{"id":17959,"date":"2019-08-23T11:45:05","date_gmt":"2019-08-23T14:45:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=17959"},"modified":"2019-08-23T11:45:07","modified_gmt":"2019-08-23T14:45:07","slug":"drauzio-varella-na-hora-em-que-voce-desiste-e-diz-agora-chega-voce-ficou-velho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/08\/23\/drauzio-varella-na-hora-em-que-voce-desiste-e-diz-agora-chega-voce-ficou-velho\/","title":{"rendered":"Drauzio Varella: &#8216;Na hora em que voc\u00ea desiste e diz agora chega, voc\u00ea ficou velho&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\"> M\u00e9dico defende restri\u00e7\u00e3o alimentar, vida intelectual e exerc\u00edcios como caminho para vida longa e saud\u00e1vel<\/h4>\n\n\n\n<p>&nbsp;S\u00e3o 16 livros publicados, incont\u00e1veis palestras, participa\u00e7\u00f5es em programas de televis\u00e3o, artigos em jornais e, mais recentemente, v\u00eddeos no YouTube e podcasts. Aos 76 anos, o oncologista mais pop do pa\u00eds n\u00e3o pensa em pendurar os estetosc\u00f3pios. Ao longo de mais de quatro d\u00e9cadas de pr\u00e1tica m\u00e9dica, auxiliou em seu consult\u00f3rio gera\u00e7\u00f5es de pacientes que precisaram lidar com os aspectos positivos e negativos do envelhecimento. Nesta entrevista ao GLOBO, o m\u00e9dico conta como enfrenta a passagem do tempo e aponta caminhos para uma vida longa e produtiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em maio, o senhor completou 76 anos. Como encara o envelhecimento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu nunca encarei. Comecei a correr quando tinha 50 anos e corro maratona at\u00e9 hoje. Acho que isso me fez muito bem. Primeiro porque tenho press\u00e3o e glicemia normais. Em hip\u00f3tese alguma levo minha idade em considera\u00e7\u00e3o. As besteiras que tinha que fazer fiz adolescente e n\u00e3o tenho vontade de repetir agora. Voc\u00ea n\u00e3o pode chegar a uma fase da vida e dizer \u2018preciso ir devagar porque estou com idade avan\u00e7ada\u2019. Vai ficar com essa idade que voc\u00ea est\u00e1 projetando. N\u00e3o quero me aposentar. Quero trabalhar, criar coisas novas, estou empenhado em diversos projetos. Voc\u00ea precisa ter essa necessidade, essa inquieta\u00e7\u00e3o. Se est\u00e1 vivo, mesmo com limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, pode continuar brilhando. Na hora em que voc\u00ea desiste e diz \u2018agora chega\u2019, voc\u00ea ficou velho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gostaria de ultrapassar a barreira dos 100 anos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com isso. Todos queremos viver muito, mas n\u00e3o a qualquer pre\u00e7o. Inclusive, a gente deveria ter direito de decidir, enquanto \u00e9 l\u00facido e tem sa\u00fade, at\u00e9 que ponto quer estar vivo. Com sorte, ser\u00e1 assim no futuro. Na hora em que eu confundir minha mulher com um par de sapatos, n\u00e3o reconhecer meus filhos e netos, ou quando perder controle dos esf\u00edncteres, n\u00e3o quero mais. Isso tem que ser um direito do cidad\u00e3o. Muita gente enfrenta velhices humilhantes. Gente que foi brilhante e vira um vegetal, manipulado por outros. Acho que essa quest\u00e3o do envelhecimento tem limites. N\u00e3o sei qual vai ser o meu. Tomara que seja 110 anos. Mas pode ser daqui a seis meses ou dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Envelhecer \u00e9 inevit\u00e1vel, mas ainda tem conota\u00e7\u00e3o negativa para muita gente. Por que \u00e9 preciso mudar essa concep\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso definir o que \u00e9 velhice. No passado, uma pessoa de 50 anos era considerada velha. Machado de Assis se refere muitas vezes, nos seus contos, a velhos dessa idade. Eu tenho uma nota de um jornal de Manaus do come\u00e7o do s\u00e9culo XX escrita assim: \u2018Caminh\u00e3o atropela velhinha de 40 anos\u2019. O conceito muda com o tempo. A expectativa de vida vem aumentando. E, al\u00e9m disso, as pessoas envelhecem com mais sa\u00fade hoje. N\u00e3o quer dizer que envelhe\u00e7am bem. Temos muito a melhorar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que o senhor costuma dizer aos seus pacientes que t\u00eam medo da velhice?