{"id":18154,"date":"2019-08-26T16:39:17","date_gmt":"2019-08-26T19:39:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=18154"},"modified":"2019-08-26T16:39:18","modified_gmt":"2019-08-26T19:39:18","slug":"pesquisadora-sobre-fogo-na-amazonia-explica-real-situacao-da-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/08\/26\/pesquisadora-sobre-fogo-na-amazonia-explica-real-situacao-da-floresta\/","title":{"rendered":"Pesquisadora sobre fogo na Amaz\u00f4nia explica real situa\u00e7\u00e3o da floresta"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Dra. Erika Berenguer \u00e9 pesquisadora s\u00eanior da Universidade de Oxford e uma das maiores refer\u00eancias sobre fogo em florestas tropicais do mundo.<\/h4>\n\n\n\n<p>*Doutora Erika Berenguer \u00e9 pesquisadora s\u00eanior da Universidade de Oxford e uma das maiores refer\u00eancias sobre fogo em florestas tropicais do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 12 anos eu trabalho na Amaz\u00f4nia e h\u00e1 10 pesquiso sobre os impactos do fogo na maior floresta tropical do mundo. Meu doutorado e meu p\u00f3s-doutorado foram sobre isso e j\u00e1 vi a floresta queimando sob os meus p\u00e9s mais vezes do que gostaria de lembrar. Me sinto ent\u00e3o na obriga\u00e7\u00e3o de trazer alguns esclarecimentos enquanto cientista e enquanto brasileira, j\u00e1 que pra maioria das pessoas a realidade amaz\u00f4nica \u00e9 t\u00e3o distante:<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, e mais importante, \u00e9 que inc\u00eandios na floresta amaz\u00f4nica n\u00e3o ocorrem de maneira natural \u2013 eles precisam de uma fonte de igni\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica ou, em outras palavras, que algu\u00e9m taque o fogo. Ao contr\u00e1rio de outros ecossistemas, como o Cerrado, a Amaz\u00f4nia N\u00c3O evoluiu com o fogo e esse N\u00c3O faz parte de sua din\u00e2mica. Isso significa que quando a Amaz\u00f4nia pega fogo, uma parte imensa de suas \u00e1rvores morrem, porque elas n\u00e3o tem nenhum tipo de prote\u00e7\u00e3o ao fogo. Ao morrerem, essas \u00e1rvores ent\u00e3o se decomp\u00f5em liberando para a atmosfera todo o carbono que elas armazenavam, contribuindo assim pras mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O problema nisso \u00e9 que a Amaz\u00f4nia armazena carbono pra caramba nas suas \u00e1rvores, a floresta inteira estoca o equivalente a 100 anos de emiss\u00f5es de CO2 dos EUA, ent\u00e3o queimar a floresta significa colocar muito CO2 de volta na atmosfera.<\/p>\n\n\n\n<p>Os inc\u00eandios, que s\u00e3o necessariamente causados pelo homem, s\u00e3o de 2 tipos: aquele usado pra limpar o ro\u00e7ado e o usado pra desmatar uma \u00e1rea; o que estamos vendo \u00e9 do segundo tipo. Para desmatar a floresta, primeiro corta-se ela, normalmente com o que \u00e9 chamado de corrent\u00e3o \u2013 dois tratores interligados por uma imensa corrente, assim com os tratores andando, a corrente entre eles vai levando a floresta ao ch\u00e3o. A floresta derrubada fica um tempo no ch\u00e3o secando, geralmente meses a dentro da esta\u00e7\u00e3o seca, pois s\u00f3 assim a vegeta\u00e7\u00e3o perde umidade suficiente pra ser poss\u00edvel colocar fogo nela, fazendo toda aquela vegeta\u00e7\u00e3o desaparecer, e sendo ent\u00e3o poss\u00edvel de plantar capim. Os grandes inc\u00eandios que estamos vendo agora e que fizeram o c\u00e9u de S\u00e3o Paulo escurecer representam ent\u00e3o esse \u00faltimo passo na din\u00e2mica do desmatamento \u2013 transformar em cinzas a floresta tombada.