{"id":19797,"date":"2019-09-23T08:39:54","date_gmt":"2019-09-23T11:39:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=19797"},"modified":"2019-09-23T08:39:55","modified_gmt":"2019-09-23T11:39:55","slug":"o-envelhecimento-esta-aqui-para-ficardiz-alexandre-kalache","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/09\/23\/o-envelhecimento-esta-aqui-para-ficardiz-alexandre-kalache\/","title":{"rendered":"&#8216;O envelhecimento est\u00e1 aqui para ficar\u00b4diz Alexandre Kalache"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\"> Epidemiologista especializado em gerontologia, de 73 anos, tamb\u00e9m afirma que a aposentadoria pode embutir riscos para a sa\u00fade<\/h4>\n\n\n\n<p><strong>1. De onde vem seu interesse pela gerontologia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando fiz meu mestrado, em Londres, percebi que, apesar de o Reino Unido ser um pa\u00eds envelhecido, havia pouco interesse em geriatria. L\u00e1, conduzi um estudo com estudantes de medicina para saber o motivo. Entrevistei grupos, ao fim de sua passagem por uma enfermaria geri\u00e1trica, e descobri que expor esses jovens de 20, 21 anos, a pacientes de fim de linha, confusos, \u00e0s vezes abandonados pela fam\u00edlia, com patologias m\u00faltiplas, era contraproducente. Eles diziam: \u201cSomos de fam\u00edlias nucleares, com pouco contato com idosos, e isso nos apavora. Viemos para a medicina para salvar vidas, n\u00e3o para ir a enterros\u201d. A\u00ed me deu o estalo e pensei: \u201cCaramba, isso vai acontecer no Brasil tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Os m\u00e9dicos se interessam mais pelo assunto hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, abri o Congresso Brasileiro dos Estudantes de Medicina. Fiz uma provoca\u00e7\u00e3o perguntando se eles estavam ali para aprender tudo sobre crian\u00e7as e mulheres gr\u00e1vidas ou se planejavam se preparar para lidar com pessoas cada vez mais idosas. Tudo muda no envelhecimento. Eles n\u00e3o est\u00e3o aprendendo o suficiente de anatomia, de fisiologia, da intera\u00e7\u00e3o entre medicamentos. N\u00e3o adianta dizer que n\u00e3o vai ser geriatra, que vai fazer gastro, neurologia. S\u00e3o os mais velhos que v\u00e3o fazer fila na porta de seu consult\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Qual \u00e9 a perspectiva no envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2070, o Brasil vai ter, em termos absolutos, 70 milh\u00f5es de idosos, e ser\u00e1 um pa\u00eds muito mais envelhecido que o Jap\u00e3o, que hoje lidera essa lista. Se n\u00f3s vamos controlar o meio ambiente, ter energia limpa, curar a aids, tudo isso \u00e9 hipot\u00e9tico. Mas o envelhecimento est\u00e1 aqui para ficar. \u00c9 nosso destino.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Estamos preparados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os pa\u00edses europeus enriqueceram para depois envelhecer. No Brasil, esse processo est\u00e1 acontecendo com pobreza. O envelhecimento \u00e9 um somat\u00f3rio do que aconteceu no curso da vida. Se uma crian\u00e7a teve baixo n\u00edvel educacional, m\u00e3e miser\u00e1vel, pai alco\u00f3latra ou morto pela pol\u00edcia, tudo vai conspirar contra ela mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. Em que sentido nosso processo \u00e9 diferente do europeu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil vai dobrar a propor\u00e7\u00e3o de idosos, de 10% para 20%, at\u00e9 2030. Na Fran\u00e7a, foram necess\u00e1rios 145 anos para isso acontecer. Ao longo dos s\u00e9culos XIX e XX, a Fran\u00e7a era um pa\u00eds rico, com infraestrutura cada vez melhor, mais emprego, industrializa\u00e7\u00e3o, cultura vibrante. Depois da Segunda Guerra Mundial, pouco a pouco houve espa\u00e7o para criar o Estado do Bem-Estar Social, desenvolver pol\u00edticas