{"id":1116,"date":"2019-03-19T09:23:03","date_gmt":"2019-03-19T12:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=1116"},"modified":"2019-03-19T09:23:05","modified_gmt":"2019-03-19T12:23:05","slug":"bolsonaro-nos-eua-o-que-esperar-do-primeiro-encontro-do-presidente-brasileiro-com-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/03\/19\/bolsonaro-nos-eua-o-que-esperar-do-primeiro-encontro-do-presidente-brasileiro-com-trump\/","title":{"rendered":"Bolsonaro nos EUA: o que esperar do primeiro encontro do presidente brasileiro com Trump"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Pela primeira vez em muito tempo, um Presidente brasileiro que n\u00e3o \u00e9 antiamericano chega a Washington. \u00c9 o come\u00e7o de uma parceria pela liberdade e prosperidade, como os brasileiros sempre desejaram&#8221;, tuitou o presidente Jair Bolsonaro (PSL) neste domingo (17), ao desembarcar em Washington (EUA).<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/f21d4493-e3bd-47df-b23c-1d57f0e3e818\">pol\u00edtico do PSL<\/a>&nbsp;\u00e9 o primeiro mandat\u00e1rio a abrir as visitas a outros chefes de Estado com os EUA em muito tempo: isto n\u00e3o acontecia desde 1962, quando o dono da cadeira era Jo\u00e3o Goulart, o Jango (1919-1976).<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro se encontrar\u00e1 nesta ter\u00e7a-feira (19) com o presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump. Esta ser\u00e1 a principal atividade da viagem de tr\u00eas dias aos EUA. \u00c9 a primeira visita oficial de Bolsonaro a outro chefe de Estado desde que ele tomou posse. No fim de janeiro, o presidente brasileiro foi a Davos, na Su\u00ed\u00e7a, para o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerado de esquerda e derrubado pelo golpe militar de 1964, Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o escolheu os EUA para sua primeira viagem oficial, em 1962, apenas por mera afinidade com o presidente norte-americano da \u00e9poca, o democrata John Kennedy. Jango foi aos EUA tamb\u00e9m pedir dinheiro emprestado &#8211; o Brasil vivia ent\u00e3o uma grave crise econ\u00f4mica. Jo\u00e3o Goulart foi acompanhado do ent\u00e3o ministro da Fazenda, Walther Moreira Salles, e foi bem tratado pelos americanos, mas voltou praticamente de m\u00e3os abanando: o governo dos EUA emprestou ao Brasil um valor considerado insuficiente (cerca de US$ 1 bilh\u00e3o, em valores corrigidos).<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois, a situa\u00e7\u00e3o mudou e o governo de John Kennedy chegou a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2014\/03\/140327_kennedy_goulart_pai_pu\">cogitar uma a\u00e7\u00e3o armada contra Goulart<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o historiador Carlos Fico, especializado no per\u00edodo, Jango recebeu do governo dos EUA um tratamento poucas vezes visto por um presidente brasileiro. O pr\u00f3prio John Kennedy foi receb\u00ea-lo no aeroporto em sua chegada; e ele teve a oportunidade de discursar em uma sess\u00e3o conjunta de deputados e senadores dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O governo americano avaliava que Jango era influenciado pela esquerda. Ent\u00e3o, da perspectiva deles, a visita tinha este prop\u00f3sito de tentar manter o Jo\u00e3o Goulart na \u00f3rbita de influ\u00eancia dos EUA. Todas essas mesuras e gestos diplom\u00e1ticos tinham este objetivo, de tentar manter o presidente brasileiro alinhado. Coisa que acaba depois de 1963, quando os EUA passam a conspirar para derrub\u00e1-lo&#8221;, diz Carlos Fico \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17A8C\/production\/_106080969_goulart-kennedy-cpdoc-fgv.jpg\" alt=\"John Kennedy e Jango\"\/><figcaption>Image captionJohn Kennedy (dir.) foi ao aeroporto recepcionar Jango (centro), honraria que n\u00e3o foi mais dispensada a nenhum presidente brasileiro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desde Jango, quase todos os presidentes brasileiros abriram seus mandatos com viagens a pa\u00edses latino-americanos &#8211; inclusive os do per\u00edodo militar. Dilma Rousseff (PT) foi \u00e0 Argentina (janeiro de 2011), e Lula (PT) foi ao Equador (janeiro de 2003). Fernando Collor e Em\u00edlio M\u00e9dici foram ao Paraguai; e Fernando Henrique Cardoso, Jos\u00e9 Sarney e Arthur da Costa e Silva foram ao Uruguai. Jo\u00e3o Figueiredo visitou primeiro a Venezuela, em 1979; e Ernesto Geisel prestigiou a Bol\u00edvia, em 1974.