{"id":20712,"date":"2019-10-08T13:25:47","date_gmt":"2019-10-08T16:25:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=20712"},"modified":"2019-10-08T13:25:48","modified_gmt":"2019-10-08T16:25:48","slug":"amazonia-discurso-na-onu-lealdade-a-trump-os-riscos-da-politica-externa-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/10\/08\/amazonia-discurso-na-onu-lealdade-a-trump-os-riscos-da-politica-externa-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia, discurso na ONU, lealdade a Trump: Os riscos da pol\u00edtica externa de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"\n<p>O governo Bolsonaro tem buscado mudan\u00e7as profundas na forma como o Brasil se relaciona com o mundo. S\u00e3o guinadas na pol\u00edtica externa que geram oportunidades, mas tamb\u00e9m riscos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as mudan\u00e7as est\u00e1 o alinhamento quase autom\u00e1tico com o governo Donald Trump, a interfer\u00eancia, por meio de cr\u00edticas contundentes a candidatos, nos processos eleitorais de pa\u00edses vizinhos, o tom agressivo em organismos internacionais, e o abandono da neutralidade em conflitos externos, como nas disputas territoriais entre Israel e palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>De Salvini a Netanyahu, o &#8216;inferno astral&#8217; dos principais aliados internacionais de Bolsonaro<br>\nComo funciona o processo de impeachment contra Trump nos EUA<br>\nO discurso do presidente brasileiro na Assembleia das Na\u00e7\u00f5es Unidas, no dia 24 de setembro, fugiu da diplomacia tradicional brasileira e confirmou algumas das posi\u00e7\u00f5es que Bolsonaro tem defendido junto \u00e0 sua base eleitoral: forte oposi\u00e7\u00e3o do governo brasileiro ao regime de Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela, a Cuba e ao que ele chama de amea\u00e7a do socialismo; refor\u00e7o da pol\u00edtica ambiental baseada na amplia\u00e7\u00e3o de atividades econ\u00f4micas na Amaz\u00f4nia, e ataques \u00e0 imprensa nacional e estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta do presidente no cen\u00e1rio internacional trouxe algumas vantagens ao Brasil, como a decis\u00e3o do presidente Donald Trump de tornar o nosso pa\u00eds oficialmente um aliado estrat\u00e9gico extra-Otan (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte) -isso significa que o Brasil ter\u00e1 vantagens de acesso a tecnologia militar americana -; a promessa de Trump de interceder junto \u00e0 OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico) em favor da candidatura do Brasil e a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia cuja negocia\u00e7\u00e3o se arrastava por mais de 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, como \u00e9 comum em negocia\u00e7\u00f5es deste tipo, os ganhos obtidos at\u00e9 agora n\u00e3o foram gratuitos &#8211; houve contrapartidas controversas. E, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, as apostas na pol\u00edtica externa tamb\u00e9m geram riscos no m\u00e9dio e longo prazo, como os listados a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O risco de colocar &#8216;todas as fichas&#8217; no pol\u00edtico A<br>\nDesde que tomou posse, Bolsonaro tem investido em se aproximar de Donald Trump, num comportamento que especialistas em rela\u00e7\u00f5es exteriores dizem caracterizar um &#8220;alinhamento autom\u00e1tico&#8221;, quando uma na\u00e7\u00e3o passa a apoiar a outra em todas as quest\u00f5es de conflito internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente tamb\u00e9m tem fortalecido a alian\u00e7a com outros governos e l\u00edderes conservadores ou nacionalistas. Alguns exemplos s\u00e3o Benjamin Netanyahu, em Israel, Viktor Orban, na Hungria, e Matteo Salvini, na It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Fugindo da tradi\u00e7\u00e3o de neutralidade, Bolsonaro tem ainda opinado diretamente no processo eleitoral da Argentina, defendendo a candidatura de Mauricio Macri e fazendo cr\u00edticas pesadas ao advers\u00e1rio dele, Alberto Fernandez, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice na chapa.