{"id":12229,"date":"2019-06-01T13:36:06","date_gmt":"2019-06-01T16:36:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=12229"},"modified":"2019-06-01T13:36:09","modified_gmt":"2019-06-01T16:36:09","slug":"dormir-na-rua-pedalar-30-km-e-trabalhar-12-horas-por-dia-a-rotina-dos-entregadores-de-aplicativos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/06\/01\/dormir-na-rua-pedalar-30-km-e-trabalhar-12-horas-por-dia-a-rotina-dos-entregadores-de-aplicativos\/","title":{"rendered":"Dormir na rua, pedalar 30 km e trabalhar 12 horas por dia: a rotina dos entregadores de aplicativos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Durante uma semana, a BBC News Brasil conversou com dezenas de trabalhadores do setor<br><\/h4>\n\n\n\n<p> Um deles explica: &#8220;Dou entrevista para voc\u00ea, sim, par\u00e7a. Ainda est\u00e1 suave, porque o bagulho aqui s\u00f3 estrala \u00e0s 7 horas da noite. Ent\u00e3o, nessa hora, come\u00e7a a pingar pedidos e eu n\u00e3o paro mais&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>O grande rel\u00f3gio no Conjunto Nacional, no alto da avenida Paulista, mostra que faltam 36 minutos para esse ponto de inflex\u00e3o di\u00e1ria para os aplicativos de entrega em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras: o hor\u00e1rio em que milhares de pessoas chegam em casa, olham a geladeira, desistem de cozinhar e resolvem pedir comida por alguma das plataformas dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Os entregadores aguardam esse momento do rush sentados em cal\u00e7adas pr\u00f3ximas a shopping centers, restaurantes ou supermercados. Ent\u00e3o, por volta das 19h, come\u00e7am a pipocar os pedidos nos celulares: os jovens pegam as mochilas, as bicicletas ou motos e partem para a correria da noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante uma semana, a BBC News Brasil conversou com dezenas de trabalhadores do setor em tr\u00eas pontos de concentra\u00e7\u00e3o deles na cidade: avenida Paulista e os bairros de Pinheiros e Higien\u00f3polis &#8211; locais com grande oferta de com\u00e9rcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os entregadores, no entanto, n\u00e3o moram nesses bairros. Vivem principalmente na periferia ou em cidades da Grande S\u00e3o Paulo. Para chegar ao trabalho, percorrem at\u00e9 30 km &#8211; \u00e0s vezes, pedalando.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um momento de crise econ\u00f4mica e alta do desemprego, os aplicativos de servi\u00e7os como Uber, iFood, 99 e Rappi atraem desempregados e pessoas que t\u00eam dificuldades para se inserir no mercado de trabalho com a perspectiva de obter alguma renda.<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00eas passado, um estudo do Instituto Locomotiva, publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo, apontou que quatro milh\u00f5es de pessoas trabalham para essas plataformas no Brasil hoje &#8211; 17 mih\u00f5es usam os servi\u00e7os regularmente.<\/p>\n\n\n\n<p>O aplicativo colombiano Rappi, por exemplo, come\u00e7ou a operar no pa\u00eds em julho do ano passado e hoje v\u00ea seu n\u00famero de entregas aumentar 30% ao m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o crescimento do neg\u00f3cio vem acompanhado de cr\u00edticas. Especialistas afirmam que as empresas ajudam a precarizar o trabalho, pois elas n\u00e3o costumam seguir as leis trabalhistas. Seus colaboradores fazem jornadas de trabalho muito mais longas que as oito horas previstas pela Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT), por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8216;As vantagens de ser motoboy&#8217;<\/strong><br>Nas ruas de S\u00e3o Paulo, existem duas categorias de entregadores de aplicativos: os motoqueiros e os ciclistas. Elas concorrem entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem tem uma moto recebe mais pedidos, trabalha de uma forma menos exaustiva e, principalmente, consegue ter uma renda maior &#8211; \u00e0s vezes, recebe at\u00e9 o dobro do ciclista. Os motoboys que fazem jornadas de 12 horas di\u00e1rias, por exemplo, ganham cerca de R$ 4 mil mensais, em m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de Rodrigo Versutti, 41, que conseguiu aumentar seus vencimentos migrando do servi\u00e7o de motoboy tradicional &#8211; que entrega documentos, principalmente &#8211; para o delivery de comida.