<\/p>\n\n\n\n<p>As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o dois vices, que assumiram a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica ap\u00f3s o impeachment dos titulares. Michel Temer teve como destino de sua primeira visita oficial a China, em 2016 &#8211; o encontro tinha sido marcado por sua antecessora, Dilma. Itamar Franco (1930-2011), que assumiu ap\u00f3s a queda de Collor, debutou nas viagens oficiais com uma ida \u00e0 capital do Senegal, Dacar. As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o da&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.biblioteca.presidencia.gov.br\/presidencia\/ex-presidentes\/\">Biblioteca da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns presidentes brasileiros inclu\u00edram os EUA em viagens como presidentes eleitos, antes de tomar posse &#8211; gesto feito tanto&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2002\/021210_lulara.shtml\">por Lula (PT) em 2002<\/a>&nbsp;quanto por Fernando Collor. Como os dois n\u00e3o eram presidentes ainda, n\u00e3o foram visitas oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Cristina Soreanu Pecequilo \u00e9 professora do curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Unifesp. Segundo ela, a &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221; de prestigiar pa\u00edses latino-americanos na primeira viagem dos presidentes brasileiros est\u00e1 relacionada aos interesses regionais do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Brasil \u00e9 um pa\u00eds latino, obviamente. Ent\u00e3o, geralmente o que se faz \u00e9 privilegiar o nosso espa\u00e7o geopol\u00edtico. Principalmente Argentina, Uruguai, Paraguai. Isto sempre foi valorizado&#8221;, diz ela \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a professora, a pol\u00edtica externa de Bolsonaro remete \u00e0quelas dos governos de Fernando Collor (1990-1992) e de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), quando o Brasil buscava se aproximar dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Historicamente, todas essas \u00e9pocas de alinhamento se mostraram equivocadas. O Brasil obt\u00e9m mais \u00eaxito na pol\u00edtica externa quando adota uma pol\u00edtica mais pragm\u00e1tica, baseada na barganha (&#8230;). N\u00e3o necessariamente alinhar-se a outro pa\u00eds \u00e9 algo que trar\u00e1 benef\u00edcios imediatos. Em per\u00edodos anteriores, essas estrat\u00e9gia de alinhamento n\u00e3o tiveram sucesso&#8221;, avalia ela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/45F4\/production\/_106080971_hi053037774.jpg\" alt=\"Bolsonaro e Ernesto Ara\u00fajo durante reuni\u00e3o\"\/><figcaption>Image captionHistoricamente, Brasil ganhou mais quando se manteve pragm\u00e1tico, diz especialista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bolsonaro e Trump: Venezuela e China na pauta<\/h2>\n\n\n\n<p>O encontro dos dois presidentes deve come\u00e7ar no fim da manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira (19) &#8211; antes, Bolsonaro se encontra com o secret\u00e1rio-geral da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Casa Branca, Bolsonaro deve assinar o livro de visitas no Sal\u00e3o Roosevelt; em seguida, ter\u00e1 um encontro a portas fechadas com Donald Trump no Sal\u00e3o Oval. Depois, os dois participar\u00e3o de um almo\u00e7o de trabalho. Declara\u00e7\u00f5es a jornalistas est\u00e3o previstas para um dos jardins da Casa Branca.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise na Venezuela e os atritos comerciais dos EUA com a China dever\u00e3o estar no cerne da conversa entre Trump e Bolsonaro &#8211; \u00e9 poss\u00edvel ainda que os dois presidentes tratem de quest\u00f5es como a parceria militar entre os EUA e o Brasil e a situa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como Cuba e a Nicar\u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a visita, os EUA devem conceder ao Brasil o status de &#8220;aliado preferencial fora da Otan (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte)&#8221; &#8211; na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 o mesmo status da Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>A Venezuela enfrenta uma grave crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica nos \u00faltimos anos.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-45909515\">De 2013 a 2017, o Produto Interno Bruto (PIB) do pa\u00eds caiu 37%<\/a>, e a infla\u00e7\u00e3o atingiu a impressionante marca de 1,3 milh\u00e3o por cento em 12 meses, no fim de 2018. Quase tr\u00eas milh\u00f5es de venezuelanos j\u00e1 deixaram o pa\u00eds, a maioria ap\u00f3s 2015. No fim de janeiro, o ent\u00e3o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaid\u00f3, se autoproclamou presidente da Rep\u00fablica. Ele acusa Nicol\u00e1s Maduro de ter fraudado as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es venezuelanas. EUA e Brasil e reconhecem como o atual presidente do pa\u00eds caribenho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9414\/production\/_106080973_hi053037892.jpg\" alt=\"Jair Bolsonaro\"\/><figcaption>Image captionVenezuela e China ser\u00e3o os temas principais da conversa de Bolsonaro e Trump nesta