{"id":1469,"date":"2019-03-20T14:21:04","date_gmt":"2019-03-20T17:21:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=1469"},"modified":"2019-03-20T14:22:19","modified_gmt":"2019-03-20T17:22:19","slug":"bolsonaro-nos-eua-quais-produtos-o-brasil-poderia-vender-mais-para-os-americanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/03\/20\/bolsonaro-nos-eua-quais-produtos-o-brasil-poderia-vender-mais-para-os-americanos\/","title":{"rendered":"Bolsonaro nos EUA: quais produtos o Brasil poderia vender mais para os americanos?"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2008, um ano antes de a crise financeira derrubar em 25% o volume total de importa\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, o Brasil exportava cerca de US$ 27 bilh\u00f5es para os americanos. Uma d\u00e9cada depois, estamos praticamente no mesmo patamar: no ano passado, vendemos US$ 28,7 bilh\u00f5es em produtos b\u00e1sicos e manufaturados para nosso segundo maior parceiro comercial, atr\u00e1s apenas da China.<\/p>\n\n\n\n<p>As raz\u00f5es apontadas para a estagna\u00e7\u00e3o s\u00e3o v\u00e1rias &#8211; desde a perda de competitividade da ind\u00fastria brasileira e o foco preferencial no Mercosul at\u00e9 a dificuldade de acesso ao mercado americano &#8211; o pa\u00eds \u00e9 bastante protecionista em algumas \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p>O fortalecimento do com\u00e9rcio bilateral era uma das inten\u00e7\u00f5es da viagem do presidente Jair Bolsonaro a Washington nesta semana, a primeira visita oficial a outro chefe de Estado desde que assumiu o cargo &#8211; feito repetido apenas por Jo\u00e3o Goulart, recebido por John F. Kennedy em 1962.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Jango, Bolsonaro volta ao Brasil sem um compromisso concreto por parte dos americanos &#8211; pelo menos na quest\u00e3o espec\u00edfica do com\u00e9rcio exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>No encontro, durante coletiva de imprensa no Sal\u00e3o Oval da Casa Branca, o presidente dos EUA, Donald Trump, foi vago, afirmando que &#8220;um dos grandes elementos da rela\u00e7\u00e3o [entre os dois pa\u00edses] \u00e9 o com\u00e9rcio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Brasil faz \u00f3timos produtos. Os Estados Unidos fazem grandes produtos. Ent\u00e3o, acho que nossa rela\u00e7\u00e3o comercial com o Brasil vai crescer em ambas as dire\u00e7\u00f5es, e esperamos por isso. Acho que \u00e9 uma das coisas que o Brasil gostaria de ver acontecer.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil, por sua vez, fez uma concess\u00e3o unilateral ao pa\u00eds e anunciou que flexibilizar\u00e1 a entrada de trigo americano &#8211; 750 mil toneladas com tarifa zero. A balan\u00e7a comercial do trigo no Brasil \u00e9 estruturalmente deficit\u00e1ria &#8211; n\u00f3s n\u00e3o conseguimos produzir o suficiente para suprir nossa demanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, a decis\u00e3o sinaliza que os Estados Unidos devem tomar parte de um mercado que hoje \u00e9 da Argentina, nosso principal fornecedor da mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8C8C\/production\/_106108953_balancacomercial1db7e4bf-828f-43be-89ed-f502e0318c3c.png\" alt=\"Balan\u00e7a comercial Brasil-EUA\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Analistas ouvidos pela BBC News Brasil fazem leituras distintas do encontro. Welber Barral, ex-secret\u00e1rio de Com\u00e9rcio Exterior do governo federal, por exemplo, avalia que a primeira reuni\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o para &#8220;criar empatia&#8221;, e que o governo n\u00e3o poderia &#8220;querer muito mais que isso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fabio Silveira, s\u00f3cio-diretor da consultoria MacroSector, por outro lado, v\u00ea a viagem do presidente como uma &#8220;oportunidade perdida&#8221; para tentar &#8220;colocar na mesa&#8221; um debate sobre a redu\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es que produtos brasileiros, especialmente b\u00e1sicos, enfrentam nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quotas, subs\u00eddios aos produtores rurais e sobretaxas<\/h2>\n\n\n\n<p>Um documento datado de junho de 2018 e elaborado pela Embaixada do Brasil em Washington &#8211; assinado pelo embaixador S\u00e9rgio Amaral, que fez parte da comitiva de Bolsonaro &#8211; lista 22 &#8220;desafios&#8221; nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre eles est\u00e3o o com\u00e9rcio de produtos como a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, alum\u00ednio, carne