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/povNGQL9Hf0x-XE4v6sGNwpxLfw=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2019\/05\/22\/entregadores_3.jpg\" alt=\"Na regi\u00e3o da avenida Paulista, o hor\u00e1rio de pico para os entregadores come\u00e7a \u00e0s 19h (Foto: LINCON ZARBIETTI, via BBC News Brasil)\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>NA REGI\u00c3O DA AVENIDA PAULISTA, O HOR\u00c1RIO DE PICO PARA OS ENTREGADORES COME\u00c7A \u00c0S 19H (FOTO: LINCON ZARBIETTI, VIA BBC NEWS BRASIL)<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, ele ganha mais, sem d\u00favida, mas precisou abrir m\u00e3o dos direitos trabalhistas da CLT, como seguro-desemprego, fundo de garantia e f\u00e9rias remuneradas. &#8220;Trabalho h\u00e1 20 anos como motoboy e nunca tive uma renda como agora&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ex-pintor de paredes, Ant\u00f4nio Francisco Alves, de 41 anos, tem trajet\u00f3ria parecida: ganha quase o dobro do que recebia no trabalho anterior. Na crise, a falta de servi\u00e7os regulares o empurrou para os aplicativos. &#8220;Parado eu n\u00e3o iria ficar. Eu tinha uma moto, mas nunca tinha trabalhado com ela&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os dias ele se posiciona na cal\u00e7ada em frente a um shopping em Higien\u00f3polis, bairro de classe m\u00e9dia alta de S\u00e3o Paulo. Trabalha das 11h \u00e0s 23h. Por que tanto tempo?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque plataforma iFood incentiva a perman\u00eancia dos entregadores no local por meio de b\u00f4nus financeiros. Se um motoboy ficar 12 horas por ali, ganha R$ 190 pelo per\u00edodo, al\u00e9m do dinheiro das entregas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode parecer vantajoso, a princ\u00edpio, mas n\u00e3o h\u00e1 garantias de que o esquema v\u00e1 continuar por muito tempo. Aplicativos de servi\u00e7os costumam dar pr\u00eamios para aumentar o n\u00famero de colaboradores ou para suprir a demanda de uma \u00e1rea com pouca cobertura. Depois, aos poucos, as bonifica\u00e7\u00f5es diminuem ou at\u00e9 desaparecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso, o entregador pode perde o b\u00f4nus di\u00e1rio caso fique offline, recuse alguma corrida ou se distancie do ponto sem nenhum pedido nas m\u00e3os &#8211; ou seja, ele precisa ficar im\u00f3vel e aceitar todas as corridas, independentemente de hor\u00e1rio ou dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8216;O paradoxo dos ciclistas&#8217;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/HAajd2J1-l_l2r_00i7T5qv7LHY=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2019\/05\/22\/entregadores_4.jpg\" alt=\"Em Pinheiros, a empresa iFood construiu um espa\u00e7o de descanso e conviv\u00eancia para entregadores (Foto: LINCON ZARBIETTI, via BBC News Brasil)\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>EM PINHEIROS, A EMPRESA IFOOD CONSTRUIU UM ESPA\u00c7O DE DESCANSO E CONVIV\u00caNCIA PARA ENTREGADORES (FOTO: LINCON ZARBIETTI, VIA BBC NEWS BRASIL)<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o entregador que usa bicicleta, por sua vez, vive uma esp\u00e9cie de paradoxo: por mais que a tecnologia fa\u00e7a a roda do delivery girar, o trabalho dele depende essencialmente da for\u00e7a f\u00edsica. Quanto mais ele pedalar, quanto mais quil\u00f4metros percorrer pela cidade, maior ser\u00e1 sua remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, os ciclistas ouvidos pela reportagem relataram fazer jornadas de mais de 12 horas di\u00e1rias, trabalhar muitas vezes sem folgas e at\u00e9 dormir na rua para emendar um hor\u00e1rio de pico no outro, sem voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em m\u00e9dia, eles conseguem uma renda mensal de R$ 2 mil, segundo relatos. As empresas n\u00e3o revelam dados sobre o perfil de seus colaboradores, mas, em uma semana de conversas, a reportagem constatou que grande parte pertence \u00e0s classes mais baixas, mora em bairros perif\u00e9ricos e tem dificuldade para conseguir empregos no mercado formal.