{"id":11698,"date":"2019-05-26T15:11:12","date_gmt":"2019-05-26T18:11:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=11698"},"modified":"2019-05-26T15:11:14","modified_gmt":"2019-05-26T18:11:14","slug":"faxineira-e-influenciadora-cria-rede-de-empoderamento-para-diaristas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/05\/26\/faxineira-e-influenciadora-cria-rede-de-empoderamento-para-diaristas\/","title":{"rendered":"Faxineira e influenciadora cria rede de empoderamento para diaristas"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;\u00c0s vezes eu t\u00f4 no rol\u00ea e as pessoas me perguntam, o que voc\u00ea faz?, \nquando eu respondo que sou faxineira elas fazem cara de choque, como se \nser faxineira fosse uma coisa ruim. Acho isso bizarro. Gente, \u00e9 um \ntrabalho que eu gosto&#8221;. Quem d\u00e1 a letra \u00e9 Veronica Oliveira, faxineira \ncom muito orgulho e criadora da p\u00e1gina &#8220;Faxina Boa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1, ela fala principalmente sobre empoderamento das diaristas e curiosidades do seu trabalho  e rotina (como, por exemplo, o fato de seus clientes terem gatos com  nome de comida e suas m\u00fasicas preferidas para faxinar). E tamb\u00e9m defende  da dignidade da profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c0s vezes vejo, por exemplo um publicit\u00e1rio achar que \u00e9 melhor que \neu. Como assim? Somos todos prestadores de servi\u00e7o, tudo pejotinha&#8221;, ri \nVeronica, que tem 38 anos, 2 filhos e hoje, al\u00e9m de faxineira, <a href=\"https:\/\/universa.uol.com.br\/listas\/5-apps-ajudam-na-hora-da-faxina-e-a-organizar-a-vida-domestica.htm\">\u00e9 uma influenciadora digital<\/a>. J\u00e1 fez parcerias com marcas como Bradesco, Youtube, Twitter, Google.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A\n minha vida \u00e9 engra\u00e7ada, porque uns dias estou fazendo faxina e nos \noutros estou em uns eventos chiques e ainda ganho cach\u00ea&#8221;, ela ri, ainda \nincr\u00e9dula com todas as mudan\u00e7as que aconteceram na sua vida nos \u00faltimos \nanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela tamb\u00e9m j\u00e1 faz publieditorial de <a href=\"https:\/\/universa.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2018\/01\/31\/para-nao-arruinar-a-faxina-aprenda-a-limpar-vassouras-rodos-e-cia.htm\">produtos de limpeza<\/a>, recebe mimos, &#8220;toda blogueirinha&#8221;, faz presen\u00e7a vip em eventos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Faxina e meme<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Tudo\n isso era imposs\u00edvel de imaginar quando, determinada a largar a vida de \nassistente de telemarketing e com dois filhos para criar (um deles \u00e9 \nautista), Ver\u00f4nica&nbsp;postou um an\u00fancio no Facebook oferecendo seus \nservi\u00e7os de faxina.<\/p>\n\n\n\n<p>Corta para 2016. &#8220;Eu via uns an\u00fancios de \nfaxineiras no Facebook que eram muito tristes, muito para baixo, a\u00ed \nresolvi fazer umas coisas mais diferente, peguei p\u00f4steres de umas s\u00e9ries\n e filmes que eu gusto, como &#8220;Kill Bill&#8221; e fiz montagens com as minhas \nfotos. Viralizou.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, tem seu pr\u00f3prio grupo de clientes \nescolhidos a dedo. &#8220;Prefiro trabalhar com jovens que me respeitam, que \nacabam virando meu amigos. Diria que a minha clientela \u00e9 basicamente \nformada por hipsters&#8221;, ela conta, lembrando que o trabalho n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \ndif\u00edcil, j\u00e1 que a maioria mora em apartamentos pequenos e n\u00e3o t\u00eam \nfilhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela faz tr\u00eas faxinas fixas por semana e outras ocasionais.