{"id":11468,"date":"2019-05-24T10:22:38","date_gmt":"2019-05-24T13:22:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=11468"},"modified":"2019-05-24T10:22:42","modified_gmt":"2019-05-24T13:22:42","slug":"redator-se-oferece-para-escrever-cartas-de-amor-e-de-perdao-em-praca-no-centro-de-curitiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/05\/24\/redator-se-oferece-para-escrever-cartas-de-amor-e-de-perdao-em-praca-no-centro-de-curitiba\/","title":{"rendered":"Redator se oferece para escrever &#8216;cartas de amor e de perd\u00e3o&#8217; em pra\u00e7a no Centro de Curitiba"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Com um quadro negro, duas cadeiras de praia e um bloco de notas, Igor Francisco oferece o tempo para ajudar pessoas a se expressar em palavras.<\/h4>\n\n\n\n<p>Um quadro negro, duas cadeiras de praia e um bloco de notas. \u00c9 assim que o paranaense Igor Francisco, de 29 anos, chama aten\u00e7\u00e3o na Pra\u00e7a Santos Andrade, no Centro de Curitiba. Com o chamariz &#8220;N\u00e3o deixe que as palavras te impe\u00e7am de falar!&#8221;, o publicit\u00e1rio se oferece para escrever cartas de gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia come\u00e7ou em abril, com o objetivo de ajudar a popula\u00e7\u00e3o a se livrar do receio de colocar ideias e sentimentos em palavras. Os hor\u00e1rios escolhidos s\u00e3o sempre entre o fim da manh\u00e3 e o in\u00edcio da tarde, momentos de maior movimento na pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ofere\u00e7o os meus ouvidos e o meu trabalho de redator para desconhecidos em troca de algumas respostas para quest\u00f5es do tipo: qual o motivo que te faz confiar mais em mim, um desconhecido, para escrever algo t\u00e3o pessoal?! A popula\u00e7\u00e3o tem receio de escrever por medo de ser corrigido, ou julgado por demonstrar os sentimentos&#8221;, contou ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Para come\u00e7ar, Igor tinha apenas uma cadeira de praia, a outra ele emprestou da vizinha dele, a Solange. J\u00e1 o quadro de outra amiga, a Let\u00edcia, e o giz tinha em casa. Em quase dois meses, Igor j\u00e1 escreveu mais de 20 cartas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Cartas de saudade, de amor, de reconcilia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 palavras, s\u00e3o vidas, sentimentos, saudade, dor. S\u00e3o pequenos rascunhos que podem, sim, transformar pequenas realidades. N\u00e3o estou salvando o mundo da fome, mas estou com o meu dom ajudando as pessoas a terem coragem de se manifestar por meio do que j\u00e1 t\u00eam, por meio da pr\u00f3pria vida&#8221;, disse.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/r82VudF6-taa7f26_evJBaAuFNc=\/0x0:1152x864\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/7\/f\/CBuB19S6OJX6lWxkZabQ\/20190522-124045.jpg\" alt=\"Luciana parou para conversar com o Igor porque, segundo ela, apesar de falar bem e muito, n\u00e3o consegue escrever com facilidade \u2014 Foto: Natalia Filippin\/G1\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Luciana parou para conversar com o Igor porque, segundo ela, apesar de falar bem e muito, n\u00e3o consegue escrever com facilidade \u2014 Foto: Natalia Filippin\/G1<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">P. S. Espalhe amor<\/h2>\n\n\n\n<p>Entre as hist\u00f3rias, a primeira foi de um rapaz que morava em Blumenau (SC), e estava no Centro de Curitiba para comprar um presente para a esposa. Viu o quadro negro de Igor e resolveu incrementar a surpresa com uma carta de amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra carta que marcou o publicit\u00e1rio, foi a de um irm\u00e3o para outro. Eles tinham se afastado porque o mais velho teve problemas s\u00e9rios com drogas, o que gerou problemas familiares. Entretanto, o mais novo queria muito retomar o contato, pois tinha no irm\u00e3o mais velho um grande amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu percebi que valia continuar o trabalho depois que esse irm\u00e3o me mandou uma mensagem falando que eles tinham voltado a se falar, ap\u00f3s entregar a carta de perd\u00e3o, e que ele era eternamente grato por isso&#8221;, contou Igor.