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Digo sempre que a alternativa \u00e9 pior. Bem pior. \u00c9 curioso, porque todo mundo quer viver muito. Mas as pessoas come\u00e7am a envelhecer e a reclamar da velhice. \u00c9 um absurdo. Na verdade, houve uma mudan\u00e7a de paradigma. Como era o modelo das gera\u00e7\u00f5es anteriores? Um \u2018velho\u2019 de 50 anos se aposentava e ouvia dos m\u00e9dicos que deveria fazer repouso. Quanto menos esfor\u00e7o fizesse, mais sa\u00fade teria. Na realidade, \u00e9 o oposto. Essa mudan\u00e7a de perspectiva fez toda diferen\u00e7a. Na hora em que come\u00e7amos a considerar o movimento, a atividade f\u00edsica, passamos a ver pessoas com idade avan\u00e7ada e condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade que n\u00e3o nos permitem cham\u00e1-las de velhas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A chave para longevidade, ent\u00e3o, \u00e9 evitar o sedentarismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O corpo humano evoluiu para o movimento. Aqueles que se movimentavam mais, corriam mais, subiam melhor nas \u00e1rvores, tiveram vantagens na evolu\u00e7\u00e3o. Depois da Segunda Guerra Mundial, passamos a ter, pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade, a oportunidade de subsistir comendo \u00e0 vontade. E sentados o dia todo. Voc\u00ea imagina um sedent\u00e1rio na \u00e9poca das cavernas? Morreria antes da adolesc\u00eancia, sem deixar descendentes. Agora, a gente pode passar os dias assim. Para envelhecer bem, voc\u00ea precisa se convencer de duas coisas b\u00e1sicas. Primeiro: n\u00e3o d\u00e1 para comer tudo o que oferecem. Segundo: n\u00e3o d\u00e1 pra passar o dia sentado. \u00c9 preciso brigar contra a natureza humana. Nunca fomos treinados para conter o apetite. Pelo contr\u00e1rio, quando voc\u00ea tinha acesso aos alimentos, comia o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Quando conseguia, ficava parado para n\u00e3o desperdi\u00e7ar energia. \u00c9 algo ancestral. Por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil fazer exerc\u00edcios e comer com parcim\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ainda vale a pena rever h\u00e1bitos antigos aos 60, 70?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental. O cigarro \u00e9 o exemplo t\u00edpico. Voc\u00ea pega um homem que fumou a vida inteira e para aos 70 anos. Em tr\u00eas meses, a bronquite cr\u00f4nica associada ao cigarro desaparece e ele come\u00e7a a respirar melhor, a sentir-se melhor. Em qualquer idade voc\u00ea vai se beneficiar da mudan\u00e7a de h\u00e1bitos. Com a atividade f\u00edsica, a mesma coisa. Uma pessoa sedent\u00e1ria de 70 anos que comece a fazer exerc\u00edcios leves vai estimular a hipertrofia dos m\u00fasculos, a circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Existem maneiras de evitar o envelhecimento do c\u00e9rebro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quanto mais usamos o c\u00e9rebro e aprendemos coisas novas, mais fortalecida ser\u00e1 a mem\u00f3ria. Nos \u00faltimos anos, diversos trabalhos cient\u00edficos mostraram com clareza que atividade f\u00edsica, dieta sem exageros, com quantidades menores de gordura e maiores de vegetais, al\u00e9m da manuten\u00e7\u00e3o da atividade intelectual, especialmente a leitura, previnem e retardam o desenvolvimento do mal de Alzheimer. Mesmo que haja predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Brasil est\u00e1 preparado para lidar com o prolongamento da longevidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nem o Jap\u00e3o est\u00e1. \u00c9 um problema s\u00e9rio por l\u00e1, onde a popula\u00e7\u00e3o idosa \u00e9 enorme e existem muitas pol\u00edticas p\u00fablicas. Nas fam\u00edlias pequenas, a quest\u00e3o \u00e9 quem para de trabalhar e cuida dos velhos com Alzheimer. Muitas vezes, sai mais barato para o governo pagar os filhos para cuidar da m\u00e3e do que institucionaliz\u00e1-la. O Brasil est\u00e1 longe de estar preparado para isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O Globo<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9dico defende restri\u00e7\u00e3o alimentar, vida intelectual e exerc\u00edcios como caminho para vida longa e saud\u00e1vel &nbsp;S\u00e3o 16 livros publicados, incont\u00e1veis palestras, participa\u00e7\u00f5es em programas de televis\u00e3o, artigos em jornais e, mais recentemente, v\u00eddeos no YouTube e podcasts. Aos 76 anos, o oncologista mais pop do pa\u00eds n\u00e3o pensa em pendurar os estetosc\u00f3pios. 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