{"id":11940,"date":"2019-05-29T15:27:56","date_gmt":"2019-05-29T18:27:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=11940"},"modified":"2019-05-29T15:27:57","modified_gmt":"2019-05-29T18:27:57","slug":"homem-ganha-a-vida-ha-40-anos-costurando-lonas-de-caminhao-na-beira-de-estradas-de-curitiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/05\/29\/homem-ganha-a-vida-ha-40-anos-costurando-lonas-de-caminhao-na-beira-de-estradas-de-curitiba\/","title":{"rendered":"Homem ganha a vida h\u00e1 40 anos costurando lonas de caminh\u00e3o na beira de estradas de Curitiba"},"content":{"rendered":"\n<p> Por do sol. Um momento do dia com muitos significados, entre eles o da miss\u00e3o cumprida, relax, praia e at\u00e9 o da saudade do interrompido Hor\u00e1rio de Ver\u00e3o. Para o loneiro aposentado Alceu Hernandes de Sousa, 70 anos, estar sob os raios alaranjados e ofuscantes do final das tardes relembra uma hist\u00f3ria de suor, muito trabalho e conquistas especiais. Assim \u00e9 a profiss\u00e3o dele, que ao longo de quase 40 anos ganhou a vida costurando e reformando lonas na beira da estrada, em Curitiba. A cidade o adotou quase que ao mesmo tempo em que Hernandes resolveu deixar a vida de empregado para se tornar patr\u00e3o, empreendendo e lutando por seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio. <\/p>\n\n\n\n<p> Na sabedoria popular, loneiro \u00e9 o profissional que trabalha com lonas, seja vendendo, reformando ou fabricando esse material, muito utilizado por caminhoneiros e diversos outros profissionais para proteger as cargas. Para Alceu, ser loneiro \u00e9 viver um dia a dia mergulhado em uma profiss\u00e3o que ensina na pr\u00e1tica o que \u00e9 empreendedorismo. \u201cSaber costurar uma lona \u00e9 o m\u00ednimo necess\u00e1rio para come\u00e7ar. J\u00e1 para manter o neg\u00f3cio, voc\u00ea tem que ser uma pessoa atenta, negociar o ponto de venda certo, conquistar o cliente com um bom atendimento e trabalhar de sol a sol. Isso \u00e9 um aprendizado que s\u00f3 a vida te traz\u201d, define. <\/p>\n\n\n\n<p>E por falar em neg\u00f3cio, ali\u00e1s, o loneiro n\u00e3o esconde o orgulho que sente pelo dele. Mesmo aposentado h\u00e1 alguns anos, ele n\u00e3o soube dizer quantos, at\u00e9 hoje Alceu costuma visitar o ponto de trabalho conquistado com muito esfor\u00e7o no Contorno Sul, ao lado do p\u00e1tio do Auto Posto Trev\u00e3o, pr\u00f3ximo do acesso \u00e0 BR-476 sentido Arauc\u00e1ria, na Regi\u00e3o Metropolitana de Curitiba (RMC).<\/p>\n\n\n\n<p>Quem passa por ali, logo v\u00ea um senhor de cabelos brancos escassos e escondidos debaixo de um bon\u00e9, movendo-se com um pouco de dificuldade e com as m\u00e3os fazendo gestos de quem manda e n\u00e3o pede aos colaboradores. At\u00e9 um assovio em c\u00f3digo ainda \u00e9 capaz de dar uma ordem.\u201cEu s\u00f3 oriento, n\u00e3o trabalho mais. S\u00f3 venho aqui quando d\u00e1, mas gosto de ver a coisa funcionando, a\u00ed dou meu apoio, orientando aqui e ali. Tudo para melhor atender o cliente. Isso \u00e9 um orgulho para mim. Eu n\u00e3o consigo ficar em casa, quando venho aqui me realizo\u201d, revela.