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da perda de carbono e de biodiversidade causadas pelo desmatamento em si, existe tamb\u00e9m uma perda mais invis\u00edvel \u2013 aquela que ocorre nas florestas queimadas. O fogo do desmatamento pode escapar para \u00e1reas n\u00e3o desmatadas e caso esteja seco o suficiente, queimar tamb\u00e9m a floresta em p\u00e9. Uma floresta que ent\u00e3o passa a estocar 40% a menos de carbono do que anteriormente ela armazenada e, de novo, carbono esse que foi perdido para a atmosfera. As florestas queimadas deixam de ser de um verde luxuriante, esbanjando vida e a cacofonia de sons dos mais diversos bichos se silencia \u2013 a floresta adquire tons de marrons e cinzas, com os \u00fanicos sons sendo aqueles de \u00e1rvores caindo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn-cv.r4you.co\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/69294210_10217737814590849_8907859852345212928_n.jpg\" alt=\"Floresta Amaz\u00f4nica antes e depois do fogo.\" class=\"wp-image-68725\"\/><figcaption>Foto do antes (com a pesquisadora) e depois da floresta Amaz\u00f4nica ap\u00f3s fogo | Cr\u00e9dito: Erika Berenguer<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A esta\u00e7\u00e3o seca na Amaz\u00f4nia sempre trouxe queimadas e h\u00e1 anos tento chamar a aten\u00e7\u00e3o pros inc\u00eandios florestais, como os de 2015, quando a floresta estava excepcionalmente seca devido ao El Ni\u00f1o. O que tem de diferente esse ano \u00e9 a dimens\u00e3o do problema. \u00c9 o aumento do desmatamento aliado aos in\u00fameros focos de queimada e ao aumento das emiss\u00f5es de mon\u00f3xido de carbono (o que mostra que a floresta est\u00e1 ardendo), o que culminou na chuva preta em S\u00e3o Paulo e no desvio de v\u00f4os de Rond\u00f4nia pra Manaus, cidades situadas a meros mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. E o mais alarmante dessa hist\u00f3ria toda \u00e9 que estamos no come\u00e7o da esta\u00e7\u00e3o seca. Em outubro, quando chegar ao auge do per\u00edodo seco no Par\u00e1, a tend\u00eancia infelizmente \u00e9 da situa\u00e7\u00e3o ficar muito pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2004 o Brasil chegou a 25000 km2 de floresta desmatados no ano. De l\u00e1 pra c\u00e1 reduzimos essa taxa em 70%. \u00c9 poss\u00edvel sim frearmos e combatermos o desmatamento, mas isso depende tanto da press\u00e3o da sociedade quanto da vontade pol\u00edtica. Depende do governo assumir a responsabilidade pelas atuais taxas de desmatamento e parar com discursos que promovam a impunidade no campo. \u00c9 preciso entender que sem a Amaz\u00f4nia n\u00e3o h\u00e1 chuva no resto do pa\u00eds, seriamente comprometendo nossa produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e nossa gera\u00e7\u00e3o de energia. \u00c9 preciso entender que a Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 um bando de \u00e1rvore juntas, mas sim nosso maior bem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 de uma dor indescrit\u00edvel ver a maior floresta tropical do mundo, meu objeto de estudo, e meu pr\u00f3prio pa\u00eds queimarem. O cheio de churrasco acompanhado do sil\u00eancio profundo numa floresta queimada n\u00e3o s\u00e3o imagens que v\u00e3o sair da minha cabe\u00e7a jamais. Foi um trauma. Mas na escala atual, n\u00e3o vai precisar ser pesquisador ou morador da regi\u00e3o pra sentir a dor da perda da Amaz\u00f4nia. As cinzas do nosso pa\u00eds agora buscam a gente at\u00e9 na grande metr\u00f3pole.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>CicloVivo<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dra. 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