<\/p>\n\n\n\n<p>Direito de imagemAUGUSTIN MARCARIAN\/REUTERS<br>\nImage caption<br>\nCriticado por Bolsonaro, o peronista Alberto Fernandez est\u00e1 na dianteira da disputa presidencial da Argentina<br>\nMais de uma vez, o presidente brasileiro disse que a Argentina poder\u00e1 se tornar &#8220;uma Venezuela&#8221; se Fernandez vencer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Olhem o que est\u00e1 acontecendo na Argentina agora. A Argentina est\u00e1 mergulhando no caos. A Argentina come\u00e7a a trilhar o rumo da Venezuela, porque nas prim\u00e1rias bandidos de esquerda come\u00e7aram a voltar ao poder&#8221;, afirmou Bolsonaro em agosto, durante evento no Piau\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco dessa nova estrat\u00e9gia de pol\u00edtica externa brasileira \u00e9 o Brasil apostar fichas demais em governos que podem, eventualmente, cair ou simplesmente n\u00e3o se reeleger, aponta o professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Marco Vieira, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o acaba sendo menos pragm\u00e1tica e mais pautada na identifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica com l\u00edderes estrangeiros. Ou seja, deixa de ser uma rela\u00e7\u00e3o entre Estados, para se tornar uma rela\u00e7\u00e3o entre l\u00edderes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 uma pol\u00edtica arriscada, porque pode levar a um isolamento do Brasil. O governo est\u00e1 apostando muito numa alian\u00e7a bilateral com os Estados Unidos e \u00e9 uma alian\u00e7a que pode n\u00e3o ter futuro, a depender do resultado das elei\u00e7\u00f5es no ano que vem&#8221;, disse Vieira \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump vai tentar a reelei\u00e7\u00e3o em novembro de 2020. Mas, antes disso, ter\u00e1 que enfrentar a maior crise desde que se elegeu presidente em 2016. Ele virou alvo de um processo de impeachment por ter pedido ao presidente da Ucr\u00e2nia, Volodymyr Zelensky, que investigasse o filho do Democrata Joe Biden, potencial advers\u00e1rio do presidente americano na elei\u00e7\u00e3o do ano que vem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, se Trump \u00e9 afastado do cargo ou n\u00e3o se reelege, os benef\u00edcios que o Brasil esperava obter com essa proximidade com Estados Unidos podem n\u00e3o chegar a se concretizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Direito de imagemSHAWN THEW\/AFP<br>\nImage caption<br>\nBolsonaro tenta emplacar o filho, Eduardo Bolsonaro, como embaixador do Brasil nos EUA. O principal argumento usado foi a boa rela\u00e7\u00e3o de Eduardo com Trump. Mas o presidente americano \u00e9 alvo de um processo de impeachment e haver\u00e1 nova elei\u00e7\u00e3o presidencial nos EUA em novembro de 2020<br>\nVale lembrar que o Partido Demcrata, de oposi\u00e7\u00e3o a Trump tem tido postura cr\u00edtica ao governo Bolsonaro. Um dia depois do discurso de Bolsonaro na ONU, um grupo de 16 parlamentares apresentou uma resolu\u00e7\u00e3o \u00e0 C\u00e2mara dos Representantes para cancelar a designa\u00e7\u00e3o do Brasil como aliado preferencial extra-Otan e suspender todo o apoio militar e policial oferecido pelos EUA ao governo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os democratas ganharem a elei\u00e7\u00e3o americana em 2020, a rela\u00e7\u00e3o do Brasil com os Estados Unidos pode mudar radicalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros aliados do governo Bolsonaro tamb\u00e9m perderam poder nos \u00faltimos meses. O partido de Netanyahu, o Likud, deixou de possuir o maior n\u00famero de cadeiras no parlamento israelense: obteve 31 cadeiras, enquanto a coaliz\u00e3o Azul e Branca, liderada por Benny Gantz, conseguiu 33 dos 120 assentos, tornando-se a maior for\u00e7a no Legislativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Netanyahu tenta se manter como primeiro-ministro, apesar de j\u00e1 n\u00e3o ser o l\u00edder do partido mais votado. Mas, para isso, precisa conseguir o apoio de outros partidos ou da Alian\u00e7a Azul e Branca para formar um governo de uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o l\u00edder de ultra-direita Matteo Salvini, que j\u00e1 foi elogiado v\u00e1rias vezes por membros do governo brasileiro, perdeu posto de ministro do Interior da It\u00e1lia depois que seu plano de se tornar primeiro-ministro por meio de uma elei\u00e7\u00e3o geral antecipada fracassou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele rompeu a alian\u00e7a de seu partido, a Liga, com o populista Movimento Cinco Estrelas, o que derrubaria o governo do primeiro-minsitro Giuseppe Conte e for\u00e7aria a realiza\u00e7\u00e3o de um novo pleito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi surpreendido pela decis\u00e3o do Cinco Estrelas de se aliar ao Partido Democr\u00e1tico, de centro-esquerda. Com isso, Giuseppe Conte permaneceu no poder e Salvini perdeu a oportunidade de se candidatar, al\u00e9m de ser for\u00e7ado a deixar o posto de ministro.