bovina&nbsp;<em>in natura<\/em>, carne de frango, etanol, l\u00e1cteos, soja, tabaco e sider\u00fargicos como a\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos s\u00e3o itens nos quais o Brasil tem vantagens competitivas, avalia Silveira, e que esbarram em limita\u00e7\u00f5es impostas pelos EUA. A grande maioria \u00e9 de produtos b\u00e1sicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o adianta pleitear acesso ao mercado de alta tecnologia. N\u00f3s n\u00e3o temos muito futuro a n\u00e3o ser ter mais acesso ao mercado de produtos b\u00e1sicos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14FDC\/production\/_106108958_algodao.jpg\" alt=\"Planta\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o\"\/><figcaption>Image captionIncentivo ao algod\u00e3o produzido no Brasil foi piv\u00f4 da disputa mais longa do Brasil na OMC, entre 2002 e 2014<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Sobre o a\u00e7\u00facar, por exemplo, incide uma tarifa extra quando as importa\u00e7\u00f5es excedem a quota de 152,7 mil toneladas.<\/p>\n\n\n\n<p>O algod\u00e3o, por sua vez, al\u00e9m de quota tarif\u00e1ria, enfrenta a concorr\u00eancia do produto fortemente subsidiado no mercado interno.<\/p>\n\n\n\n<p>A mat\u00e9ria-prima foi piv\u00f4 de uma disputa entre os dois pa\u00edses na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), a mais longa protagonizada pelo Brasil na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O contencioso se estendeu de 2002, quando o governo brasileiro ingressou com uma queixa formal contra o incentivo dado aos produtores americanos, a 2014, com a retirada de parte dos subs\u00eddios e o compromisso dos EUA de pagamento de uma compensa\u00e7\u00e3o aos produtores de algod\u00e3o do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desses incentivos, no entanto, foram reinseridos na Lei Or\u00e7ament\u00e1ria de 2018, no chamado Bipartisan Budget Act of 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento&nbsp;<em>Desafios e Oportunidades \u00e0 Exporta\u00e7\u00e3o de Produtos Brasileiros aos Estados Unidos<\/em>&nbsp;tamb\u00e9m destaca o milho e a soja como produtos prejudicados pelos subs\u00eddios dados pelo governo americano ao agroneg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso da carne bovina&nbsp;<em>in natura<\/em>&nbsp;\u00e9 antigo. O Brasil solicitou a abertura do mercado americano para o produto em 1999 &#8211; o que foi concedido apenas em 2016. Pouco mais de um ano depois, entretanto, os EUA suspenderam as importa\u00e7\u00f5es por causa de problemas relacionados \u00e0 vacina contra febre aftosa, que vinha causando abcessos na carne.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6964\/production\/_106108962_carne.jpg\" alt=\"Frigor\u00edfico\"\/><figcaption>Image captionBrasil \u00e9 o maior exportador de carne do mundo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O a\u00e7o e o alum\u00ednio ganharam sobretaxas em 2018 no \u00e2mbito da guerra comercial entre EUA e China. A escalada de tarifas promovida pelos dois lados tem origem na vis\u00e3o do governo Trump de que os EUA s\u00e3o prejudicados pelo d\u00e9ficit na balan\u00e7a comercial com alguns pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da China, por exemplo, o desenvolvimento da ind\u00fastria exportadora se daria \u00e0 custa de empregos que poderiam ser criados nos EUA, por empresas americanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Barral, s\u00f3cio-fundador da consultoria BJM, ressalta que a sobretaxa\u00e7\u00e3o do a\u00e7o e do alum\u00ednio foi a \u00fanica medida concreta dentro da orienta\u00e7\u00e3o mais protecionista do governo Trump que de fato prejudicou o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que tenha criticado o pa\u00eds, em outubro de 2018, o presidente americano n\u00e3o chegou a anunciar medidas espec\u00edficas contra o Brasil, diz o especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, em uma coletiva de imprensa para anunciar o acordo com Canad\u00e1 e M\u00e9xico que substituiria o Tratado de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (Nafta, na sigla em ingl\u00eas), Trump afirmou que o Brasil tratava de maneira &#8220;injusta&#8221; as empresas americanas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A balan\u00e7a comercial Brasil-EUA<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar dos d\u00e9ficits consecutivos registrados nas trocas comerciais com os EUA na \u00faltima d\u00e9cada, a balan\u00e7a do Brasil com o pa\u00eds \u00e9 equilibrada, avalia Silvio Campos Neto, da Tend\u00eancias Consultoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque o saldo negativo, pontua o economista, n\u00e3o \u00e9 estrutural &#8211; ou seja, existe potencial para que o Brasil exporte mais para os americanos e, eventualmente, volte a registrar super\u00e1vits.