{"id":18737,"date":"2019-09-02T15:22:51","date_gmt":"2019-09-02T18:22:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=18737"},"modified":"2019-09-02T15:22:53","modified_gmt":"2019-09-02T18:22:53","slug":"a-equipe-de-haitianos-que-tapa-os-buracos-no-asfalto-enquanto-sao-paulo-descansa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/09\/02\/a-equipe-de-haitianos-que-tapa-os-buracos-no-asfalto-enquanto-sao-paulo-descansa\/","title":{"rendered":"A equipe de haitianos que tapa os buracos no asfalto enquanto S\u00e3o Paulo descansa"},"content":{"rendered":"\n<p>Se tem uma coisa que o paulistano n\u00e3o gosta \u00e9 buraco no asfalto. Eles parecem ser um defeito inconceb\u00edvel e inaceit\u00e1vel para quem dirige algum dos 6.253.968 carros registrados na cidade \u2013 sem contar quem pilota outro dos ve\u00edculos computados pelo Detran, como \u00f4nibus, caminh\u00e3o, camioneta, motoneta, motocicleta, triciclo e quadriciclo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os buracos ocupam a primeira coloca\u00e7\u00e3o no ranking de reclama\u00e7\u00f5es e sugest\u00f5es da prefeitura (46.493 chamadas s\u00f3 nesse semestre), acima do cart\u00e3o de estacionamento para idoso, do inc\u00f4modo causado por algum cheiro forte, da remo\u00e7\u00e3o de entulho e da abordagem social \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, todas as noites, de segunda a s\u00e1bado, uma turma de haitianos trabalha duro no centro da cidade, embora tapar buracos seja algo como enxugar gelo. At\u00e9 julho, foram fechados 112.639 na capital. Os imigrantes formam o primeiro grupo de estrangeiros a atuar nesse setor da prefeitura paulistana &#8211; tamb\u00e9m h\u00e1 outras equipes de brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quarta-feira (28\/8), a BBC News Brasil acompanhou os preparativos para mais uma noite de trabalho em um galp\u00e3o no bairro do Glic\u00e9rio. Eram oito homens vestidos com uniformes cor de laranja, capacetes azuis e m\u00e1scaras para filtrar a fuma\u00e7a que sobe das m\u00e1quinas e do asfalto raspado no processo de elimina\u00e7\u00e3o de um buraco.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;O Haiti \u00e9 aqui&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>No geral, os haitianos chegaram a S\u00e3o Paulo sozinhos, deixando a fam\u00edlia para fugir da pobreza e da falta de perspectivas para os jovens. O pa\u00eds da Am\u00e9rica Central, um dos mais pobres do mundo, tem uma taxa de desemprego de 14% e ocupa a 168\u00ba coloca\u00e7\u00e3o no \u00cdndice de Desenvolvimento Humano das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 o Brasil \u00e9 o 79\u00ba.<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de 106 mil haitianos foram registrados no Brasil entre 2010 e 2018, segundo dados do Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es Internacionais (Obmigra), \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Nessa d\u00e9cada, o Haiti foi a nacionalidade com mais imigrantes entrando no Brasil (21,5% do total). S\u00f3 perdeu o posto no ano passado para os venezuelanos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/125B1\/production\/_108558157_dsc_0499.jpg\" alt=\"Jakson Fran\u00e7ois, que trabalha no tapa-buraco da Prefeitura de S\u00e3o Paulo\"\/><figcaption>Image captionJakson Fran\u00e7ois veio para o Brasil depois de perder uma filha no terremoto que arrasou o Haiti, em 2010<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de Jakson Fran\u00e7ois, de 31 anos, natural da pequena cidade de Jacmel.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No Haiti, s\u00f3 quem consegue chegar na faculdade s\u00e3o filhos de pol\u00edticos, de ministros, das pessoas ricas. Voc\u00ea n\u00e3o consegue emprego est\u00e1vel. Os jovens vivem de bicos. Eu tinha uma lojinha de roupas que de vez em quando vendia alguma coisa&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a vida j\u00e1 era dif\u00edcil, tudo piorou a partir de 12 de janeiro de 2010, quando um forte terremoto devastou o pa\u00eds e matou mais de 200 mil pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das v\u00edtimas era a filha de Fran\u00e7ois, que tinha apenas dois anos. &#8220;Eu estava jogando domin\u00f3 com uns amigos. O tremor demorou uns dois minutos. Quando voltei, descobri que a casa tinha ca\u00eddo em cima da minha filha. Demorei tr\u00eas dias para conseguir tir\u00e1-la dos escombros&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pisou pela primeira