<\/p>\n\n\n\n<p>Direito de imagemDREW ANGERER\/GETTY IMAGES<br>\nImage caption<br>\nBolsonaro apostou na rela\u00e7\u00e3o pessoal com l\u00edderes conservadores e nacionalistas, mas alguns deles perderam poder e outros podem n\u00e3o ser reeleitos, o que pode mudar radicalmente os la\u00e7os do Brasil com essas na\u00e7\u00f5es<br>\nNa Argentina, o peronista Alberto Fernandez, que tem sido duramente criticado pelo presidente brasileiro, est\u00e1 na dianteira da corrida presidencial com Mauricio Macri, aliado de Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Brasil pode perder aliados importantes, como a Argentina, se mantivermos a pol\u00edtica de atacar e insultar o prov\u00e1vel governo que vai assumir no lugar do Macri&#8221;, ressalta o professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Marco Vieira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as op\u00e7\u00f5es de alian\u00e7as feitas por Bolsonaro tamb\u00e9m produziram benef\u00edcios, como o apoio dos Estados Unidos para a entrada do Brasil na OCDE, organiza\u00e7\u00e3o que formula pol\u00edticas p\u00fablicas e que conta com a participa\u00e7\u00e3o de algumas das maiores economias do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo ainda n\u00e3o foi conclu\u00eddo, mas fazer parte desse clube de pa\u00edses considerados mais desenvolvidos funciona como uma esp\u00e9cie de selo de qualidade e pode atrair investidores para o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algumas ocasi\u00f5es, tamb\u00e9m foram aventados riscos nas estrat\u00e9gias de pol\u00edtica externa de Bolsonaro que acabaram por n\u00e3o se concretizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia grande preocupa\u00e7\u00e3o de que a proximidade de Bolsonaro com os Estados Unidos e com Israel afastasse o Brasil de alguns de seus principais parceiros comerciais, especialmente China e pa\u00edses \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p>Direito de imagemGREG BAKER\/AFP<br>\nImage caption<br>\nPreocupa\u00e7\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o do Brasil com os EUA pudesse afetar o com\u00e9rcio com a China n\u00e3o se concretizou, diz Christopher Garman, da consultoria Eurasia<br>\nMas, segundo Christopher Garman, diretor da consultoria internacional Eurasia Group, isso n\u00e3o aconteceu\u2014 pelo menos por enquanto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Era uma preocupa\u00e7\u00e3o que a gente tinha que a postura antichinesa pudesse contaminar a rela\u00e7\u00e3o bilateral, mas n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 acontecendo&#8221;, disse Garman \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Temos uma ret\u00f3rica muito forte, belicosa, polarizante. Mas a pol\u00edtica externa est\u00e1 sendo conduzida pelo lado mais pragm\u00e1tico, tanto com a China quanto na maneira de negociar acordos de livre com\u00e9rcio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Acordo do Mercosul com a Uni\u00e3o Europeia<br>\nOs analistas entrevistados pela BBC News Brasil concordam na avalia\u00e7\u00e3o de que o acordo de com\u00e9rcio do Mercosul com a Uni\u00e3o Europeia pode ser o primeiro a sofrer concretamente com os efeitos colaterais da atual pol\u00edtica externa brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>O acordo, que ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos de todos os pa\u00edses envolvidos, foi anunciado durante a reuni\u00e3o do G20 em junho, no Jap\u00e3o, como uma das grandes vit\u00f3rias do governo Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>A expectativa \u00e9 que ele gere um aumento de US$ 87 bilh\u00f5es ao Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 15 anos, segundo estimativas do Minist\u00e9rio da Economia.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, desde a c\u00fapula do G20, a rela\u00e7\u00e3o entre Brasil e Europa estremeceu muito. A situa\u00e7\u00e3o se complicou quando os inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia ganharam a aten\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro e o presidente franc\u00eas, Emmanuel Macron, se envolveram numa s\u00e9ria troca de ofensas por causa desse epis\u00f3dio. Macron cobrou do governo brasileiro provid\u00eancias na prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, levou o assunto para ser debatido no G7, sem a participa\u00e7\u00e3o do Brasil, e sugeriu que a floresta \u00e9 patrim\u00f4nio de todos.