{"id":18665,"date":"2019-09-02T10:13:04","date_gmt":"2019-09-02T13:13:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=18665"},"modified":"2019-09-02T10:13:07","modified_gmt":"2019-09-02T13:13:07","slug":"indios-se-aliam-a-antigos-inimigos-contra-planos-de-bolsonaro-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/09\/02\/indios-se-aliam-a-antigos-inimigos-contra-planos-de-bolsonaro-na-amazonia\/","title":{"rendered":"\u00cdndios se aliam a antigos inimigos contra planos de Bolsonaro na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem visse na semana passada um grupo de ind\u00edgenas dividindo peixes assados em folhas de bananeira numa aldeia \u00e0 beira do rio Iriri, no sul do Par\u00e1, n\u00e3o poderia imaginar que, h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, v\u00e1rios dos povos ali presentes viviam em guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>As rixas do passado \u2013 que quase levaram um desses grupos ao exterm\u00ednio \u2013 foram abandonadas em nome de um objetivo maior: lutar contra o que eles consideram amea\u00e7as do governo Jair Bolsonaro \u00e0 Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>A lista de preocupa\u00e7\u00f5es inclui planos do governo para autorizar o arrendamento e a minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas e atitudes que estariam incentivando invas\u00f5es por garimpeiros e madeireiros em seus territ\u00f3rios, al\u00e9m da contamina\u00e7\u00e3o de rios locais por agrot\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esp\u00e9cie de Assembleia Geral da ONU de povos da floresta, o encontro que ocorreu na \u00faltima semana na aldeia Kubenkokre, da Terra Ind\u00edgena Menkragnoti, dos kayap\u00f3s, reuniu representantes de 14 etnias ind\u00edgenas e de quatro reservas ribeirinhas da bacia do Xingu.<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o, que ocupa partes do Par\u00e1 e de Mato Grosso, tem \u00e1rea equivalente \u00e0 do Rio Grande do Sul e \u00e9 um dos \u00faltimos trechos preservados da Amaz\u00f4nia em sua por\u00e7\u00e3o oriental. Dados do boletim Sirad-X, por\u00e9m, indicam que\u00a0a regi\u00e3o perdeu 68,9 mil hectares de floresta\u00a0\u2013 equivalente \u00e0 \u00e1rea de Salvador \u2013 entre janeiro e junho deste ano. O boletim \u00e9 produzido pela Rede Xingu+, que organizou a assembleia e agrega 24 organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas e ind\u00edgenas da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8216;Um&nbsp;<\/strong><strong>s\u00f3 inimigo: o governo do Brasil&#8217;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Hoje n\u00f3s temos um s\u00f3 inimigo, que \u00e9 o governo do Brasil, o presidente do Brasil, e as invas\u00f5es de n\u00e3o ind\u00edgenas&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil Mudjire Kayap\u00f3, um dos l\u00edderes presentes. &#8220;Temos brigas internas, mas, para lutar contra este governo, a gente se junta&#8221;, ele afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do encontro envolveu uma log\u00edstica complexa. Ind\u00edgenas deixaram suas aldeias rumo \u00e0s cidades mais pr\u00f3ximas, onde foram recolhidos por \u00f4nibus fretados.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E0FB\/production\/_108559575_bacia2.jpg\" alt=\"Mapa Xingu\"\/><figcaption>Image captionMapa com as terras ind\u00edgenas e unidades de conserva\u00e7\u00e3o na bacia do Xingu, no Par\u00e1 e em Mato Grosso; em vermelho, a Terra Ind\u00edgena Menkragnoti, onde ocorreu o encontro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00danico ve\u00edculo jornal\u00edstico n\u00e3o ind\u00edgena a cobrir o evento, a BBC News Brasil iniciou a jornada em Sinop (MT). De l\u00e1, foram cerca de sete horas de \u00f4nibus pela BR-163 e outras sete numa estrada de terra em mata fechada at\u00e9 a aldeia, que tem cerca de 500 moradores.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no interior da terra ind\u00edgena, uma vara de porcos-do-mato cruzou a pista \u00e0 frente do \u00f4nibus. Avisados, ca\u00e7adores kayap\u00f3s foram ao local na manh\u00e3 seguinte. Voltaram com tr\u00eas porcos, que acabaram assados e servidos aos visitantes junto com carne de paca.