vez na capital paulista em 2013, durante um grande fluxo de imigra\u00e7\u00e3o haitiana ao Brasil. Na mala, trazia poucas roupas e a esperan\u00e7a de conseguir um emprego que sustentasse os parentes deixados para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pais, esposa e outro filho ficaram no Haiti enquanto Fran\u00e7ois encarava uma viagem longa, tortuosa e cara \u2013 cerca de R$ 30 mil arrecadados com parentes e com a venda de um carro antigo. &#8220;Fui para a Rep\u00fablica Dominicana, depois para o Equador. De l\u00e1, peguei v\u00e1rios \u00f4nibus at\u00e9 chegar ao Acre. Depois, mais um \u00f4nibus at\u00e9 S\u00e3o Paulo. Foram 60 dias&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E1D8\/production\/_108561875_dsc_0551.jpg\" alt=\"Funcion\u00e1rio haitiano do tapa buraco da Prefeitura de S\u00e3o Paulo\"\/><figcaption>Image captionS\u00f3 neste ano, a prefeitura fechou 112.639 buracos em S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas foi um dif\u00edcil come\u00e7o em S\u00e3o Paulo: dormiu por quatro semanas nas ruas pr\u00f3ximas \u00e0 Miss\u00e3o Paz, entidade filantr\u00f3pica e cat\u00f3lica que ajuda imigrantes rec\u00e9m-chegados \u00e0 capital. Depois, foi pe\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o civil, ajudante em empresas de eventos e assistente em um restaurante.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dois anos entrou na Potenza, uma das companhias contratadas pela prefeitura para tapar os buracos da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Do meu sal\u00e1rio, consigo enviar uns R$ 800 para a fam\u00edlia (seu sal\u00e1rio \u00e9 de R$ 1.500, registrado pela CLT). \u00c9 um dinheiro que ajuda muito. Sem isso, eles teriam muito dificuldade de sobreviver&#8221;, diz, sentado em uma sala do galp\u00e3o da prefeitura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou cinco anos sem ver a fam\u00edlia, j\u00e1 que a viagem de ida e volta ao Haiti custa em torno de R$ 6 mil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Voltar, nunca mais&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 mais tempo no Brasil e o mais fluente em portugu\u00eas, Jakson Fran\u00e7ois atua muitas vezes como int\u00e9rprete para os compatriotas que chegam a S\u00e3o Paulo. Na equipe de tapa buracos, alguns servidores s\u00f3 falam crioulo e franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jamil Pierre Louis, de 32 anos, \u00e9 um dos mais novos na equipe. Fugindo da pobreza, ele, a esposa e um filho foram para o Chile, outro pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul com forte presen\u00e7a de imigrantes haitianos. L\u00e1, tamb\u00e9m teve dificuldades para conseguir emprego. Chegou a S\u00e3o Paulo h\u00e1 oito meses e, por indica\u00e7\u00e3o de Fran\u00e7ois, logo conseguiu o trabalho no tapa buraco.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4598\/production\/_108561871_dsc_0387.jpg\" alt=\"Jamil Pierre Louis chegou h\u00e1 oito meses em S\u00e3o Paulo\"\/><figcaption>Image captionJamil Pierre Louis chegou h\u00e1 oito meses em S\u00e3o Paulo depois de uma passagem pelo Chile<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Louis e seus colegas t\u00eam essa vis\u00e3o bastante pessimista em rela\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds de origem: voltar \u00e9 uma possibilidade remota.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o penso em voltar para o Haiti, s\u00f3 voltaria de f\u00e9rias. A vida l\u00e1 \u00e9 muito dif\u00edcil. Quero que meu filho cres\u00e7a no Brasil, vire um jogador de futebol ou um doutor&#8221;, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vim para o Brasil para conseguir algo melhor. N\u00e3o volto mais. N\u00e3o tem nada para fazer l\u00e1&#8221;, afirma Lemour Michel, de 27 anos, encarregado da equipe.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No m\u00e1ximo, eu ficaria um m\u00eas para rever a fam\u00edlia. Mas, para morar, nunca mais&#8221;, diz Wildy Pierre, de 28 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2015, Pierre deixou dois filhos pequenos para vir ao Brasil em busca de emprego. Mas acabou ficando oito meses parado em S\u00e3o Paulo, vivendo de ajuda de compatriotas. Depois, trabalhou em um restaurante de comida chinesa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/93B8\/production\/_108561873_dsc_0390.jpg\" alt=\"Wildy Pierre, de 28 anos, deixou dois filhos no Haiti\"\/><figcaption>Image captionWildy Pierre deixou dois filhos no Haiti para tentar a vida em S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas n\u00e3o deu certo&#8221;, afirma. &#8220;O patr\u00e3o ficava falando que no Haiti n\u00e3o tem nem escola, que todo mundo \u00e9 burro e morre de fome. Ele falava muito palavr\u00e3o para mim. N\u00e3o aguentei e pedi para sair.