<br> Para Marco Vieira, da Universidade de Birmingham, discurso de Bolsonaro na ONU d\u00e1 f\u00f4lego \u00e0 &#8216;ala francesa&#8217;, que seria mais &#8216;radical&#8217; que a alem\u00e3 nas suas posi\u00e7\u00f5es contra o Brasil<br> Bolsonaro rebateu acusando Macron de usar a Amaz\u00f4nia para proveito pol\u00edtico pr\u00f3prio. Dali em diante, as trocas de farpas desandaram para o ataque pessoal, especialmente depois de o presidente brasileiro endossar um coment\u00e1rio machista feito no Facebook sobre a primeira-dama francesa, Brigitte Macron.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m gerou repercuss\u00e3o internacional negativa, especialmente na Europa, o fato de Bolsonaro ter inicialmente culpado organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais pelos inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia uma expectativa de que, em seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente tentaria aplacar os \u00e2nimos, apresentando dados que demonstrassem o compromisso do governo no combate ao fogo e na prote\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que eu esperava que ele pudesse fazer \u00e9 tentar desmontar parte dos argumentos, chamar aten\u00e7\u00e3o para as a\u00e7\u00f5es positivas, o compromisso do governo com a biodiversidade e contra o desmatamento&#8221;, diz Christopher Garman, da Eurasia Group.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez disso, Bolsonaro disse que o Brasil estava sendo alvo de &#8220;ataques sensacionalistas&#8221; da m\u00eddia internacional e fez refer\u00eancia indireta \u00e0 Fran\u00e7a e \u00e0 Alemanha, dizendo que &#8220;um ou outro pa\u00eds, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da m\u00eddia e se portou de forma desrespeitosa, com esp\u00edrito colonialista&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Direito de imagemLUCAS JACKSON\/ REUTERS<br>\nImage caption<br>\nHouve uma expectativa frustrada de que Bolsonaro usasse o discurso na ONU para apresentar dados positivos de combate aos inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia<br>\n&#8220;Ele focou na quest\u00e3o do ataque \u00e0 soberania do Brasil. Ent\u00e3o, externamente, n\u00e3o se passou a vis\u00e3o de que esse \u00e9 um governo comprometido com o combate ao desmatamento&#8221;, avalia Garman.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios pa\u00edses europeus est\u00e3o agora usando a quest\u00e3o ambiental para tentar derrubar o acordo comercial com o Mercosul, que ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>O parlamento da \u00c1ustria, por exemplo, aprovou uma mo\u00e7\u00e3o contra o texto e parlamentares franceses, irlandeses e alem\u00e3es j\u00e1 manifestaram a inten\u00e7\u00e3o de rejeitar o acordo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Obviamente existem interesses outros. A Fran\u00e7a, por exemplo, sofre uma press\u00e3o muito grande dom\u00e9stica do setor agr\u00edcola, que n\u00e3o v\u00ea o acordo com bons olhos. Mas a posi\u00e7\u00e3o de Bolsonaro sobre meio ambiente permite que essa quest\u00e3o seja usada a favor desses interesses&#8221;, diz Marco Vieira, da Universidade de Birmingham.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Macron vai criar uma imagem na Fran\u00e7a de lideran\u00e7a na \u00e1rea ambiental para fragilizar o acordo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Perda de privil\u00e9gios na OMC<br>\nOutro aspecto da pol\u00edtica externa brasileira afetada pela guinada nas estrat\u00e9gias internacionais do governo \u00e9 o comercial.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 foi mencionado nesta reportagem, a parceria do governo com os EUA foi extremamente importante para que o Brasil obtivesse o apoio para entrar na OCDE. E, se de fato for aceito nessa organiza\u00e7\u00e3o, nosso pa\u00eds poder\u00e1 ser mais atraente para investimentos externos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o apoio americano n\u00e3o saiu de gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em troca, o Brasil ofereceu retirar a exig\u00eancia de visto de turista para americanos e abriu m\u00e3o do tratamento diferenciado, como pa\u00eds em desenvolvimento, nas negocia\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, a OMC.