{"id":20195,"date":"2019-09-27T08:28:21","date_gmt":"2019-09-27T11:28:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=20195"},"modified":"2019-09-27T08:28:23","modified_gmt":"2019-09-27T11:28:23","slug":"juizes-deixam-a-toga-e-trabalham-como-garis-e-faxineiros-por-um-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/09\/27\/juizes-deixam-a-toga-e-trabalham-como-garis-e-faxineiros-por-um-dia\/","title":{"rendered":"Ju\u00edzes deixam a toga e trabalham como garis e faxineiros por um dia"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Magistrados participam de projeto \u201cVivendo o trabalho subalterno\u201d, organizado pela Escola Judicial TRT da 1\u00aa regi\u00e3o.<br><\/h4>\n\n\n\n<p>Do gabinete do f\u00f3rum para o hospital municipal Souza Aguiar no Rio de Janeiro. O caminho feito pelo juiz do Trabalho Roberto Fragale n\u00e3o foi por motivo de sa\u00fade. A raz\u00e3o, na verdade, foi por motivo de muito trabalho: por um dia, deixou as atribui\u00e7\u00f5es da magistratura para trabalhar como gari na limpeza hospitalar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cNa rotina hospitalar, tornei-me invis\u00edvel para m\u00e9dicos e enfermeiros, que sequer nos davam bom dia\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Fragale foi um dos doze magistrados que participou do projeto \u201cVivendo o trabalho subalterno\u201d, organizado pela Escola Judicial TRT da 1\u00aa regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Subalterno?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Magistrados da JT\/RJ vivenciam por um dia o trabalho subalterno de garis, faxineiros, copeiros, cobradores de \u00f4nibus, operadores de caixa, entre outros. O projeto \u00e9 realizado desde 2017 e est\u00e1 em sua terceira edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o desembargador Marcelo Augusto Souto de Oliveira, diretor da Escola Judicial, a ado\u00e7\u00e3o da palavra \u201csubalterno\u201d para batizar o projeto se explica pelo fato de ser este um termo oriundo no campo da psicologia social, o qual designa pessoas que trabalham com pouca demanda intelectual e que, de modo geral, possuem pouca instru\u00e7\u00e3o e recebem baix\u00edssima remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cS\u00e3o trabalhadores que foram \u2018subalternizados\u2019 pela sociedade, n\u00e3o que eles sejam assim, mas eles s\u00e3o tratados dessa forma pela sociedade e&nbsp;pelo sistema de produ\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para a viv\u00eancia, \u00e9 realizado um treinamento pr\u00e9vio nas empresas. A identidade dos magistrados n\u00e3o \u00e9 revelada aos demais empregados at\u00e9 o final da experi\u00eancia. O objetivo \u00e9 oferecer aos ju\u00edzes conte\u00fados que os preparem para as complexidades vivenciadas em seu cotidiano de trabalho e que os capacitem para o relacionamento com aqueles para os quais oferecem a presta\u00e7\u00e3o jurisdicional.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto teve inspira\u00e7\u00e3o na pesquisa de Fernando Braga da Costa, que escreveu o livro &#8220;Homens invis\u00edveis: relato de uma humilha\u00e7\u00e3o social&#8221;, no qual estudou a profiss\u00e3o dos garis dentro da universidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gari, cobrador de \u00f4nibus, ajudante de caminh\u00e3o&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia de Roberto Fragale como gari hospitalar foi em 2017, na primeira edi\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o, o magistrado j\u00e1 atuou em outras diversas profiss\u00f5es. Foi gari de praia, ajudante de caminh\u00e3o, auxiliar de limpeza na Fiocruz e, mais recentemente, cobrador de \u00f4nibus. Al\u00e9m de participante, ele \u00e9 coordenador da iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>O juiz faz um balan\u00e7o positivo de cada uma das experi\u00eancias:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cMe proporcionou a chance de conhecer gente, encontrar pessoas batalhadoras que fazem da luta cotidiana uma tentativa de sobreviv\u00eancia. Servi\u00e7os de limpezas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples, n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis. Em todas essas profiss\u00f5es o que eu pude aprender, sem d\u00favida, aprender \u00e9 que nada se aprende em um dia.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Fragale diz que um dos principais impactos da experi\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o dos magistrados \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o a partir de um lugar de fala diferente:&nbsp;<em>\u201cTalvez seja pouco para um mero dia de trabalho subalterno e bra\u00e7al, mas j\u00e1 \u00e9 um largo passo para que ju\u00edzes possam lan\u00e7ar sobre sua pr\u00e1tica profissional um olhar diferenciado, um olhar enriquecedor de sua constitui\u00e7\u00e3o como mais um Outro na sociedade\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Filhinha de papai&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outra magistrada que participou do projeto, foi a desembargadora\u00a0Giselle Bondim. Ela tamb\u00e9m trabalhou como gari hospitalar no hospital Souza Aguiar. A magistrada contou que viver o dia de um profissional de limpeza a colocou em contato direto com a dificuldade que a atividade pode ter, \u201cn\u00e3o s\u00f3 pelo risco constante de contamina\u00e7\u00e3o (h\u00e1 pisos com sangue e v\u00f4mito que devem ser lavados, h\u00e1 recolhimento de lixo biol\u00f3gico, h\u00e1 \u00a0risco de ferimentos por agulhas infectadas, etc.). Trabalhar em p\u00e9, por oito horas, \u00e9 algo muito cansativo, fora da minha realidade e da maior parte das profiss\u00f5es burocr\u00e1ticas. Enfim, \u00e9 um trabalho pesado, com riscos \u00e0 sa\u00fade desses trabalhadores e sobretudo essencial\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAprendi que reconhecer genericamente a import\u00e2ncia de todos os profissionais \u00e9 insuficiente. Conhecer especificamente as peculiaridades de cada profiss\u00e3o faz com que se possa dar um valor mais concreto a esse trabalho. L\u00f3gico, que \u00e9 humanamente imposs\u00edvel viver todas as profiss\u00f5es, mas cabe ao juiz do trabalho, ao examinar um processo, valorizar o ser humano que realizou aquela atividade e procurar compreender o melhor poss\u00edvel o que era aquele fazer.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando questionada se passou por alguma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil ou at\u00e9 engra\u00e7ada, a magistrada contou que sua coordenadora perguntou se ela era \u201cfilhinha de papai\u201d ap\u00f3s ser repreendida por sua postura. \u201cNa hora, neguei, desconversei e ao final do dia expliquei o projeto para todos e fui muito bem recebida por todos, que se sentiram valorizados pelo olhar da Justi\u00e7a do Trabalho sobre eles\u201d, contou.<\/p>\n\n\n\n<p>A magistrada disse que tal pergunta a levou para uma reflex\u00e3o sobre privil\u00e9gios:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c\u00c9 sobre essa distribui\u00e7\u00e3o desigual de \u201cprivil\u00e9gios\u201d que nossa sociedade deve se posicionar. Precisamos dar a todos igualdade de condi\u00e7\u00f5es para que todos possam ter igualdade de oportunidades.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Migalhas<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Magistrados participam de projeto \u201cVivendo o trabalho subalterno\u201d, organizado pela Escola Judicial TRT da 1\u00aa regi\u00e3o. Do gabinete do f\u00f3rum para o hospital municipal Souza Aguiar no Rio de Janeiro. O caminho feito pelo juiz do Trabalho Roberto Fragale n\u00e3o foi por motivo de sa\u00fade. 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