<\/p>\n\n\n\n<p>O card\u00e1pio tamb\u00e9m oferecia arroz e feij\u00e3o, inclu\u00eddos para atender paladares mais sens\u00edveis, al\u00e9m de peixes pescados no Iriri servidos em folhas de bananeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Os debates ocorreram na casa dos homens, constru\u00e7\u00e3o no centro da aldeia, cercada por casas dispostas em um grande c\u00edrculo. Conhecidas pelas delicadas pinturas corporais, as mulheres da aldeia raramente apareciam no encontro e passavam os dias entre as ro\u00e7as e suas casas \u2013 detalhe que gerou uma saia-justa com uma visitante ribeirinha (leia mais abaixo).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Miss\u00e3o de paz<\/h2>\n\n\n\n<p>Povo ind\u00edgena mais numeroso do Xingu, com cerca de 12 mil integrantes, os kayap\u00f3s \u2013 que se autodenominam meb\u00eang\u00f4kre \u2013 fizeram quest\u00e3o de sediar o evento, o primeiro encontro da Rede Xingu+, numa aldeia ind\u00edgena (as tr\u00eas assembleias bienais anteriores foram em cidades).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sediar a reuni\u00e3o, eles queriam selar de vez a paz com os vizinhos. &#8220;N\u00e3o vamos repetir o passado, vamos ter uni\u00e3o daqui para a frente&#8221;, discursou Kadkure Kayap\u00f3, um dos caciques da aldeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos resultados do evento foi a cria\u00e7\u00e3o de um conselho entre as organiza\u00e7\u00f5es participantes para unificar demandas e agilizar sua articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Os kayap\u00f3s tamb\u00e9m buscavam fortalecer alian\u00e7as com outros grupos num momento em que o pr\u00f3prio povo est\u00e1 dividido.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9480\/production\/_108561083_doto_.jpg\" alt=\"Doto Takakire\"\/><figcaption>Image captionUm dos anfitri\u00f5es do evento, Doto Takakire aponta trechos desmatados nas bordas da bacia do Xingu<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em duas das quatro terras ind\u00edgenas da etnia, alguns l\u00edderes t\u00eam permitido a a\u00e7\u00e3o de garimpeiros e madeireiros. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave na Terra Ind\u00edgena Kayap\u00f3, onde os rios Fresco e Branco foram contaminados por merc\u00fario e desfigurados por balsas e retroescavadeiras usadas pelos garimpeiros.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ass\u00e9dio de garimpeiros<\/h2>\n\n\n\n<p>Para Doto Takakire, um dos anfitri\u00f5es do evento, a proposta do governo de liberar a minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas tornou alguns l\u00edderes mais suscet\u00edveis ao ass\u00e9dio de garimpeiros, que oferecem dinheiro em troca da permiss\u00e3o para atuar nos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Depois que eles (l\u00edderes ind\u00edgenas) pegam o dinheiro f\u00e1cil, viciam e n\u00e3o querem mais trabalhar. \u00c9 algo humano: acontece com ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>O garimpo \u00e9 hoje proibido em terras ind\u00edgenas. A libera\u00e7\u00e3o da atividade, tratada pelo governo Bolsonaro como priorit\u00e1ria, depende da aprova\u00e7\u00e3o de uma lei pelo Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra causa para o aumento do garimpo, segundo Takakire,\u00a0foi a diminui\u00e7\u00e3o nas multas aplicadas pelo Ibama, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por combater crimes ambientais em terras ind\u00edgenas. At\u00e9 o meio de agosto, o n\u00famero de autua\u00e7\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o caiu 30% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia dos \u00faltimos tr\u00eas anos para o mesmo per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem visse na semana passada um grupo de ind\u00edgenas dividindo peixes assados em folhas de bananeira numa aldeia \u00e0 beira do rio Iriri, no sul do Par\u00e1, n\u00e3o poderia imaginar que, h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, v\u00e1rios dos povos ali presentes viviam em guerra. 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