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que a realiza\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m das finan\u00e7as. Quando decidiu morar em Curitiba, h\u00e1 40 anos, Alceu deixou a fam\u00edlia de pequenos agricultores em Bela Vista do Para\u00edso, no Norte do estado, e foi o primeiro dos seis irm\u00e3os (cinco homens e uma mulher) a vir para a capital, abandonando a lavoura em busca de uma vida melhor. O emprego conquistado foi de vigilante, em uma grande empresa de telhas e, depois, em uma empresa terceirizada de vigilantes, que prestava servi\u00e7o para uma multinacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o baixo sal\u00e1rio, n\u00e3o era f\u00e1cil manter o aluguel. O servi\u00e7o como empregado na \u00e1rea durou entre um ano e meio e dois anos, per\u00edodo em que os outros irm\u00e3os tamb\u00e9m decidiram vir para Curitiba. \u201cPrimeiro veio eu, depois trouxe eles e a fam\u00edlia toda. Eles vieram para o mesmo trabalho como seguran\u00e7as\u201d, conta. Insatisfeito, foi nesse meio tempo, entre uma vinda e outra dos irm\u00e3os, que o ent\u00e3o vigilante decidiu se tornar loneiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu ganhava muito pouco. Era dif\u00edcil se manter. Por isso, eu queria encontrar alguma coisa para trabalhar por conta pr\u00f3pria. Foi assim que a lona apareceu. O investimento n\u00e3o era t\u00e3o alto e eu precisava aprender a costurar. Estou a minha vida toda nesse ramo\u201d, explica. Depois disso, Alceu foi incentivando os irm\u00e3os a fazerem a mesma coisa. Hoje, todos t\u00eam o seu ponto de costura de lona na rodovia. Todos est\u00e3o bem financeiramente e essa \u00e9 a verdadeira realiza\u00e7\u00e3o de Alceu, que se emociona ao contar esse trecho da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que \u00e9 estar bem? \u00c9 ter dinheiro? \u00c9 s\u00f3 voc\u00ea se realizar na vida? N\u00e3o. Eu quero ver toda a minha fam\u00edlia bem, todos construindo suas vidas, e isso eu consegui proporcionar a eles, incentivando para que eles viessem para o ramo das lonas. Gra\u00e7as a Deus, tudo deu certo e continua dando certo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>s l\u00e1grimas escorrem nos olhos quando ele menciona mais conquistas da fam\u00edlia. Na segunda gera\u00e7\u00e3o dos loneiros, os sobrinhos fazem curso superior. \u201cMinha sobrinha est\u00e1 fazendo Farm\u00e1cia. Tem outro sobrinho fazendo faculdade em Paranagu\u00e1 e mais um que vai seguir um curso na \u00e1rea de cultura. S\u00e3o oportunidades que n\u00e3o t\u00ednhamos antes da lona\u201d, revela ele. Ao todo, s\u00e3o nove sobrinhos, distribu\u00eddos em duplas entre os irm\u00e3os. \u201cS\u00f3 um que tem tr\u00eas\u201d, recorda Alceu, brigando com a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Viver na lona<\/h3>\n\n\n\n<p>Em um encontro anual de fam\u00edlia, visitando a cidade de origem, uma prima perguntou para Alceu Hernandes como estava a vida em Curitiba. A resposta foi seca e direta: \u201cEstamos na lona\u201d. A prima ficou desesperada, at\u00e9 que algu\u00e9m destrinchasse a piada. O jeit\u00e3o brincalh\u00e3o do loneiro descontrai, mas n\u00e3o esconde a personalidade met\u00f3dica dele. \u201cSou planejado. Tudo tem que estar no lugar e funcionando\u201d, revela.