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, ele avalia, o foco do Brasil no Mercosul &#8211; e a pol\u00edtica de dar prefer\u00eancia aos acordos costurados com todo o bloco em detrimento de acordos bilaterais &#8211; contribuiu para amornar a rela\u00e7\u00e3o com os americanos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1B44\/production\/_106108960_trumpbolso.jpg\" alt=\"Bolsonaro e Trump\"\/><figcaption>Image captionCaf\u00e9, celulose, petr\u00f3leo e a\u00e7o est\u00e3o entre os principais produtos exportados pelo Brasil aos EUA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Assim, &#8220;um canal de negocia\u00e7\u00e3o mais aberto e um foco em fazer bons acordos, mais pragm\u00e1ticos&#8221;, seria um caminho para o Brasil aumentar a corrente de com\u00e9rcio com os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os principais produtos da pauta de exporta\u00e7\u00f5es brasileira para o pa\u00eds s\u00e3o semimanufaturados de ferro e a\u00e7o, petr\u00f3leo, celulose e caf\u00e9. Juntos, esses produtos responderam por quase 30% dos embarques para os EUA em 2018, de acordo com os dados do Minist\u00e9rio da Economia referentes a 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>Do total das exporta\u00e7\u00f5es, 6,8% foram avi\u00f5es, refletindo a atua\u00e7\u00e3o &#8211; e a import\u00e2ncia &#8211; da Embraer.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os produtos que importamos dos americanos, pouco mais de 26% s\u00e3o combust\u00edveis &#8211; \u00f3leo diesel e fuel-oil (18%), g\u00e1s propano liquefeito (3,2%), gasolina (2,9%) e etanol (2,6%), levando em considera\u00e7\u00e3o os dados fechados de 2018.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E a China?<\/h2>\n\n\n\n<p>O volume de exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para a China \u00e9 mais que o dobro do que para os EUA. Em 2018, vendemos US$ 64,2 bilh\u00f5es aos chineses, alta de 35% em rela\u00e7\u00e3o a 2017, com super\u00e1vit US$ 29,4 bilh\u00f5es na balan\u00e7a comercial.<\/p>\n\n\n\n<p>A pauta das vendas do Brasil para os chineses, no entanto, \u00e9 bem menos diversificada do que com os EUA &#8211; a soja representa 43% dos embarques, o petr\u00f3leo, 22%, e o min\u00e9rio de ferro, 17%.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/101BC\/production\/_106108956_balancabrasilchina1fa045ef-c6d1-49f6-98af-c22ae1cb9474.png\" alt=\"Gr\u00e1fico da balan\u00e7a comercial Brasil-China\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apenas pela quest\u00e3o da balan\u00e7a comercial em si &#8211; afinal, metade do super\u00e1vit de 2018 veio da China -, mas por sua atua\u00e7\u00e3o como investidor.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s batemos nos chineses de forma gratuita&#8221;, diz Silveira, da MacroSector, referindo-se \u00e0 postura mais hostil de Bolsonaro em rela\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds asi\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a campanha, o capit\u00e3o reformado chegou a dizer que o pa\u00eds tentava controlar setores essenciais da economia brasileira, como o de energia, e afirmou que a China n\u00e3o estava &#8220;comprando do Brasil, mas o Brasil&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 agora foram s\u00f3 declara\u00e7\u00f5es de desconfian\u00e7a, o governo Bolsonaro ainda n\u00e3o divulgou a estrat\u00e9gia para a China&#8221;, pondera Barral.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente vem mudando o tom nos \u00faltimos dias. Em Washington, refor\u00e7ou que far\u00e1 visita ao pa\u00eds no segundo semestre e reconheceu que ele \u00e9 o principal parceiro comercial do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vou me preparar muito para essa quest\u00e3o, a China \u00e9 importante para n\u00f3s, mas o Brasil deixa de fazer de com\u00e9rcio com o mundo todo levando-se em conta o vi\u00e9s ideol\u00f3gico. \u00c9 o novo Brasil que se apresenta.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte:BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2008, um ano antes de a crise financeira derrubar em 25% o volume total de importa\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, o Brasil exportava cerca de US$ 27 bilh\u00f5es para os americanos. 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