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles \u00e9 Carlos Henrique Lima, de 18 anos, de Cotia, cidade da Grande S\u00e3o Paulo. Todos os dias, ele pedala os 30 km que separam sua casa do bairro de Pinheiros. &#8220;Isso \u00e9 s\u00f3 na ida, par\u00e7a&#8221;, afirma. Contando ida, volta e entregas, ele percorre por volta de 80 km di\u00e1rios, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Sai de casa \u00e0s 9h, pedalando pela rodovia Raposo Tavares at\u00e9 chegar \u00e0 capital, \u00e0s 10h30. Como a maioria, ele n\u00e3o usa &#8211; e as empresas n\u00e3o fornecem &#8211; equipamentos de seguran\u00e7a, como capacetes.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, Carlos participa de um programa do iFood conhecido como &#8220;OL&#8221; &#8211; os entregadores chamam de &#8220;onda&#8221;. Das 11h \u00e0s 13h, ele trabalha para apenas um restaurante. Ganha R$ 20 por esse per\u00edodo e mais R$ 1,50 por refei\u00e7\u00e3o entregue. Tamb\u00e9m recebe uma marmita para almo\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/jB2E_jP7YW5DPa6i4I2iUctc8ic=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2019\/05\/22\/entregadores_5.jpg\" alt=\"iFood fornece marmita para entregadores que participam de programa de entregas fixas (Foto: LINCON ZARBIETTI, via BBC News Brasil)\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>IFOOD FORNECE MARMITA PARA ENTREGADORES QUE PARTICIPAM DE PROGRAMA DE ENTREGAS FIXAS (FOTO: LINCON ZARBIETTI, VIA BBC NEWS BRASIL)<\/p>\n\n\n\n<p>A &#8220;onda&#8221; \u00e9 uma esp\u00e9cie de b\u00f4nus que tamb\u00e9m serve para atrair os entregadores. Quando ela come\u00e7ou, h\u00e1 alguns meses, era mais vantajosa financeiramente, pois pagava R$ 40 por per\u00edodo de duas horas. Mas o valor foi caindo ao longo do tempo, o que fez alguns desistirem do modelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da &#8220;onda&#8221;, Carlos vai at\u00e9 um posto do iFood no mesmo bairro. No local, a empresa disponibiliza caf\u00e9, \u00e1gua, banheiro e pufes. Dezenas de entregadores passam a tarde ali, momento em que os pedidos diminuem bastante.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles dormem em pufes ou no ch\u00e3o, jogam pebolim e carregam os celulares para o rush da noite. &#8220;Essa \u00e9 a hora do descanso&#8221;, explica Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>A jornada do rapaz, por\u00e9m, vai at\u00e9 as 23h, quando ele retorna para Cotia de bicicleta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao seu lado est\u00e1 Thales Coelho, 20, de Cajamar, tamb\u00e9m na Grande S\u00e3o Paulo. O jovem prefere chegar \u00e0 capital de trem. No entanto, para trabalhar, aluga uma bicicleta do servi\u00e7o de empr\u00e9stimo do banco Ita\u00fa &#8211; s\u00e3o R$ 20 por m\u00eas. Mas, a cada uma hora de uso, Thales precisa trocar a unidade ou renov\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele come\u00e7ou nos aplicativos depois de perder o emprego de operador de telemarketing, h\u00e1 alguns meses. &#8220;A empresa faliu e eu n\u00e3o queria ficar em casa parado&#8221;, diz. Ele afirma ganhar cerca de R$ 300 por semana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8216;Uberiza\u00e7\u00e3o&#8217;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/wwnY6DvBP6YI-x-MumV3b_hbneU=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2019\/05\/22\/entregadores_6.jpg\" alt=\"A avenida Paulista \u00e9 um dos pontos de concentra\u00e7\u00e3o de entregadores de aplicativos de servi\u00e7os (Foto: LINCON ZARBIETTI, via BBC News