\n Nos outros dias, d\u00e1 palestras de motiva\u00e7\u00e3o para estudantes e para \nfuncion\u00e1rios de empresas. Tem assessor de imprensa, foto de divulga\u00e7\u00e3o e\n se prepara para lan\u00e7ar seu canal de Youtube.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ela poderia pensar que isso ia acontecer?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Telemarketing e depress\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Veronica\n come\u00e7ou a fazer faxina depois de dez anos trabalhando com \ntelemarketing. &#8220;Engravidei muito cedo. Fui m\u00e3e aos 17 anos. A\u00ed, parei de\n estudar. Acho que o \u00fanico emprego que tive na vida foi com \ntelemarketing. Trabalhei 10 anos nisso. Era m\u00e3e solo, por isso, \ntrabalhava de noite e minha filha mais velha tomava conta do menor \ndurante o dia. N\u00e3o ganhava muito, mas dava para pagar as contas e ter \numa vida ok. A empresa pagava R$ 2,5 mil, mais plano de sa\u00fade e R$ 800 \nde ticket refei\u00e7\u00e3o. At\u00e9 que a empresa faliu&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso aconteceu em \n2015 e, depois de muito procurar um emprego no mesmo n\u00edvel, ela se viu \nobrigada a aceitar um em que ganhava R$ 1000. &#8220;Para cada filho, era \ndescontado R$ 100 por causa do plano de sa\u00fade. No final, ficava com&nbsp;R$ \n700. Como eu iria pagar aluguel assim?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse per\u00edodo, ela perdeu a\n casa, foi morar em uma ocupa\u00e7\u00e3o na Zona Leste. &#8220;Era muito prec\u00e1rio. Um \ncorti\u00e7o de madeira. A gente dava o dinheiro na m\u00e3o de uma senhora, at\u00e9 \nhoje n\u00e3o sei quem \u00e9 o dono de l\u00e1.&#8221; A falta de dinheiro, de casa, fez com\n que ela tivesse depress\u00e3o, s\u00edndrome do p\u00e2nico e tentasse se matar. \nHoje, enxerga esse per\u00edodo terr\u00edvel com humor. &#8220;Eu fiquei me segurando \nno trabalho, mesmo mal, por causa do seguro de sa\u00fade, o que acabou sendo\n bom, porque fui internada em uma cl\u00ednica particular \u00f3tima.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu \nda cl\u00ednica bem, medicada e, um dia, visitando uma amiga, come\u00e7ou a \nlimpar a casa dela. &#8220;No fim, a minha amiga me pagou R$ 150 e pensei que \npodia viver disso e n\u00e3o voltar para o telemarketing nunca mais!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a atender amigos, at\u00e9 que fez o an\u00fancio no Facebook e sua vida mudou.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1\n seis meses, tem ag\u00eancia que cuida dos seus contratos. &#8220;Eles me impedem \nde fazer burrrada, porque j\u00e1 fechei contrato por valores rid\u00edculos, que \neram tipo 800 vezes menores do que devia ter cobrado. Ainda fico muito \nimpressionada com os valores&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a faxina e as palestras, \nVeronica conseguiu mudar de casa. Hoje, mora com o novo marido e os \nfilhos em um apartamento em Itaquera. &#8220;Ainda moro na quebrada, mas \u00e9 um \napartamento bom, de dois quartos, com \u00e1rea de lazer para os meus \nfilhos.&#8221; Paga tamb\u00e9m a faculdade da filha, de 19 anos, e uma escolar \nparticular para o filho. &#8220;Esse m\u00eas vou conseguir voltar tamb\u00e9m para o \nplano de sa\u00fade&#8221;, comemora.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>&#8220;Que horas ela volta?