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto de atendimento onde funcionam as costuras tem um largo espa\u00e7o para os caminh\u00f5es estacionarem. A organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel. Ajudantes que recebem pagamento por dia trabalhado d\u00e3o apoio para estender as lonas no ch\u00e3o, medir os rasgos, fazer recortes e posicionar os materiais para a costura. \u201cEles recebem quando chega a hora de ir embora\u201d, diz Alceu. Duas m\u00e1quinas de costura bem antigas tratam de dar conta do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando eu comprei meus equipamentos, uma dessas m\u00e1quinas j\u00e1 estava com 70 anos de uso. Funciona que \u00e9 uma beleza\u201d, brinca o loneiro. Ele se refere a uma Singer de 1914. H\u00e1 tamb\u00e9m uma m\u00e1quina modelo Adler, mais ou menos da mesma \u00e9poca. E o conserto de lonas sint\u00e9ticas \u00e9 feito com um vulcanizador t\u00e9rmico, tipo um secador de cabelo.<\/p>\n\n\n\n<p>As costuras na lona ganham um ponto cruzado, usando um fio de algod\u00e3o poli\u00e9ster. Para quem sabe o que faz, o conserto se torna mam\u00e3o com a\u00e7\u00facar. \u201cJ\u00e1 disse que o segredo n\u00e3o \u00e9 saber costurar, \u00e9 saber tratar bem o cliente\u201d, refor\u00e7a. Segundo Alceu, os caminhoneiros escolhem o ponto de parada pela conveni\u00eancia, pela rapidez e qualidade do servi\u00e7o. Um posto de gasolina com um bom pre\u00e7o no combust\u00edvel, loja de conveni\u00eancia, borracharia e conserto de lona atrai a freguesia. \u201cTudo se resolve no mesmo lugar\u201d, explica. \u201cJ\u00e1 faz tempo que estou aqui. S\u00f3 nesse local estou h\u00e1 oito anos, mas comecei na BR-116. Ali, ficamos muito tempo, quase 30 anos\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Alceu reclama que a BR-116 era uma rota boa de passagem de caminh\u00e3o, mas, atualmente, isso mudou, principalmente com a Linha Verde. \u201cMuitos dos que prestavam servi\u00e7o de beira de estrada se extraviaram. Era uma rota para Paranagu\u00e1 e agora dividiu. H\u00e1 motoristas que v\u00e3o por outro lugar e isso espalhou os clientes tamb\u00e9m. Fora que come\u00e7ou a ter hor\u00e1rio para passar caminh\u00e3o. A\u00ed, n\u00e3o tem jeito, a pessoa tem que procurar recurso\u201d, aponta. Os caminh\u00f5es ganharam hor\u00e1rio para rodar pela Linha Verde em setembro de 2011, no trecho entre Pinheirinho e Atuba. Em maio de 2018, a prefeitura liberou a circula\u00e7\u00e3o deles temporariamente.<\/p>\n\n\n\n<p> Al\u00e9m do posto do Trev\u00e3o, um dos irm\u00e3os atua nas proximidades do viaduto de acesso ao Contorno Norte, na ponta da rodovia, e um terceiro irm\u00e3o trabalha consertando lona em Campo Largo, na RMC. H\u00e1 mais um irm\u00e3o que fica junto com Alceu quando ele resolve visitar o Trev\u00e3o. O quarto irm\u00e3o dele j\u00e1 faleceu e a irm\u00e3 trabalha como dona de casa. Os pontos n\u00e3o s\u00e3o divis\u00f5es familiares. Cada um tem o seu. Os materiais de trabalho tamb\u00e9m. Cada um tem a sua m\u00e1quina de costura e seus cuidados com ela. \u201cA minha vai e volta comigo para casa, todos os dias\u201d, explica Alceu. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0profiss\u00e3o de loneiro de beira de estrada sempre foi informal, at\u00e9 o surgimento da categoria empresarial de Microempreendedor Individual (MEI), que nomeou o of\u00edcio como: Reparador de cordas, velames e lonas independente (CNAE n.\u00ba 3319-8\/00). N\u00e3o \u00e9 o caso de Alceu, que n\u00e3o saiu da informalidade e se aposentou por idade.<\/p>\n\n\n\n<p>TribunaPr<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por do sol. Um momento do dia com muitos significados, entre eles o da miss\u00e3o cumprida, relax, praia e at\u00e9 o da saudade do interrompido Hor\u00e1rio de Ver\u00e3o. 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