ter\u00e7a<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Michael Shifter \u00e9 mestre em sociologia pela universidade de Harvard e professor da Georgetown University, em Washington. \u00c9 tamb\u00e9m o atual presidente do Di\u00e1logo Inter-Americano, um think-tank de rela\u00e7\u00f5es internacionais sediado na capital norte-americana. Segundo ele, Trump e Bolsonaro compartilham a mesma posi\u00e7\u00e3o &#8220;linha dura&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela &#8211; mas Trump j\u00e1 desistiu de uma poss\u00edvel a\u00e7\u00e3o militar em rela\u00e7\u00e3o ao regime de Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, parece haver pouco apetite da parte dos militares brasileiros para seguir este curso de a\u00e7\u00e3o. Parece tamb\u00e9m que o vice-presidente (brasileiro) Hamilton Mour\u00e3o possui uma posi\u00e7\u00e3o um pouco diferente da expressada por Bolsonaro e pelo ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (Ernesto Ara\u00fajo). Podemos esperar uma boa dose de ret\u00f3rica agressiva contra Maduro e demonstra\u00e7\u00f5es de apoio ao (l\u00edder opositor e presidente autoproclamado da Venezuela, Juan) Guaid\u00f3, mas sem compromissos firmes&#8221;, disse ele \u00e0 BBC News Brasil, por e-mail.<\/p>\n\n\n\n<p>Shifter tamb\u00e9m avalia que o status de &#8220;aliado preferencial&#8221; pode representar uma mudan\u00e7a &#8220;significativa&#8221; para o Brasil. &#8220;H\u00e1 apenas alguns anos atr\u00e1s, o Brasil teria resistido a uma alian\u00e7a deste tipo. Em termos concretos, o novo status significa o fortalecimento dos la\u00e7os militares entre os dois pa\u00edses. Tamb\u00e9m poder\u00e1 ampliar a coopera\u00e7\u00e3o em intelig\u00eancia e na luta contra o crime transnacional. Apesar disso, a expectativa de uma mudan\u00e7a radical das rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses s\u00e3o modestas&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Jantar com Steve Bannon e reuni\u00e3o na CIA<\/h2>\n\n\n\n<p>O encontro com Trump ocorre no terceiro dia da visita oficial. Bolsonaro chegou aos EUA no domingo (17), e j\u00e1 teve seu primeiro compromisso: um jantar com jornalistas, influenciadores e acad\u00eamicos na resid\u00eancia oficial do embaixador do Brasil em Washington, S\u00e9rgio Amaral. Sete ministros do governo participaram do jantar, que contou ainda com as presen\u00e7as do escritor conservador Olavo de Carvalho e do ex-estrategista pol\u00edtico de Trump, Steve Bannon.<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda-feira (18), Bolsonaro discursou no encerramento do evento &#8220;Dia do Brasil em Washington, organizado pelo Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos &#8211; onde tratou da crise na Venezuela. Segundo Bolsonaro, os dois pa\u00edses est\u00e3o trabalhando em conjunto no tema.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E234\/production\/_106080975_hi053035562.jpg\" alt=\"Jantar de Bolsonaro com Steve Bannon e Olavo de Carvalho\"\/><figcaption>Image captionSteve Bannon e Olavo de Carvalho participaram do jantar com Bolsonaro no domingo (17)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Aquele povo (da Venezuela) tem que ser libertado e acreditamos e contamos, obviamente, com o apoio norte-americano para que esse objetivo seja alcan\u00e7ado&#8221;, disse. &#8220;Temos alguns assuntos que estamos trabalhando em conjunto, reconhecendo obviamente, a capacidade b\u00e9lica, entre outras, dos Estados Unidos&#8221;, disse o presidente brasileiro. \u00c0 noite, Bolsonaro e os ministros participaram de um jantar com empres\u00e1rios dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da segunda-feira, Bolsonaro tamb\u00e9m teve uma reuni\u00e3o, fora da agenda oficial, com a dire\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia de intelig\u00eancia dos EUA, a CIA. Horas depois do encontro, o Pal\u00e1cio do Planalto disse que o encontro serviu para discutir &#8220;quest\u00f5es de combate ao crime organizado e ao narcotr\u00e1fico&#8221;. O presidente tamb\u00e9m assinou um acordo para\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-47605005\">eliminar a necessidade de vistos a turistas americanos<\/a>\u00a0no Brasil, e outro para permitir que os EUA utilizem a base de Alc\u00e2ntara (MA) para lan\u00e7ar sat\u00e9lites &#8211; este \u00faltimo precisa ser ratificado pelo Congresso Nacional, em Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Pela primeira vez em muito tempo, um Presidente brasileiro que n\u00e3o \u00e9 antiamericano chega a Washington. \u00c9 o come\u00e7o de uma parceria pela liberdade e prosperidade, como os brasileiros sempre desejaram&#8221;, tuitou o presidente Jair Bolsonaro (PSL) neste domingo (17), ao desembarcar em Washington (EUA). 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