Brasil)\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A AVENIDA PAULISTA \u00c9 UM DOS PONTOS DE CONCENTRA\u00c7\u00c3O DE ENTREGADORES DE APLICATIVOS DE SERVI\u00c7OS (FOTO: LINCON ZARBIETTI, VIA BBC NEWS BRASIL)<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisa realizada pela Funda\u00e7\u00e3o Instituto Administra\u00e7\u00e3o (FIA) e divulgada pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Online to Offline (ABO2O) aponta que a idade m\u00e9dia do entregador \u00e9 de 29 anos &#8211; os n\u00fameros contemplam motoboys e ciclistas. A maioria (97,4%) \u00e9 homem; 73% t\u00eam apenas o ensino m\u00e9dio completo, e 11,7% j\u00e1 conclu\u00edram ensino superior ou p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as conversas com a reportagem, muitos deles usaram o mesmo argumento para explicar por que atuam no setor: &#8220;O trabalho \u00e9 a gente que faz&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para eles, os aplicativos de entrega oferecem certa liberdade que n\u00e3o teriam em uma fun\u00e7\u00e3o mais formal. Ou seja, voc\u00ea escolhe seu hor\u00e1rio, trabalha o quanto quiser, pode ir embora a qualquer hora e, para ganhar mais, basta se esfor\u00e7ar mais, segundo eles.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Coloquei na minha cabe\u00e7a que a crise \u00e9 voc\u00ea quem faz&#8221;, diz Carlos, que tamb\u00e9m \u00e9 grafiteiro e sonha em se mudar para o Chile. &#8220;Um celular j\u00e1 te arruma um emprego. Se voc\u00ea se dedicar, consegue ganhar R$ 1 mil em um dia. Vai do seu esfor\u00e7o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse discurso de &#8220;autogerenciamento&#8221; do trabalho \u00e9 parecido com o adotado pelas plataformas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Uber respondeu aos questionamentos da BBC News Brasil com a seguinte nota: &#8220;O Uber Eats \u00e9 uma empresa que oferece oportunidades a profissionais aut\u00f4nomos que podem se beneficiar da tecnologia para gerar renda extra ao toque de um bot\u00e3o. Os entregadores parceiros s\u00e3o aut\u00f4nomos, escolhem como e quando utilizar\u00e3o o aplicativo como gera\u00e7\u00e3o de renda&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A Rappi afirmou: &#8220;Estes, profissionais aut\u00f4nomos, atuam por conta pr\u00f3pria, portanto, podem se conectar e desconectar do aplicativo quando desejarem. A flexibilidade permite que esses profissionais usem a plataforma da maneira que quiserem e de acordo com suas necessidades. N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o, exclusividade ou cumprimento de cargas hor\u00e1rias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o iFood afirma que &#8220;est\u00e1 testando estruturas com espa\u00e7o para descanso, recarrega de celular e banheiros&#8221;. Tamb\u00e9m diz que &#8220;outras a\u00e7\u00f5es incluem campanhas que estimulam boas pr\u00e1ticas entre os parceiros de entrega por meio de v\u00eddeos educativos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, apesar de gera\u00e7\u00e3o de renda, esse modelo de trabalho tem sido criticado por especialistas. H\u00e1 quem chame o fen\u00f4meno de &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221;, em refer\u00eancia \u00e0 visibilidade que o aplicativo de transporte Uber ganhou nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, a plataforma foi criticada por se recusar a seguir qualquer regula\u00e7\u00e3o estatal e por n\u00e3o estabelecer v\u00ednculos empregat\u00edcios com seus colaboradores. Por\u00e9m, a empresa sempre alegou que sua tecnologia apenas facilita a intera\u00e7\u00e3o entre quem precisa do servi\u00e7o e quem o oferece.