&#8221;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Mas\n n\u00e3o, a vida de Veronica n\u00e3o \u00e9 um conto de fadas. &#8220;Uma vez fui na casa \nde um cara que n\u00e3o me deixou comer, como se eu fosse sujar os talheres \nda casa dele. Fiquei chocada. Mas chamei um iFood, a maior comidona. \nQuando tocou a campainha, falei para ele: \u00e9 a comida que encomendei&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A\n outra hist\u00f3ria foi mais pesada. &#8220;Eu ainda morava no corti\u00e7o e fui fazer\n faxina na casa de uma senhora que tinha visto uma reportagem sobre mim \nna televis\u00e3o e ela ficava falando: nossa, deve ser horr\u00edvel n\u00e3o ter \ncasa, n\u00e9? Ficou me perseguindo, me chamando de lerda. Uma hora me mandou\n limpar a escada da casa com a m\u00e3o e disse que passaria o dedo para \nchecar se estava limpo. Fiquei trancada no banheiro chorando, com ela do\n lado do fora falando que eu ia me atrasar. Foi uma situa\u00e7\u00e3o onde eu \nrealmente me senti muito mal. Por isso, hoje prefiro ficar com meus \nclientes. Atendo principalmente mulheres, homens, s\u00f3 com indica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o \npessoas que pensam como eu, me respeitam.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, tem \ncontato quase di\u00e1rio com a situa\u00e7\u00e3o de outras faxineiras. &#8220;Recebo relato\n de pessoas que trabalham 12 horas por R$ 70, \u00e9 uma coisa absurda. E \ntamb\u00e9m de pessoas que se sentem mal por fazerem faxinas, nunca pensei \nque isso existisse, mas existe e muito.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Todas juntas<\/h3>\n\n\n\n<p>S\u00e3o \ncom essas injusti\u00e7as que ela quer trabalhar agora. Com o sucesso da \np\u00e1gina, ela j\u00e1 contratou uma outra faxineira para trabalhar com ela. \n&#8220;Cobro R$ 180, fico com R$ 30 e ela com R$ 150. Os aplicativos em geral \ncobram mais da metade das faxineiras, quero fazer uma plataforma para \nmulheres trabalharem assim, que seja justa, que as ajude.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Seu \nprojeto n\u00e3o tem sido t\u00e3o bem recebido pelas empresas que podem \npatrocin\u00e1-los. &#8220;J\u00e1 ouvi coisas do tipo, mas como assim voc\u00ea quer \ntrabalhar sem explorar o outro?&nbsp;Voc\u00ea tem que pensar primeiro em voc\u00ea. \nAcredita que falaram isso para mim?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Veronica pensa tamb\u00e9m em \ncriar uma plataforma de forma\u00e7\u00e3o para diaristas,&nbsp;em que elas possam ser \nprofissionalizadas, saber quais s\u00e3o seus direitos, como cobrar. &#8220;Tenho \nque encontrar uma empresa que banque fazer isso comigo. N\u00e3o quero cobrar\n das meninas, porque s\u00e3o pessoas pobres, que est\u00e3o precisando.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Largar  a faxina n\u00e3o est\u00e1 nos seus planos. &#8220;Fui convidada para trabalhar como  Social Media em uma ag\u00eancia. Iriam me pagar R$ 4 mil. Falei que n\u00e3o, que  com meu trabalho de faxina tinha tempo para tomar caf\u00e9 da manh\u00e3 com a  minha fam\u00edlia. E disse tamb\u00e9m que podia ganhar mais com faxina. Acho que  se sentiram ofendidos por isso&#8221;, ela conta. E solta outra gargalhada.<\/p>\n\n\n\n<p>Uol<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;\u00c0s vezes eu t\u00f4 no rol\u00ea e as pessoas me perguntam, o que voc\u00ea faz?, quando eu respondo que sou faxineira elas fazem cara de choque, como se ser faxineira fosse uma coisa ruim. Acho isso bizarro. Gente, \u00e9 um trabalho que eu gosto&#8221;. 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