adequadas. N\u00e3o foi algo abrupto como aqui. Hoje, quem est\u00e1 tendo filho no Brasil s\u00e3o principalmente as mulheres pobres, com menos de oito anos de escolaridade. Eu digo que a gente ousa envelhecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. Como estar\u00e3o os idosos no futuro pr\u00f3ximo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds de contrastes. Para quem est\u00e1 envelhecendo com dinheiro no bolso, nunca foi t\u00e3o bom, porque existem tecnologias para tratar as mazelas. Mas, se a gente n\u00e3o abrir o olho j\u00e1, com pol\u00edticas adequadas, vai ser um perrengue, exceto para a minoria de sempre. Sem isso, em vez de ser um pr\u00eamio, o processo se torna um fardo insuport\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7. Houve algum acerto na pol\u00edtica de sa\u00fade voltada \u00e0 longevidade no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A gente teve coisas legais, como a redu\u00e7\u00e3o do tabagismo. H\u00e1 30 anos, quase metade dos homens adultos fumava, e as mulheres estavam indo para o mesmo caminho. Hoje estamos abaixo de 10%. \u00c9 extraordin\u00e1rio. Investimos em pol\u00edticas fiscais, o pre\u00e7o aumentou, proibimos o fumo em locais p\u00fablicos, a propaganda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8. Em que outras na\u00e7\u00f5es devemos nos espelhar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Temos de olhar para os pa\u00edses que est\u00e3o envelhecendo mais rapidamente, com pouco recurso. Como nossos \u201chermanos\u201d do Chile, Uruguai, M\u00e9xico, Argentina, Col\u00f4mbia, todos \u00e0 frente da gente na \u00e1rea de envelhecimento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/epoca\/23914830-363-fc2\/FT1086A\/652\/x84266092_SOC-Rio-de-Janeiro-26-08-2019Seminario-Viva-a-Longevidade-Dani.jpg.pagespeed.ic.Ig_KHt9xAt.jpg\" alt=\"Da esquerda para a direita, Daniel Azevedo, Ana Leoni, Alexandre Kalache (mediador do debate), Andr\u00e9a Pach\u00e1, Cissa Guimar\u00e3es e Bruna Lombardi, participantes do semin\u00e1rio \u201cViva a longevidade\u201d, realiza\u00e7\u00e3o de \u00c9POCA e \u201cO Globo\u201d, em parceria com a Bradesco Seguros. Foto: Adriana Lorete \/ Ag\u00eancia O Globo\"\/><figcaption>Da esquerda para a direita, Daniel Azevedo, Ana Leoni, Alexandre Kalache (mediador do debate), Andr\u00e9a Pach\u00e1, Cissa Guimar\u00e3es e Bruna Lombardi, participantes do semin\u00e1rio \u201cViva a longevidade\u201d, realiza\u00e7\u00e3o de \u00c9POCA e \u201cO Globo\u201d, em parceria com a Bradesco Seguros. Foto: Adriana Lorete \/ Ag\u00eancia O Globo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>9. Como se d\u00e1 essa transi\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os americanos est\u00e3o come\u00e7ando a perder expectativa de vida, na contram\u00e3o de outros pa\u00edses industrializados, como o Canad\u00e1. L\u00e1, h\u00e1 uma epidemia de obesidade que leva a v\u00e1rios problemas de sa\u00fade, de diabetes a problemas cardiovasculares. A dieta deles \u00e9 muito ruim, principalmente no caso dos mais pobres. Eles est\u00e3o arrastando seu pesado corpo rumo ao t\u00famulo prematuramente. Outra grande epidemia que eles enfrentam \u00e9 a solid\u00e3o, porque n\u00e3o t\u00eam a cesta b\u00e1sica de amparo que os Estados Sociais da Europa bem ou mal ainda mant\u00eam. A terceira epidemia \u00e9 de opi\u00e1ceos. As pessoas est\u00e3o se drogando porque sua sa\u00fade mental est\u00e1 p\u00e9ssima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>10. E o setor privado, como est\u00e1 se adaptando?