<\/p>\n\n\n\n<p>O tratamento diferenciado prev\u00ea benef\u00edcios para pa\u00edses emergentes em negocia\u00e7\u00f5es com na\u00e7\u00f5es ricas. O Brasil tinha, por exemplo, mais prazo para cumprir determina\u00e7\u00f5es e margem maior para proteger produtos nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Direito de imagemALAN SANTOS\/PR<br>\nImage caption<br>\nAs op\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica externa de Bolsonaro trouxeram alguns benef\u00edcios concretos ao pa\u00eds, como a designa\u00e7\u00e3o do Brasil como aliado preferencial extra-Otan dos EUA e o apoio americano ao pleito brasileiro de entrada na OCDE<br>\nAbrir m\u00e3o disso foi uma exig\u00eancia do governo Trump para apoiar o Brasil na OCDE. Al\u00e9m do impacto direto nas futuras negocia\u00e7\u00f5es comerciais brasileiras, essa decis\u00e3o afetou a nossa rela\u00e7\u00e3o com pa\u00edses dos BRICS- grupo formado por Brasil, R\u00fassia, China, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque essas na\u00e7\u00f5es v\u00e3o acabar sendo mais pressionadas a abrir, tamb\u00e9m, m\u00e3o do tratamento diferenciado. E a \u00cdndia j\u00e1 est\u00e1 retaliando o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na OMC, a \u00cdndia j\u00e1 vetou outro dia a nomea\u00e7\u00e3o de um embaixador brasileiro para negociar quest\u00f5es na \u00e1rea de pesca e foi um veto ligado exatamente a essa negocia\u00e7\u00e3o entre Estados Unidos e Brasil pela entrada na OCDE&#8221;, explica o professor Marco Vieira.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Portanto, o Brasil est\u00e1 se isolando n\u00e3o s\u00f3 no contexto de economias-chave na Europa e no acordo do Mercosul, mas tamb\u00e9m com parceiros do Sul global: as economias emergentes como a \u00cdndia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro temor \u00e9 que o Brasil tenha perdido aliados importantes na Europa para o seu pleito de entrada na OCDE.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A reprova\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas internas do Brasil na \u00e1rea ambiental e outras \u00e1reas, como de prote\u00e7\u00e3o de minorias, vai ter um impacto claro na OCDE&#8221;, opina Marco Vieira, da Universidade de Birmingham.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A ala liderada pela Fran\u00e7a, mais radical, de tentar mudar o comportamento do governo brasileiro atrav\u00e9s de san\u00e7\u00f5es e boicotes, ganhou for\u00e7a com o discurso de Bolsonaro na ONU. O pleito brasileiro na OCDE pode ficar invi\u00e1vel, apesar do apoio dos Estados Unidos, porque a entrada precisa ser aprovada por consenso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O embaixador Carlos M\u00e1rcio Cozendey, representante do governo brasileiro na OCDE, discorda. Segundo ele, pa\u00edses europeus n\u00e3o retiraram, pelo menos por enquanto, o apoio ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s n\u00e3o temos ainda nenhuma indica\u00e7\u00e3o nesse sentido. Ao contr\u00e1rio, continuamos a contar com o apoio da Uni\u00e3o Europeia nesse pleito e o fato \u00e9 que a legisla\u00e7\u00e3o e as pol\u00edticas do Brasil s\u00e3o bastante convergentes com as da OCDE&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Boicotes a produtos nacionais<br>\nO setor produtivo brasileiro tamb\u00e9m \u00e9 impactado pelas op\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica externa. Desde que os inc\u00eandios e o aumento do desmatamento na Amaz\u00f4nia passaram a receber aten\u00e7\u00e3o mundial, algumas grandes marcas decidiram suspender a compra de mat\u00e9ria-prima exportada pelo Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o caso da gigante varejista de fast-fashion H&amp;M e da VF Corporation, multinacional t\u00eaxtil americana que \u00e9 dona das marcas Kiplin e Timberland.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas empresas suspenderam a compra de couro vindo do Brasil ap\u00f3s suspeitas de que a expans\u00e3o da pecu\u00e1ria seria uma das raz\u00f5es por tr\u00e1s dos inc\u00eandios ilegais na Amaz\u00f4nia. O Brasil j\u00e1 recebeu tamb\u00e9m press\u00e3o de fundos de investimento trilion\u00e1rios para que desse mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses boicotes e alertas indicam que as empresas temem dano \u00e0s suas marcas se estiverem associadas de alguma forma ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, as op\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica externa do governo afetam n\u00e3o apenas a nossa rela\u00e7\u00e3o oficial com outros pa\u00edses, mas tamb\u00e9m a forma como consumidores, empresas e o p\u00fablico em geral enxergam o nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>E as consequ\u00eancias positivas ou negativas v\u00e3o al\u00e9m de acordos comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo Bolsonaro tem buscado mudan\u00e7as profundas na forma como o Brasil se relaciona com o mundo. S\u00e3o guinadas na pol\u00edtica externa que geram oportunidades, mas tamb\u00e9m riscos. 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