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a carta que mexeu mesmo com ele foi a de uma senhora, de nome Ros\u00e2ngela, que quando era muito nova teve o primeiro amor e foi impedida de se casar com ele. Casou-se com um outro rapaz que o pai havia escolhido. Ficou 36 anos vivendo na infelicidade e, no dia exato em que se divorciou, encontrou aquele primeiro amor nas ruas de Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Nesse dia, ela me fez escrever uma carta sobre a hist\u00f3ria, sobre como por todos esses anos ela nunca deixou de am\u00e1-lo. Foi m\u00e1gico porque o destino \u00e9 muito louco, n\u00e3o \u00e9?! Essas hist\u00f3rias existem, e que bom que eu posso ajudar a cont\u00e1-las&#8221;, disse ele.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Igor tamb\u00e9m contou que j\u00e1 fez cartas para um senhor que queria escrever para os netos que moram no Jap\u00e3o. Outra vez, ajudou um rapaz de Minas Gerais a escrever para uma antiga namorada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tempos depois ele me mandou uma mensagem falando que eles j\u00e1 tinham viagem marcada para se verem. Isso n\u00e3o tem pre\u00e7o&#8221;, relatou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/B1i4gLzq4HbvLkyzzvnICDHUevU=\/0x0:1152x864\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/5\/k\/RT3VroRNWMBGgkanQLRw\/20190522-133633.jpg\" alt=\"Paranaense se oferece para escrever de cartas de gra\u00e7a em pra\u00e7a no Centro de Curitiba \u2014 Foto: Natalia Filippin\/G1\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Troca de experi\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p>Para receber a ajuda, basta que o interessado se sente e converse com ele. Segundo Igor, nas primeiras vezes ele pensou que ia &#8220;pagar mico&#8221;, ou que os curitibanos conhecidos por &#8220;n\u00e3o conversar com estranhos&#8221; dificultassem o servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 um bate papo, uma troca de experi\u00eancias. A pessoa me conta sobre o que quer que escreva e para quem. Fa\u00e7o um rascunho e em casa redijo e envio por e-mail ou redes sociais. Busco perceber como a pessoa \u00e9, se utiliza g\u00edrias, se ela \u00e9 mais fechada. Ao enviar destaco: esse texto agora \u00e9 seu, eu quero que voc\u00ea o transforme o quanto quiser. Isso faz com que a pessoa pratique a escrita, que \u00e9 o meu objetivo principal. &#8220;, explicou Igor.<\/p>\n\n\n\n<p>Luciana Matias da Luz, de 32 anos, parou para conversar com o Igor porque, segundo ela, apesar de falar bem e muito, n\u00e3o consegue escrever com facilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vi ele no meio da pra\u00e7a e resolvi conversar. N\u00e3o quero uma carta hoje, mas quero dicas para escrever bem e tamb\u00e9m ensinar a minha filha de oito anos. Quero voltar a estudar pedagogia, e para isso n\u00e3o posso ser travada assim&#8221;, disse ela.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Carta real<\/h2>\n\n\n\n<p>Outra pessoa que cruza sempre com o Igor na pra\u00e7a, \u00e9 o Ant\u00f4nio Ferreira de Andrade, de 57 anos. Ele trabalha na limpeza p\u00fablica da cidade h\u00e1 25 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Igor, o senhor leu a proposta no quadro e, antes que pudesse abrir o bloquinho, resolveu falar sobre amor.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Disse estar indignado com os jovens de hoje em dia, que \u00e9 tudo muito r\u00e1pido, ningu\u00e9m espera, respira. Basta abrir um perfil e j\u00e1 descobre tudo, perdeu o encanto, a conquista, o descobrimento. Ele disse, ainda, que se os poetas escrevem sobre o amor \u00e9 porque observam o dia a dia e os pr\u00f3prios sentimentos. Ele n\u00e3o me deu uma carta de amor, ele me deu um manifesto praticamente&#8221;, brincou o redator.<\/p>\n\n\n\n<p>Como de costume, seu Ant\u00f4nio estava na pra\u00e7a realizando o trabalho de limpar Curitiba. Durante a conversa, de p\u00e9 mesmo, ele disse que se fosse escrever para algu\u00e9m, seria para a esposa Ana Dirce.