{"id":12775,"date":"2019-06-10T09:59:13","date_gmt":"2019-06-10T12:59:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=12775"},"modified":"2019-06-10T09:59:15","modified_gmt":"2019-06-10T12:59:15","slug":"quase-em-extincao-benzedeiras-resistem-no-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/06\/10\/quase-em-extincao-benzedeiras-resistem-no-parana\/","title":{"rendered":"Quase em extin\u00e7\u00e3o, benzedeiras resistem no Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p>O que j\u00e1 foi tratado como conflito entre ci\u00eancia e f\u00e9, hoje parece pacificado. As benzedeiras, na maioria mulheres que fazem ora\u00e7\u00f5es, receitam rem\u00e9dios naturais feitos de ervas, hoje trabalham em conson\u00e2ncia com a orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. \u201cEu mando que leve no m\u00e9dico, quando vejo que \u00e9 coisa pouca, fa\u00e7o o benzimento em cima (depois do atendimento com profissional da sa\u00fade)\u201d, conta Dona Agda, de 74 anos, que h\u00e1 35 atua como benzedeira em Rebou\u00e7as, no Centro Sul paranaense. Ela \u00e9 uma das poucas que ainda restam em pequenas comunidades. Hoje, a atividade \u00e9 vista como amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com seus 14 mil habitantes, o munic\u00edpio de Rebou\u00e7as \u00e9 conhecido por ter institucionalizado a atividade de benzedeiras. Elas s\u00e3o praticamente um patrim\u00f4nio da cidade, e podem receber, desde 2010, um Certificado de Detentor de Of\u00edcio Tradicional de Sa\u00fade Popular. Hoje, mesmo com o reconhecimento, s\u00e3o apenas 35 mulheres cadastradas que utilizam de t\u00e9cnicas artesanais, medicina alternativa e acreditam ser intermedi\u00e1rias de a\u00e7\u00e3o divina para a busca de cura de pessoas que t\u00eam f\u00e9 e seguem as receitas indicadas. Essa institucionaliza\u00e7\u00e3o da atividade fez com que as benzedeiras, que muitas vezes recebem enfermos em busca de ajuda, prestam um servi\u00e7o fundamental para al\u00e9m da f\u00e9: encaminhar doentes para atendimento m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>A secret\u00e1ria municipal de Sa\u00fade de Rebou\u00e7as, Tania Selhurst, explica que a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201ctrazer as benzedeiras para perto\u201d e n\u00e3o o contr\u00e1rio. \u201cOs ch\u00e1s que elas usam, as pr\u00e1ticas todas, tem um conhecimento envolvido, mal n\u00e3o faz. O que temos feito \u00e9 trabalhado para n\u00e3o deixar elas de lado, pelo contr\u00e1rio, trazer para perto\u201d.<br>Curitiba<\/p>\n\n\n\n<p>Em Curitiba, \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil encontrar benzedeiras. O levantamento mais recente, feito em uma pesquisa do historiador Victor Augustus Graciotto Silva, aponta que em 2009 Curitiba tinha ao menos 60 benzedeiras. Hoje, o pr\u00f3prio autor do livro \u201cAs Benzedeiras Tradicionais de Curitiba\u201d afirma que desconhece um n\u00famero atual aproximado. \u201cNaquela \u00e9poca muitas j\u00e1 eram idosas\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Graciotto contou que em Curitiba tamb\u00e9m h\u00e1 exemplos de parcerias na atua\u00e7\u00e3o de benzedeiras com a medicina. Mesmo que sem participa\u00e7\u00e3o direta do munic\u00edpio, os encaminhamentos feitos pelas benzedeiras na capital \u00e9 percebido em localidades onde a cultura popular \u00e9 mais enraizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na regi\u00e3o da Unidade de Sa\u00fade Jardim Gabineto (que hoje est\u00e1 em reforma), na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), at\u00e9 pouco tempo n\u00e3o era incomum encontrar pacientes que j\u00e1 haviam passado pelos ritos da benzedeira Dovalina, ou dona Dova, como \u00e9 conhecida. Para encontr\u00e1-la, a \u00fanica forma \u00e9 circular pela regi\u00e3o e perguntar por ela, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 telefone dispon\u00edvel para contato. Mesmo assim, o atendimento \u00e9 restrito. A reportagem n\u00e3o conseguiu encontr\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Campo Largo, na Regi\u00e3o Metropolitana, uma das mais conhecidas \u00e9 a \u201cmulher do Madeuzinho\u201d, que tamb\u00e9m atende apenas a comunidade local. N\u00e3o h\u00e1 telefone ou endere\u00e7o publicado, apenas sabe-se que atende na Vila dos Pires. Dona Joana \u00e9 uma das mais antigas na fun\u00e7\u00e3o e j\u00e1 atendeu milhares de pesssoas de Campo Largo. Ela lembra que j\u00e1 chegou a atender duas mil pessoas em eventos que duravam um fim de semana.