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A empresa que vai dar certo no futuro \u00e9 aquela que percebe que o envelhecimento \u00e9 uma coisa s\u00e9ria. Esse \u00e9 o grupo da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 crescendo, que vai consumir. Segundo o Instituto Locomotiva, R$ 1,8 trilh\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os de pessoas com mais de 55 anos. Se quiser vender um BMW, vai ser o homem acima dos 70 anos que vai conseguir pagar. Mas o setor imobili\u00e1rio continua lan\u00e7ando apartamentos de tr\u00eas e quatro quartos com playground e mezanino. Esse p\u00fablico quer saber o que setores como o automobil\u00edstico, o de turismo e entretenimento t\u00eam a oferecer a ele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>11. O senhor \u00e9 a favor do trabalho ap\u00f3s a aposentadoria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 40 anos, quem chegava aos 65 anos, sendo homem, vivia mais quatro anos e, sendo mulher, mais quatro anos e meio. Hoje, esse n\u00famero triplicou. O Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses onde a popula\u00e7\u00e3o se aposenta mais cedo. Isso \u00e9 p\u00e9ssimo, porque voc\u00ea achata a renda. A palavra aposentadoria vem de aposento, porque antigamente havia um quarto nos fundos das casas para deixar os velhos fora da vista, sem participar. Seria \u00f3timo que todos pudessem continuar a trabalhar. Eu que o diga. Mas para isso voc\u00ea tem de ter conhecimento e direitos, para continuar participando da sociedade. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 querer continuar ativo, \u00e9 ter oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>12. Qual \u00e9 o impacto emocional de se aposentar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 boas chances de ficar deprimido, com autoestima diminu\u00edda. No primeiro ano depois da aposentadoria, sobretudo para os homens, a mortalidade aumenta. O homem brasileiro est\u00e1 acostumado a investir tudo no trabalho. Quando se aposenta, ele n\u00e3o sabe o que fazer. N\u00e3o tem uma rede de comadres para poder trocar, cuidar da neta. Isso gera depress\u00e3o, aumenta a incid\u00eancia de suic\u00eddio, hipertens\u00e3o, doen\u00e7as cardiovasculares. A fam\u00edlia moderna do Brasil \u00e9 a nuclear, n\u00e3o mais a expandida. Praticamente n\u00e3o existe aquela rede, cheia de tios e tias, primos, mulheres fora da for\u00e7a de trabalho. Hoje ningu\u00e9m mais quer ou pode ficar com os idosos, visit\u00e1-los. Faltam pol\u00edticas que ajudem a segurar a barra da perda de autonomia. Na Inglaterra, vi o impacto que tinha poder levar seu paciente fragilizado para passar uma noite no hospital local comunit\u00e1rio, nem que fosse uma vez por semana. \u00c0s vezes tudo de que um cuidador precisa \u00e9 uma boa noite de sono.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>13. O que \u00e9 o conceito da Cidade Amiga do Idoso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2007, pela primeira vez na hist\u00f3ria, as \u00e1reas urbanas do mundo passaram a ter mais habitantes que as \u00e1reas rurais. Precisamos preparar nossas cidades para essa transforma\u00e7\u00e3o. O conceito come\u00e7ou a ser cunhado quando percebi que Copacabana, onde me criei, j\u00e1 era o Jap\u00e3o, com um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o acima dos 60 anos. Estudamos as dimens\u00f5es para envelhecer \u2014 em transporte, moradia, participa\u00e7\u00e3o social, acesso a servi\u00e7os, trabalho, educa\u00e7\u00e3o. O projeto deu origem a um protocolo adotado em mais de 1.000 cidades no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9poca<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epidemiologista especializado em gerontologia, de 73 anos, tamb\u00e9m afirma que a aposentadoria pode embutir riscos para a sa\u00fade 1. De onde vem seu interesse pela gerontologia? Quando fiz meu mestrado, em Londres, percebi que, apesar de o Reino Unido ser um pa\u00eds envelhecido, havia pouco interesse em geriatria. 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