosso organismo \u2013 \u00e9 ele que ataca as bact\u00e9rias invasoras, por exemplo. No caso do tratamento realizado em Ribeir\u00e3o Preto, o c\u00e2ncer do paciente era causado por linf\u00f3citos B doentes. E o que os pesquisadores fizeram foi extrair os linf\u00f3citos T da amostra de sangue do paciente para modific\u00e1-los geneticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>No laborat\u00f3rio, eles introduziram nessas c\u00e9lulas um vetor \u2013 uma esp\u00e9cie de v\u00edrus sint\u00e9tico que carrega no DNA a habilidade de reconhecer determinadas subst\u00e2ncias de interesse. Os linf\u00f3citos T modificados ganharam, ent\u00e3o, um receptor que lhes permite reconhecer o alvo terap\u00eautico. Foi assim que os linf\u00f3citos T se tornaram c\u00e9lulas CAR T.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, as c\u00e9lulas CAR T foram reintroduzidas no paciente. Aqui, o alvo era uma prote\u00edna chamada CD-19. Como a prote\u00edna CD-19 est\u00e1 presente na membrana dos linf\u00f3citos B doentes, agora as c\u00e9lulas modificadas conseguiam reconhecer e destruir as c\u00e9lulas cancerosas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/plugins\/advanced-wp-columns\/assets\/js\/plugins\/views\/img\/1x1-pixel.png\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/20190222_00_celulas_cancer1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-226348\"\/><figcaption>As c\u00e9lulas CAR T foram reintroduzidas no paciente e conseguiram reconhecer e destruir as c\u00e9lulas cancerosas \u2013 Foto: C\u00e9lulas humanas \u2013 Wikimedia\/National Cancer Institute<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uso compassivo<\/h3>\n\n\n\n<p>Como os estudos cl\u00ednicos do CTC com c\u00e9lulas CAR T ainda n\u00e3o est\u00e3o abertos, o paciente mineiro conseguiu o tratamento na modalidade de uso compassivo. \u201cNo tratamento compassivo o paciente te procura e pede para ser tratado como \u00faltima alternativa, porque ele n\u00e3o tem mais nenhuma op\u00e7\u00e3o. Geralmente, para fazer uso compassivo, \u00e9 aquele paciente que poderia entrar em algum estudo cl\u00ednico, mas ele n\u00e3o preenche crit\u00e9rios. Isso surgiu para ele n\u00e3o ficar sem tratamento\u201d, explica Renato Cunha.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi justamente este o caso. A fam\u00edlia do paciente havia entrado em contato com hospitais no exterior que fazem essa terapia, mas a burocracia envolvida e o alto custo do tratamento tornavam a viagem proibitiva. Eles descobriram o nome de Cunha por acaso, ao encontrar uma reportagem do final do ano passado que contava que o m\u00e9dico da USP havia ganho um pr\u00eamio da Sociedade Americana de Hematologia (ASH, em ingl\u00eas) para desenvolver o processo de produ\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas CAR T no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEle escreveu para mim e eu respondi, falei para ele que a gente n\u00e3o estava com o protocolo (de estudo cl\u00ednico) aberto. Mas ele falou, \u2018olha eu gostaria muito de ir a Ribeir\u00e3o conversar; mesmo que a gente n\u00e3o consiga fazer, eu gostaria de ter a sua opini\u00e3o sobre o meu tratamento&#8217;\u201d, relata o m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>O aposentado e o filho foram a Ribeir\u00e3o Preto conversar com Cunha e seguiram em contato com o m\u00e9dico depois. Eles tentaram o tratamento com uso compassivo de um medicamento chamado Polatuzumab, por\u00e9m, quando o c\u00e2ncer se espalhou ainda mais, decidiram insistir na possibilidade do CAR compassivo. Por sorte, a equipe de Cunha havia rec\u00e9m-finalizado as etapas de valida\u00e7\u00e3o laboratorial do processo de produ\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas.<\/p>\n\n\n\n<p>O paciente deu entrada no Hospital das Cl\u00ednicas da FMRP no come\u00e7o de setembro. Estava muito magro, tinha suor noturno, dor nos ossos e estava usando a dose m\u00e1xima de morfina. Ele foi submetido a uma aplica\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas CAR T, teve uma rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria conhecida pelos m\u00e9dicos como \u201ctempestade de citocinas\u201d e ficou semanas em observa\u00e7\u00e3o. A tempestade de citocinas foi um importante indicador de que as c\u00e9lulas CAR T haviam encontrado seu alvo. Mais de 30 dias depois, ele n\u00e3o apresenta mais sintomas cl\u00ednicos nem laboratoriais da doen\u00e7a e deve receber alta no pr\u00f3ximo s\u00e1bado (12). \u201cEle tirou a morfina, n\u00e3o tem mais suor noturno, voltou a ganhar peso e a dor que ele sente \u00e9 decorrente de uma fratura que ele teve nas costas por causa do linfoma\u201d, conta o m\u00e9dico do CTC.<\/p>\n\n\n\n<p>Cunha destaca que, dos testes feitos em laborat\u00f3rio com as c\u00e9lulas CAR T ao atendimento do paciente, tudo foi feito na cidade do interior de S\u00e3o Paulo, o que demonstra que os pesquisadores conseguiram dominar o processo. Agora, poder\u00e3o se dedicar a testar outros vetores, outros alvos terap\u00eauticos e criar um produto que possa ser adotado pelo SUS.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 como, por exemplo, produzir uma aspirina. Voc\u00ea aprende a produzir um comprimido. Naquele momento aspirina, mas depois pode ser um anador, pode ser um tilenol. O importante \u00e9 voc\u00ea ter essa tecnologia feita e bem adaptada ao nosso cen\u00e1rio. \u00c9 importante dizer isso, porque a gente agora tem uma independ\u00eancia, a gente tem a tecnologia que a gente precisa\u201d, diz o m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/plugins\/advanced-wp-columns\/assets\/js\/plugins\/views\/img\/1x1-pixel.png\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/infografia_celula-CAR-T.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-278334\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Jornal da USP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9dicos da USP aplicaram pela primeira vez imunoterapia que usa c\u00e9lulas T do paciente para tratar linfoma grav\u00edssimo m funcion\u00e1rio p\u00fablico aposentado de 63 anos, morador de Belo Horizonte, chegou ao Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto da USP, no interior de S\u00e3o Paulo, com um quadro de sa\u00fade grav\u00edssimo. 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