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o antrop\u00f3logo Jo\u00e3o Baptista Borges Pereira, as benzedeiras do Paran\u00e1 sofrem influ\u00eancia de uma mistura de culturas, com t\u00e9cnicas ind\u00edgenas e africanas, ligadas \u00e0s influ\u00eancias portuguesas e ao cristianismo. \u201cElas tinham uma preocupa\u00e7\u00e3o grande de fazer o bem. As benzedeiras fundamentalmente s\u00e3o pessoas do bem\u201d, diz.<br><br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mulheres de Rebou\u00e7as viraram uma marca da cidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As benzedeiras paranaenses, destacadas para participar de simp\u00f3sios e congressos no pa\u00eds inteiro, j\u00e1 s\u00e3o uma marca na cidade de Rebou\u00e7as. A presen\u00e7a imponente dessas profissionais na cren\u00e7a popular do munic\u00edpio acabou gerando uma parceria com o poder p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>A lei municipal de Rebou\u00e7as que permitiu o reconhecimento da atividade de benzedeira lista como poss\u00edveis detentores do certificado pessoas que exer\u00e7am \u201cof\u00edcios tradicionais de sa\u00fade popular em suas distintas modalidades\u201d: benzedeiros (a), curadores, costureiros (a) de rendiduras ou machucaduras e regulamenta o livre acesso \u00e0 coleta de plantas medicinais nativas no munic\u00edpio de Rebou\u00e7as, Estado do Paran\u00e1, conforme especifica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, as famosas benzedeiras do munic\u00edpio participaram de uma confer\u00eancia no Rio Grande do Sul e foram acompanhadas pelo prefeito da cidade no evento. \u201cElas sempre est\u00e3o por perto. Participaram da pr\u00e9-confer\u00eancia e da confer\u00eancia da sa\u00fade do munic\u00edpio e s\u00e3o superconsciente. N\u00f3s tamb\u00e9m reconhecemos que a f\u00e9 \u00e9 importante para as pessoas que precisam de cura, mas nada substitui o atendimento m\u00e9dico\u201d, destaca a secret\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O neurocientista S\u00e9rgio Felipe de Oliveira, especialista em medicina e espiritualidade, destaca que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) j\u00e1 admite a quest\u00e3o espiritual e que existem estudos sobre espiritualidade na pr\u00e1tica cl\u00ednica. \u201cQuando a medicina oficial, o SUS, resolve dialogar com as benzedeiras, encontra-se um ponto que permite o integrativo e esse ponto beneficia o paciente. A for\u00e7a da f\u00e9 \u00e9 tremenda, mas precisa haver afeto e amor. Uma rela\u00e7\u00e3o fria n\u00e3o abre caminhos. Uma rela\u00e7\u00e3o de afeto e amor soluciona milh\u00f5es de problemas\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cada vez mais dif\u00edcil de encontrar: \u201cA maioria j\u00e1 faleceu\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A escassez do servi\u00e7o \u00e9 confirmada por quem cresceu em meio \u00e0s benzedeiras. A professora Carla Sbrissia, que trabalha em uma escola em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais, na Regi\u00e3o Metropolitana, conta que viveu em um ambiente em que as benzedeiras eram muito comuns. \u201cSou aqui de S\u00e3o Jos\u00e9, convivi muito com as benzedeiras na minha inf\u00e2ncia. Era muito comum, mas agora parece que quase n\u00e3o tem mais. Eram sempre senhoras muito idosas que n\u00e3o passavam o conhecimento para frente, n\u00e3o sei se por falta de interesse de novas gera\u00e7\u00f5es, mas a maioria j\u00e1 at\u00e9 faleceu\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Carla conta que depois de adulta foi atendida por uma benzedeira de Curitiba, conhecida como Dona Ivone, que atendia na Vila Paranaense, no Boqueir\u00e3o. \u201cEu fui porque eu era muito magra, as pessoas tinham muita inveja de mim\u201d, conta. \u201cN\u00e3o sei se acredito, mas me senti mais leve e mais protegida depois\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Encontro em Curitiba<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba vai receber nos dias 22 e 23 de junho benzedeiras de Rebou\u00e7as, no espa\u00e7o Flor de Laranjeira, para ministrarem um curso com t\u00e9cnicas e pr\u00e1ticas tradicionais de cura. No segundo dia de evento, domGrigori Perelman, o g\u00eanio que resolveu um dos maiores problemas matem\u00e1ticos do mil\u00eanio e \u2018sumiu do mapa\u2019ingo, qualquer pessoa poder\u00e1 participar de benzimentos abertos \u00e0 comunidade. <\/p>\n\n\n\n<p>BemParan\u00e1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que j\u00e1 foi tratado como conflito entre ci\u00eancia e f\u00e9, hoje parece pacificado. 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