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/74YfdnJJCPD4o8V-WlhhVGtbEQI=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2019\/05\/22\/entregadores_7.jpg\" alt=\"Na regi\u00e3o da rua Augusta, centro de S\u00e3o Paulo, entregadores de aplicativos aguardam pedidos em cal\u00e7ada (Foto: LINCON ZARBIETTI, via BBC News Brasil)\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>NA REGI\u00c3O DA RUA AUGUSTA, CENTRO DE S\u00c3O PAULO, ENTREGADORES DE APLICATIVOS AGUARDAM PEDIDOS EM CAL\u00c7ADA (FOTO: LINCON ZARBIETTI, VIA BBC NEWS BRASIL)<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, a chamada &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 uma tend\u00eancia no mercado de trabalho. &#8220;Esse processo \u00e9 de informaliza\u00e7\u00e3o, que vem tirando as garantias e prote\u00e7\u00f5es. Agora, \u00e9 o trabalhador quem entra com os meios de produ\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de arcar com os custos e com os riscos da atividade&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Supostamente, a pessoa trabalha onde e quando quer, mas a verdade \u00e9 que ela est\u00e1 trabalhando cada vez mais. O que estamos estudando \u00e9 como esses trabalhadores est\u00e3o subordinados aos algoritimos, \u00e0s regras de cobran\u00e7a, \u00e0s comiss\u00f5es e \u00e0s metas de produtividade. N\u00e3o me parece que as escolhas sejam t\u00e3o amplas assim&#8221;, diz Costhek Abilio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o motoboy Andr\u00e9 dos Santos, 30, concorda com essa vis\u00e3o: &#8220;Quem tem disposi\u00e7\u00e3o realmente consegue ganhar dinheiro. Mas tudo o que acontece depende de voc\u00ea: se cair e se machucar, voc\u00ea est\u00e1 sozinho; se chover e n\u00e3o trabalhar, n\u00e3o ganha nada. Se morrer, ningu\u00e9m vai pagar o seguro para sua fam\u00edlia, ningu\u00e9m vai ligar para sua mulher&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8216;Ida e volta para a quebrada&#8217;<\/strong><br>Para os entregadores, os dias de chuva e os finais de semana s\u00e3o os mais lucrativos, pois o n\u00famero de pedidos e o valor do frete aumentam. Um domingo, por exemplo, pode render at\u00e9 R$ 200 em entregas. &#8220;O povo n\u00e3o gosta de cozinhar nem sair de casa nesses dias&#8221;, explica Welquer Vicente, de 27 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mora no Jabaquara, na zona sul, e trabalha na regi\u00e3o da Paulista. Conta j\u00e1 ter virado a noite de s\u00e1bado fazendo entregas, emendando a jornada noturna ao domingo seguinte, sem voltar para casa. &#8220;Tenho pens\u00e3o de um filho para pagar&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu colega, Gabriel Di Pieri, 18, conta n\u00e3o ter visto muito a fam\u00edlia nos \u00faltimos meses. &#8220;Chego em casa, tomo um banho e durmo. N\u00e3o vejo ningu\u00e9m&#8221;, diz. Ele tem juntado o dinheiro das entregas para pagar a faculdade de gastronomia que sonha fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Pinheiros, Gabriel de Jesus, 22, diz j\u00e1 ter virado o fim de semana trabalhando, tamb\u00e9m. &#8220;S\u00e1bado \u00e0 noite a gente dorme na pra\u00e7a Victor Civita. N\u00e3o vale a pena voltar para casa e depois vir para c\u00e1 de novo, de manh\u00e3&#8221;, diz. Seu amigo, Robert dos Santos, completa: &#8220;A gente reveza: um dorme no banco e outro fica acordado para proteger dos roubos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Robert mora no Campo Limpo, tamb\u00e9m na zona sul paulistana. Todas as manh\u00e3s, ele percorre 15 km at\u00e9 Pinheiros, de bicicleta. &#8220;Isso \u00e9 s\u00f3 a ida, par\u00e7a. Depois, trabalho o dia todo, at\u00e9 meia-noite&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pensa em seguir no setor: quer comprar uma moto para ascender na escala dos aplicativos. &#8220;Agora que j\u00e1 tenho as manhas do trabalho, que j\u00e1 conhe\u00e7o as ruas, s\u00f3 me falta um motor.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante uma semana, a BBC News Brasil conversou com dezenas de trabalhadores do setor Um deles explica: &#8220;Dou entrevista para voc\u00ea, sim, par\u00e7a. Ainda est\u00e1 suave, porque o bagulho aqui s\u00f3 estrala \u00e0s 7 horas da noite. Ent\u00e3o, nessa hora, come\u00e7a a pingar pedidos e eu n\u00e3o paro mais&#8221;. 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