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Sou casado h\u00e1 33 anos e todo dia ainda descubro coisas da minha esposa que eu n\u00e3o sei. Isso \u00e9 amor. As minhas palavras da carta s\u00f3 teriam sentido se fossem para ela&#8221;, contou emocionado.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/EE1qqEpkC4bNI3nhUMWrcPsua5c=\/0x0:1217x913\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/I\/Q\/8CKBX5SMmMMhOOQlDOFQ\/20190522-135301.jpg\" alt=\"Ant\u00f4nio Ferreira trabalha na limpeza p\u00fablica da cidade h\u00e1 25 anos, e encontra o redator com frequ\u00eancia no Centro \u2014 Foto: Natalia Filippin\/G1\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ant\u00f4nio Ferreira trabalha na limpeza p\u00fablica da cidade h\u00e1 25 anos, e encontra o redator com frequ\u00eancia no Centro \u2014 Foto: Natalia Filippin\/G1<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Paix\u00e3o antiga<\/h2>\n\n\n\n<p>Igor contou que a paix\u00e3o pela escrita vem desde pequeno. A m\u00e3e dele gostava tanto que fez carteirinha fidelidade para ela e os quatro filhos na biblioteca para conseguir emprestar mais livros. Ela tinha a cole\u00e7\u00e3o inteira de Jorge Amado e Monteiro Lobato.<\/p>\n\n\n\n<p>No col\u00e9gio, participava de concursos de poesia e, na maioria das vezes, ganhava. Quando jovem, passou em psicologia na Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), mas optou por seguir apenas no curso de Comunica\u00e7\u00e3o Organizacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Graduou-se em 2012, fez cursos de escrita, presenciais e online, especializa\u00e7\u00e3o em sociedade. Trabalhou de 2008 a 2016 em agencias de publicidade com reda\u00e7\u00e3o. E, h\u00e1 quatro anos, montou a pr\u00f3pria empresa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele contou que as pessoas sempre pediam para que ele ensinasse a escrever com mais facilidade, mas que entre saber fazer e saber ensinar existia um abismo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Fiz aulas de did\u00e1tica, aprendi e montei minhas pr\u00f3prias aulas sobre sociolingu\u00edstica, per\u00edodos longos e per\u00edodos curtos, figuras de linguagem. Atualmente j\u00e1 ajudei 30 turmas a escreverem melhor&#8221;, explicou o redator.<\/p>\n\n\n\n<p>E, o projeto da pra\u00e7a veio a partir disso. Para ele, era uma frustra\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica perceber que os alunos tinham medo de praticar a escrita, medo de mostrar o que escreveram.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso me deixava muito inquieto, visto que se eles n\u00e3o praticam, n\u00e3o melhoram, e se n\u00e3o melhoram, minhas aulas n\u00e3o servem de nada. Eu queria entender mais esse medo, s\u00f3 que para isso eu precisaria conversar com mais pessoas. Deu certo&#8221;, relatou Igor.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o futuro, Igor pensa em, quem sabe, escrever um livro com todas as hist\u00f3rias, visto que as personagens s\u00e3o sempre an\u00f4nimas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Escritor n\u00e3o \u00e9 aquele que p\u00f5e terno, gravata e senta atr\u00e1s de uma m\u00e1quina de escrever. Escritor \u00e9 quem quiser falar atrav\u00e9s de suas palavras. O mundo precisa da nossa voz escrita porque essa \u00e9 a que fica para sempre, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o&#8221;, concluiu.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/0n5nauvTj5mvDS-5gZbAgJIczLA=\/0x0:1152x864\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/E\/Z\/Z3NcpkQ0mtjweucXA9rw\/20190522-133739.jpg\" alt=\"Igor se oferece para escrever de cartas de gra\u00e7a em pra\u00e7a no Centro de Curitiba \u2014 Foto: Natalia Filippin\/G1\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Igor se oferece para escrever de cartas de gra\u00e7a em pra\u00e7a no Centro de Curitiba \u2014 Foto: Natalia Filippin\/G1<\/p>\n\n\n\n<p>G1PR<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com um quadro negro, duas cadeiras de praia e um bloco de notas, Igor Francisco oferece o tempo para ajudar pessoas a se expressar em palavras. 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