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dois anos, Pierre come\u00e7ou a tapar os buracos do centro paulistano.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Em busca de um emprego<\/h2>\n\n\n\n<p>Inicialmente, os haitianos conseguiam um visto humanit\u00e1rio para permanecer no Brasil, depois que o governo brasileiro assinou um acordo com as Na\u00e7\u00f5es Unidas para receb\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a maior parte s\u00f3 conseguia essa permiss\u00e3o j\u00e1 em terras brasileiras. &#8220;Por algum motivo que n\u00e3o ficou claro, os haitianos tinham muita dificuldade para conseguir os vistos no consulado brasileiro em Porto Pr\u00edncipe (capital)&#8221;, explica Sidarta Martins, diretor do Adus (Instituto de Reintegra\u00e7\u00e3o do Refugiado).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, eles precisavam entrar no pa\u00eds por terra, principalmente pelo Acre. Esse movimento gerou uma s\u00e9rie de problemas, como a cria\u00e7\u00e3o de uma rede de coiotes que os exploravam.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Leonardo Cavalcanti, coordenador do Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es Internacionais, a conjuntura econ\u00f4mica estimulou a ida de milhares de haitianos pelo Brasil. &#8220;Depois do terremoto, a pobreza se acentuou. J\u00e1 o Brasil vivia de economia aquecida e gera\u00e7\u00e3o de empregos, al\u00e9m de grandes obras para a Copa do Mundo e das Ol\u00edmpiadas&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15708\/production\/_108561878_dsc_0465.jpg\" alt=\"A equipe de haitianos trabalha de segunda a s\u00e1bado, tapando buracos no asfalto do centro de S\u00e3o Paulo\"\/><figcaption>Image captionA equipe de haitianos trabalha de segunda a s\u00e1bado, tapando buracos no asfalto do centro de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como matar a saudade<\/h2>\n\n\n\n<p>Era por volta das 22h, e os bares estavam cheios na tradicional esquina das avenidas Ipiranga e S\u00e3o Jo\u00e3o. Enquanto os clientes bebiam cerveja, a equipe de haitianos tapava dois buracos no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho noturno e incessante das m\u00e1quinas \u00e0s vezes causa atritos com os moradores que querem dormir, pois a prefeitura prefere consertar as ruas do centro durante a noite para n\u00e3o atrapalhar o tr\u00e2nsito.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c0s vezes jogam ovos em n\u00f3s ou chamam a pol\u00edcia&#8221;, diz Jakson Fran\u00e7ois. Um funcion\u00e1rio da prefeitura explica: &#8220;Quando tem um buraco, o morador liga reclamando. Mas a\u00ed voc\u00ea vem tapar, e ele reclama tamb\u00e9m, do barulho. N\u00e3o tem o que fazer&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A meta da prefeitura \u00e9 fechar 540 mil falhas no asfalto at\u00e9 o fim do pr\u00f3ximo ano e diminuir o tempo m\u00e9dio de espera do conserto dos atuais 45 para 10 dias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/49E4\/production\/_108561981_dsc_0598.jpg\" alt=\"Equipe de haitianos do tapa-buraco da prefeitura de S\u00e3o Paulo\"\/><figcaption>Image captionEm m\u00e9dia, a prefeitura de S\u00e3o Paulo demora 45 dias para tapar um buraco na cidade<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Enquanto seus colegas tapam mais um, Wildy Pierre fala da falta que sente da fam\u00edlia. &#8220;Estou h\u00e1 quatro anos sem ver meus filhos&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como faz para matar a saudade? A gente se fala todo dia pelo telefone. Mas n\u00e3o tenho o que fazer. Eles dependem de mim e desse emprego. Eu penso assim: a vida \u00e9 uma experi\u00eancia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se tem uma coisa que o paulistano n\u00e3o gosta \u00e9 buraco no asfalto. Eles parecem ser um defeito inconceb\u00edvel e inaceit\u00e1vel para quem dirige algum dos 6.253.968 carros registrados na cidade \u2013 sem contar quem pilota outro dos ve\u00edculos computados pelo Detran, como \u00f4nibus, caminh\u00e3o, camioneta, motoneta, motocicleta, triciclo e quadriciclo. 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